carlos-gomes-600

Escrito por Marcus Góes em 6 jan 2012 nas áreas Artigo

Carlos Gomes(1836/1896) conheceu poucos insucessos.

Desde suas missas da juventude dos anos 50, suas óperas criadas no Brasil no início dos anos 60, suas canções, suas revistas musicais criadas na Itália nos 60 e suas óperas criadas na Itália: “IL GUARANY”(1870), enorme sucesso, “FOSCA” (1873), aplaudida pela crítica e  ”SALVATOR ROSA”(1874), outro enorme sucesso, o nosso Tonico só conheceu o triunfo, a exaltação, a fama internacional.

Tal foi o sucesso do “SALVATOR ROSA” em 1874 em Gênova, que foi com essa ópera que a Scala de Milão abriu sua temporada no mesmo ano. Gomes se tornou figura popular da capital lombarda. Todos falavam de sua vasta cabeleira, apelidaram-no de “testa di leone” (cabeça de leão), os restaurantes ofereciam pratos “à Carlos Gomes” e uma taça de sorvetes “Peri e Cecilia” com sorvetes de chocolae e creme lado a lado. Os humoristas diziam que quem então fazia música em Milão era um índio…

Mas – e em meio a extremos sucessos há sempre um “mas” – o sucesso e a fama de Carlos Gomes mais cedo ou mais tarde haveriam de despertar a inveja e as reclamações dos italianos. A reação viria, forte e compacta, e quem pagaria a conta seria a “MARIA TUDOR”, criada na Scala em 1879 em meio a vaias pré-fabricadas.

O ano de 1879 foi um ano infeliz na vida de Gomes. A separação da mulher Adelina Peri se desenvolveu litigiosamene  em tribunal com todos os ingredientes de estilo: ofensas, acusações, brigas por quinquilharias, tudo à vista de todos. Será em 1879 que Gomes perderá o filho Mario Antonio, morto aos quatro anos de idade.

Antes desses acontecimento, no entanto, a imprensa e grande parte do público, por ela influenciado, prepararam um conjunto de argumentos contra Carlos Gomes que apareceria escrito antes, durante e depois das duas únicas récitas da MARIA, ocorridas em 27 e 29 de março de 1879.

Como era possível um “indiano selvaggio” ter suas óperas postas na Scala enquanto “talentosos” compositores italianos tinham de se contentar com teatros menores? E aí eram citados compositores italianos que hoje ninguém conhece, como um certo Dominicetti, de quem se diziam maravilhas em detrimento de Gomes. Disse-se até que o Dominicetti estava servindo de modelo a compositores alemães da época…

Assim, a MARIA foi vaiada sem piedade, por uma reação chauvinista de baixíssimo nível. No entanto, é ela uma belíssima ópera, com uma abertura muito bem composta, com trechos de grande beleza, como o dueto Fabiani/Giovanna “L´amore l´estasi”, como o dueto Maria/Fabiani “Colui che non canta” , como a preciosa grande ária de Maria “O mie notti d´amor”, como a notável marcha lenta do início e do final da ópera, como a ária de Fabiani. Uma ópera que depois teria seus modelos e inovações copiados na própria Itália, principalmente na era do verismo.

O prestígio de Gomes entrou em baixa depois da MARIA, mas foi aos poucos voltando ao posto anterior, principalmente devido à grande admiração e gosto do público por “IL GUARANY”, “SALVATOR ROSA” e por uma “FOSCA” modificada. Só em 1889, viria a público sua ópera “LO SCHIAVO”, criada no Rio de Janeiro.

O jornalista “Hans” chegou a dizer que Carlos Gomes tomava o lugar de Faccio, de Giovannini, de Dominicetti, todos invejados na França e na Alemanha.

Devia ser isso mesmo, tanto que na França pensou-se enviar Gounod, Massenet e Saint-Saëns à Itália aprender com eles. Da Alemanha, viriam Brahms e Richard Wagner, com papel, lápis e borracha, para anotar as lições…

COLUI CHE NON CANTA / IGNORA L´AMOR

MARCUS GÓES  – JANEIRO/2012

6 Comentários

  1. 8-1-2012

    Pois é, meu caro Marcus, quando assisti a Maria Tudor ao vivo, pela 1ª e única vez, em 1959, no T.M. tendo no elenco uma fabulosa Irmgard Bianca Muller e mais Assis Pacheco, Nelly Mary, Lourival Braga e Newton Paiva, sob a regência do Santiago Guerra, sai do teatro em êxtase. O sucesso foi imenso e, depois disto, a pobre Maria só voltou à cena em São Paulo, em 1978, numa versão bem irregular da qual existe uma péssima gravação… Depois de uma versão lindamente ornamentada na Bulgária, salvando-se honrosamente a Eliane Coelho, prefiro nem comentar, eis que vamos ousar montá-la, em versão reduzida e com piano, como no caso da Norma, nos Concertos FINEP. Sei que você vai ficar possesso com a minha iniciativa. Ópera só com orquestra, claro! Mas de Caruso a Maria Callas, todos os grandes cantores de óperas fizeram e fazem trechos de óperas em recitais somente com piano… Começamos as leituras com o carinho, a qualidade e a dedicação dos intérpretes que será a mesma de todos os meus espetáculos anteriores. Espero que você mais uma vez nos prestigie e nos honre com a sua presença.
    Abraços cordiais.
    Lauro Gomes.

  2. 10-1-2012

    Caro Marcus; tive o prazer de ler o que escreveu e lembrar de uma maravilhosa produção aqui em São Paulo da “Maria Tudor”. Ocorreu em 1978, no Municipal, com um soprano argentino magnífico: Mabel Veleris, que cantou com muita garra esse difícil personagem, vivendo-o também com classe e conhecimento. Infelizmente ela faleceu em 2008, em Buenos Aires.

  3. 11-1-2012

    Retomando o assunto acima comentado pelo Sr. Lauro Gomes, confirmo que a gravação da “Maria Tudor” de 1978 é mesmo de péssima qualidade; mas ao assistirmos ao vivo no Theatro Municipal de São Paulo, foi um imenso prazer, graças à belíssima cenografia e figurinos muito bem elaborados pelo saudoso Flávio Phebo, e as presenças do grande soprano argentino Mabel Veleris, ao barítono excelente Fernando Teixeira, e ao tenor carioca Eduardo Alvarez, ainda em boa forma na época. Regeu-a o maestro residente no Teatro Colón, Mario Perusso, de muito boa formação que preparou o soprano Mabel Veleris, pois a ópera era para todos desconhecida. O resultado foi excelente e deixou belas lembranças aqui em São Paulo. Portanto não foi assim como Lauro Gomes firmou.

  4. 12-1-2012

    Como afirmei, não assisti à Maria Tudor de São Paulo. A gravação que existe é péssima, anônima e lançada comercialmente com o aval do Governo de São Paulo, numa coleção de óperas de Carlos Gomes, e que, apesar de terem sido feitos os contatos e conseguirem as autorizações, não pagaram nem um centavo dos direitos aos intérpretes. Quanto à versão, reafirmo que é mais do que irregular. A orquestra soa como uma banda furiosa. Quanto às qualidades da Sra. Mabel Veleris, interpretando Maria Tudor – gosto não se discute. Maria Callas é a mais aclamada e amada cantora de todos os tempos e é também a mais odiada…

  5. 13-1-2012

    Caro Sr. Lauro Gomes, como o sr. não assistiu à produção de “Maria Tudor” de 1978 em São Paulo, a qual superou a de Norina Grecco em 1943 no mesmo Municipal paulistano, não deveria ficar espetando a qualidade da mesma. Criticar um CD pirata de péssima qualidade, e independentemente de terem sido pagos os direitos aos seus nobres intérpretes da época (Mtrº Mario Perusso, soprano Mabel Veleris, tenor Eduardo Alvarez, barítono Fernando Teixeira, baixo Wilson Carrara, barítono Luíz Orefice entre outros); e especialmente, o grande Flávio Phebo que criou uma indumentária belíssima e de época aos seus intérpretes. É no mínimo, crueldade. O espetáculo foi uma maravilha, aplaudidíssimo por uma casa lotada nas três récitas ocorridas. Quem não viu, nunca mais verá. Ainda me lembro dos aplausos frenéticos à Mabel Veleris, ao final da ária “Vendetta avrai”, culminada com um dó natural, límpido, longo e cristalino, nunca mais ouvido naquele teatro, somado a uma dramaticidade de inegável comprometimento com o personagem.

  6. 16-1-2012

    Ilmo Sr. Marco Antonio, para coleção das óperas de Carlos Gomes, quem arranjou os contatos no Rio de Janeiro para os contratos serem assinados fui eu: Maestro Guerra, Ida Miccolis, Antéa Cláudia, Colósino e a viúva do Lourival Braga. O Sr. diz que as gravações são piratas, no entretanto na contracapa dos diversos folhetos estão: os brazões do Estado de São Paulo com as seguintes informações: Governo do Estado de São Paulo – Secretaria Estadual de Cultura – Projeto aprovado e beneficiado – Lei de Incentivo a Cultura – UNC – 1997. Como testemunhos invoco Ida Miccolis, Eduardo Alvarez e Antéa Cláudia que ainda estão vivos, e nenhum deles recebeu um tostão pelas venda dos tais CDs (piratas?), financiados pelo Estado de São Paulo? Quem ficou com a renda da venda da coleção? Duvido que a Niza de Castro Tank também tenha recebido. Isto é crime, sabia?

Deixar um comentário

*