Astúcia, feitiços e sedução. A soprano Chiara Santoro apresenta um percurso divertido de árias de ópera, onde as personagens quebram os padrões de comportamento culturalmente aceitos.
SERVIÇO
Soprano: Chiara Santoro
Pianista: Silas BarbosaDireção cênica: Ricardo Schopke
Centro Cultural Justiça Federal Av. Rio Branco, 241 – Centro, Rio de Janeiro / RJ
Data: 19/06 às 17h.
Ingresso: R$20,00 ( estudantes e idosos pagam meia)
De Pergolesi a Bernstein, às vezes com candura, outras com dureza, nos dão a receita para se dar bem num mundo tantas vezes hostil. Entre agudos de felicidade e coloraturas de sarcasmo, tentam reverter a ordem das coisas com astúcia e sedução tipicamente femininas, sem perder a doçura até a cadência conclusiva. O repertório foi estudado e desenvolvido nos quatro anos que a cantora se especializou na Itália, acumulando alguns prêmios e estudando e colaborando com renomados profissionais, entre eles Renata Scotto e Teresa Berganza.
PROGRAMA
Pergolesi: La Serva Padrona (1733)
Stizzoso, mio stizzoso – ária de Serpina
Mozart: O Rapto no Serralho (1781)
Durch Zartlichkeit und Schmeicheln – ária de Blonde
Così fan tutte (1790)
Una donna a quindici anni – aria de Despina
Rossini: O Barbeiro de Sevilha (1816)
Una voce poco fa – ária de Rosina
Mozart: As bodas de Fígaro (1786)
Porgi amor – ária da Condessa
Canzonetta sull´aria – dueto Condessa e Susanna
Donizetti: Rita (1841)
Van la casa e l’albergo – ária de Rita
Strauss: O Morcego (1874)
Mein Herr Marquis – ária de Adele
Verdi: Falstaff (1893)
Sul fil d’un soffio etesio – ária de Nanetta
Bernstein: Candide (1956)
Glitter and be gay – aria de Cunegunde
No ano de 1979 a filósofa francesa Catherine Clement escreveu o livro: “Ópera ou A derrota das mulheres”. Nesta análise mordaz e apaixonada dos papéis femininos na ópera, ela conclui provocativa que esta é uma forma de arte onde as mulheres raramente vencem: “Sem “primadonna” não existe ópera, mas (…) sobre o palco as mulheres cantam perpetuamente a sua eterna derrota”.
A autora nos explica como as mulheres “extraviadas” do papel assinalado ao “sexo frágil” (aquelas mulheres poderosas, raivosas, ou excessivamente sensuais) serão sempre abusadas e aniquiladas, enquanto a música sedutora irresistivelmente nos desvia a atenção da crueldade dos fatos.
Os amantes da ópera poderiam facilmente refutar esta análise ao pensar nos papéis femininos das comédias, operetas, óperas bufas e afins. De fato, no gênero cômico é permitido que as mulheres submetam às suas vontades e caprichos seus pobres amantes ou qualquer um que se atreva a ficar em seu caminho.
Não cantam mais ditadas pela opressão masculina, mas emitem trinados e gorjeios com a sabedoria de serem objetos de desejo, e expressando toda a astúcia de saber usar essa condição a seu próprio favor.
Serpina vem de uma longa tradição teatral bufa, de servas astutas, cantando a igualdade social que chega através do amor. Em que outro gênero operístico uma serva poderia se casar com um nobre senhor sem que isso pesasse em seus destinos? Ela abre as portas a tantas outras irmãs, belas sagazes, donas do próprio destino, no amor e não somente. Podemos encontrá-las tantas vezes em Mozart, que nos conta sem julgamentos, aquilo que “fan tutte”, ou seja, que fazem todas. Despina nos dá uma irreverente lição sobre o que toda mulher deve saber, desde os 15 anos.
Rossini em sua obra prima “O barbeiro de Sevilha” nos apresenta a deliciosa “víbora” Rosina, jovem e ingenuamente apaixonada, mas determinada a preparar mil armadilhas para alcançar seu objetivo no amor.
Em “As Bodas de Figaro”, de Mozart, vemos a mesma Rosina com o passar dos anos, agora uma Condessa madura e melancólica ao relembrar os bons momentos de felicidade ao lado do amado que já não existem mais. Mas não se deixem enganar, ainda é a mesma jovem cheia de artimanhas, e com sua serva Susanna cria uma grande confusão para desmascarar o marido mulherengo.
Rita nos propõe a sua receita para fisgar um marido bobão, porque segundo ela, quanto mais bobo melhor. Ela é a proprietária de um hotelzinho e não hesita em dar uns tabefes no marido quando ele não a obedece.
Encontramos também com a camareira Adele, que sabe como se divertir. Ela vai ao baile sem ser convidada e ri de seu patrão que tenta desmascará-la em meio aos convidados, fazendo ele mesmo duvidar de seus sentidos. O que ela quer na verdade é o amor de todos: quer virar uma grande cantora!
Encontramos Verdi e as alegres comadres do seu Falstaff, sua única ópera baseada em uma comédia. Essas mulheres, definidas por Catherine Clement como “as feiticeiras finalmente aceitas” representam “o mistério das mulheres apaixonadas, loucas e sábias que sabem brincar sem arriscar, viver sem morrer”. À meia-noite tudo se transforma: as mulheres amam em liberdade e bruxas viram fadas.
Chegamos ao século XX com uma obra prima baseada em Voltaire. Será que a beleza é um valor ou uma prisão da qual liberar-se? Assim como as sereias que encantavam e matavam os navegadores com seu canto, mantendo sua imortalidade com o preço daquelas vidas, Cunegunda sofre um dilema. Ela é uma diva, e ao mesmo tempo, uma paródia de si mesma: prisioneira da própria beleza e da vontade de viver a vida em sua plenitude. Ela se pergunta com frivolidade “mas por que lamentar-se?” E quando no decorrer da ópera perde toda sua beleza física, com seu canto permanece no papel de sedutora.
Afinal, a vingança verdadeira se cumpre no âmbito vocal. Ao som das belas vozes desaparece qualquer derrota. As mulheres triunfam até a cadência conclusiva, e quando se fecham as cortinas, temos a clara sensação de que a magia foi cumprida.
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Não posso perder essa apresentação da Chiara Santoro, depois de tanto tempo longe do Brasil, fazendo sucesso na Itália e em outros países da Europa, deve estar com a voz ainda mais bela e amadurecida, essa bela brasileira cantando árias de óperas tão encantadoras, o repertório está imperdível!