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Escrito por Marcus Góes em 9 fev 2012 nas áreas Artigo

Muito se fala em reflexos da personalidade e da vida privada dos compositores em suas composições.

É fora de dúvida que tais reflexos sempre ocorrem, já que facilmente se pode verificar que Brahms nunca compôs nada parecido com o que compôs seu contemporâneo Offenbach. O primeiro pretendia a seriedade de um continuador de tradições musicais alemãs, e a seriedade de sua personalidade refletiu-se naquela pretensão e na sua música; o segundo inseriu-se em um mundo de diversão e bufoneria, e sua personalidade burlesca se reflete em tudo que compôs.

O tema entrou mais acaloradamente em polêmicas depois da publicação nos USA do livro CHOPIN IN PARIS: THE LIFE AND TIMES OF  THE ROMANTIC COMPOSER (ISBN 0-306-80933-8), de Tad Szulc. Há uma tradução para o português de Betina Von Staa, Editora Record,RJ,1999.

Tal livro afirma, apresentando cartas comprometedoras, a homosexualidade de Chopin, sua irascibilidade, seu convívio difícil com os amigos, seu patriotismo interesseiro, e chega a acusá-lo de “cafajestadas”. Estará tudo isso presente na música de Chopin ?

Certamente suas numerosissimas e refinadíssimas delicadezas pianísticas, seus arroubos derramadamente românticos e seu discurso musical, com seus exagerados ornamentos, são efeminados, o que conduz a um homossexualismo evidente. Não conseguimos, porém, vislumbrar em sua música nenhum traço de um caráter irascível e capaz de “cafajestadas”.

Outro compositor de homossexualidade comprovada foi Tchaicovsky, e em sua música essa homossexualidade aparece na  melancolia queixosa das sinfonias, das quais a quinta e a sexta são o ponto extremo, assim como certas passagens hiper românticas (no sentido de “romance) dos concertos e dos balés. Os lamentos de Tatiana e Onegin não fogem à regra de uma melancolia feminina. Comparem com as queixas melancólicas das Leonoras de Verdi, contemporâneas de Tchaicowsky, e com as das mais antigas Leonora de Fidelio e Agathe do  Freischütz.

Pensamos que o rei do reflexo de sua personalidade em sua música seja Richard Wagner: megalomaníaco ele, mais que megalomaníaca sua música, desde as insistentes quiálteras do Tannhäuser até as retumbâncias do Anel, as audácias do Tristão e a religiosidade de coreto do Parsifal.

Em Beethoven, o vigor, o peso, a substância de uma personalidade vigorosa, pesada, substancial. Em Mozart, a leveza, a graça, a solenidade e a facécia de uma alma brincalhona, graciosa, solene quando necessário (ouçam Et incarnatus est  da Missa em dó menor) .

O tema é polêmico, difícil de encontrar concordâncias e unanimidades. Abordei-o com a máxima cerimônia, a cerimônia daqueles que não se acham os donos da verdade. Agradeço intervenções e censuras.

NIL INULTUM REMANEBIT

MARCUS GÓES-FEV 2012

 

2 Comentários

  1. 9-2-2012

    Caro Marcus, excelente artigo. Agradeço pela abordagem do tema e, a talho de foice, faço um pedido singelo: sempre que possível e conveniente, publique mais textos sobre a vida de grandes compositores. Em nome dos jovens músicos, como eu, digo que publicações como esta são de um caráter mais que elucidativo sobre a vida de nossos ícones; são informações didáticas que nos auxiliam na interpretação de inúmeras composições. Agradeço, ainda, pelo texto sobre Maria Tudor, de Carlos Gomes, publicado recentemente.

    Que outros leitores possam corroborar com mais informações e referências de leituras, gravações, filmes…

    Fraterno amplexo,

    Allan Souza.

  2. 17-2-2012

    Olá Marcus,gostei muito de ler sobre o Carlos Gomes e outros compositores no que se refere ao texto. Continue escrevendo, para nós adquirimos mais conhecimento a respeito da História da Música.
    Obrigada!!

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