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Escrito por Ali Hassan Ayache em 14 set 2011 nas áreas Canto, Crítica

Vários sopranos e tenores internacionais famosos e no auge vocal se apresentam no Brasil. Na foto, Giovanna Casolla numa récita de Turandot.

Exigem hotéis de luxo e pianista próprio, quando não uma orquestra e um monte de frescuras. Cantam um repertório fácil, três ou quatro árias, muitas vezes com microfone e se mandam com a grana no bolso. O público aplaude de pé, brasileiro aplaude tudo de pé  e sai falando pros amigos, com um orgulho estampado na cara que viu alguém famoso.

Hoje em dia virou moda se mostrar culto, as pessoas querem exibir uma erudição que poucos tem. Dizem que viram isso e aquilo só para contar uma vantagem aos amigos. Muitos tiram uma pestana durante a apresentação, aplaudem e saem dizendo que entenderam o espírito de Hamlet. Um colega meu, que pouco entende de inglês, se vangloria de ter lido a obra Ulisses de James Joyce, no original.

Giovanna Casolla poderia ter feito o mesmo que seus colegas. Cantado umas árias moleza de seu repertório, seria aplaudida e  tiraria fotos com todos sorrindo. Não foi o que aconteceu. O grande soprano italiano aceitou o desafio e emendou árias de sete óperas. Você leu certo amigo, sete grandes óperas. Sua voz é de uma potência explosiva, atômica e de uma extensão única. Dramática e penetrante. Seu timbre é escuro e consistente, sua técnica impecável. Dicção e fraseado perfeitos, grande diva.

O árduo repertório começa com Cavalleria Rusticanade Mascagni, passa pelo Don Carlo de Verdi, com a ária O Don Fatale magistralmente interpretada. Cilea nos brinda com seu Andrea Chenier, um final emocionante. Quase morremos no Suicidio da Gioconda de Ponchielli. Depois de tudo isso só um intervalo para assimilar tamanha qualidade vocal. Puccini e sua Vissi d’arteLa Forza del DestinoAida, todas interpretadas com uma dramaticidade vocal e cênica que só uma grande cantora, com voz grande e consistente em todos os registros pode fazer.

Poucos sopranos aceitariam encarar esse duro repertório em um recital, pois Giovanna Casolla o fez e não se intimidou. Acompanhada pelo competente pianista Anderson Brenner e pelo tenor Richard Bauer. O tenor mostrou uma voz com bons agudos  e um belo timbre. Suas intervenções no Andrea ChenierIl Guarany demonstram bravura e mestria. Defendeu as demais árias e duetos com Giovanna Casolla de maneira correta e inspiradora, embora tenha sido encoberto algumas vezes pelo soprano.

O Grandes Vozes esta no seu sexto ano e já o acompanho há alguns. Posso afirmar que o recital de Giovanna Casolla foi um dos melhores a que assisti nesse projeto. Cantora com sólida carreira internacional e que nos brindou com sua voz única. Grande jogada trazê-la para o aconchegante theatro São Pedro. Aguardo com ansiedade o concerto da María Bayo nesse mesmo teatro e temos ainda a ópera Rigoletto no Municipal de São Paulo, é muita coisa boa para uma semana só. Haja emoção!

2 Comentários

  1. 15-9-2011

    Concordo com o nosso amigo, realmente uma grande cantora, mas também cheia de frescuras. Que o digam os alunos que ela ouviu. Também faltaram os graves de peito em várias árias por ela cantada. Cantar verismo sem graves de peito não dá, mas foi um belo recital.

  2. 15-9-2011

    Prezado Sr. Ali, por favor, veja e ouça atentamente este vídeo do dueto em Andrea Chenier, e por favor me diga se a Tebaldi encobre o Mario Del Monaco, porque eu me sentei à esquerda do palco do Teatro São Pedro, por trás do pianista e não consegui perceber a soprano encobrindo o tenor…

    http://www.youtube.com/watch?v=kbjAKdZ8FT0

    Grata.

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