“A Sagração da Primavera”, uma releitura da obra fundadora da modernidade que consolida uma linguagem coreográfica própria do grupo.
SERVIÇO
Teatro Sesiminas
Rua Padre Marinho 60
Bairro Santa Efigênia – BHDia 22 de setembro, quinta-feira, às 21h.
Ingresso: R$10,00 (inteira) e R$5,00 (meia entrada)
Ao completar 18 anos, com 22 espetáculos, 11 turnês nacionais e 10 viagens internacionais, mais de 500 apresentações para 150 mil pessoas, em seu novo espetáculo, a companhia de 13 bailarinos apresenta esta belo balé com música de Stravinsky.
Não é necessário mais que um palco nu e um grupo coeso de bailarinos para narrar uma história tão antiga quanto o percurso do homem na Terra. É peculiar da própria natureza, aliás, o ciclo que consome tudo o que é frágil, individual e delicado em prol da força coletiva. A morte é o único caminho possível para o florescimento da vida num mundo que se renova às custas de seu próprio fim. O Ballet de Londrina apropriou-se desse movimento brutal para conceber sua nova montagem de “A Sagração da Primavera”.
O enredo é relativamente simples: baseada em uma antiga lenda russa, a peça narra a imolação de uma virgem, oferendada aos deuses da primavera em troca da fertilidade da terra. A jovem eleita dança freneticamente até a morte. As inovações, entretanto, residiam na forma de apresentar o ritual pagão ao público.

Belíssima cena do espetáculo.
A Sagração da Primavera dá continuidade à pesquisa do coreógrafo Leonardo Ramos sobre a exploração da horizontalidade e de novos eixos de apoio e equilíbrio na locomoção dos bailarinos – característica que já ganhou status de “linguagem” dentro de sua obra e da companhia. “Eu descobri há alguns anos que quando coloco o elenco em pé eu sou convencional. No solo eu consegui expor algo que é novidade até para mim”, afirma Ramos. Outro atributo que se consolida na nova montagem é a utilização de uma obra inspiradora para uma criação coreográfica original – procedimento de sucesso desde Decalque (2007), concebido pela companhia a partir do roteiro de Romeu e Julieta.
Desta vez, o empreendimento é ainda mais ambicioso. A companhia londrinense propõe uma leitura contemporânea para A Sagração da Primavera, considerada a primeira obra de vanguarda que definitivamente escancarou as portas da Europa para a modernidade. Com música de Igor Stravinsky e coreografia de Vaslav Nijinsky, o balé estreou em Paris na noite de 29 de maio de 1913 para nunca mais ser esquecido. As ensurdecedoras vaias no Théâtre des Champs-Élysées ecoaram como o grito agonizante de uma burguesia conservadora frente àquela novidade estética.
A música composta por Stravinsky subordinava melodia e harmonia ao ritmo. Seu andamento era assimétrico e complexo, com acentos perturbantes. O discurso sonoro, que se aproxima do ruído e tem claramente uma intencionalidade dramática, dava especial relevo para a percussão e para as repetições. Na dança, Nijinsky igualmente inovava ao introduzir tremores, espasmos e contorções na seqüência dos dançarinos, que também golpeavam com os pés um palco acostumado à leveza das sapatilhas. Tudo parecia espelhar o espírito da barbárie e do primitivismo.
Na montagem do Ballet de Londrina, Leonardo Ramos optou por uma versão não orquestrada da partitura de Stravinsky. Ela é executada por quatro pianos, que fazem o papel de todos os outros instrumentos. O cataclismo sonoro que brota do timbre pianístico, porém, logo encontra complementação na percussão dos corpos em choque com o tablado ou no sopro ofegante da respiração dos bailarinos.
Esta é, aliás, das mais agressivas e pungentes coreografias já apresentadas pela companhia, que, este ano, completa maioridade. Desde a primeira cena, o que se vê é um embate cego entre forças rivais, um movimento frenético e devastador que elege algozes para subjugar vítimas inofensivas, um confronto sem perdão que sufoca os raros lapsos de lirismo.
Para tanto, o elenco desdobra-se em formações – ora individuais, ora coletivas; ora sincrônicas, ora tenazmente díspares – que ocupam principalmente os planos médio e baixo. A conjugação de corpos estendidos horizontalmente faz lembrar a geografia da natureza em constante transformação e em feroz avanço sobre si mesma. Há a dominância de quedas e lutas corporais, sem que para isso os bailarinos precisem elevar-se do solo em grande medida.
O figurino em tons de bege cobre os dançarinos para mostrá-los. Estes homens primordiais, vestidos pela nudez de suas próprias peles, movem-se num cenário vazio, recoberto apenas pelo linóleo preto. Tais elementos (ou ausências) evidenciam o primitivismo e a universalidade do tema. As cenas do palco são duplicadas e invertidas pela colocação de espelhos na parte alta. “Não é um cenário, mas uma maneira funcional de auxiliar a plateia a ver certos momentos do espetáculo, que está muito grudado ao chão”, explica Leonardo Ramos.
Ficha Técnica
- Criação e direção: Leonardo Ramos
- Música: Igor Stravinsky
- Execução: Amsterdam Piano Quartet: Ellen Corver, Sepp Grotenhuis, Marja Bom, Gerard Bouwhuis
- Assistente de direção: Ana Maria Aromatario
- Ensaiador/assistente de coreografia: Cláudio de Souza
- Produção: Danieli Pereira
- Fotos: Isabela Figueiredo
- Maitre convidada: Carla Reinecke (Teatro Guaíra)
- Figurino: Ana Carolina Ribeiro
- Iluminação/Cenografia: Felipe Chepkassoff _
- Técnico de palco: Roberto Rosa
- Designer gráfico e Web: Luís Adriano Pilchowski
- Textos (imprensa): Renato Forin Jr.
- Pilates: Paula Mezzaroba
- Elenco: Alessandra Menegazzo, Bruna Martins, Bruno Calisto, Carina Corte, Cláudio de Souza, Gláucia Leite, José Maria, José Ivo, Nayara Stanganelli, Marciano Boletti, Viviane Terrenta
- Bolsista: Vitor Rodrigues
- Realização: FUNCART – Fundação Cultura Artística de Londrina
- Patrocínio: Lei de Incentivo a Cultura/ Ministério da Cultura, Prefeitura de Londrina/ Secretaria Municipal de Cultura, Empresas TIGRE, Instituto Carlos Roberto Hansen, P.B. Lopes & Cia Veículos Scania.
Companhia Ballet de Londrina
Reconhecida pela crítica especializada como uma das melhores companhias de dança contemporânea fora do eixo Rio – São Paulo, a Cia. Ballet de Londrina é um grupo profissional atuante há 18 anos no cenário cultural. No currículo, constam 22 espetáculos, 11 turnês nacionais e 10 viagens internacionais. Já são mais de 500 apresentações para 150 mil pessoas aproximadamente. De trajetória ininterrupta, a companhia se destaca pela contemporaneidade de sua temática, coesão, qualidade técnica e artística do elenco.
Outra característica do grupo formado por 13 bailarinos é o aprimoramento da pesquisa de movimento na busca de uma linguagem coreográfica própria. O Ballet de Londrina, sob a direção de Leonardo Ramos, é mantido pela Fundação Cultura Artística de Londrina (FUNCART), uma organização não governamental cujo principal objetivo é democratizar o acesso à formação e produção cultural de qualidade, por meio de uma ampla rede de projetos.
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