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Escrito por Antônio Rodrigues em 11 jan 2012 nas áreas Artigo, Lateral

Em janeiro de 1999, há 13 anos, portanto, uma tragédia se abatia sobre o nosso querido maestro Armando Prazeres e sobre um sem número de pessoas que com ele conviviam, de uma forma ou de outra.

Uma morte sem sentido, como todas que ocorrem da mesma maneira ou parecida. Um ato contra a vida. Um ato de escuridão. Um ato de buraco negro. Um buraco negro: isso expressa bem o que ficou para nós sobreviventes…

À época, a revolta era o meu sentimento, como de outras pessoas, mais à flor da pele. Hoje, entretanto, com o passar do tempo, fico “sentido”: isso traduz um sentimento de vazio, de saudade, de dor e de pena de nós, que acabamos privados da presença marcante desta pessoa que tanto nos encantava.

Este buraco negro de que falo acima nada mais é que uma lacuna impreenchível. Uma lacuna que se aprofunda e se alastra cada vez mais, tendo atingido não só a vida do Armando Prazeres, mas continuando a respingar também nas vidas de todos que conviveram com ele, quer nas empresas, quer nos corais, quer nas orquestras, quer na sua vida particular.

Uma pessoa em que se confiava. Isso é que era o mais importante nele. Este sentimento que eu traduzo aqui, tenho a certeza de que é o da imensa maioria das pessoas que chegaram a ter uma certa convivência com ele: confiança mútua…

Não sinto apenas saudades, mas um profundo pesar por não termos mais a vivência e o companheirismo que nos cercava na época. Os ensaios eram encontros de alegria e de confraternização. As apresentações eram especialíssimas.

Sabem quando a lembrança do Armando me faz ficar “sentido”? Quando canto num coral, quando ouço alguma música que eu cantava com ele, quando se aproxima esta fatídica data, quando se aproxima a data do seu aniversário (08.08) e algumas outras. Nestes momentos, a lembrança é sofrida e, muitas vezes, o choro incontrolável vem aos olhos: mas não sou só eu… somos muitos…

Em dezembro de 2011, aconteceu a 58ª. edição do “Messias – sing alone” na Catedral Presbiteriana de Botafogo. Eu nunca tinha ido, mas fui desta vez. Pelo que vi, acho que a maior concentração de cantores era de ex-integrantes dos corais do Armando (contei mais ou menos 20 pessoas) .

Curtimos o canto e depois nos reunimos, como fazíamos sempre com ele, para jogar conversa fora e tomar um chopinho. Falamos sobre ele, rimos, choramos, etc… mas sabemos de alguns que não foram porque… “ eu não vou me segurar… não vou aguentar…”

Você que o conheceu, não se acanhe em chorar pela falta dele. Você que não o conheceu, não se impeça de elevar sua oração por ele e por nós todos, nesta efeméride entristecedora.

Querido Armando, sei que estás numa boa, ao lado do Pai. Intercede por todos nós, intercede pelos corais que dirigiste, intercede pelo teu grande sonho, a Orquestra Petrobras Sinfônica. Pede ao Pai que a coloque sempre nas mãos de quem gosta e entende de arte musical e de música coral.  Ilumina estas mentes para que mudem radicalmente o foco da orquestra que, ao que parece, abandonou de fato a música coral-sinfônica, teu grande sonho e teu maior mérito neste Rio de Janeiro.

Sei que vais fazer isso… mas faz rápido, antes que seja tarde.

10 Comentários

  1. Antônio Campos
    12-1-2012

    Caro Antônio, por mais que sintamos a falta do grande amigo Armando Prazeres, os tempos são outros.

    Hoje há um único caminho para a atuação das grandes orquestras, que é perseguir um padrão internacional de excelência. Isso exclui a atuação com coros amadores, como no nosso tempo. E a manutenção de um coro profissional é bastante onerosa, como sabemos.

    A OPES necessitaria captar um volume de recursos comparável ao que a OSESP capta anualmente para manter um coro estável. Para tal, necessita mostrar uma sonoridade que, graças aos progressos que realizou nos últimos anos, creio que está próxima de adquirir.

    Façamos votos que esse esforço seja recompensado e que a OPES possa criar o seu coro em breve.

  2. Fabiano Gonçalves
    14-1-2012

    Caro companheiro de cantorias, seu texto é como a chama de uma vela, acesa na escuridão: cálida e reconfortante. As saudades são muitas, mas os laços atados pelo saudoso maestro permanecem, assim como as doces memórias. Obrigado pelo texto e um abraço.

  3. 14-1-2012

    MARAVILHOSO TEXTO!

    Querido Antônio (aqui te chamo pelo nome), você traduziu tudo o que sinto em todos esses treze anos. Você passou para o papel, tão brilhantemente, o que Armando representou em nossas vidas e como fomos privilegiados por termos passado por suas mãos.

    Ficam as melhores recordações e a música, um patrimônio lindo herdado do nosso amado e inesquecível maestro.

    Parabéns pelo registro. Lindo!

  4. 15-1-2012

    Para eu poder organizar meu discurso, vou precisar fazer algumas combinações iniciais:
    Antônio Monteiro = Irmão do Sérgio
    Antônio Rodrigues = Pente
    Tudo combinado, vamos lá:

    Irmão do Sérgio, tá todo mundo dolorido hoje. O sentimento que o Pente descreveu é muito próprio de todos nós, não é saudosismo, é desterro mesmo. Leia-se: não ter para onde voltar porque, simplesmente, levaram-no de nós.

    Você chegou mais no finalzinho, no tempo em que o discurso pela perfeição literalmente calou todo mundo fora dos ensaios… Mas nem sempre foi assim, estavamos no auge da moda atual, éramos diversos. Diversos em cor, em textura de vozes, em idades, em religiões, em times de futebol, em sexo, formávamos um grupo que vivia na mais perfeita harmonhia que você pode pensar para 30 anos atrás.

    Nisso o Pente fala muito bem, havia confiança, sem confiança não há entrega e aí a sonoridade … Nossa sonoridade era excelente. Busquei vídeos de nosso repertório, já que não temos os nossos disponíveis, éramos muiiito melhores que quase todos os vídeos a que assisti. E a gente realmente se divertia à beça, bebíamos um chopinho, ríamos muito e cantávamos por onde íamos. Simples asssim.

    Desprofissionalizados? Graças a Deus! Se você computasse quantas horas de esforço em casa a gente fez para dar conta daquelas obras…dinheiro nenhum no mundo pagaria. Nada contra os profissionais, desde que os mesmos respeitem o meu direito de não ser, e mesmo assim legitimar meu canto.

    Realmente fizemos a diferença este ano no Messiah, emocionou todo mundo, principalmente o Pente. Foi um presente para eles e para nós. Bom saber que ainda podemos.

    Faço votos também que a OPES, aliás todas as orquestras, possam ter seu coro (adoro coral, se não seu para notar…), mas acho que nenhuma orquestra deve se ater unicamente à sonoridade de um coro profissional, sob pena de perder a sua humanidade e a sua magia.

    Viva a diversidade! O céu é diverso, já nos levou Armando, Vânia, Silvinha, Marisa e Joãozinho Trinta. O que o Joãozinho tem a ver com isso? Bom, ano passado a OPES fez Braguinha, quem sabe esse ano…Que os quatro que se entendam: Braguinha, Joãozinho, Armando e Deus.

    Tim- Tim, a música bela e feliz. Bj de luz,

    Patinha

  5. 15-1-2012

    Escova querido! Muito lindo o seu texto, me deixa muito emocionado saber que até hoje tudo aquilo que meu pai plantou não foi em vão. E no seu caso, principalmente, colaborando de maneira ativa com a música clássica no nosso país! Neste dia de hoje, tão especial, vamos nos lembrar de tudo o que ele tinha de maravilhoso e de todas as suas inúmeras contribuições para este mundo!
    Quanto à parte coral da OPES, também torço, e muito, para que ela aumente. Mas faço minhas as palavras do texto extremamente lúcido do Antônio Campos Monteiro Neto, que frisa o fator monetário que ainda impede a OPES de escolher sua temporada como deseja. Com certeza, as obras corais estariam muito mais presentes, se pudéssemos. Um coro próprio então seria um sonho! Eis que este dia chegará!

    Abraço enorme do Carlos Prazeres

  6. Antônio Rodrigues
    15-1-2012

    Patinha Boavista, quero ressaltar que, mesmo reclamando da direção da OPES, no que concerne aos concertos coral-sinfônicos, tenho que reconhecer que o Antônio Campos tem certa razão, mas não totalmente.
    Também, ele não foi tão novato assim… ele participou bem desta nossa fase, diria eu, divertida nas relações e muito especial nos resultados dos concertos.
    Entretanto, há quanto tempo a OPES não faz um Messias? Isso seria o mínimo a ser feito para se homenagear este que durante a sua vida executou quase um Messias por ano. Em 2011, não houve no Rio ninguém que fizesse esta maravilhosa obra. Isso seria o mínimo e, tenho certeza, não abalaria as finanças da orquestra.

  7. 15-1-2012

    Ora Pente, eu não disse que o Irmão do Sérgio era novato, talvez ele tenha ficado mais tempo no coro até que eu. O que eu disse é que ele não pegou a fase da diversidade, o que é outra coisa …

    Carlinhos, venho acompanhando seu empenho nisto nos últimos anos e todo o seu esforço em trazer para a música erudita (e vice-versa) todas as impressões de mundo com as quais você convive, quer via OPES, quer por vias próprias. Muito ao jeitinho do Armando: com vida, raça e fé.

    Aquilato a rede de pressões às quais vocês devem estar expostos e acho o resultado que conseguem louvável, você sabe disto. Torço muito, você também sabe.

    Mas se você se emocionou outro dia cantarolando o Glória da missa em Fá para mim, imagina o que a gente deve ter sentido cantando o “His yoke is easy” e ouvindo as vozes uns dos outros a segurar cada naipe. Tenho certeza de que vocês me entendem.

    Emoção nunca fez nenhum de nós perder a lucidez.

    Bj de luz,

    Patinha Boavista

  8. 15-1-2012

    Sim “Escova” ele ainda vive entre nós. Bem lá no fundo, sei que pelo menos uma parte do que trago de melhor por essa vida, adquiri do convívio com o Armando. Sua didática era o bom exemplo, a humildade.
    Assim como você, nos anos seguintes ao falecimento do Armando, senti revolta vazio, impotência. Lentamente esses sentimentos negativos foram sendo substituídos pelas boas lembranças do Maestro. Essas sim, fortes o suficiente para permanecerem no coração.
    Hoje só lembro das coisas boas. Só me resta a gratidão; a certeza do privilégio de conviver com vocês durante aqueles tão breves 15 anos.
    Um abraço a todos.

  9. 16-1-2012

    Meu caríssimo Escova, também eu ainda choro quietinha em meu canto a dor que sinto pela ausência do meu bom amigo Armando. Gente, muito gente, aquele cara.
    Uma pessoa aglutinadora, idealista e empreendedora. Às vezes eu achava ele sonhador demais, mas demais mesmo era ele mostrar que realizar sonhos era possível. Tudo de bom o tempo em que pudemos desfrutar de seu convívio, do nosso convívio.
    Obrigado maestro.
    Um beijo de boa noite
    Joyce

  10. 19-1-2012

    Acredito que ser especial é exatamente isso: estar presente no coração das pessoas, eternizado. E isso acontece quando conseguimos transformar a vida delas, compartilhar emoções, lições de vida. E foi isso que aconteceu com vocês. Fico emocionada em perceber a gratidão e o amor contido nesses comentários. Não vivi esse momento, mas pergunto aos meus amigos na escola que conviveram com o maestro, todos absolutamete todos o admiram. E quem sabe em 2013, teremos um coral belíssimo para cantar para o Papa. Seria uma bela homenagem. Parabéns pela lembrança, um artista é eterno, não quando ganha prêmios e sim quando conquista o coração do seu povo.

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