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Escrito por em 9 mai 2012 nas áreas Artigo

Criada em 1988, como companhia itinerante, os Shenandoah Shakespeare Players, verdadeiros saltimbancos renascentistas, perambularam por dezenas de cidades dos Estados Unidos.

Apresentam peças de Shakespeare em escolas secundárias,  colleges, universidades, e instituições comunais e culturais,  nos pontos mais remotos nos  Estados Unidos. Dez anos mais tarde, o grupo decidiu se estabelecer em Staunton, (pronuncie Sténton), na Virginia, passando a se chamar American Shakespeare Center.

American Shakespeare Center

Genuínos visionários, os diretores, atores e administradores mobilizaram o setor privado e o setor público, e, em 2001, inauguraram no centro daquela cidade histórica sua sede própria, o Blackfriars Playhouse, uma réplica tão fiel quanto possível do último teatro em que a companhia de Shakespeare atuou em Londres, no primeiro quartel do século XVII. Contrariamente ao Globe Theatre, que tinha sido destruído num incêndio, o Blackfriars Playhouse original era coberto, mantendo, porém, as características das construções elisabetanas para os espetáculos de teatro: o palco era um tablado que avançava até quase o centro da plateia; um pouco acima dela, havia  duas fileiras de bancos dispostos em semi-círculo, e, mais acima, uma galeria com duas fileiras laterais e três centrais, também de bancos, mas sem encosto. Na plateia, havia cadeiras móveis, e, no próprio tablado, uma fileira de cadeiras em cada lado, para quem quisesse assistir às representações bem perto dos atores. O teatro acomodava 300 pessoas.

No fundo do tablado, duas portas laterais e um arco central com cortina, facilitavam a entrada e a saída dos atores de cena. Acima desse fundo, havia três pequenos camarotes para os músicos.  Na réplica do Blackfriars (o nome vem dos monges de hábito negro do mosteiro vizinho), todas essas características foram mantidas, inclusive a iluminação, que era feita por grandes lustres suspensos do alto e arandelas laterais, com um total de mais de 200 velas, e ainda é feita dessa forma, embora hoje sejam elétricas. O teatro é todo artesanal, feito em madeira clara, uma caixa acústica perfeita. Essa réplica, concebida de acordo com os projetos da época é a única existente.

A exemplo dos espetáculos originais, os atuais não usam refletores. A iluminação é a mesma que ilumina o público e é mantida sem gradações em toda a duração dos espetáculos. Os atores não usam maquilagem, porque a proximidade com o público é tal que dispensa artifícios. Não há cenários, mas apenas alguns poucos adereços, quando necessários. Com isso, as roupas assumem grande importância.

Na época de Shakespeare, as mulheres estavam proibidas de atuarem no palco; os papéis femininos eram representados por meninos pré-adolescentes. Essa tradição não foi mantida, felizmente. Em compensação, a tradição de embaralhar os gêneros foi mantida e é comum ver atores representando papéis femininos e atrizes fazendo papéis masculinos, fato aliás frequente nos textos de Shakespeare. O elenco permanente atual é feito de onze atores e três atrizes, todos eles dotados de excepcionais memórias, porque como a companhia é de repertório e é comum ela apresentar três e até quatro peças por semana, todas com os mesmos atores e atrizes, representando grande variedade de personagens, totalmente diversos uns dos outros.

Dentre as características do estilo de representação, é preciso frisar que apesar das diferenças de qualidades nos timbres vocais, todos são loquazes, falam com rapidez, desenvoltura e segurança, e sem hesitação. Essa desenvoltura faz com que a linguagem dos textos, embora muitas vezes cadenciada e rimada, soe com grande naturalidade, se bem que ela seja artisticamente elaborada, e muito de seu vocabulário e expressões idiomáticas sejam típicos do século XVII, e hoje pouco ou nada usados. A loquacidade verbal é acompanhada de grande destreza física na expressão corporal. A mobilidade é muito grande também e os atores sobem e descem as pequenas escadas laterais que ligam o tablado à plateia, atuando junto ao público, e ele, por sua vez, é incorporado à ação inesperadamente. Às vezes, os atores escolhem alguém na plateia, e dizem seus solilóquios cara a cara, de forma pessoal.

Com tudo isso, o rigoroso treino vocal e físico fica patente em todos os espetáculos, embora se apresentem de maneira a mais descontraída possível. O desafio aos diretores e atores vem da necessidade de dinamização dos próprios textos. Sim, trata-se de um teatro de texto. A exemplo do que acontecia com a companhia de Shakespeare, este é um teatro popular: naquela companhia como nesta, o teatro é oferecido como forma de entretenimento popular e ágil. A elitização de Shakespeare  dos séculos XVIII e  XIX é aqui desbancada em favor de uma volta às raízes originais. E naquela companhia como nesta, a música instrumental e vocal é uma dimensão relevante. Shakespeare embutia muitas canções nos seus textos, e elas frequentemente comentam a ação.

Desde a sua inauguração há doze anos, o Blackfriars Playhouse já ofereceu 124 produções de 68 peças, incluindo virtualmente toda a dramaturgia de Shakespeare e uma variedade de outros dramaturgos da renascença inglesa, bem como do período jacobino e da Restauração, além de clássicos modernos de língua inglesa, num total de 3.500 espetáculos. Desde então, a companhia já itinerou dentro e fora dos Estados Unidos, incluindo extensas temporadas na Inglaterra. Nesses doze anos, ela teve mais de mil estudantes estagiários.

O American Shakespeare Center é hoje um ponto de encontro para eruditos e estudantes de todas as idades e funciona o ano inteiro. Graças às doações, muitos estudantes têm-se beneficiado não só com os espetáculos, como também como estagiários. Essa porta poderá servir de estímulo a jovens atores e diretores brasileiros, que possam ter interesse como possíveis candidatos. O co-fundador da companhia e seu diretor artístico, Jim Warren, imprime aos espetáculos uma carga  de impacto intelectual, carregado de todas as fortes emoções de que é feita a natureza humana e que está toda ela refletida nas tragédias, nas comédias e nos dramas históricos de Shakespeare, em toda a sua amplidão e profundidade.

Dado o estilo da companhia, não só o público vê os atores de perto, como também é visto muito de perto pelos atores. Com isso, a carga  dos espetáculos vem com maior impacto, e exige maior imaginação dos atores e diretores, como também do público. Cada espetáculo é uma experiência de comunhão. O ASC oferece, graças à sua constância e intensidade, uma oportunidade ímpar de vivenciar a permanência e atualidade da obra de Shakespeare.

A temporada de 2012 inclui as seguintes peças: “A tempestade”, “Hamlet”, “Henrique V”, “Tamerlano, o Grande”, “Muito barulho por nada”, “Sonho de uma noite de verão”, “Um conto de inverno” e “Ricardo III”, todas de Shakespeare, além de “Philaster, or Love Lies-a-Bleeding”,  de F. Beaumont e J. Fletcher, “A Mad World, My Masters”, de Th. Middleton, ambas do início do século XVII, “Dido, Rainha de Cartago”, de Chritopher Marlowe, contemporâneo de Shakespeare, “É pena que ela seja uma puta”, de John Ford, outro contemporâneo de Shakespeare, e “A importância de ser Prudente”, de Oscar Wilde, além de três peças próprias para a temporada natalina.

A temporada de 2013 anuncia “O mercador de Veneza”, “Os dois cavalheiros de Verona”, “Henrique VIII”, “Cymbeline”, “Rei João”, “Júlio Cesar”, “Noite de Reis” e “Love’s Labour’s Lost”, todas de Shakespeare, e mais “The country wife”, de William Wycherley, “The custom of the country”, de John Fletcher e Philip Massinger, (duas comédias do século XVII, “A Duquesa de Malfi”, de John Webster (século XVII), “Um conto de Natal”, de Charles Dickens, “O leão no inverno”, de James Goldman, (um clássico do século XX), e mais dois textos na temporada de Natal.

O ASC é também sede do Instituto Internacional de Música Jascha Heifetz, um projeto conjunto com o Mary Baldwin College, de Staunton, programado este ano para o período de 4 de julho a 9  de agosto. Este Instituto reúne anualmente, para treino intensivo e apresentação, jovens violinistas, violistas e celistas especialmente dotados. O ASC é também sede do Festival de Música de Staunton, o qual, no final de agosto, celebrará a música do barroco francês, com obras de Rameau, Couperin, Lully, Charpentier  e Marin Marais. Em 2013, o Festival será dedicado à música de Händel.

Localizada a 250 km ao sul de Washington, no centro de Vale Shenandoah, a cidade histórica de Staunton é das mais antigas a oeste das Blue Ridge Mountains. Fundada em 1732, ela se tornou aos poucos um centro comercial próspero. Com a chegada da estrada de ferro em 1854, ela prosperou ainda mais, principalmente  nos anos da sangrenta Guerra Civil, que não a atingiu, mas que a beneficiou como entreposto de mercadorias. Com isso, ela manteve sua inteireza arquitetônica, e é hoje uma antologia dos estilos da arquitetura norte-americana do século XIX.

Tombada pelo National Trust for Historic Preservation em 2001, ela é hoje cosiderada uma das doze joias urbanas de porte médio do país, com mais de mil construções preservadas e restauradas. Além de cidade universitária, ela é a cidade natal do Pesidente Woodrow Wilson, cuja casa ancestral e anexos abrigam o museu histórico da Primeira Guerra Mundial e a biblioteca com os manuscritos daquele Presidente, mais uma variedade de outros museus, gelerias de arte, livrarias e antiquários. De topografia com vários níveis, sua arquitetura é, contudo, concentrada e atrai os visitantes que vêm para os espetáculos, e, nos intervalos entre eles, gostam de explorar os atrativos de Staunton a pé.

A poucos metros de distância do Blackfriars Playhouse está reservado um terreno para a construção de uma já planejada réplica do Globe Theatre, o primeiro teatro em que atuou a companhia de Shakespeare, e que pereceu num incêndio. Ele era descoberto. Quando a réplica for inaugurada, Staunton será a única cidade no mundo a possuir, e para uso, as réplicas dos dois mais famosos teatros da renascença inglesa.

Para terem acesso às fotos do ASC e de seus espetáculos, teclem www.ameicanshakespearecenter.com

 

José Neistein,
maio de 2012

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