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Escrito por em 30 set 2011 nas áreas Crítica, Ópera

Em junho e julho de 2011, a San Francisco Opera apresentou três vezes o ciclo completo das quatro óperas que compõem “O Anel do Nibelungo”.

Esta obra de Richard Wagner, geralmente é considerada, no seu conjunto, como a maior obra jamais concebida para o palco operístico. Essa nova produção foi criada e dirigida por Francesca Zambello, e foi apresentada pela primeira vez por essa companhia como ciclo completo.

O regente foi Donald Runicles, ex-diretor da SFO, e tido como um dos maiores regentes wagnerianos hoje. As quatro óperas, “O ouro do Reno”, “A Valquíria”, “Siegfried” e “Crepúsculo dos Deuses”, foram apresentadas no correr de uma semana, de terça-feira à noite a domingo à tarde, num total de 17 horas de duração, três vezes, em três semanas consecutivas, na War Memorial Opera House, construída no grande estilo tradicional, em substituição à Grand Opera House, erigida no final do século 19, e destruída no terremoto de 1906. A nova casa foi inaugurada em 1935 com este ciclo, e com este ciclo ela acaba de celebrar seus 75 anos.

O elenco reuniu alguns dos melhores cantores wagnerianos desta geração, tais como Nina Stemme (Brünnhilde), Mark Delavan (Wotan), Stefan Margita (Loge), Jay  Hunter Morris (Siegfried), Jan Storey (também como Siegfried, no “Crepúsculo”), Gordon Hawkins (Alberich), Elizabeth Bishop (Fricka), David Cangelosi (Mime), Anja Kampe (Sieglinde), Brandon Jovanovich (Siegmund e Froh), e outros mais.

Composto entre 1853 e 1874 sobre libretto de sua própria autoria, “O Anel do Nibelungo” é inspirado na mitologia germânica reunida no poema épico alemão anônimo do século 13, “A canção dos Nibelungos”, e na mitologia nórdica. A primeira apresentação completa do Anel foi feita em 1876 em Bayreuth, na Alemanha, no teatro idealizado por Wagner, e em uso até hoje. Alguns de seus grandes temas são a atração pela fortuna e pelo poder, a beleza sagrada da natureza, e as forças destrutivas do homem.

O enredo da tetralogia, de fato um drama musical épico, gira em torno de um anel feito com o ouro roubado do Rio Reno. O anel só pode ser forjado por alguém que renuncie ao amor para sempre, e que dá ao seu possuidor poderes ilimitados. Mas o anel vem também com a maldição mortal que determina o destino de todas as pessoas que entram em contato com ele. Ao longo do ciclo, várias figuras míticas lutam para conseguir o anel, principalmente Wotan, o deus de todos os deuses.

Wotan luta para desfazer a maldição, tornando-se pai de um herói de coração puro, mas ele perde o controle dos acontecimentos, quando os seus filhos semi-mortais Siegmund e Sieglinde, e a valquíria Brünnhilde, também filha de Wotan, esta, porém, deusa imortal, desafiam as vontades de Wotan. Em certa altura da ação, o anel é conquistado pelo herói Siegfried, filho da união incestuosa de Siegmund e Sieglinde, o qual atravessa um círculo de fogo para despertar Brünnhilde, condenada por seu pai Wotan a um longo sono, por desobediência, já destituída de suas características divinas imortais.

Ao ser despertada por Siegfried, Brünnhilde se apaixona perdidamente por ele, e ele por ela. Como sinal de sua união, Siegfried dá o anel a Brünnhilde, e a  deixa, a caminho de outras aventuras. Numa delas, ele trai Brünnhilde, e é morto. Brünnhilde decide se sacrificar, a fim de restituir o anel à sua casa natural, que é o Rio Reno. Com isso, ela põe um fim aos poderes dos deuses, deixando entrever uma nova ordem.

Na visão de Francesca Zambello, uma das grandes diretoras de ópera da atualidade, ela localiza a ação do drama épico em quatro partes (“O ouro do Reno” é um prólogo, e as demais três óperas são jornadas), em vários momentos da história dos Estados Unidos, nos últimos 150 anos. Sua idéia era criar um “Anel” americano, nacionalizando, assim, uma mitologia que era originalmente germânica e nórdica.

O público recebeu a produção com grande entusiasmo, mas a crítica se dividiu em polos opostos, como por exemplo o crítico do “San Francisco Chronicle”, que legitimizou essa americanização da tetralogia, embora ela seja cantada no original alemão, com legendas em inglês, e a crítica de “The Wall Street Journal”, de Nova York, para a qual esta produção apresenta características  demasiado óbvias, tanto na americanização forçada da ação, como pela campanha, nela imbutida, contra a degradação do ambiente natural, justamente os dois pontos principais da conceitualização da diretora, no seu esforço de atualizar o ciclo, tirando-o da esfera mítica para relacioná-lo à realidade americana, e, com isso, falar mais de perto à audiência do país, através de dimensões históricas, com as quais ela se possa identificar. O que para um é o forte, para a outro, é o fraco, por achatar e banalizar o mito, em nome de um quotidiano intranscendente.

Seja como for, essa produção não deixa ninguém indiferente. No meu entender, certas cenas funcionam mais que as outras, mesmo no contexto americano, já que este foi o propósito básico. Por exemplo, as cenas do “gold rush” na Califórnia ilustram perfeitamente a ambição e a ganância, muito próximas do espírito do original, em “O ouro do Reno”.

Já em “Siegfried”, o todo-poderoso Wotan se apresenta como um alto executivo, de terno e gravata, em seu escritóro no Central Park, e aí a desmitologização se dilui nas malhas do quotidiano. Em “A Valquíria”, o vilão Hagen aparece brincando com o controle remoto da televisão, e provoca a risada do público, no momento em que ela é inoportuna. Em algumas cenas de “Crepúsculo dos Deuses”, a diretora usa elementos de ciência-ficção, e consegue, com isso, restaurar o clima mítico da obra.

Esta produção é feita de centenas de detalhes, e apontar os contrastes entre o que funciona e não funciona poderia ser tedioso. Parece-me mais importante assinalar com clareza os acertos e desacertos. Entre aqueles, está a destreza com que o regente fez fluir o discurso musical da orquestra, noite após noite, nunca deixando e interesse do público cair. Entre os desacertos, está o fato de que a produção mais ilustra o “Anel” do que o realiza como um todo orgânico.

O ponto alto de toda a produção foi o extraordinário desempenho da soprano sueca Nina Stemme como Brünnhilde, nas três óperas em que a personagem aparece. Sua voz é forte, límpida, de firme suporte e ampla projeção, perfeito legato, belo timbre, e fascinantes dotes dramáticos. Atualmente, é a melhor Brünnhilde possível.

No confronto com ela, os demais cantores, mesmo os melhores, sofrem com a inevitável comparação. O Wotan de Mark Delavan foi muito convincente, mas desigual: vigoroso em “A Valquíria”, porém com menos sustentação em “Siegfried” e “Götterdämmerung”.

Gordon Hawkins como Alberich (o Nibelungo que forja o anel), esteve bom, mas não explorou todas as possibilidades vocais e dramáticas desse complexo personagem. Heidi Melton insuflou com sua voz lírica muita humanidade a Sieglinde. Os tenores, muito eficientes, mas sem muito brilho, nos deram Siegfried jovem, feito com ímpeto por Jay Hunter Morris, e o maduro, por Ian Storey, bom, mas com menos entusiasmo. Fricka, a implacável mulher de Wotan, teve em Elizabeth Bishop sua exuberante intérprete. Ótimas as vozes de Stefan Margite como Loge, Brandon Jovanovich como Siegmund, Andrea Silverstralli como Hagen, e RonnitaMiller, como Erda. Apesar das restrições, o conjunto de vozes e atuações manteve alto padrão nas quatro jornadas.

As ambições desta produção se sustentaram também com a inventividade dos cenários de Michael Yeargan, os figurinos de Catherine Zeiber, a imaginosa iluminação de Maria Mc Cullough, e as projeções e efeitos speciais de Jan Hartley e S. Katy Tucker. Impecável o coro, dirigido por Ian Robertson.

Esta apresentação do “Anel” mobilizou um grande número de instituições culturais, artísticas e sociais na realização de eventos paralelos, que transformaram a cidade num grande simpósio correlato. Deles, dou apenas alguns exemplos significativos:
– a Universidade de Stanford organizou um simpósio “Siegfried”;
– a Academia de Ciências da Califórnia ofereceu um seminário sobre “A consciência do meio ambiente no “Anel” , de Wagner”;
– a Sociedade Wagner da Califórnia patrocinou a palestra “A transformação dos heróis” e um simpósio sobre “O amor ao poder e o poder do amor no “Anel” de Wagner”;
– a San Francisco Opera organizou um ciclo de seis conferências introdutórias;
– o Museude Arte Asiática organizou um seminário sobre a influência do budismo no “Anel” de Wagner;
– todos os espetáculos na SFO foram precedidos de palestras introdutórias uma hora antes dos espetáculos;
– o Instituto Fromm apresentou “O Anel: música, mito e significado”;
– a Universidade de São Francisco patrocinou um seminário sobre a tetralogia, aberto ao público;
– o Contemporary Jewish Museum organizou a mesa redonda “Quem tem medo de Wagner”, versando sobre a resposta judaica à visão de Wagner dos judeus e as consequências políticas da música e dos escritos de Wagner;
– o Jewish Community Center of San Francisco organizou um painel para a discussão de “Wagner pela lente judaica: o enigma do gênio de Wagner e o anti-semitismo”.

Tendo Wagner composto música de extraordinária beleza e sendo ao mesmo tempo um anti-semita virulento, a discussão abordou as questões: é possível separar a obra do homem? Há evidência de anti-semitismo nas próprias obras, e foram elas manipuladas pelos nazistas? Qual deverá ser a resposta apropriada da comunidade judaica: banir o “Anel”, a exemplo de Israel, ou tentar se aproximar do assunto o mais perto possível, para entendê-lo melhor? O painel contou com o pronunciamento de grandes personalidades da vida cultural, intelectual e artística dos Estados Unidos.

 

Para ver fotos do “Anel”, digite no google “sfopera wagner ring photos”.

 

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