Escrito por em 15 jun 2012 nas áreas Biblioteca, Lateral, Movimento

“Um medo ordinário: pesquisando a ansiedade na performance do cantor lírico”: defesa de mestrado pela soprano Janette Dornellas.

 

ÍNDICE


1 – APRESENTAÇÃO


2DESENVOLVIMENTO

2.1 – Introdução

2.2 – Aspectos psicológicos
2.3 – O professor de canto e o medo do palco
2.4 – Cruzamento de dados


3CONCLUSÃO


4REFERÊNCIASD BIBLIOGRÁFICAS


5
APÊNDICES

5.1 – Questionário
5.2 – Entrevistas
5.2.1 – Ruth Staerke
5.2.2 – Juremir Vieira
5.2.3 – Rosana Lamosa e Fernando Portari

1 – APRESENTAÇÃO

Um medo ordinário: pesquisando a ansiedade na performance do cantor lírico 

Artigo expandido apresentado no curso de Mestrado da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás para obtenção do título de Mestre em Música.

Área de Concentração: Música, Criação e Expressão.

Linha de pesquisa: Performance Musical e suas interfaces.

Orientador: Prof. Dr. Ângelo Dias.
O medo é a emoção básica que nos protege e que surge como uma sensação desconfortável quando pensamos estar em perigo. Sem este sentimento, nossa vida poderia correr sérios riscos. Podemos dizer baseados nisso, que é normal sentir medo. Mas, e quando o medo se torna um sentimento paralisante ou que causa sofrimento extremo, a ponto de prejudicar nossa vida profissional? Este trabalho busca pesquisar o grupo específico dos cantores líricos e sua relação com o medo e a ansiedade antes de uma performance, seja ela em concerto, recital ou ópera. O levantamento de experiências pessoais de cantores líricos profissionais sobre como os mesmos lidam com o medo do palco pode ajudar a desmistificar a ansiedade de futuros profissionais, durante seu processo de formação musical e artística. Não se pretendem encontrar soluções que busquem eliminar totalmente as sensações de medo e ansiedade, mas apenas demonstrar que estes sentimentos são parte da vida e que podem ser compreendidos e seus efeitos negativos minimizados através do conhecimento e da pesquisa. Para embasá-la, pesquisamos autores especialistas em ansiedade cênica, como o espanhol Guilhermo Dalia, e autores que falam sobre aprendizagem musical e canto lírico, como Barry Green, Sonia Ray, Alberto Pacheco e Jeromy Hines. Também fizemos entrevistas fechadas e abertas com profissionais do canto, buscando experiências e relatos diferenciados de como surge o medo, como lidar com a ansiedade e como podemos transformar estes sentimentos em energia criadora

2 – DESENVOLVIMENTO

2.1Introdução 

O que é o medo? O que significa o medo? De acordo com o antropólogo e especialista em neurolinguística Joseph O’Connor (2008), o medo é a emoção básica que nos protege: “O medo é inegável, aquela sensação desconfortável que surge quando pensamos estar em perigo. O perigo pode ser real ou imaginário. Em seu livro Liberte-se dos Medos (2008), O’Connor aborda, além da definição e entendimento do que é o medo e de como ele se apresenta, várias formas de lidar com o medo real ou imaginário.

Apesar do mito sobre sentir ou não medo do palco, o medo é um sentimento ordinário, ou seja, “que se faz comumente; habitual, useiro, vulgar, comum“. É normal sentir medo. Segundo Dalia (2004), o medo é uma das reações mais adaptativas do ser humano e das demais espécies. Graças a ele, muitas espécies sobreviveram. Para tanto, o corpo se prepara rapidamente para uma dessas situações: atacar ou fugir. Nosso coração bate mais rápido, aumenta nossa pressão arterial e a respiração se agita, hiperventilamos para que cheguem mais sangue e oxigênio em nossos músculos, nossos sentidos se aguçam. Nosso corpo guarda até hoje a memória desses perigos e nos faz reagir a situações de riscos. Nos dias de hoje, as ameaças são mais sutis e refinadas, não ameaçando tanto nossa integridade física, mas nossa situação social. E, para nos defendermos, não precisamos de todas as alterações fisiológicas citadas anteriormente. Quando nos sentimos nervosos, as mãos suam, gaguejamos, ficamos inquietos, nosso coração se acelera, como se estivéssemos à frente de um perigo real (Dalia, 2004). São reações instintivas sobre as quais não temos total controle. Se elas se repetem com frequência, podemos ter um transtorno de ansiedade.

Sentir medo torna-se problemático quando passa a interferir na qualidade de vida das pessoas, paralisando ou incapacitando o indivíduo e trazendo infelicidade, doenças e problemas sociais. Serra (2010) descreve assim o comportamento do portador de Transtornos de Ansiedade:

Em relação ao modo de processamento cognitivo, o ansioso processa seletivamente sinais de ameaça, derivados de sua superestimação da própria vulnerabilidade, e descarta elementos contrários. Sua atenção autofocalizada aumenta, o que reflete a tentativa de controlar o estímulo ameaçador. Seus pensamentos automáticos refletem uma negatividade ou pessimismo geral, focalizam em ameaça ou perigo a si ou a seus outros significativos, e são orientados para o futuro, em forma de pensamentos negativos antecipatórios, particularmente como perguntas do tipo “e se?” (“E se eu esquecer tudo na hora da prova?”, “e se eu tiver um ataque cardíaco?”, “e se eu ficar ansioso e me descontrolar no elevador?”, ou “e se eu for abandonado e não suportar a solidão?”). Suas cognições pré-conscientes refletem rigidez; seu pessimismo dá origem ao caráter excessivamente catastrófico de suas interpretações, complementado pela rigidez, que o leva a “encalhar” nessa primeira interpretação e resistir ao reconhecimento de interpretações alternativas. (SERRA, 2010, http://www.itcbr.com/)

Simplificando as palavras de Serra podemos dizer que os problemas podem começar quando não sabemos dominar estas respostas fisiológicas, fazendo com que a cada manifestação desses sentimentos se dispare um estímulo de medo e essas reações se transformem em um círculo vicioso. Nestes momentos, todo nosso mecanismo de defesa está dedicado a responder a um perigo iminente, fazendo com que nossa capacidade de concentração fique diminuída. Não há nada de errado em sentir estas emoções. O problema é que agora, frente a um perigo irreal, elas não nos são úteis. Essas respostas inadequadas são aprendidas de uma maneira involuntária e vão se consolidando em nossa conduta pessoal, mas, da mesma forma como aprendemos, podemos desaprendê-las.

Em quase vinte e cinco anos de carreira, nunca me preocupei com o tema, porque, para mim, por maior que fosse a sensação de medo, o prazer de estar no palco a suplantava. Mesmo diagnosticada, no ano de 2000, como portadora de Transtorno de Pânico, demorei a compreender os mecanismos que me levavam às crises e só muito mais tarde entendi o papel crucial da ansiedade como estopim das crises. A situação de pânico é caracterizada por uma combinação de sintomas físicos e psicológicos como pensamentos desagradáveis e ansiedade extrema (CARVALHO, 2008, apud Ray, 2009). Especificamente no meu caso, a ansiedade prejudicava minha qualidade de sono, o que acabava levando a um cansaço extremo que prejudicava o resultado vocal, gerando mais ansiedade. Esse processo cíclico iria agravando o quadro até o ponto de sofrer o ataque de pânico. Este pânico não era relacionado ao medo do palco, mas ao medo de não ter energia suficiente para levar a cabo uma ópera de três horas de duração, ou seja, o medo de falhar. A ansiedade era proporcional também ao nível de conhecimento e estudo da peça musical que eu iria cantar. Quanto mais segura eu estava, menos ansiosa me sentia, mas em maior ou menor grau, a ansiedade estava sempre presente. O’Connor refere-se a esse tipo de ansiedade como “ansiedade de desempenho”:

Muitas pessoas têm medo de oratória pública e muitos atores profissionais e músicos sofrem de ansiedade de desempenho mesmo quando exibem um histórico de bons desempenhos. (…) Em geral, quanto mais importante for o desempenho, maior é o medo. (O’CONNOR, 2008, p.114).

Acredita-se que a maioria dos intérpretes apresente algum tipo de medo ou ansiedade antes de uma performance. Para alguns autores, inclusive, a ausência destes estados psicológicos seria prejudicial a uma boa apresentação artística. Jerome Hines (1997), um importante cantor americano, dedica todo o capítulo XVII de seu livro The Four Voices of a Man (As Quatro Vozes de um Homem), ao stage fright, ou Medo do Palco. Ele afirma no referido capítulo: “Nunca negue seus nervos. Aproveite-os ao máximo e agradeça a Deus por eles. Quando não se sentir nervoso, aí sim você estará com problemas.” (HINES, 1997, tradução nossa). Essa afirmação enfática merece um aprofundamento, porquanto seja categórica ao afirmar que é preciso estar nervoso para fazer um bom trabalho no palco. Até que ponto certa dose de ansiedade é positiva para uma performance?

Hines cantou durante muito tempo, tendo se apresentado em importantes casas de ópera no mundo inteiro e ao lado de cantores famosos como, por exemplo, o tenor italiano Enrico Caruso. Sobre Caruso, Hines conta que “ele era nervoso e desenvolveu um maravilhoso trabalho, fazendo com que seus nervos servissem a todo seu corpo durante a performance.” (HINES, 1997, p. 161, tradução nossa).

Por outro lado, carreiras foram limitadas por causa deste medo, como a do pianista canadense Glenn Gould, que, por sentir o pavor de verificar seu batimento cardíaco aumentar – uma variante da ansiedade –, abandonou as apresentações públicas e passou a dedicar-se unicamente às gravações (Martins, 2008).

O professor da USP e pianista José Eduardo Martins escreve em seu blog sobre dois livros que tratam sobre o medo do palco e corrobora a opinião de Hines, quanto à necessidade de se dominar o medo e transformá-lo em energia positiva e criadora:

Entre músicos e atores, a ansiedade pode advir no instante a preceder a apresentação, ou horas, dias ou meses antes de um evento. Dependerá das estruturas mentais de cada artista. Haveria, como afirma André-François Arcier, a necessidade não de suprimir le trac (o medo do palco), mas de domesticá-lo. Saber entender que a existência do medo a preceder a apresentação faz parte dessa íntima relação intérprete-público é compreender não apenas a responsabilidade do artista frente àqueles que estão ávidos por receber a mensagem, como também entender a fragilidade humana perante o desafio. (ARCIER, André-François, Le trac apud MARTINS, José Eduardo, http://blog.joseeduardomartins.com/).

Em seu livro “Le trac: le comprende pour mieux l’apprivoisier” (O Medo do Palco: o compreender para melhor o domar), Arcier fixa com clareza fatores prováveis a favorecerem a inibição e aponta meios de administrar e até dominar a terrível, mas majoritária, presença do medo (apud Martins, 2008). Ainda segundo Martins, haveria como afirma Andre-François Arcier, a necessidade não de suprimir o medo do palco, mas de domesticá-lo. Já no livro “Le trac: stratégies pour le maîtrise” (O Medo do Palco: estratégias para o controle) (ARCIER, apud MARTINS), encontramos as possibilidades de tratamentos, que se estendem desde medicamentos alopáticos, entre os quais estão as benzodiazepinas e os beta-bloqueadores, àqueles alternativos, como a homeopatia, a fitoterapia e a acupuntura (ALEXITÈRE – Collection Mèdicine dês Artes, 1998, apud MARTINS, 2008). Hines cita um medicamento comum para pressão, que em sua época foi usado para o medo do palco e comenta o desastre que foi o uso do mesmo por uma amiga violonista, que ficou calma, mas “perdeu seus sentimentos como um zumbi com nenhuma vontade de tocar” (Hines, 1997).

Em seu artigo “Considerações sobre o pânico de palco”, Sônia Ray cita vários estudos sobre a ansiedade do palco, principalmente em outros países. No Brasil, ela encontrou esse assunto mais presente em anais de congressos. (Mentes em Música, Ray e outros, 2009). Ainda não encontrei nenhuma publicação de profissional brasileiro sobre o tema específico da ansiedade cênica, mas encontrei um artigo de capa da Revista Galileu intitulado Ansiedade Positiva, que trata exatamente sobre como a ansiedade pode ser uma aliada e não um inimigo.

Starbuck, subcomandante do navio que saiu à caça de Moby Dick, tinha uma regra para enfrentar gigantes marinhos: “Não levo em meu bote quem não tem medo de baleia”. Herman Melville, autor do clássico, devia saber um pouco sobre ansiedade: ao mesmo tempo que pode nos atrapalhar em momentos cruciais e até provocar doenças, ela nos prepara para o perigo. (SANTI, Revista Galileu, março de 2012)

Com esta analogia, o repórter Alexandre de Santi abre a matéria onde, de forma clara, aborda um assunto que é muito atual. Ele descreve os transtornos de ansiedade como uma epidemia social. “Estima-se que de 3% a 5% das pessoas sofram de algum distúrbio ligado à ansiedade, como o transtorno obsessivo-compulsivo, fobias e síndrome do pânico” (SANTI, 2012).

Um estudo publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria, que mapeou a prevalência de doenças na população brasileira, constatou que entre 8% e 18% tinham transtornos de ansiedade na década de 1990, colocando esse tipo de distúrbio na liderança das doenças mentais no Brasil. (SANTI, 2012)

Mas a pergunta que ele coloca é por que, embora os sintomas da ansiedade apareçam diariamente para todo mundo, para a maioria da população isso não chega a virar um distúrbio? “Ou seja, por que só parte da população desenvolve uma doença, enquanto um grande grupo convive em harmonia com esse estado de atenção?” (SANTI, 2012). Como foi falado no início deste artigo, a ansiedade, o medo e o estado de alerta existem para nos prepararem e nos protegerem e, na dose certa, a tensão pode ajudar a vencer desafios.

Uma descoberta da ciência graças a pesquisas feitas no século 20 foi que os benefícios variam de acordo com a personalidade de cada um. “Os mais otimistas, por exemplo, tendem a encarar a ansiedade como um desafio e melhoram sua performance. Com os pessimistas, ocorre o contrário: pioram seu desempenho sob algum nível de estresse…” (SANTI, 2012). Um exemplo:

Em estudo clássico com nadadores, publicado em 1990 pelo professor da Universidade da Pensilvânia Martin Seligman, considerado o pai da psicologia positiva, este aponta os otimistas como aqueles para quem a ansiedade serve como uma aliada. Seligman e seus colegas escolheram 33 nadadores, homens e mulheres, de uma equipe profissional e pediram que simulassem o treino de uma competição. Antes, os atletas responderam a um teste psicológico que classificava pessimistas ou otimistas. Depois da primeira prova, os pesquisadores informaram tempos inferiores aos que de fato foram alcançados. Se o nadador havia concluído o exercício em um minuto, a equipe de Seligman dizia que havia sido em 1min5s, uma diferença significativa a ponto de colocar o atleta em estado de tensão. Foi aí que os pessimistas se deram mal. Entre os otimistas, a ansiedade gerada pelo suposto mau resultado serviu como um impulso e eles conseguiram melhorar o tempo na segunda prova. Os pessimistas tiveram um desempenho pior. “Para os pessimistas, esperar o pior leva a não se dedicar como deveriam, de forma que o fracasso se torna uma consequência”, escreveu Seligman e sua equipe. (SANTI, 2012)

Sob o ponto de vista da psicologia, pode-se ver ainda a questão da atividade artística como um trabalho igual a qualquer outro e que por isso envolve uma relação social, como cita Ana Magnólia Mendes no artigo Prazer, reconhecimento e transformação do sofrimento no trabalho:

Quanto à contribuição para o trabalho como relação social entre sujeitos, afirma-se que os sujeitos não trabalham para si mesmos, mas pelos outros, chefes, colegas, subordinados. O trabalho é uma atividade social e contém necessariamente relações de dominação, por isso é um espaço de negociação. (MAGNÓLIA, 2008)

Entretanto, o trabalho artístico aborda, além da relação com os outros profissionais, a relação com a plateia, o que gera ainda mais a necessidade de aprovação e de bem-estar. Especificamente no caso do cantor erudito, torna-se interessante pesquisar como cantores profissionais lidam com essa relação profissional e com seus medos e ansiedades. E como esses profissionais, no papel de professores, ensinam a seus alunos a lidarem com isso.

O psicólogo Guillermo Dalia, especialista em Psicologia Clínica e interpretação musical, tem trabalhado para a melhora da qualidade de vida dos músicos. Para isso, tem pesquisado a psicologia da interpretação e todos os problemas mais comuns a ela: medo cênico, estresse, depressão, ansiedade, etc… Ele elenca algumas características próprias da classe musical, que podem dificultar que o músico seja uma pessoa feliz: o individualismo, a competitividade, o pensamento dicotômico, a crítica e a autocrítica e o divismo. Explica como reconhecê-las e combatê-las, mas o mais importante é que Dalia chama a atenção sobre a importância da Psicologia e seu papel na vida do músico.

Realmente, existe um enorme vazio do músico em questões relacionadas com a psicologia, aspecto este fundamental para seu trabalho em qualquer das funções que venha a desempenhar: aluno, docente, profissional, intérprete, etc… É importante possuir recursos para suportar a pressão da audiência, da crítica, ter estratégias para responder às demandas profissionais com os companheiros, possuir uma forte motivação para estudos longuíssimos, assim como uma alta tolerância para suportar a frustração de provas canceladas, oposições e testes, não sofrer de ansiedade cênica nos concertos, provas, audições… e como não falarmos dos professores de música: aqui com mais motivos se fazem necessários conhecimentos básicos e aplicados de psicologia. (DALIA, 2008)

Dalia descreve a ansiedade cênica como “um tipo de fobia social específica, sendo o estímulo ansiógeno¹ o que conhecemos como palco. A pessoa se expõe frente a outras não de maneira anônima, mas com a intenção de ser percebida, de que a escutem, ou vejam, pois vai levar a cabo uma comunicação, uma interação…”. (DALIA, 2004)

Na Parte I deste artigo, será abordado um pouco dos conceitos mais usados em relação à nossa pesquisa, sob a óptica da Psicologia, mas sem um aprofundamento científico, apenas como referência através de definições simples para melhor entendimento do texto.

A figura fundamental do professor de canto na formação profissional dos cantores também será citada e na pesquisa tocamos no ponto relativo à sua participação também na preparação emocional dos alunos. Este assunto será tratado na Parte II.

Fizemos entrevistas identificadas com vários cantores profissionais em atuação no País e também distribuímos questionários anônimos para uma avaliação mais quantitativa. No decorrer da Parte III, vamos citar trechos dessas entrevistas e o resultado do cruzamento de dados dos questionários.

Esse estudo do medo e da ansiedade pode ser relevante para aqueles que pretendem seguir carreira no palco e para aqueles que são ou serão professores.

O presente trabalho procurou pesquisar o grupo específico dos cantores líricos e sua relação com o medo e a ansiedade antes de uma performance, seja ela em concerto ou em ópera. O levantamento de experiências pessoais de cantores líricos profissionais sobre como os mesmos lidam com o medo do palco pode ajudar a desmistificar a ansiedade de futuros profissionais, durante seu processo de formação musical e artística. Não se pretendem, com este artigo, soluções que busquem eliminar as sensações de medo e ansiedade, mas apenas demonstrar que estes sentimentos são parte da vida e que podem ser compreendidos e seus efeitos negativos minimizados através do conhecimento e da pesquisa.

1. Que provoca ansiedade (fator ansiógeno); ANSIOGÊNICO [F.: ânsia + –geno.]

http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=loadVerbete&palavra=ansi%F3geno#ixzz1pNpcO2s9

2.2 – Aspectos psicológicos

Não é necessário um grande conhecimento da ciência da Psicologia para que possamos entender porque somos quem somos e fazemos o que fazemos. Muitas vezes, nem nos preocupamos com isso e aprendemos a conviver com nossos medos, manias, vícios, hábitos, sem questionar nada nem ninguém. Mas, a partir do momento em que decidimos ser professores, o estudo da Psicologia torna-se uma disciplina importante, sendo obrigatória nos cursos de Licenciatura. Acontece que muitos professores de instrumentos não cursam Licenciatura, o que poderia ajudá-los a entender melhor como funciona a mente humana e até mesmo sua própria mente.

A Psicologia é uma ciência em constante evolução e, graças às pesquisas na área, a mente humana passa a ser cada vez menos algo do qual pouco se sabe. Aos poucos, seus segredos vão sendo desvendados. Não pretendo, com este capítulo, me aprofundar na seara tão específica da Psicologia, mas apenas citar alguns conceitos e termos que possam facilitar o entendimento deste artigo.

Não faz muito tempo, uma visita ao psicólogo era tabu. Pessoas nesta situação escondiam este fato de todos para não serem taxadas de loucas. Aos poucos, a psicologia foi assumindo seu lugar de ciência importantíssima na melhoria da qualidade de vida, graças ao bem estar e à cura das doenças da alma que proporciona às pessoas que dela necessitam. Hoje, a busca do autoconhecimento e da qualidade de vida passa muitas vezes pelo consultório do psicólogo ou do psicanalista, juntamente com a descoberta e a disseminação de práticas mais alternativas como atividade física, meditação, alimentação natural e yoga. A isso se alia uma grande opção de medicação alopática, cada dia mais desenvolvida e com menos efeitos colaterais, prescrita pelo psiquiatra.

Mas, o que é exatamente esta ciência, a Psicologia? O psicólogo Guillermo Dalia assim a define:

A psicologia é uma ciência que tem como objeto de estudo a conduta humana, seu comportamento. Existem muitos campos de aplicação dentro da psicologia: esportivo, empresarial, educacional, judicial, policial, marketing, etc… Concretamente, a psicologia clínica estuda aqueles comportamentos que são negativos para a pessoa e que criam ou podem criar um mal estar emocional, aquelas condutas que interferem no bem estar pessoal e não permitem a uma pessoa ser feliz, reduzindo sua qualidade de vida. Assim, os psicólogos são profissionais especializados em tratar a conduta. (DALIA, 2004)

A psicologia tem avançado significativamente em sua atuação no tratamento destas condutas. Aqui, especificamente, falaremos da ansiedade e do medo. Na apresentação do seu livro “Como superar a ansiedade cênica em músicos”, Dalia diz que neste livro não há nada de original, já que as técnicas nele expostas são conhecidas e praticadas por psicólogos clínicos em diversas patologias. O que Dalia procurou durante anos de estudo e aplicação no Conservatório de Valência foi aplicar estas técnicas para curar ou amenizar a ansiedade cênica dos músicos.

Dalia apresenta algumas estatísticas interessantes sobre o efeito dessa conduta nos músicos. Segundo alguns estudos citados por ele:

20% dos alunos que iniciam os estudos nos Conservatórios de Música abandonam estes estudos por sofrer de ansiedade cênica, ou seja, por não poderem controlar o nervoso que surge antes de alguma apresentação pública. Entre os estudantes que continuam os estudos, porcentagens que oscilam entre 40% e 60% (Marchant-Haycox e Wilson, 1992 apud Dalia) veem sua execução musical deteriorada por causa do nervoso. (…) O panorama não é diferente entre profissionais (Van Kemenade, Van Son and Van Heesch, 1995 apud Dalia) e estudantes de arte dramática (Steptoe, Malik, Pay, Pearson, Prince e Win, 1995 apud Dalia). Uns 60% deles sofrem deste problema, interferindo a ansiedade não somente na interpretação musical, mas também na qualidade da vida pessoal, pois é a causa de outros problemas importantes como irritabilidade, baixa autoestima, depressão, problemas de comunicação, etc… (DALIA, 2004).

Cada um de nós é fruto, ou melhor, consequência do nosso passado, de todas as experiências que acumulamos, mas nosso futuro não é tanto fruto de nosso passado senão do nosso presente (DALIA, 2004). Durante toda a vida, aprendemos todo tipo de condutas, muitas que vão nos proteger e nos fazer mais felizes, mas também incorporamos condutas danosas, como fumar, comer mais calorias que o necessário, ficar deprimido e ter medo de que algo ruim aconteça. Dalia afirma que, da mesma maneira que aprendemos, podemos desaprender e que nos equivocamos quando nos referimos a aspectos da personalidade que seriam imutáveis: eu sou assim, minha maneira de ser é algo hereditário. Dessa forma estaríamos assumindo que não podemos mudar estes padrões de conduta, levando-nos a não tomarmos nenhuma atitude para modificá-las.

Para melhor entendimento deste artigo, temos que ter em conta que as condutas citadas podem ser basicamente de três tipos:

1) Condutas motoras

Podemos dizer que são as que se ativam através do sistema nervoso central, na maioria das vezes através da nossa própria vontade. São, portanto as que melhor podemos observar e detectar. Elas podem ser positivas (cantar, falar, escrever, cozinhar, dirigir) ou nocivas (fumar, beber álcool demais, ter comportamentos agressivos, não se exercitar). No caso dos músicos, podemos citar como condutas nocivas: não olhar para a plateia ou ficar observando-a insistentemente, repassar a música inúmeras vezes pouco antes de tocar ou cantar, movimentar-se inquietamente antes de uma apresentação. São alguns exemplos de conduta que aumentam o mal estar do músico executante.

2) Condutas fisiológicas

A maioria deste tipo de conduta não pode ser observada externamente, pois acontece no interior do nosso corpo (taquicardia, “aperto” no peito, “vazio” no estômago, tremores, vontade de urinar, hiperventilação). Mas é importante observar que nem tudo que sentimos em nosso corpo são condutas, mas apenas reações que não tivemos que aprender porque são inatas, como as batidas do coração ou a respiração. Quando estamos dormindo, nosso corpo continua funcionando independentemente de nossa vontade. No entanto, isso não impede que existam variações no nosso sistema nervoso autônomo que possam ser fruto da aprendizagem. Nossa conduta fisiológica se aprende. Algumas condutas fisiológicas são ativadas através do sistema nervoso autônomo, o que significa que não podemos controlá-las intencionalmente. Se fosse assim, não existiriam problemas de ansiedade ou psicólogos. Apesar de nos darmos conta do que está acontecendo e fazermos o reforço mental para revertermos um pensamento negativo ou uma sensação ruim, isso não impede que sintamos o mal estar e as emoções que nos inundam. Ou seja, a resposta fisiológica (tremores, suores) acontece independentemente da nossa força de vontade para tentar evitá-la.

3) Condutas cognitivas

São aquelas que conhecemos como pensamentos. Simplificando bastante, podemos dizer que os pensamentos podem elaborar-se de duas maneiras: como imagens (representações do que vemos) e como autoverbalizações, ou seja, como mensagens que dizemos a nós mesmos. Estas condutas não são observáveis por outras pessoas. Isto não impede que nos demos conta delas e que a Psicologia as estude. (Dalia, 2004)

 

Então, podemos pensar das mais variadas maneiras, dependendo de um número sem fim de variáveis, muitas vezes difíceis de determinar, pois estamos falando de todas as influências que sofremos durante toda nossa vida, e não somente na infância. Isto torna cada reação a diferentes acontecimentos uma coisa absolutamente pessoal e particular, o que nos torna seres únicos.

A ansiedade é uma resposta mal aprendida que nos segue por toda parte e oferece todo tipo de conduta: motora, fisiológica e cognitiva, mas a de maior peso é a resposta fisiológica, ou seja, as mudanças em nosso corpo, como taquicardia, rubor, tremores, enjoos, etc. Desses sintomas, os que mais incomodam os músicos, segundo Dalia, seriam os tremores e o medo de que o público os perceba. Tais condicionamentos são aprendidos através do Condicionamento Clássico e do Reforço Negativo. O Condicionamento Clássico é um mecanismo descoberto pelo fisiólogo russo Iván P. Pavlov quando estudava o que ele denominava “mecanismos reflexos da digestão”, analisando a secreção salivar dos cachorros antes da chegada da comida.

Consiste na associação de um estímulo neutro (E.N.), que não provoca nenhuma resposta, com outro estímulo que produz uma resposta para converter aquele em um estímulo capaz de produzir uma resposta. (DALIA, 2004)

Exemplificando, seria o caso do músico que passou por um momento de extrema ansiedade durante uma apresentação em determinada sala e que, voltando a esta sala como público, sinta as mesmas sensações (condicionado pelas experiências anteriores) que teve quando estava tocando. Com a repetição dessas sensações, maior será a possibilidade de surgirem respostas de ansiedade. E não só lugares ou palcos podem ser estímulos, mas outras coisas podem tornar-se ansiógenos, ou seja, que causam ansiedade.

Então, podemos entender que a reação de ansiedade é um mecanismo que dispara quando não deve, como um medo irracional a algo, que chamamos estímulos, pois é capaz de provocar uma resposta em nosso organismo. Dependendo desses estímulos, podem-se distinguir diferentes patologias ou podemos dizer diferentes transtornos de ansiedade: fobias específicas (quando o estímulo pode ser considerado concreto: pombas, água, altura, aranhas, tempestades, aviões, etc..), hipocondria (quando o estímulo é a certeza equivocada de que se tem uma enfermidade), estresse pós-traumático (associado a acontecimentos desagradáveis como acidentes, etc…). E quando se trata de ansiedade cênica, de que tipo de ansiedade estamos falando? Vamos encontrar alguma resposta na descrição da Fobia Social feita pelos manuais de saúde.

Para o diagnóstico da Fobia Social, encontramos os seguintes critérios: o medo persistente de atuações em público ou da exposição a pessoas fora do seu círculo familiar causa medo de atuar de modo embaraçoso; a exposição a situações sociais temidas provoca uma reação imediata de ansiedade; o indíviduo reconhece que é um medo excessivo ou irracional; evita-se a situação temida ou experimenta-se um mal estar intenso; as reações descritas anteriormente interferem na rotina do indivíduo; os medos e comportamentos descritos não estão relacionados a nenhum outro estímulo como drogas, remédios ou outra enfermidade médica ou outro transtorno mental. (DSM, Manual de Desordens Mentais, A.P.A. 2002).

Na Revista Galileu (Ed. 03/2012), o repórter Alexandre de Santi apresenta um esquema de como o corpo reage à ansiedade.

O circuito da ansiedade normal e da patológica é o mesmo. O que o diferencia da simples tensão da doença é a frequência e a intensidade, que é o que determina a descarga dos hormônios do estresse.

1 – Quando estamos diante de uma situação tensa, a amígdala interpreta a situação como uma ameaça que pode pôr em risco o corpo.

2. Logo, envia instruções ao hipotálamo e à matéria cinzenta peiaquedutal do mesencéfalo, que respondem ao estímulo mandando o organismo se proteger.

3. O organismo interpreta o recado secretando os hormônios do estresse (adrenalina e cortisol) e reagindo com imobilidade atenta, fuga ou luta.

4. Se a ansiedade se eleva, uma descarga de adrenalina e cortisol deixa o raciocínio ágil, os batimentos cardíacos mais fortes e aumenta o fluxo sanguíneo em braços e pernas. O cortisol faz o organismo liberar mais glicose no sangue, dando energia extra ao indivíduo. A pupila se dilata e o corpo sua – especialmente nas mãos.

5. Se os níveis de ansiedade permanecerem altos, começa a haver mais liberação de cortisol, que pode levar à exaustão. Em altas doses, o hormônio o deixa sobressaltado e desconcentrado.

6. Ao se tornar crônica, a ansiedade gera pressão alta, reduz a imunidade, traz problemas cardíacos e pode causar até câncer, já que as defesas se exaurem por causa do permanente estado de alerta e das altas doses de cortisol. (Frederico Graeff, neurocientista da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto apud SANTI, 2012)

Aprender a lidar com a ansiedade também passa por aprender a identificá-la. Em sua reportagem, Santi explica que ainda é difícil identificar se o que se experimenta é ansiedade, estresse ou uma tensão qualquer. “O que essas três emoções têm em comum é que estão relacionadas às reações de defesa” (GRAEFF apud SANTI, 2012). Todavia, uma pessoa comum não tem equipamentos a seu dispor que possam dimensionar o que ela está sentindo. E, em cada caso, diferentes regiões do cérebro são estimuladas. Na ansiedade, são ativados o córtex pré-frontal e a amígdala. Na fobia, ocorre uma ativação dos circuitos do medo, cujo componente mais importante é o hipotálamo entre o tronco cerebral e a parte anterior do cérebro. E no pânico, quando nosso corpo entende que há um perigo iminente nos ameaçando, são ativadas porções mais primitivas do cérebro, situadas no tronco cerebral, parte mais posterior do órgão. (REVISTA GALILEU, 2012).

No caso da fobia, o único tratamento eficaz é o cognitivo-comportamental. Se a pessoa tem medo de altura, ela deve ser levada a lugares altos, até que consiga relaxar. No transtorno do pânico, antidepressivos funcionam. E é possível reduzir rapidamente a ansiedade crônica com medicamentos ansiolíticos, enquanto que para os pacientes que sofrem da síndrome do pânico esses mesmos medicamentos não fazem efeito nenhum. (GRAEFF apud SANTI, 2012)

No comentário acima, o Doutor Graeff, neurocientista, aborda somente as terapias científicas apoiadas na Psiquiatria e na Psicologia, mas sabemos que há terapias alternativas que podem ser efetivas em alguns casos mais brandos de ansiedade, como por exemplo, a meditação, a yoga, os exercícios físicos e medicamentos homeopáticos. O importante é que o indivíduo que apresente um nível de ansiedade que esteja prejudicando seu desempenho profissional e sua qualidade de vida procure aquela terapia que seja efetiva e dê resultados. Isso, assim como o caminho que fizemos até chegar à ansiedade, depende de cada um, mas sempre lembrando que o estado de atenção nos deixa mais preparados para a vida e que certa dose de ansiedade pode ser nossa aliada.

Para entender a ansiedade de desempenho, ou seja, aquela que apresentamos quando temos que nos expor socialmente, podemos citar a fobia social e procurar entendê-la. Existem dois tipos de fobia social: a generalizada e a específica ou concreta. A fobia social generalizada é aquela em que as pessoas sofrem diante de qualquer estímulo social. A fobia social específica ou concreta é quando este sofrimento é provocado por uma situação social, mas não em outras. Baseado nisso, podemos dizer que a ansiedade cênica é um tipo de fobia social específica, onde o estímulo ansiógeno é o palco.

A pessoa se expõe perante outras não de maneira anônima, mas sim com a intenção de ser percebida, de que a escutem, ouçam ou vejam, pois vai levar a cabo uma comunicação, uma interação. Por essas podemos entender como sendo aquelas situações em que a pessoa se expõe de maneira especial à avaliação dos demais: televisão, público, rádio, alunos, etc… (DALIA, 2004)

No caso da ansiedade cênica em músicos, podemos considerar como estímulos também situações como concertos com orquestra e grupos, audições, provas, concertos como solistas, interpretar para colegas ou professores, interpretar solos com orquestra ou ainda gravações.

Assim como Hines, citado na Introdução deste artigo, e como vimos no artigo de Santi, Dalia também afirma que uma dose pequena de nervosismo é boa para ativar os sentidos do músico. O problema é quando este nervosismo se torna incontrolável e interfere de forma negativa na execução musical. Uma maneira de saber se o músico sofre de ansiedade cênica é observar e comprovar se a apresentação musical se deteriora em relação aos ensaios e se aparecem as respostas fisiológicas típicas (tremores, suor, boca seca, enjoos, taquicardia). O ideal é que o nível da execução esteja igual ou próximo ao nível apresentado nos ensaios. É verdade também que muitos intérpretes não se sentem angustiados com essa subida no nível da ansiedade e, mesmo que sofram uma ativação no seu sistema fisiológico, isso não tem repercussão na sua execução. Essa repercussão aparece frequentemente naqueles músicos que não conseguem desfrutar da execução pelo excesso de preocupação com não cometer erros ou ainda soar da maneira mais perfeita possível. Esses músicos sentem satisfação ao saírem do palco porque acabou a apresentação e não porque saborearam o momento e transmitiram tudo o que sabiam da melhor maneira que foi possível naquela apresentação.

Podemos observar também o nível de ansiedade revelado antes das apresentações, denominada ansiedade antecipatória e que pode acontecer minutos, dias, semanas ou meses antes, podendo manifestar-se desde uma preocupação até insônia, irritabilidade, problemas intestinais, episódios depressivos ou instabilidade emocional.

Ainda mais importante é observar o que acontece depois da apresentação. Se tudo correu bem, pode ser que alegria e satisfação apareçam, mas se algo deu errado e o músico fica repassando estes erros e repetindo frases negativas de maneira rígida e irracional, este mal estar se estende por muito tempo e provavelmente poderá deteriorar cada vez mais não só a performance (com baixa auto-estima, menos vontade de estudar, imagem negativa de si próprio….) mas também outras áreas como a família, o casamento, o trabalho e até as amizades.

Para tratar estes transtornos psicológicos que afetam o nível da interpretação musical, é fundamental que o músico aceite que isto está acontecendo e procure ajuda. Muitas pessoas que sofrem de algum transtorno não percebem e precisam ser alertadas por pessoas próximas de que estão sofrendo com este comportamento. Em primeiro lugar, é necessária uma avaliação clínica feita por um psicólogo, profissional especializado em tratar a conduta e comportamento humanos, para diagnosticar se a ansiedade está associada a alguma outra patologia como depressão, irritabilidade, consultas obsessivas, ou qualquer outra que possa dificultar o tratamento. A avaliação clínica individual é fundamental para definir as técnicas de tratamento adequadas a cada pessoa.

Importante assinalar que uma pessoa vai ao psicólogo para aprender, pois é como um curso onde ela vai adquirir alguns conhecimentos teóricos, mas eminentemente práticos para mudar alguma área de seu comportamento. (DALIA, 2004)

As causas da ansiedade cênica podem estar em fatores desencadeantes como, por exemplo, algum fato muito desagradável ocorrido no passado que ficou marcado na lembrança como um momento que não queremos que se repita. Geralmente, estes fatores acontecem no ambiente familiar, através da educação e também dos modelos que aprendemos a imitar enquanto crescemos. Também podemos sofrer pressão para alcançarmos padrões de perfeição, que não nos permitem falhar. Existe também uma vunerabilidade biológica, ou seja, algumas pessoas são mais predispostas a desenvolverem transtornos de ansiedade. Por último, a pressão por resultados que pode favorecer a ansiedade, o medo e a insegurança.

Além dos fatores desencadeantes, temos os fatores mantenedores que fazem com que o problema se torne crônico e, longe de melhorar, piore cada vez mais. O mais importante destes fatores é o Reforço Negativo de Conduta, onde uma resposta pode ser reforçada positiva ou negativamente. Dalia afirma que todos os transtornos de ansiedade se mantêm por Reforço Negativo, que se manifesta por Evitação ou Escape. A Evitação acontece quando, após algum acontecimento traumático, passamos a evitar que este se repita. Por exemplo, no caso dos músicos, tocar em público ou qualquer outra atividade que o faça sentir-se mal. O fato de evitar a situação só faz com que as respostas de ansiedade sejam reforçadas. “A evitação é que mantêm a ansiedade” (Dalia, 2004). O Escape é quando a pessoa tenta enfrentar aquilo que teme, mas logo encontra uma forma de escapar. O músico realiza o escape motor, quando não consegue encarar a plateia, o escape fisiológico, quando toma um tranquilizante ou bebe algo alcoólico, e o escape cognitivo, quando pensa que o que vai fazer não tem importância e que tanto faz o que possa acontecer.

E como podemos tratar a ansiedade cênica afinal? Dalia responde à nossa pergunta:

Para vencer a ansiedade cênica tem se demonstrado eficaz o que se denomina tratamento multicompetente, ou seja, um tratamento onde se utilizam distintas estratégias, pois já está comprovado que as características da ansiedade se dão em três níveis de conduta (motora, fisiológica e cognitiva) e, por isso, é necessário intervir nas três respostas. (DALIA, 2004)

Não vamos descrever detalhadamente todos os tipos de tratamento que podem ser utilizados. Mas, apenas citá-los:

  • Medicação
  • Exposição aos estímulos temidos
  • A terapia cognitiva, onde se aprende a lidar com as emoções negativas.
  • Relaxamento
  • As autoinstruções, ou aquilo que nos dizemos e como dizemos.
  • Os hábitos de estudo (planejamento, pausas para descanso, não forçar a perfeição, ter atitude positiva, evitar distrações, aceitar que podemos cometer erros e relaxar).

Barry Green, em seu livro, The Inner Game of Music, também aborda o tema da ansiedade e do medo, através de um enfoque diferente. Ele começa lembrando-nos de como tudo era mais fácil quando éramos crianças, ainda livres dos estímulos que causam a ansiedade. Quando somos crianças, temos uma incrível capacidade de aprender. “Não seria maravilhoso se pudéssemos combinar nosso conhecimento e maturidade com essa transparência infantil e sua infinita curiosidade – assim poderíamos aprender, executar e ouvir música com a abertura de uma criança?”. (GREEN, 1986). Green aborda a necessidade de recuperarmos nosso potencial juvenil de aprendizado para sermos músicos melhores. Suas ideias surgiram da leitura do livro The Inner Game of Tennis, de Timothy Gallwey, que enfatiza três leis básicas para o aprendizado de qualquer coisa: confiança, consciência e vontade.

As habilidades fundamentais de confiança, consciência e vontade irão fornecer maneiras de aumentar a nossa concentração, superar dúvida, nervosismo e medo, e nos ajudar a chegar mais perto de nosso potencial em quase todos os campos. Eu vi muito bem como essas habilidades podem melhorar tanto o aprendizado quanto a perfomance da música. (GREEN, 1986)

Green diz que aprendeu com Gallwey que, em tudo que fazemos, há dois jogos sendo jogados: um jogo exterior, onde nós superamos obstáculos fora de nós mesmos, para chegarmos a um outro objetivo, e um jogo interior, em que superamos os obstáculos internos, tais como insegurança e medo. O jogo exterior é aquele onde todos nós sabemos o que estamos jogando. “Você joga num mundo exterior contra um oponente externo” (GRENN, 1986). Mas, enquanto você joga este jogo exterior, um jogo interior acontece, um jogo que é mais sutil, menos notado e mais facilmente esquecido. É jogado na mente e os obstáculos são mentais, tais como lapsos de concentração, nervosismos e insegurança. Esses dois jogos estão relacionados e cada um tem um impacto sobre o outro. O problema é quando jogamos os dois, mas pensamos que estamos jogando somente o jogo exterior. Como Tim Gallwey diria: “o jogo acaba por jogar a pessoa“. Dominar o jogo interior equivale a saber o que está se passando dentro de nós e reduzir o que Gallwey chama de self-interference ou a auto-interferência, um tipo de estática mental que interfere em nossas habilidades naturais, através de sentimentos como ansiedade, medo, fracasso e insegurança, causando-nos estresse e deixando nossos músculos tensos.

Para identificar estas auto-interferências, Green sugere que pensemos no que nos deixa nervosos quando vamos para o palco. Ele afirma que muitos músicos com quem falou, muitos deles no topo de suas carreiras, pareciam ter as mesmas preocupações, como, por exemplo:

  • Duvidaram da sua própria capacidade
  • Tiveram medo de perder o controle
  • Sentiam que não tinham praticado o suficiente
  • Estavam preocupados porque eles poderiam não ver ou ouvir corretamente
  • Estavam preocupados com seus músicos acompanhadores
  • Pensavam que seu instrumento podia funcionar mal
  • Preocupavam-se sobre perder seu lugar na música (sua entrada)
  • Duvidavam que a audiência fosse gostar deles
  • Temiam esquecer o que eles haviam memorizado tão bem
  • Ou temiam que, mesmo que tudo corresse bem, seus pais ainda estariam desapontados por eles não terem escolhido outra profissão.

Feita nossa própria análise, ele sugere que listemos os efeitos mentais e físicos enquanto estamos tocando, estudando ou ouvindo música. Abaixo, algumas das sensações listadas por ele:

Problemas físicos:

  • Perda de fôlego
  • Boca seca
  • Aumento dos batimentos cardíacos
  • Mãos úmidas
  • Dedos, braços ou joelhos tremendo
  • Perda da capacidade de ver ou ouvir claramente
  • Perda da sensibilidade nos dedos
  • Tensão
  • Rigidez do corpo
  • Sentir-se doente

Problemas mentais:

  • Voz interior culpando ou rezando
  • Esquecer a letra ou o dedilhado
  • Esquecer a música
  • Perda do senso rítmico
  • Ficar distraído
  • Perda da concentração

Baseado nos textos de Dalia e Green, foi elaborado o questionário aplicado em cantores profissionais. O cruzamento desses dados será apresentado na parte III deste artigo, bem como trechos das entrevistas abertas feitas com alguns deles.

Mas, gostaria de encerrar esta parte citando um artigo da edição de março de 2012, da Revista Galileu, intitulado “Delete Freud de sua vida”, da professora de história da Universidade de Chicago, Alison Winter, autora do livro Memory: Fragments of a Modern History (Memória: Fragmentos de uma História Moderna, sem edição no Brasil).

Para os neurocientistas, o problema com lembranças ruins é que despertam reações químicas que atrapalham o funcionamento do cérebro. Mas há como reverter isso. Os pesquisadores argumentam que esse órgão não é uma parede construída tijolo por tijolo, mas sim um tapete persa, constituído por fios entremeados. A carga genética, as experiências pessoais, a formação familiar, tudo se soma para formar o que somos, mas a base, o fio do tapete, é uma rede de neurônios, que responde a reações químicas. A memória está localizada em partes específicas dessa rede. Se alguma lembrança atrapalha o todo, bastaria resgatar o equilíbrio químico original. Uma das soluções para isso se baseia em medicamentos…..O próximo passo, por enquanto sonhado mas não testado, vai ser a cirurgia para remover memórias específicas – tal como no filme Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (2004). A rede de neurônios é um fio entremeado, mas a memória tem endereço certo: o córtex pré-frontal infralímbico. É ali que os médicos pretendem mexer, assim que conseguirem selecionar as conexões das más lembranças. Quando este momento chegar, poderemos tratar os traumas com uma simples cirurgia, e não com anos e anos de terapia. (WINTER, 2012).

Lendo isso, não pude deixar de pensar nos neurocientistas como uma espécie de semideuses, agindo na nossa consciência. E pensar na polêmica ética que vai surgir quando nos perguntarmos: mas, apagar essas lembranças não vai tirar de nós um pouco da nossa identidade? Será que não é melhor aprendermos a viver com nossas lembranças, boas ou más, ao invés de simplesmente as apagarmos?

 

2.3 – O professor de canto e o medo do palco

Havia uma postura, poucos anos atrás, de distanciamento entre professores de canto e seus alunos. Parece que era necessária uma aura de endeusamento para que o estudo do canto funcionasse. Minha experiência pessoal foi de amor e ódio com meu primeiro grande professor, o baixo brasileiro Zuinglio Faustini, falecido em 1998. Durante as aulas, ele era extremamente duro e exigente e sua justificativa para agir assim vinha com a seguinte frase: “Espere até você enfrentar o primeiro maestro. Aí você verá o que é sofrimento“. Ele não estava errado. Conheci e trabalhei com maestros ainda mais duros e exigentes que ele. Fala-se que não cabem mais no mundo de hoje maestros e professores como estes. Valoriza-se a relação interpessoal entre os artistas envolvidos numa produção artística.

Realmente, meu processo de aprendizagem foi difícil. Muito, porém, por culpa do meu próprio desconhecimento em relação ao canto erudito. Era penoso tentar entender o que o mestre Faustini queria transmitir em termos de técnica. Talvez por causa do método empírico que o mesmo usava e que para ele havia funcionado. Graças a todas as dificuldades que tive, fui levada a pesquisar e a buscar alternativas, o que me trouxe bastante conhecimento e novas perspectivas. Em relação ao palco, não havia medo, apenas certa dose de ansiedade, mas o prazer de estar no palco superava qualquer sentimento negativo. Eu já frequentava os palcos desde criança. Então, para mim não era nem nunca foi um sofrimento, a não ser nas poucas vezes em que subi insegura em relação à música que ia cantar. O que posso afirmar com certeza é que nenhum dos professores que tive abordou os aspectos psicológicos da preparação para o palco.

Em toda a literatura pesquisada para embasar este artigo, encontramos a referência ao medo e à ansiedade em relação à performance artística. Ricardo Callejo, diretor do Conservatório Profissional de Música de Valência, Espanha, ao prefaciar o livro “Como superar a ansiedade cênica em músicos”, de Guillermo Dalia, diz que: “A ansiedade cênica faz parte e, com muita frequência, parte importante do conjunto de ingredientes que constituem a prática profissional da música e por isso é necessário estudá-la” (DALIA, 2004).

Mas, curiosamente, encontramos a seguinte frase no discurso de abertura do simpósio “Música e Saúde”, realizado na Noruega em 1985: “…a música aumenta nosso bem estar, capacita-nos a relaxar, estimula o pensamento e a reflexão, proporciona consolo e nos acalma, ou nos torna mais energizados, nos leva a sair do lugar e ir à luta” (LANGSLET apud RUDD, 1991). Podemos supor que o autor da frase refere-se à pessoa que ouve a música, que recebe o estímulo advindo do fazer musical. Por que então para alguns músicos que proporcionam todas estas sensações, o fazer musical pode ser um sofrimento? Quais os fatores que transformam uma apresentação pública num martírio? E por que nos parece que enfrentar isto através de ajuda profissional ainda é tabu?

Durante muito tempo, escutamos de muitos companheiros e companheiras afirmações e opiniões sobre a ansiedade cênica que, afortunadamente estão em desuso e que hoje nos escandalizariam. Se um aluno padecia deste problema dizia-se: “não serve para isto”, “é melhor que se dedique a outra coisa”….as soluções didáticas eram: “com o tempo isso se resolve”, “a obrigação de se apresentar em público vai fazê-lo se acostumar”, ou ainda: “as provas de banca são boas porque ajudam o aluno a superar o medo cênico”. Sem comentários. (LUDENA apud DALIA, 2008)

Podemos supor que a ansiedade e o medo do palco surgem com a profissionalização do músico e o surgimento das apresentações públicas, quando o nível de exigência passa a ser mais alto e começam as comparações entre os artistas de um mesmo instrumento. Os artistas mambembes, que se apresentavam pelas ruas das cidades desde a Idade Média, provavelmente não eram alvo de críticas especializadas nem tinham que se submeter a regimes extenuantes de estudos virtuosísticos. O que interessava ao público era apenas se deliciar com a verdade poética (fosse dramática ou satírica) que tivessem o trabalho de transmitir em sua performance.

Por outro lado, os cantores da camera e os que viviam profissionalmente do canto nas igrejas já nutriam o estresse que a cobrança de perfeição gerava. Mesmo que o público não tivesse nenhum problema com uma garganta rouca ou com um resfriado.

As idiossincrasias dos cantores parecem ser tão antigas quanto a atividade em si. No capítulo (Libro) VI do clássico latino A vida dos doze césares (SUETÔNIO, s.d.) o historiador e cronista romano Suetônio (69-141 d.C.) deixou um relato pitoresco sobre o imperador Nero. Louco e cantor por inclinação natural, entregava-se com toda a disciplina – à sua maneira, naturalmente –, às apresentações e torneios públicos.

Pouco a pouco, começou ele próprio a trabalhar e a exercitar-se, sem omitir nenhuma das precauções habituais aos artistas deste gênero para a conservação da voz e o seu aumento de volume: dormia de costas, resguardando o peito com uma folha de chumbo; tomava clísteres e vomitórios; abstinha-se de frutas e alimentos pesados. Enfim, entusiasmado com os seus progressos, embora de voz fraca e roufenha, mostrou-se desejosíssimo de aparecer em cena, repetindo aos seus familiares o provérbio grego em que se assegura que “uma música escondida não pode ser admirada”. Estreou, pois em Nápoles em 64 d.C. e, a despeito dum tremor de terra que abalou totalmente o teatro, não cessou de cantar senão depois de concluir a ária vocalizada. (…) Cantou também nas tragédias, usando máscaras. E as máscaras dos heróis e dos deuses eram feitas à sua semelhança e à da mulher por ele amada no momento. (…) Enquanto cantava, não se permitia a ninguém sair do teatro, mesmo em caso de necessidade… Reconta-se que muitíssimas pessoas, fatigadas de ouvir e aplaudir, encontrando fechadas as portas, saltavam furtivamente do alto dos muros. (…) Tratava seus antagonistas como se fossem rigorosamente da sua condição. Observava-os, atirava-lhes baldões d’água em seguida, crivava-os algumas vezes de injúrias ao se reencontrarem e, se possuíam mais valor do que ele, subornava-os. Aos seus juízes, endereçava-lhes, antes de começar, respeitosa alocução, dizendo que “tinha feito tudo quanto era possível fazer, mas que o bom êxito estava na mão da fortuna”. (…) Quanto ao mais, obedecia tão estritamente às leis do concurso que jamais ousou sequer salivar, e enxugava com a mão o suor da fronte. (…) Proclamava-se ele próprio vencedor. (…) Para que não restasse resquício algum de todos os outros vencedores dos jogos sagrados, mandou derrubar, arrastar e atirar às latrinas todas as estátuas e todos os retratos de seus oponentes. (SUETÔNIO, s.d.)

O grande mecenas Giovanni de’ Bardi, idealizador da Camerata Fiorentina, escreveu, por volta de 1580, o notável Discurso Sobre a Música Antiga e a Boa Arte do Canto, endereçado a Giulio Caccini, [Também] Chamado de Romano. Com propriedade, ele dá uma série de instruções sobre o proceder dos cantores que se afinassem com a nova ordem proposta pela Camerata. Pelas palavras do nobre florentino, deduz-se que a prática da época era bastante diversa.

(…) quando cantar, você deverá assumir uma postura apropriada, tão parecida com a sua postura habitual que seus ouvintes se perguntarão se o som está vindo de seus lábios ou dos de outra pessoa. E você não imitará aqueles que, afanosamente, começam [a performance] afinando suas vozes e contando aos ouvintes suas desgraças, dizendo que se resfriaram, que não dormiram na noite anterior, que seu estômago não está bem hoje e outras coisas deste tipo, tão entediantes que antes mesmo de começar a cantar eles já acabaram com o prazer do público com suas irritantes desculpas. (tradução do inglês: Ângelo Dias) (STRUNK, 1950)

Em relação ao canto, os primeiros tratados de técnica vocal só aparecem no final do século XVII (PACHECO, 2006). Assim, podemos concluir que até então o ensino do canto era feito de forma empírica. Também sabemos, através destes tratados e dos livros da época, que cantores e instrumentistas tinham igual papel na construção da música que o público ouvia. Muitas vezes, uma composição era alterada em função do cantor que a interpretaria.

Em todas as épocas – em particular nos séculos XVIII e XIX -, os próprios compositores, ao escreverem as músicas para seus solistas específicos, tentavam ressaltar as qualidades vocais deles e minimizar os seus defeitos. Se algum desses cantores era substituído, o compositor “adaptava” a música, para que a escrita continuasse servindo às qualidades do novo cantor. (PACHECO, 2006)

Mas, assim como o processo de composição mudou com o tempo, mudaram também as exigências do público e as questões pedagógicas. Surgiram os virtuoses, as “divas” e as escolas de canto, que competiam entre si.

Alberto Pacheco, em seu livro “O Canto Antigo Italiano: uma análise comparativa dos tratados de canto de Pier Tosi, Giambattista Mancini e Manuel P.R. Garcia”, disseca extensamente todos os aspectos de técnica vocal abordados pelos autores. É interessante observar que nenhum deles se prende a aspectos emocionais da aprendizagem, mas todos falam de aspectos morais. Por exemplo, Tosi, que escreveu seu tratado em 1723, aborda os aspectos sociais e morais em dois capítulos: no capítulo 6, “Observações para quem estuda”, onde dá conselhos para o estudante, mostrando a melhor maneira de estudar e de se comportar em sociedade e no capítulo 9, “Observações para um cantor”, onde direciona seus conselhos para o cantor profissional.

O tratado de Mancini, escrito em 1774, com segunda edição em 1777, divide-se em 15 capítulos e, assim como Tosi, ele também dá conselhos éticos e morais no primeiro capítulo. No capítulo 15, intitulado “Da boa ordem, regulamento e graduações que deve observar um jovem estudioso no aprendizado da arte do canto”, Mancini dá conselhos para que o estudante faça um bom estudo. Se pensarmos no momento histórico em que viveram Tosi e Mancini, vamos visualizar uma Itália rural, dividida em vários reinos e sob forte influência da Igreja. Neste tempo dominado pelo Antigo Regime, imperavam os cantores castrati, jovens castrados para manter suas vozes agudas e com características femininas. As mulheres não podiam ainda se apresentar em público, nem no teatro nem na ópera. A sociedade era fortemente hierarquizada e sua nobreza estabeleceu várias regras de comportamento dito “civilizado” (PACHECO, 2008). Isso tudo justifica a razão dos cuidados de Tosi e Mancini com o “bom” comportamento social e moral de seus alunos.

“Estes, vindo de uma classe social mais baixa, deveriam ser civilisé, para tornar possível sua convivência com a classe alta europeia, mesmo que apenas como artistas contratados. Esses cuidados são expressos várias vezes nos tratados de Tosi e Mancini, sendo mais frequentes no primeiro.” (PACHECO, 2008).

(O estudante) precisará aprender junto à arte de cantar bem, aquela de saber viver, que consiste totalmente, no bom decoro da vida civilizada. Esteja esta unida ao mérito que se fará no canto e ele poderá, então, esperar o favor, dos Monarcas, e a estima universal” (TOSI apud PACHECO, 2008)

Em nenhum dos tratados é abordado o aspecto psicológico do aprendizado do canto. Sabemos, porém, através de outros livros da época, que já existia forte competição entre os cantores, inclusive com admiradores que se dividiam em comparar as qualidades de cada um deles e endeusá-los. Resta saber como eles conviviam com essa fama e se há algum relato da época sobre ansiedade ou medo de se apresentar em público.

Garcia, que escreveu seu tratado em 1847, cita os tratados de Tosi e Mancini, mas os considera vagos e incompletos. Fica muito clara a intenção de Garcia em ser racional, “preciso e científico, tentando escrever um método de canto que fosse sistemático e analítico” (PACHECO, 2008). Os capítulos de seu tratado são praticamente todos dedicados à técnica do canto, com exceção do terceiro, “Observações preliminares”, onde ele fala sobre as qualidades que um aluno de canto deve possuir, sobre os abusos vocais no canto e faz algumas considerações sobre a maneira correta de estudar.

Todavia, encontramos no livro de Pacheco uma citação de Garcia que nos chamou a atenção pelo seu aspecto psicológico. Garcia situa a arte de frasear como o ponto mais alto na ciência do canto. “Ela abarca a pesquisa de todos os efeitos (expressivos) e os meios próprios de produzi-los” (GARCIA apud PACHECO, 2008). Depois de discorrer sobre os aspectos interpretativos, ele afirma que o cantor deve agir sobre a alma de seus ouvintes, transmitindo a eles a emoção que ele representa:

A execução musical, reduzida a um simples mecanismo, mesmo acompanhada da mais perfeita correção, se alguém a pudesse supor independente da expressão, deixaria o canto frio e sem vida; mas, é necessário dizer, esta mesma correção só é possível quando for sustentada por um certo grau de calor e energia.

(….) o cantor para se familiarizar com os acentos da emoção e se preparar para aplicá-los com mestria, deve aperfeiçoar sua própria sensibilidade e analisar seus sentimentos. (GARCIA apud PACHECO, 2008).

Outro grande professor de canto do século XIX, Giovanni Battista Lamperti, deixou algumas citações mais diretas sobre o aspecto emocional no aprendizado vocal. Podemos citar algumas frases como por exemplo:

Nunca diga a um aluno “Você canta de forma incorreta” ou “Você canta mal”. Você deve guiar o progresso do aluno, sem a consciência de seu propósito ou intenção. Mais tarde, é fácil explicar o que você realizou. Nunca diga nada muito prematuramente

– fale apenas das necessidades imediatas, nunca das coisas que virão.

– Nunca diga nada aos alunos que irá confundi-los ou desencorajá-los (“especialmente para as mulheres que são naturalmente pessimistas“) (grifo nosso). A maioria dos médicos não explica a doença para seus pacientes.

– O segredo da arte de ensinar é esperar até que o aluno esteja pronto para entender a sua explicação e a situação. Nunca sobrecarregar o aluno de uma só vez. O professor e o aluno devem se tornar tão próximos que eles pensem como um (…).

– Um “artista”. Quão tolo pensar que tal fenômeno como vibração poderia ser produzido e controlado pela mente e os músculos. Eles são apenas ferramentas de emoção, que reproduzem o som que a imaginação ouve. Mente e músculos devem ser desenvolvidos e sensibilizados ao enésimo grau, mas eles nunca devem assumir o comando da performance.

– Complexos psicológicos são mais difíceis de superar do que desajustes fisiológicos são para reajustar. Quando ambos os processos mental e corporal estão errados é necessário um trabalho longo e lento para endireitá-los. Nós nunca devemos ser desencorajados pelo fracasso, pois geralmente ele revela uma falha que pode ser corrigida.

– Cantar é um processo subjetivo. (LAMPERTI apud BROWN, 1931)

O que torna estas frases dignas de nota é saber que foram escritas entre os anos de 1891 e 1893. Apesar de existir como conceito desde a Antiguidade Clássica, a Psicologia só começa a ser vista como ciência no século XIX, graças a Wilhelm Wundt (1832-1920), que, em 1879, na Universidade de Leipzig, Alemanha, criou o primeiro laboratório experimental de psicologia. A psicologia separa-se da filosofia e torna-se ciência (HEIDBREDER, 1981). Provavelmente, os professores de canto até então se limitavam aos aspectos técnicos e morais do ensino, como vimos nos tratados estudados por Pacheco e nas notas de Lamperti.

A relação aluno/professor de música é única por vários motivos. Dalia elenca três razões para que isto ocorra:

  • Muitas horas de aulas individuais em que permanecem ambos sozinhos.
  • A relação geralmente começa com o aluno ainda muito jovem.
  • A relação frequentemente dura muitos anos e, muitas vezes, toda a vida (DALIA, 2008)

Graças a estes aspetos, criam-se laços de amizade e afeto que superam a relação acadêmica e pedagógica. Apesar de ser uma relação bidirecional, cabe ao professor administrar essa relação, já que é normalmente mais velho que o aluno e com anos de experiência e preparação. É importante que desde o início fiquem claros os papéis de cada um, mestre e aluno. O que torna complicada essa relação é a influência que o professor virá a ter sobre o aluno, sendo muito comum que alunos e profissionais comentem “eu sou aluno de tal ou qual professor“, indicando que pertencem a uma determinada escola ou corrente. Será que ambos, mestres e alunos, estão conscientes de toda a carga emocional que este relacionamento carrega?

Os vínculos que se estabelecem geralmente são construídos durante muito tempo e, na maioria das vezes, de maneira não consciente nem perceptível por ambos, inclusive sendo difícil de encontrar palavras que os descrevam de maneira precisa. Não é fácil especificar as condutas inadequadas e vê-las individualmente, separadas de seu contexto, se bem que podemos dar algumas recomendações. Que importante seria que os professores tivessem apoio psicológico para essas missões e que fossem orientados de forma profissional em cada caso. (DALIA, 2008)

Os alunos de canto, assim como os alunos de qualquer instrumento, procuram um modelo em seu professor. Para isto, procuram ter classes com grandes instrumentistas, que nem sempre são grandes pedagogos. O contrário também pode acontecer: instrumentistas nem tão brilhantes na execução, mas excelentes professores. Em ambos os casos, o aluno pode vir a enxergar o professor como um conselheiro, um exemplo a ser seguido ou um ideal a ser imitado. E muitos professores precisam disso para ocultar suas próprias deficiências artísticas e/ou pedagógicas. Dalia responde a esta questão com o seguinte comentário:

Realmente, existem opiniões para todos os gostos sobre este tema. Mas existe a ideia amplamente difundida que isso coincide, ou seja, um bom intérprete tem de ser um bom professor-pedagogo, mas não tem que ser assim. Pensemos em outras áreas, existem extraordinários cientistas ou técnicos em sua matéria (matemática, medicina, psicologia…) cuja atividade profissional é excelente, mas isso não significa que sejam bons “transmissores” desses conhecimentos. E vice-versa, existem magníficos professores que sabem transmitir seus conhecimentos e motivar os estudantes e que não desenvolveram a faceta de intérpretes de música. (DALIA, 2004)

Uma atitude frequente de alguns professores é crer que seus alunos são produção exclusiva sua, como um prolongamento de si mesmo. “Em muitas ocasiões, um comentário de alguém, uma experiência breve, pode nos influenciar muito mais do que pode parecer“. (DALIA, 2008) Mas, ainda hoje existem professores que proíbem seus alunos de ter aulas de técnica com outros professores. Já tive oportunidade de dar aulas em cursos de férias, onde encontrei alunos que se matricularam escondidos de seus professores.

Abordando os aspectos emocionais envolvidos na pedagogia do canto, podemos dizer que:

O músico em geral vive sua profissão de uma maneira muito profunda (…) também com o ensino. O professor de música não só ensina música a seus alunos (…) mas lhes transmite sua visão da arte, da música, a filosofia de vida de um músico, o amor pelo instrumento (…).
Assim, muitos professores de música em suas funções pedagógicas refletem sem querer alguns aspectos nocivos que eles mesmos aprenderam de seus professores. As ideias de perfeccionismo, divismo, competitividade…vão se colando, permeiam o ensino e aparecem sem querer. (DALIA, 2008)

Quantas vezes, sem estarmos conscientes disso, transmitimos atitudes negativas aos alunos. Como profissionais, sabemos que dificuldades vão surgir durante todo o processo de preparação e também depois, na vida profisisional. Mas, como afirma Dalia, é importante que reforcemos a ideia de que a música e o fazer musical sejam desfrutados, prazerosos.

A relação do aluno com a música há de ser de desfrute; algo ocorre quando a maioria dos estudantes recebe a proposta do professor de realizar uma audição. A resposta do aluno é de ansiedade, medo e tal proposta não é recebida como uma ocasião para poder emocionar-se e divertir-se. O que você está pensando? É uma boa pergunta para os professores. A primeira reação que vem de imediato é a ansiedade cênica, contrariedade que, por outro lado, podemos erradicar para que não obstaculize esse objetivo primordial de “curtir” o palco. (DALIA, 2008)

Não sendo o professor de canto um psicólogo formado, como poderá ele ajudar seus alunos? Dalia afirma que muitos professores sofrem de ansiedade cênica e por isso buscam levar conhecimentos sobre o assunto a seus alunos. As técnicas citadas por ele podem ser utilizadas de maneira informal, já que o professor não tem a prática da Psicologia Clínica, mas ele pode ajudar, por exemplo: “não fomentando ideias irracionais sobre perfeccionismo e catastrofismo nos alunos, premiando mais o esforço do que o resultado, aumentando a autoestima frente aos erros, expondo os alunos o máximo possível durante o curso, através de cursos, audições, concertos, etc.” (DALIA, 2004)

 

2.4 – Cruzamento de dados

Relendo as entrevistas que fiz e os questionários que recebi, encontrei várias informações e experiências pessoais que vêm ao encontro do que fala Dalia. Mas percebi também que estas atitudes, em sua maioria, foram conseguidas empiricamente. Cada cantor ou cantora aprendeu sozinho como lidar com a ansiedade e o medo e cada um manifesta diferentes gradações destes sentimentos. Como falei anteriormente, baseado na Psicologia, “podemos pensar das mais variadas maneiras, dependendo de um número sem fim de variáveis, muitas vezes difíceis de se determinar, pois estamos falando de todas as influências que sofremos durante toda nossa vida e não somente na infância. Isto torna cada reação a diferentes acontecimentos uma coisa absolutamente pessoal e particular, o que nos torna seres únicos” (DORNELLAS, 2012).

Enviei 50 questionários (em anexo) para cantores profissionais de todo país, mas omente cinco cantores me responderam. Gostaria de salientar que todos os (as) cantores (as) são pessoas com quem tenho algum grau de familiaridade, desde colegas com quem tive contato uma ou duas vezes, até colegas com quem cantei em várias óperas ou concertos. Por ser tratar de um assunto ainda considerado tabu, acredito que muitos não se sentiram à vontade para falar sobre isso. Também entrevistei seis colegas com quem já trabalhei e que considero meus amigos e amigas. As entrevistas estão transcritas nos anexos e foram muito profícuas. Foram entrevistadas as sopranos Ruth Staerke (RJ), Cláudia Ricitelli (SP) e Rosana Lamosa(RJ), os tenores Fernando Portari (RJ) e Juremir Vieira (RS) e o barítono Leonardo Páscoa (RJ).

As perguntas do questionário foram elaboradas de acordo com a leitura dos livros pesquisados. Primeiramente, vou relacionar algumas respostas dadas nos questionários:


Ansiedade

Resposta 1: Sinto um pouco de ansiedade, principalmente durante a preparação do papel/parte. Ao me deparar com as dificuldades técnicas ou musicais da partitura, aparece um pouco de ansiedade em relação ao tempo que eu vou ter para aprender a música, se vou conseguir decorar tudo a tempo. Ansiedade antes da apresentação é muito rara, só acontece no caso de um fator externo realmente dificultar minha performance, como doença ou cansaço extremo.

Resposta 2: Acho um pouco normal esta ansiedade, que me deixa “alerta”. Tenho receio de ficar calma demais e relaxar, ficar desatenta…

Resposta 3: Sinto, na maioria das vezes, uma ansiedade maior antes do período de ensaios e às vezes durante ensaios, quando tenho a responsabilidade de aprender e poder trocar, dar suporte em cena para os colegas, não atrapalhar o bom andamento do trabalho, do que quando vou para a récita, quando já está tudo pronto. A ansiedade da récita é gostosa, agradável, se tudo estiver correndo bem: voz, música, letra, cena.

Resposta 4: Penso que todo músico sente ansiedade antes de subir no palco e acredito que na dose certa essa ansiedade é sempre benéfica, pois gera a devida concentração para a realização de sua performance.

Resposta 5: o entrevistado não discorreu sobre o assunto, apesar de ter assinalado que sente ansiedade às vezes.

 

Medo

Resposta 1: o entrevistado diz não sentir medo.

Resposta 2: Raramente

Resposta 3: Tenho um prazer muito grande de estar em cena. Não tenho medo de sentir prazer. Só curto.

Resposta 4: O entrevistado diz não sentir medo. E complementa: penso que o medo para o músico é sinônimo de pouco estudo para a realização de sua performance. Se há estudo consciente e coerente, há segurança e nenhum medo, independente da ansiedade.

Resposta 5: O entrevistado diz não sentir medo.

 

O que causa mais medo ou ansiedade

2 votos para audições privadas
2 votos para concursos
1 voto para ópera
Nenhum voto para audições públicas
Nenhum voto para concertos com piano
Nenhum voto para concertos com orquestra

 

O que causa menos medo ou ansiedade

1 voto para audições privadas
1 voto para audições públicas
2 votos para concursos
2 votos para concertos com piano
1 voto para concertos com orquestra
Nenhum voto para ópera

 

Sensações mais percebidas no corpo

Aumento da secreção naso-faríngea, taquicardia, boca seca, suor nas mãos, necessidade de usar o banheiro.
Outros: salivação.
Não foram assinaladas as outras opções: falta de ar, frio, tontura, tremores, dor de estômago, dor de cabeça, dor no peito, sensação de enjoo, dormências nas extremidades (mãos e pés).

 

Você acha que seus professores de canto ajudaram na sua preparação psicológica para lidar com o medo e a ansiedade?

Resposta 1: Sim. Deixando sempre claro que a ansiedade é parte da profissão e a única maneira de evitá-la, ou pelo menos minimizá-la, é estar preparado e manter-se flexível para quaisquer mudanças que aconteçam em relação às suas expectativas.

Resposta 2: Sim. Com exemplo de dedicação e estudo. Para mim, o fator preparação está intimamente ligado ao stress da apresentação. Se estou bem preparada, tenho segurança e fico tranquila. Se falta mais preparação, é isto que vai me fazer ficar nervosa. No entanto, reconheço que formalmente eles abordaram pouco este assunto. Havia mais a sensação de que quem não “aguenta o tranco” não pode fazer carreira…

Resposta 3: Sim. Dando-me segurança técnica para resolver possíveis problemas em cena. E, neste caso, não só os de canto, mas professores da vida e música em geral.

Resposta 4: Sim. Todos os professores que tive sempre trabalharam essa questão comigo, lançando-me ao palco juntamente com outros colegas mais experientes que eu, visando ao meu amadurecimento neste quesito.

Resposta 5: Não

 

Recursos utilizados para lidar com o medo e a ansiedade

Exercícios de respiração, exercícios físicos, meditação, oração, ansiolíticos normalmente (Resposta de um questionário: de uso diário. Nem uma gota a mais para cantar), relação sexual.

Outros: “Repassar sempre as partes que eu vou cantar”, “Ter e manter a rotina diária (de casa) em qualquer lugar que esteja. Procuro criar uma rotina mais próxima com o que tenho em casa, quando canto fora do meu “habitat”. Deve ser T.O.C. (rsrrs)”, “Exercícios de relaxamento mental e físico, muito, muito estudo”.

Não foram assinaladas as outras opções: chás calmantes, yoga, antidepressivos, ansiolíticos esporadicamente (durante um período de trabalho), bebida alcoólica antes de cantar, bebida alcoólica depois de cantar, cigarro, alguma outra substância psicotrópica.
As respostas recebidas estão diretamente relacionadas a tudo que Dalia fala. Mas podemos perceber que há uma quase unanimidade em relação à necessidade de se estar bem preparado, ou seja, estar seguro musical e tecnicamente. Nas entrevistas, também encontramos essa unanimidade. Já na forma como essa ansiedade se manifesta e nas maneiras de lidar com ela, encontramos diversificação, tanto nos questionários como nas entrevistas.

Fica claro também que a grande maioria dos entrevistados sente ansiedade, mas apenas um descreveu essa sensação como medo. A maioria das sensações assinaladas é de intensidade leve, relacionadas realmente à ansiedade. As sensações não assinaladas são mais características da pessoa que sente medo ou com algum distúrbio psicológico, como a Síndrome do Pânico.

Nos questionários, a maioria dos entrevistados diz que o professor ajudou na preparação psicológica, mas um dos entrevistados enfatiza que isso se deu mais com o exemplo do que com uma preparação formal. Nas outras respostas também não fica claro se essa preparação foi formal ou não, ou seja, se houve uma abordagem científica sobre a ansiedade e como lidar com ela.

É interessante observar também que, na questão de como lidar com a ansiedade, os itens mais polêmicos não foram assinalados, como uso de ansiolíticos, drogas, cigarro e bebida. Apenas um entrevistado assinalou a relação sexual.

Já nas entrevistas, que foram feitas de forma mais livre sem um padrão pré-estabelecido, assuntos mais tabus foram abordados, como por exemplo o uso de corticoides. Também pudemos observar que a ansiedade sempre está presente, em maior ou menor grau, e que cada pessoa lida com ela de forma diferente, mas a questão do preparo musical e vocal está em primeiro lugar no aspecto da segurança do que se está fazendo.

Um assunto muito interessante que apareceu foi a questão da influência familiar na formação artística do tenor Fernando Portari, que, aliás, nos concedeu a entrevista mais corajosa, falando sem rodeios de seus medos e de como lida com eles. Fernando Portari é atualmente considerado o tenor brasileiro de maior projeção nacional e internacional, além de ser um profissional excelente e um colega generoso, como pude comprovar trabalhando com ele na ópera Idomeneo, de Mozart, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Fernando assistiu à sua primeira ópera aos 4 anos de idade levado pelas mãos do pai, que também foi cantor lírico. Desde pequeno, toca piano e canta. Por isso, como ele diz em sua entrevista, sente o peso da responsabilidade de levar nas costas uma tradição de canto. Isso o torna extremamente exigente consigo mesmo e muitas vezes isso é causa de sofrimento.

Poderia discorrer sobre os aspectos das entrevistas, mas penso que o melhor é lê-las na íntegra, por sua riqueza de informações e pela importância artística das pessoas entrevistadas. Por isso, elas estão anexadas ao artigo e penso que serão de grande ajuda para os jovens cantores que o lerem.

Eu não poderia deixar de citar aqui as palavras da grande soprano tcheca Edita Gruberova, que recentemente foi homenageada em um vídeo chamado A Arte do Bel Canto sobre sua vida e sua carreira de 40 anos de palco.

Claro que há uma certa tensão, mas uma tensão alegre. Eu gosto de olhar para o relógio: oh, sim, ainda sobra tempo. Depois há o seu traje, tudo está pronto e, em seguida, você é chamada. É sempre assim, como estar caminhando para um teste. É importante esquecer que a plateia está sentada lá ou o que tenho que produzir vocalmente. Você simplesmente tem que mergulhar no show e no papel. Então eu subo as escadas com cuidado para não tropeçar, para não pisar no meu vestido e escorregar lá. O piso é irregular e você tem que tomar cuidado com tudo isso. E depois vem a primeira nota e eu sei que estou em casa. Eu sei, desde a primeira nota, se está bom, se soa bem, se eu estou no controle. Ele não me controla, eu o controlo. Isso é bom. Isso é o que a música tem a ver e talvez, cantando, especificamente. Com a sua voz, você pode mover as pessoas em suas almas. Isto é o pico absoluto. (GRUBEROVA, 2008) – MEDICI ARTS/UNITEL CLASSICA

 

3- CONCLUSÃO

O tema deste artigo surgiu de uma necessidade pessoal. Quando fiz o anteprojeto para entrar no Mestrado, pensava em escrever sobre um assunto específico que me parecia muito interessante. Ao cursar a disciplina Metodologia da Pesquisa em Música, percebi que, na verdade, o que eu queria era pesquisar algo que fosse útil de alguma forma para mim e para meus colegas, e que me desse prazer e alegria ao pesquisar. Daí, cheguei ao tema do medo e da ansiedade na performance do cantor lírico. E assim me vi aprendendo sobre um fator, a ansiedade extrema, que durante anos esteve presente na minha vida e que eu tinha fingido não existir. 

A leitura de livros e textos relativos ao tema desmistificou o assunto para mim. E, mais do que isso, perceber que eu não estava sozinha, nem nesses comportamentos, nem na busca de soluções, fez com que me sentisse melhor e mais forte para lutar pela cura desta patologia que tenho há 16 anos, a Síndrome do Pânico.

Os livros de Dalia, “Como superar a ansiedade cênica em músicos” e “Como ser feliz se és músico ou tem algum por perto”, específicos para este assunto tão pouco debatido, estão repletos de informações claras, objetivas e científicas. E principalmente de esperança para aqueles que sofrem destes sentimentos às vezes incapacitantes.

Fazendo esta pesquisa e escrevendo este artigo, percebi que a ansiedade e o medo de uma apresentação pública são sentimentos mais comuns entre os músicos do que se imaginava. De uma forma ou de outra, a maioria dos músicos apresenta algum grau de ansiedade e algum tipo de representação desse sentimento, mas muitos os escondem dos colegas e dos profissionais próximos. Demonstrá-los para os outros pode ser entendido como fraqueza e estigmatizar este profissional.

Não encontrei muitos estudos específicos sobre esses sentimentos em relação aos músicos. A bibliografia mais específica foi toda produzida em outros países. E ainda não temos nenhuma comprovação de um movimento no sentido de inserir o acompanhamento psicológico no processo pedagógico ou dentro do ambiente de trabalho. Em duas escolas onde trabalhei, a Escola de Música de Brasília e a Universidade de Brasília, não encontrei nenhum acompanhamento psicológico para os alunos. Na Escola de Música, existe o Serviço de Orientação, que busca identificar alunos com problemas psicológicos e dar encaminhamento a eles, mas não existe o acompanhamento psicológico, através de terapias, técnicas de relaxamento etc… O aluno que apresenta algum tipo de problema e que por isso possa causar dano físico ou moral a colegas e professores, após ser identificado, pode até ser afastado da escola.

Percebo também que há uma mudança no comportamento dos professores em relação aos alunos. Aquela ideia de um professor que se coloca num patamar superior parece estar em desuso, assim como a imagem também do maestro como um ser acima do bem e do mal. Há um movimento social entre os músicos, que parecem não aceitar mais este tipo de postura arrogante e autoritária. Isso não quer dizer que não existam professores e maestros que ainda atuam dessa forma, com distanciamento e prepotência. Existe, porém, uma tolerância menor a estes comportamentos entre os músicos profissionais. Os alunos jovens parecem ainda ser as grandes vítimas desse tipo de profissional.

Há um vasto campo a ser pesquisado e aperfeiçoado, no que diz respeito a um melhor aproveitamento da ciência Psicologia na melhoria da qualidade de ensino e performance do músico, principalmente o artista lírico, que trabalha profundamente com a emoção, já que além de executar seu instrumento, a voz, tem que também interpretar personagens, muitas vezes cheios de forte carga dramática.

Que as informações contidas neste artigo possam ser úteis aos jovens cantores que pretendem seguir uma carreira, fornecendo caminhos para que possam, com tranquilidade e equilíbrio, viverem exclusivamente da sua arte.

4 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

– ARCIER, André-François. Le trac: le comprende pour mieux l’apprivoisier apud Martins, José Eduardo. Disponível em <http://blog.joseeduardomartins.com>. Acesso em 07/07/2010. 

– ARCIER, André-François. Le trac: stratégies pour le maîtriser, apud Martins, José Eduardo. Disponível em <http://blog.joseeduardomartins.com>. Acesso em 07/07/2010.

– BROWN, William Earl (transcrição). Vocal Wisdom, maxims of Giovanni Battista Lamperti. Marlboro, New Jersey: Taplinger Publishing CO., INC. 1931 e 1957.

– DALIA, Guillermo Cirujeda. Cómo superar la ansiedade escénica em músicos. Un método eficaz para dominar los “nervios” ante las actuaciones musicales. Madrid: Mundimúsica Ediciones, 2004.

– DALIA, Guillermo Cirujeda. Cómo ser feliz si eres músico o tienes uno cerca. Madrid: Mundimúsica Ediciones, 2008.

– GREEN, Barry; GALLWEY, W. Timothy. The inner game of music. New York: Doubleday, 1986.

– HINES, Jerome. The four voices of man. New York: Limelight Editions. 1997.

– MENDES, Ana Magnólia (Org.). Trabalho e Saúde, o sujeito entre emancipação e servidão. Curitiba: Juruá Editora, 2008.

– O’CONNOR, Joseph. Liberte-se dos medos, superando a ansiedade e vivendo sem preocupações. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2007.

– PACHECO, Alberto. O canto antigo italiano: uma análise comparativa dos tratados de canto de Pier Tosi, Giambattista Mancini e Manuel P. R. Garcia. São Paulo: Annablume – Fapesp, 2006.

– RAY, Sonia. Considerações sobre o pânico de palco. In: ILARI, Beatriz e ARAÚJO, Rosane Cardoso de. (Org.) Mentes em Música. Curitiba: Editora do Dep. de Artes da Universidade Federal do Paraná. 2009. Cap. 2, p. 158-178.

– RUDD, Even (Org.). Música e Saúde. Compilação de trabalhos apresentados no Simpósio “Música e Saúde”, Oslo, Noruega, 1985. São Paulo: Summus, 1991.

– SANTI, Alexandre de (Jornalista). Ansiedade Positiva, quando a ansiedade é sua amiga. Revista Galileu, pág. 40 a 47, Núm. 248, Edição de março de 2012.

– SERRA, Ana Maria (Org.), Estudo da Terapia Cognitiva, um novo conceito em Piscoterapia. Disponível em www.itcbr.com. Acesso em 10/12/2010.

– STRUNK, Oliver, Ed. Source Readings in music history. New York: Norton, 1950.

– SUETÔNIO, Caio, A Vida dos Doze Césares. Trad. Sady-Garibaldi. Coleção Universidade. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.

– WINTER, Alison, Delete Freud de sua Vida. Revista Galileu, pág. 79, Núm. 248, Edição de março de 2012.

 

5- APÊNDICES

5.1 – Questionário 

1) Há quanto tempo você canta profissionalmente, ou seja, com atividades profissionais regulares:

Resposta:________________________anos

2) Você sente ansiedade antes de uma apresentação?

( ) sim
( ) não
( ) às vezes
Se quiser, fale mais sobre isso:

3) Quando você começa a sentir ansiedade?

( ) um mês antes
( ) uma semana antes
( ) no dia do evento
( ) poucos minutos antes de entrar no palco
( ) durante o evento

4) Você sente medo antes de uma apresentação?

( ) sim
( ) não
( ) às vezes.
Se quiser, fale mais sobre isso:

5) Quando você começa a sentir medo?

( ) um mês antes
( ) uma semana antes
( ) no dia do evento
( ) poucos minutos antes de entrar no palco
( ) durante o evento

6) Assinale por ordem de importância, marcando de 01 (mais importante) a 05 (menos importante), o que te causa mais medo ou ansiedade:

( ) audições privadas
( ) audições públicas
( ) concursos
( ) concertos com piano
( ) concertos com orquestra
( ) ópera

7) Assinale abaixo as sensações que você percebe em seu corpo:

( ) falta de ar
( ) boca seca
( ) aumento de secreções naso-faríngeas
( ) suor nas mãos
( ) frio
( ) tontura
( ) tremores
( ) dor no estômago
( ) dor de cabeça
( ) dor no peito
( ) sensação de enjoo
( ) taquicardia
( ) dormência nas extremidades (mãos e pés)
( ) necessidade de usar o banheiro
( ) Outros. Quais?

8) Você acha que seus professores de canto ajudaram na sua preparação psicológica para lidar com o medo e a ansiedade?

( ) Sim. Como:
( ) Não
( ) Sua influência foi prejudicial. Como:

9) Assinale abaixo os recursos que você usa para lidar com o medo e a ansiedade:

( ) meditação
( ) oração
( ) chás calmantes
( ) exercícios de respiração
( ) yoga
( ) exercícios físicos
( ) relação sexual
( ) antidepressivos
( ) ansiolíticos normalmente
( ) ansiolíticos esporadicamente (durante um período de trabalho)
( ) bebida alcóolica antes de cantar
( ) bebida alcoólica depois de cantar
( ) cigarro
( ) alguma outra substância psicotrópica
( ) outros. Especifique:

 

5.2 – Entrevistas


5.2.1 –
Ruth Staerke – soprano

DATA: 09/11/2011

LOCAL: No hotel Chezverny, em Belo Horizonte, durante os ensaios da ópera Andrea Chenier, de Umberto Giordano, apresentada no Palácio das Artes.

Ruth Staerke, 36 anos de carreira, começou no TMRJ, com Musetta (personagem da ópera La Bohème de Puccini), aos 23 anos. Era muita afoita e foi muito bem na estreia porque não tinha noção do perigo, estava relaxada. Anos depois, quando cantou o mesmo papel novamente, sentiu-se muito mais nervosa. Preparação para uma carreira de ópera: não houve. Estudava canto desde os 17 anos com um professor muito consciente. Só cantava coisas leves, mas cantava a valsa da Musetta. Cantando num programa da TV Globo organizado por Paulo Fortes, Diva Pieranti, soprano famosa da época, viu o programa. Ela tinha uma cooperativa de cantores líricos e queria estrear como Mimi e lançar uma jovem cantora. Ela conversou com o professor da Ruth e ele garantiu que ela conseguiria cantar a Musetta. Ruth não se intimidou porque sempre foi instigada pela mãe a fazer teatro desde pequena. A diretora da Bohème era boa e ela pode fazer a Musetta satisfatoriamente.

JANETTE: Fale sobre seu aprendizado da interpretação.

RUTH: Busquei aperfeiçoamento com o tempo. Fiz cursos com diretores como Sérgio Brito e vários outros. Já, desde criança, eu tinha essa qualidade de atriz naturalmente. É um dom, mas também pode ser trabalhado. Não conheço nenhuma escola de preparação cênica para cantores nem para diretores de ópera no Brasil. Já andei buscando isso, porque já dirigi ópera e um grupo de crianças e planejo dirigir mais óperas.

JANETTE: São técnicas de atuação diferentes?

RUTH: Acho que são caminhos diferentes e deveria existir numa escola específica. Muitos diretores exigem coisas que os cantores naquele momento específico não vão conseguir fazer, porque têm que ver a mão do maestro em alguns momentos específicos. Muitos diretores de ópera não sabem disso. E o cantor tem que ser franco e dizer isso ao diretor.

JANETTE: Como foi o processo de lidar com a ansiedade, com o medo? Você tinha medo?

RUTH: Nunca senti medo. A ansiedade faz parte. Agora lido melhor, sabendo controlar mais. Ela está presente, mas o amadurecimento me trouxe mais controle. Uma vez, fazendo uma ópera no Chile, o maestro foi ao camarim antes do terceiro sinal para falar com cada cantor. Ele perguntou como eu estava e eu disse, bem. Ele falou que eu estava muito relaxada. Eu perguntei: isso não é bom? Ele falou que não. Eu entendi depois. Realmente o dia em que eu estava mais calma foi minha pior récita. Certa dose de ansiedade é necessária. É isso que te traz a adrenalina, a vontade e a garra. A segunda récita é sempre mais fraca que a primeira. Esse mito é porque provavelmente a segunda récita é mais relaxada.

Medo de falhar, medo do físico ou da voz não responder e fazer o que você sabe fazer. Eu li um livro sobre o Caruso, sobre o pânico dele em cena e ele dizia uma frase: “Sou forte, inteligente, canto bem. Ninguém canta melhor do que eu. Afaste-se pequeno eu para o grande eu entrar”. Quando estou amedrontada uso isso.

JANETTE: Ruth, existe uma história famosa de uma cantora que disse para o maestro: É o que temos para o momento. Foi com você que aconteceu?

RUTH: Sim! Ensaio pré-geral onde eu tinha que fazer um pianíssimo numa nota dificílima e ele parou o ensaio e perguntou: e o que combinamos? E eu respondi: maestro, é o que temos para o momento. Gargalhada geral e isso virou um bordão nacional.

JANETTE: Vamos falar de um assunto tabu: você procurou alguma ajuda médica ou psicológica, alguma vez precisou de corticoide?

RUTH: Várias vezes, geralmente fora do Brasil. No Chile, minha voz sumiu e de um tenor também. Tomamos cortisona. Em Blumenau, eu tinha 3 dias para fazer uma gravação e a voz sumiu. O médico me deu corticoide. Minha voz desapareceu. Foi um choque térmico que tive. Saí do Rio com 38 graus e cheguei a Blumenau fazia 16 graus. Não aconselho ninguém a usar, você fica rouco depois por um tempo. O perigo é usar isso como bengala.

JANETTE: Como é sua rotina quando tem que cantar?

RUTH: Não falar 24 horas antes da récita. Meu professor dizia isso. Mary Costa, uma cantora do Metropolitan também me disse isso quando eu ainda era muito jovem. Escreva, mas não fale. Atender ao telefone, nem pensar. A emissão é diferente no telefone. Dormir me atrapalha. No dia da apresentação, durmo até mais tarde e a tarde me mantenho acordada.

JANETTE: E sua alimentação?

RUTH: Comer aquilo que você sabe que não vai fazer mal. Não aventurar-se em pratos diferentes, em coisas pesadas no dia de cantar. A voz reflete qualquer problema digestivo. Muito delicado nosso órgão, nosso físico todo está envolvido.

JANETTE: E o aspecto psicológico, como você lida com isso?

RUTH: Eu oro, a oração me acalma. Eu sou aparentemente calma, mas sou muito ansiosa. Sou normalmente ansiosíssima. Escorpiana. A ansiedade faz parte da minha natureza e, quando vou cantar, isso aumenta. Mas, aí procuro me imbuir de que eu estou calma, serena, vou fazer muito bem, que Deus me deu esse dom e que vai me ajudar a desenvolvê-lo bem. Já tive religião, mas atualmente não professo nenhuma. Mas, tenho muita fé.

Fiz muita Yoga, ainda faço às vezes. Os anos passam e as marcas também são importantes.

JANETTE: 30 dias confinada num hotel. Como é isso? Quantas horas de hotel, de solidão, de dúvida, de angústia.

RUTH: A impressão é de que você passa sua vida a limpo e isso é um perigo. Você se deixa envolver por coisas externas àquilo que você está fazendo no momento que é cantar. É bom ler um livro que acalme, que a tire do circuito, um assunto que não traga ansiedade. Por isso, esse isolamento é necessário para nos tirar do mundo real. A gente finge que está mantendo uma rotina, mas a gente não está na nossa rotina. Tem que saber lidar com isso. Por mais que você rodeie, encontre os colegas, passeie, sua mente está voltada o tempo todo para o que você está fazendo no palco.

JANETTE: Remédio para dormir. O que você acha disso?

RUTH: Se é inevitável….o ideal é que tudo seja muito natural. Um chá de camomila é bem melhor que um calmante. Eu também já tomei um ansiolítico em tempo de temporada, mas sempre com o medo do que aquilo poderia fazer com minha voz. Mas, se não tiver jeito, se a ansiedade for muito forte, aí cada um sabe o que tem que fazer para lidar com isso. É muito pessoal.

JANETTE: A solidão?

RUTH: É muito triste, é tenebroso, é doloroso às vezes. Dói. Você gostaria de estar em casa com sua família, mas é o preço alto que temos que pagar.

JANETTE: É uma seleção natural?

RUTH: É lógico. Você escolheu isso, é uma escolha nossa. Se eu estou aqui sofrendo essa solidão é porque eu escolhi. A volta disso é o aplauso, o sucesso, o reconhecimento. A recompensa vem depois. É um alento.

JANETTE: Alguma coisa mais para registrar?

RUTH: Você não abrir mão daquilo que você quer, daquilo que você sonhou para você. Se é isso, é. Tem sofrimento, tem. Tem preço alto, tem. Mas, não abra mão, porque a recompensa, a felicidade depois é muito grande. Quando você realiza o seu trabalho bem, você recebe o aplauso, você sai do palco, mesmo que não tendo sido perfeita, porque ninguém é. Mas, é isso que traz para você o prêmio maior. E um beijo para você, muito sucesso na sua vida profissional!

 

5.2.2 – Juremir Vieira – tenor

DATA: 11/06/2011

LOCAL DA ENTREVISTA: Brasília, DF, durante o Primeiro Festival de Ópera de Brasília.

Começou a cantar aos 5 anos de idade. Em 1980, aos 17 anos, quando começou Engenharia Eletrônica, fez um teste e entrou para um coro da Universidade. Cantou em vários coros e fazia pequenos solos até 1989. Não estudava canto. Só fazia técnica com os coros. Em 1989, resolveu fazer um teste para entrar na Escola de Música da Orquestra de Porto Alegre e passou. Aí conheceu sua professora Lori Keller. Já fazia solos nos coros e pequenos papéis nas óperas. Participava dos Festivais de coros e era sempre solista.

JANETTE: Você tinha medo de se apresentar como solista?

JUREMIR: Não. Meu único medo era quando eu não dominava a música que ia cantar. É claro que dá um friozinho, receio de algo dar errado. Mas, serve como incentivo, como impulso na hora em que eu entro. Aí eu começo a cantar e domino o palco. Aí parou o nervosismo. Sempre foi assim. Sempre fui líder de naipe e nunca senti medo.

JANETTE: Primeiro solo importante

JUREMIR: Cantei um oratório, com orquestra. Não senti medo. A ansiedade é natural. Mas, se eu dominava o que ia cantar, seguramente isso me ajudava.

JANETTE: Primeiro Solo de ópera

JUREMIR: Em 1991, foi Borsa do Rigoletto.

JANETTE: Como você se sentiu?

JUREMIR: Eu já tinha 10 anos de palco. A única coisa que mudou é que eu cantava sozinho. Aí eu dependia mais do humor do maestro. Mas, musicalmente, estando certo, não tendo problema vocal, eu fico bem. Se eu tiver um risco, me concentro mais, fico mais ansioso.

JANETTE: Alguma vez você sentiu medo de subir no palco?

JUREMIR: Quando eu ficava doente, não tinha o domínio da minha voz e sabia que existia um motivo de risco. Quando o papel era muito difícil e eu tinha que despender muita energia. Sabia que ia me desgastar e eu tinha que me poupar. Eu tinha que me concentrar muito mais. Hoje eu me concentro mais. Por exemplo, Dama de Espadas (ópera de Tchaikovsky). Nas 10 apresentações eu suava frio, mas não era porque eu não ia conseguir cantar. Era muito longo e o texto em russo, muito complicado. Eu sempre esquecia alguma coisa e isso me deixava nervoso, ansioso. Eu tinha que estudar a parte todos os dias. Eu estudava nos intervalos da ópera, coisa que não aconteceu em Nabucco, nem em Simon Boccanegra.

JANETTE: Você fez uso de alguma medicação?

JUREMIR: Só corticoide. Na primeira maratona que eu tive em 1991, com a OSPA, nós ensaiamos 3 meses duas óperas diferentes, Cosi fan tutte (ópera de Mozart) e La Bohème (ópera de Puccini). E eu cantava Ferrando e Rodolfo. Ensaiando toda semana, 3, 4 vezes por semana os dois papéis, quando veio o resfriado, por causa da queda de imunidade. Aí, eu ficando doente, cometi a primeira besteira, continuar cantando nos ensaios pré-gerais. Fui ao médico e tinha um edema. Isto era terça e eu tinha que cantar na quarta o ensaio geral e na sexta a estreia. Ele me passou duodecadron. Nunca mais tomei. Já tomei vários outros parecidos, mas não esse. Guardei o nome. O médico fez a prescrição e me mandou não cantar no ensaio geral. O maestro cantou toda a minha parte. No dia seguinte, eu não tinha ensaio, aí dei duas ou três notas. A voz estava livre, na máscara, mas sem força, não tinha energia. Eu pensei: o que eu posso fazer? Existe um vídeo dessa apresentação. Tadinho, eu vejo um gurizinho desesperado na hora do Dó. Mas salvei, salvei. Mas, o pânico… (dá pânico nesses horas, mas só nessas horas quando há um risco). Bohème sempre teve um risco. Já fiz várias vezes depois, mas sempre na hora do Dó tenho que estar muito concentrado. Em outras óperas, eu tive nervosismo, mas eu acho que é natural. De uma forma geral, medo de entrar no palco, como eu vi no Pavarotti com três pessoas segurando, ele tremendo, (e o Pavarotti já era o Pavarotti), ele com a toalha. O pessoal segurando-o e ele não querendo entrar. Isso eu nunca tive. Talvez porque eu não vivi na ópera até eu começar a cantar. Sempre foi um hobby. E estudei uma outra área completamente diferente. Realmente, essa experiência de coro me deu uma base tão grande que aí eu já tinha quebrado o gelo.
Aí eu fiz o mensageiro (personagem secundário da ópera Aída). É um pequeno Radamés. Fiz com cantores de experiência, que cantaram no Scalla de Milão, e eles me elogiaram. Isso dá incentivo e você vai perdendo o nervosismo.

JANETTE: Quando está perto de uma estreia você dorme bem, não usa nada para dormir?

JUREMIR: Nada.

JANETTE: Não fica com a música na cabeça?

JUREMIR: Isso acontece quando eu estou em processo de estudo. Quando eu chego ao estágio de dormir com a música ou estou no banheiro e canto ela sem problema, acabou.

Sou uma pessoa muito desregrada, eu admito, mas sou obrigado a me regrar pelo menos alguns dias antes da apresentação. Sou obrigado a me enclausurar e me obrigo a dormir mais à noite. Antes da meia noite eu não consigo dormir. Mas aí eu consigo dormir, 6, 7 horas, já melhora. No dia da apresentação, isso eu faço há 15 anos, depois do almoço, eu durmo duas horas. Esse sono da tarde me salva. Almoço carboidrato, 13:30, 14:00, durmo das 15 as 17:30. Levanto tomo um banho e vou para o teatro. Não comia mais nada depois. Não como nada. Só em situações quando o papel é muito longo, muito complicado. Aí eu como uma maça no intervalo. Sempre fui notívago. Eu tenho que dormir de manhã. Ensaio às 9 da manhã é um parto.

Mas, quando eu cantava em Porto Alegre, era uma província. Em 1994, foi minha primeira ópera encenada fora de Porto Alegre. Peguei uma laringite uma semana antes. Tive que tomar um remédio, corticoide e esperar que as coisas se resolvessem. É um veneno, mas é a única salvação quando você não tem como deixar de cantar. Se você pode optar, não quero cantar e cancelo, ótimo. Mas, se não…..

JANETTE: A gente vive dentro de um hotel muito tempo. Você tem alguma técnica para desligar do estresse, não entrar em pânico?

JUREMIR: Eu tenho uns chakras. Esses chakras de vez em quando eu repito. Mas essas coisas acontecem quando eu estou no camarim sozinho, pouco antes de entrar. Tento dar uma concentrada. Quando dá, me isolo uma hora antes. Não fico falando toda hora. No dia a dia, no hotel, no quarto, eu tento manter a maior normalidade possível. Primeiro, para criar uma rotina. Segundo, porque isso é uma profissão para mim, não é uma fobia. Não é uma coisa para sofrer. Eu não faço para sofrer. Eu gosto do que eu faço. Quarta-feira eu tenho ensaio geral, então não vou ficar saracoteando toda noite ou no dia anterior. Eu saio, vou ao quarto de um colega, saio para jantar sem problema. Só tenho que regular meu sono. Se a gente dormir a gente se salva. Uma vez na Europa cantei Rigoletto (ópera de Verdi) em três dias seguidos e eu só fazia comer e dormir. Dormir é uma maneira de renovar as energias do corpo e de relaxar. Tem que estar relaxado para cantar. As cordas vocais são deste “tamaninho”.

JANETTE: Sobre temperamento, você acha que a pessoa que não consegue lidar com isto consegue fazer uma carreira?

JUREMIR: As pessoas normais, “normais” tem que ir nesta direção. Conheci gente realmente hipocondríaca. Inclusive essa Buterfly que eu cantei com cortisona, no primeiro elenco, o cantor tinha a mesa repleta de medicação. As pessoas normais, principalmente aquelas que não pensam 100% em ópera, esse é meu modo de ver, quer dizer, eu estou aqui, falando, mas não fico falando de canto o tempo todo. Quem faz isso, não tem vida normal. Isso torna a situação muito mais estressante. Minha vida foi completamente diferente. Eu vim da área de Exatas, fui funcionário público, casei com 21 anos, tinha que sustentar crianças, minha mãe morreu quando eu casei, tive que me virar com meu pai, que não tinha nada comigo. Isso para mim é estresse. A música não era estresse, a música sempre foi uma terapia. Para mim é uma terapia, se é uma terapia então vamos levar na “brincadeira”, vamos levar na boa.

JANETTE: Qual conselho você daria aos jovens cantores?

JUREMIR: Disciplina. Se conhecer e tratar a música, tratar a ópera como uma profissão normal, como qualquer outra profissão. Se eu sou engenheiro, eu trabalho como engenheiro 8 horas depois eu vou para casa, e se não sou fanático, vou beber minha cervejinha, vou ver minha mulher, vou ver meu futebol, jogar meu videogame, vou dar uma corrida, vou nadar. Esqueço que eu trabalho naquela coisa. Claro que existem sempre parâmetros e níveis de responsabilidade, mas viver 24 horas sua profissão, torna você escravo dela. De jeito nenhum vou ser escravo dela. Eu tenho meu ensaio amanhã, de 9 às 12, e depois, se eu tenho segurança no papel, não vou nem abrir minha partitura. Vou ver minha tv, vou ao cinema, vou ficar com os amigos, vou beber minha caipirinha, porque não tenho mais que cantar naquele dia.

JANETTE: Você não acha que isso tem a ver com segurança técnica?

JUREMIR: Tem a questão do caráter. Gente como o Neil Shikov, tenor extremamente famoso, ainda canta, extremamente seguro tecnicamente. Mas ele tem seus chiliques a ponto do cover (outro cantor preparado para substituir o cantor principal) ter que ficar vestido ali ao lado do palco, porque pode ser que ele resolva não entrar no palco. Nem tanto ao céu nem tanto à terra. Se você pega pessoas normais, que estão começando agora, que não estão seguras tecnicamente, que não têm experiência de cênica, têm problema de se soltar dentro do palco, não têm quem os ajude dentro deste processo, é claro que vão ficar nervosas, é claro que vão deixar de fazer coisas e é claro que na hora de entrar no palco vão estar tremendo igual vara verde. Aí é importante mesclar gente experiente com gente menos experiente. Na prática, é isso, se essas pessoas tentam aprender, ver, perguntam, se interessam, elas estão indo em direção a uma situação em que não precisam se estressar demais. Aí o estresse é outro, de não ter o que cantar. E aí tenho que ter outra profissão e ter a música como hobby.

JANETTE: E em Saint Gallen, na Suíça, onde você fez parte de um elenco fixo durante anos?

JUREMIR: Aí entra a questão da rotina. Cantar uma apresentação hoje e outro daqui a 3 meses, faz com que você tenha uma rotina. Cantar 3 produções num mês com 4, 5 apresentações depois de 5,7 semanas de ensaio, e ter que revezar tudo , cria um moto continuo em você. Quanto mais você ganha, mais gasta. Quanto mais você canta, mais está dentro da música. Claro que se eu tenho 3 papéis para estudar ao mesmo tempo, eu não vou fazer estripulias, eu vou estudar. Mas também se torna uma rotina. Só que uma rotina que é natural lá. Aqui não. Aqui, se o pessoal vai cantar muitas vezes, vão ficar doentes, porque não estão acostumados. Não têm resistência física. É como se eu resolvesse correr uma maratona amanhã com meu peso de 100 quilos. Vou andar 100 metros e vou morrer do coração. Uma coisa puxa a outra. É claro, lá é realmente uma profissão. Aqui, eles não consideram uma profissão. Quem tem o poder não considera uma profissão. Se eu for cantar hoje no Scalla, vou ficar extremamente nervoso, porque é o Scalla, mas, se eu estiver seguro, esse nervosismo também passa na hora em que a gente entra.

JANETTE: Você tem alguma frase que usa?

JUREMIR: Claro, existem algumas mandingas. Às vezes, eu to meio fora do ar, um pouco nervoso. Aí eu falo pra mim mesmo: dá um jeito na vida, Juremir, o que que você quer? Você chegou até aqui vai ter que encarar. Falo olhando no espelho. Simplesmente me levanto. Qual é, o que você tá pensando, você não era assim antes. É como se eu falasse comigo mesmo. Acorde desgraçado, pare de frescura e vamos entrar no palco. Eu falo comigo mesmo, não necessariamente com palavras.

JANETTE: Qual conselho você daria para os jovens cantores que querem fazer carreira?

JUREMIR: Trabalho, disciplina, determinação e não ter vergonha de dizer “não sei” para alguém que sabe. Não ter medo de errar. Muita gente é arrogante sem saber nada. Isso torna a pessoa não só um mau artista, como faz com que ela não cresça. Existe muita arrogância no nosso meio, muita disputa de bastidor, muita briga de poder, muita facada pelas costas. Há que ser frio. Se você não tem sangue frio para isso então vai ser outra coisa. Tem que ter sangue frio para aguentar aquilo tudo. Muitos colegas foram para a Europa, mas voltaram, não tinham os nervos. Agora, estão fazendo carreira e agora têm outro nível de consciência em relação a esta questão do sangue frio. Imagina você num país diferente, língua diferente, cultura diferente, sendo às vezes tratado mal e matando um leão por dia. Se não é frio, você não aguenta. Por isso a determinação. Fazer carreira não á cantar no Scalla. É cantar regularmente, é manter um médio, mantendo um nível, hoje regular, amanhã regular, mas num crescendo. Para isso, você precisa de disciplina e de determinação.

 

5.2.3 – Rosana Lamosa (soprano) e Fernando Portari (tenor)

DATA: 29/06/2011

LOCAL: Aeroporto de Brasília, um dia após o encerramento do I Festival de Ópera de Brasília, tendo Rosana Lamosa e Fernando Portari se apresentado, cantando trechos de óperas no concerto de Gala do dia 28 de Junho, com a Orquestra do Teatro Nacional Cláudio Santoro.

JANETTE – Como foi que você começou o estudo do canto?

ROSANA – Comecei a estudar canto porque gostava de cantar. Não pensava em fazer carreira, em ser cantora. Só gostava de cantar. Procurei uma professora que exigiu que eu estudasse canto lírico. Tinha 17 anos quando comecei. A professora me mandou estudar a Mimi, da Bohème. Eu ouvi uma gravação e queria cantar Che Gelida Manina (famosa ária do personagem Rodolfo que é para tenor). Era uma aula super bagunçada. Tinha como colegas Berta Loran, por exemplo. Depois fui estudar com a Vera Canto e Melo. Era uma escola boa, mas só tinha 3 alunos que queriam canto lírico, eu, o Paulo Queiroz e a Marisa Monte. Os outros alunos eram do teatro. Mas, ela era uma pessoa muito culta e abriu minha cabeça. Mostrou-me o Lied. Comecei a estudar Schumann, Schubert. Foi muito bacana.

JANETTE – E quando foi sua primeira apresentação pública?

ROSANA – Foi com essa professora. Ela organizava uns recitais na mansão da mãe dela. O Larry (Lawrence Fountain, pianista americano que trabalha como correpetidor no Theatro Municipal do Rio de Janeiro) que nos acompanhava. Foi a primeira vez que cantei, logo no comecinho. Foi super gostoso, minha sensação foi gostosa. Num ambiente protegido. Naturalmente, era um recital de professora. Não me lembro de ter sofrido. Não me lembro de ter tido nenhum agonia ao me apresentar.

JANETTE – Mas, antes de você estudar canto você não tinha nenhuma familiaridade com o palco?

ROSANA – Na escola primária, entrei em alguns concursos de colégio com minha irmã me acompanhando ao violão. Na PUC, onde fiz o curso de Jornalismo, me apresentei. Não tinha medo, era uma coisa natural. Mas, eu sempre gostei muito de cantar.

JANETTE – O popular é menos estressante, não?

ROSANA – É.

JANETTE – Mas qual foi a sua primeira apresentação de ópera?

ROSANA – Quando me mudei para São Paulo, eu fui estudar com a Leila Farah. Conheci o pessoal e fui cantar uma produção do Teatro Lírico de Equipe. Foi numa produção da ópera Senhor Bruschino, de Rossini. Cantei a Sofia. Isso foi em 1988. Era uma coisa super simples, mas tinha cenário, tinha tudo.

JANETTE – Ficou nervosa?

ROSANA – Não me lembro de ter ficado nervosa.

FERNANDO – Ela não fica nervosa!

ROSANA – Mas, deixa eu te falar, hoje em dia, eu fiquei nervosa em alguns momentos. Em alguns papéis que dão nervoso.

PORTARI – Em alguns momentos dos papéis.

ROSANA – Em alguns papéis. A primeira vez que cantei Traviata não fiquei nervosa. Agora, tive mais medo, mas depois que começaram os ensaios desencanei. Lembro que eu sofri assim na La Sonnambula (ópera de Gaetano Donizetti), eu tive muito medo, porque era um repertório que eu nunca tinha explorado, o Bel Canto. Super agudo, vários Mi bemóis, si bemóis, eu nunca tinha feito no palco e o Malheiro (maestro Luís Malheiro, atual diretor artístico do Festival de Ópera do Amazonas) foi super importante em abrir minha mente. Ele falou você vai fazer fácil e eu não acreditava. Ele tinha uma convicção. Você vai cantar isso. Colocou-me para cantar Sonnambula naquele palcão do Municipal de São Paulo, um elenco excelente, o tenor era o Raul Gimenez, o baixo era o atual marido da Netrebko, o Schrott (Erwin Schrott, baixo barítono uruguaio). Um elenco de primeira e eu cantando com os caras, um papel que deu medo. Lembro que quando eu entrava no palco para cantar a última ária, com aquela caballetta difícil eu dizia que nunca mais queria cantar isso e o Gimenez falava que eu ia cantar muito este papel, “este papel é feito para você”.

JANETTE – Você tem uma relação muito tranquila com o palco, não sente esse medo, sentiu medo de alguns papéis, você atribui isso a quê, sua personalidade, sua relação com sua voz?

ROSANA – Acho que há vários fatores. Eu diria que é na relação com a voz, que eu tenho uma segurança. Quando eu acho que não vou dar conta eu recuo antes. Nunca me aventurei em fazer uma coisa em que eu fosse me ferrar. Nunca me expus a isso. Eu sou um pouco pé no chão. Tem esse fator. Eu acho também que gosto de estar bem preparada. Momentos em que eu senti medo eram momentos em que eu poderia ter estudado mais. As coisas em que eu me preparei bem nunca me fizeram sentir acuada. O palco pode acuar se você estiver inseguro, mal preparado, não dá conta vocalmente. Agora, por exemplo, papéis que eu sei que eu dou conta, mas eu sei que são difíceis, causam um pouco de ansiedade.

JANETTE – Você tem uma rotina quando está em temporada de ópera?

ROSANA – A gente tem muito ensaio. Procuro ficar o mais relaxada possível, tentar dormir o melhor possível. É difícil dormir em véspera de estreia, é sempre uma noite difícil.

JANETTE – Você toma alguma coisa para dormir?

ROSANA – Não, não tomo nada. Procuro não tomar. Trabalho com a cabeça, pensando positivo. Que vai dar tudo certo. Tento manter sempre a mente positiva. Acho que isso ajuda muito. Pensar que vai dar tudo certo, mentalizar, pensar que eu vou conseguir fazer, vou ter calma.

JANETTE – Você tem algum hábito, alguma mandinga, alguma coisa que você faça antes de entrar em cena para ajudar a concentrar?

ROSANA – Eu costumo pensar em coisas boas, pessoas especiais para mim, pessoas queridas, meu pai, pessoas gurus, pessoas que me transmitem paz, pessoas que me tragam um sentimento de paz, para tentar baixar a adrenalina.

JANETTE – Você come entre os atos alguma coisa?

ROSANA – Como.

JANETTE – O que você come?

ROSANA – Eu como o que tiver na frente. Posso comer comida, …

JANETTE – Entre um ato e outro?

ROSANA – Como. Tenho fome. Posso comer comida. Em algumas óperas a gente chegou a comer macarrão ou pratos de comida mesmo. Mas, assim, bebo muito. Bebo muita água de coco. Quando eu estou nervosa, ansiosa, eu evito comer, mas eu sinto que se não comer também eu vou ficar com pouca energia. Aí como qualquer bobagenzinha, um pedaço de pão, qualquer coisa, o que estiver na frente.

JANETTE – E qual conselho você daria aos jovens cantores, que estão começando a carreira, em relação a isso, a como lidar com essa ansiedade, com o palco, com essa nossa louca vida?

ROSANA – Acho que a gente tem que estar bem psicologicamente. Tem que estar centrado, ter algum domínio sobre seu corpo, sobre sua cabeça, ter algum tipo de preparo, enfim, algum exercício físico que ajude isso, uma yoga, exercícios que facilitem a busca de um certo conforto para amenizar a angústia. Sempre é bom. Tem a coisa do preparo físico, pois o palco demanda muita energia. Você tem que estar um pouco descansada, tem que estar concentrada.

JANETTE – O que te desconcentra?

ROSANA – Ficar falando com a família em dia de récita. Principalmente quando a gente canta na cidade que a gente mora. É mais difícil. Ligam pedindo ingressos. Eu adoro quando alguém resolve tudo para mim. Por exemplo, quando eu estou cantando e o Fernando não está, ou vice-versa, um pode dar esse back-up para o outro.

JANETTE – Você tocou num ponto que eu acho interessante. Por exemplo, quando eu canto na minha cidade, por mais que eu reclame de estar num hotel, quando eu estou fora. É muito ruim cantar em casa porque é muito difícil manter a rotina de casa, é complicado. palmilla vuclip.

ROSANA – É complicado. Estando fora de casa você se isola da rotina de cuidar da casa, do telefone tocando.

JANETTE – Eu costumo dizer que é o Big Brother Lírico! (risos) Gostou Fernando?

FERNANDO – Matou a pau!

JANETTE – Você passa 30 dias num hotel, convivendo com as mesmas pessoas, comendo juntos. Os dramas pessoais rolando.

FERNANDO – Com os mesmos objetivos!

ROSANA – Você imagina o que era Manaus. A gente ficava dois meses naquele hotel! Nossa Senhora, todo mundo sabia de tudo da vida do outro.

FERNANDO – Não se suportavam mais.

ROSANA – Chegava um ponto em que ninguém mais te olhava.

JANETTE – É amor e ódio!

ROSANA – Amor e ódio!

FERNANDO – Iam para o café da manhã de óculos escuros para fingir que não olhavam um para o outro. (risos)

ROSANA – Mas chegou um ano em que estava todo mundo tão acostumado com todo mundo ali, principalmente no ano do Anel….

FERNANDO – No ano do Anel foi especial (ciclo de quatro óperas O Anel dos Nibelungos de Richard Wagner)

ROSANA – No ano do Anel foi curioso, porque foi tanto tempo convivendo junto que um já aceitava o outro, já era uma família, a intimidade já era relaxada. Aquele não gosta de tomar café junto, aquele não gosta de almoçar naquela hora….todo mundo já se conhecia.

FERNANDO – Aceitava o outro. Já era uma família, não tinha expectativa, já se sabia a reação dos outros.

JANETTE – A fase de adaptação já tinha passado. Tem uma fase de adaptação. Por que fulano não desce para o café, por que ele não fala comigo no café, etc….?

ROSANA – Mas realmente facilita você não estar na sua casa. Cantando no Rio, eu sofro mais.

JANETTE – Então, vamos agora ao Portari! Então, tem medo?

FERNANDO – Muito!

(risos)

JANETTE – Ansiedade ou medo? Porque é diferente!

FERNANDO – Tudo! Sou muito ansioso. Muito.

JANETTE – Não parece.

FERNANDO – Hoje, depende das fases, também, mas eu me lembro quando comecei a cantar eu tinha febre. Febre. No dia que ia cantar, eu tinha febre. Eu ia cantar com febre nos primeiros concertos. Eu fiz Direito e fui largando o Direito e trocando pelo Canto. Comecei a participar de uns recitais em sociedades semi-profissionais e recitais com piano e ficava com febre.

JANETTE – Sintomático.

FERNANDO – Neste aspecto, a Rosana para mim é muito impressionante, porque não é que ela tem uma segurança do que vai acontecer, mas ela internamente tem um equilíbrio de saber das possibilidades dela, de saber lidar com essas possibilidades e, de certa maneira, equalizar o risco que é cantar com a realidade dela. Eu não, eu já sou uma pessoa que fantasio, tanto para o bem quanto para o mal. Então, antes de cantar eu falo assim: hoje eu vou cantar como o Gigli (Beniamino Gigli, tenor italiano de fama internacional, 1890-1957), hoje eu vou ser o maior do mundo. E ao mesmo tempo eu falo assim: hoje vai ser o pior dia da minha vida, eu to muito mal.

JANETTE – Você já cria uma expectativa.

FERNANDO – Grande. Também acho que pela natureza da pessoa. No meu caso tenho expectativas muito grandes porque nasci numa família onde se cultua o canto lírico. Aprendi canto com meu pai. É cantor. Minha família toda. Minha mãe é pianista. Lembro a primeira vez em que entrei no Municipal: tinha 4 anos de idade. Fui ver o Galo de Ouro com Paulo Fortes. É uma ópera de Korsakow. Eu sentava na claque, existia uma claque no Municipal do Rio e o chefe da claque era o Bruno, um senhor que nos anos 70 tinha 80 e poucos anos. Então ele viu a estreia do Theatro Municipal. Eu convivi com alguém que fundou o TM. Ele viu tudo que aconteceu no TM. Desde a Callas até os alemães, até os franceses. Então, atavicamente, eu carrego isso dentro de mim. Essa responsabilidade de carregar uma tradição. Meu pai foi aluno de um professor chamado Pasquale Gambardella (não encontrei nenhuma informação mais precisa sobre este professor), que morou no Rio desde os anos 20. Era um contemporâneo de Caruso (Enrico Caruso, tenor italiano considerado por muitos amantes da ópera como o maior tenor que já existiu, 1873-1921), colega de Caruso. Ele era de 1890. Caruso era de 73, mas era napolitano também. Foram juntos para NY. Ele morou em NY na época de ouro no MET (Metropolitan Opera House). Depois, foi para Milão, casou com uma brasileira e foi para o Rio. Meu pai teve a oportunidade de estudar com este professor. Uma grande escola. A velha e boa escola de canto italiana. Tive esse privilégio. Então, esta ansiedade eu carrego, porque existe no meu inconsciente essa responsabilidade de levar uma escola e uma tradição que vem da minha casa e anterior à minha casa. Então eu tenho este peso, carrego isso dentro de mim, me sinto responsável.

JANETTE – Não foi você que criou esse peso? Seu pai é tranquilo.

FERNANDO – Não, meu pai não. Ele é tranquilo. Meu irmão é como eu. É médico, mas é cantor. Conhece profundamente ópera. Viaja o mundo inteiro para ver ópera. Conhece muito mais do que eu. Conhece profundamente. Também carrega esse peso como eu. Isso foi passado para a gente ou a gente entendeu dessa maneira. Então, eu tenho muito medo. Muitos. Fantasias. Apesar da minha trajetória ser relativamente estável. Sou um cantor estável. Não sou um cantor de altos e baixos. Tenho uma certa estabilidade. Tenho uma formação musical muito forte. Estudei piano, estudei música.

JANETTE – Isto te dá uma segurança também?

FERNANDO – Segurança. Mas, muito crítico.

JANETTE – Qual é seu signo mesmo?

FERNANDO – Eu sou Peixes com Gêmeos. Sou sensitivo, mas sou muito crítico em relação….eu quase sempre tenho uma ideia crítica do que realmente aconteceu comigo no palco. Quando eu ouço uma gravação, sei exatamente o que aconteceu. Então, eu canto, mas estou me observando cantando.

JANETTE – Faustini (Zuinglio Faustini, baixo brasileiro, 1938-1999, foi professor de Canto na Universidade de Brasília) falava isso: você vai estar pronta quando você estiver no palco cantando, você sair de você e se observar de fora.

FERNANDO – Isso eu tenho fortíssimo dentro de mim. Dificilmente eu erro uma opinião sobre mim, sobre o que aconteceu. Dificilmente.

JANETTE – Isso é bom.

FERNANDO – Isso é bom, mas ao mesmo tempo é ruim. Porque dá a certeza de coisas que são muito voláteis.

JANETTE – Entendo. Um dia você está melhor, outro pior de humor, de estado físico.

FERNANDO – A pessoa que não é muito consciente (faz um gesto de “não estou nem aí”) ….porque o que foi, foi. Não, aqui martela a cabeça. E geralmente o que martela é a falha, porque o bom para mim é mera obrigação. Não faço mais do que minha obrigação. Então, o que fica é o que supostamente é o erro. Sou muito obcecado com o erro. Não pelo fato, eu não sou um perfeccionista, mas não deixo de observar nada. Não passa nada para mim…nada.

JANETTE – Sério? Que coisa tensa.

FERNANDO – Eu sou um observador de mim mesmo. Consigo me observar durante o meu canto. Muito crítico

ROSANA – Ele é muito crítico. Sempre acha que cantou mal. Eu falo: você cantou bem. Ele fala: cantei muito mal.

JANETTE – Não transparece. Você parece tão tranquilo.

ROSANA – Tão seguro consigo próprio, mas não com os colegas, ele é muito crítico.

JANETTE – E como é que você lida com isso?

FERNANDO – Lido mal. Sofro muito. Com a história das coisas que aconteceram comigo, as responsabilidades aumentaram, cantando em teatros cada vez mais complexos, mais exigentes, público mais exigente. A carreira. Para mim isso não foi melhorando, foi piorando. Foi ficando mais difícil. É mais difícil. Então sofro mais hoje. Esse ano, especificamente, sofri muito. Foi um turning point. Eu cantei uma ópera, Vespri Siciliane, muito difícil. É uma ópera rara de Verdi, quase não se faz. E o papel do tenor é muito complexo. Exigiu muito de mim. Graças a Deus, passei pelo teste, mas foi muito sofrido. E tive que exercitar um desapego. Porque é um apego, né? De certa maneira, se lamentar, não é se lamentar. Sofrer é um apego. Fui obrigado a me desapegar dessa sensação de sofrer porque não estava conseguindo mais, não estava resistindo mais. Então..

JANETTE – Porque chega uma hora em que inviabiliza a performance…

FERNANDO – Inviabiliza a vida, mas é um apego. Você vai se apercebendo disso. Você se apega naquilo. Aquilo vira um vício psicológico. Você se habitua a este sentimento. Porque ele pode existir, mas você pode olhar de outro ponto de vista.

JANETTE – E o que você está fazendo agora para lidar com isso?

FERNANDO – Eu faço agora que nem técnica de dependente químico. Eu tento viver um dia atrás do outro.

JANETTE – Você nunca pensou em yoga, exercício?

FERNANDO – Fiz, é bom, Faço. Ajuda. Mas na hora da crise mesmo, não. Não ajuda porque a mente trava.

JANETTE – E química?

FERNANDO – Tudo. Rivotril, Dormonid, porque eu não durmo. E sem dormir…. porque o dormir, pelo menos para mim, a mente nem tanto…. porque por exemplo, depois que eu comecei a cantar acabei com meus dentes. Tensão….durante a noite. Estou fazendo um tratamento para todos os dentes.

JANETTE – Engraçado você falar isso, porque você é um tenor de sucesso. Você é o tenor que tem a carreira mais estável…

ROSANA – Tem uma coisa, ele não arrega (não amarela). Ele não é o temor pânico.

JANETTE – É um alto grau de ansiedade?

ROSANA – É uma ansiedade alta. Várias pessoas que minhas professoras falavam, citavam casos de pessoas com vozes incríveis que tinham o tal do temor pânico, que a pessoa não conseguia superar o medo e chegava um ponto em que não ia adiante. Ele tem o temor, mas ele vence o temor, ele enfrenta. Ele só faz, porque enfrenta.

FERNANDO – Mas, é muito desgastante. Então, agora esse ano sofri muito, muito, muito. Fiquei muito doente, porque a mente cansa e o corpo responde.

JANETTE – Eu tenho uma frase que uso quando entro no palco: “hoje eu farei o melhor possível”. Depois, o que eu não fiz é porque não foi possível.

FERNANDO – Mas é tarde. O meu problema é de manhã, quando acordo. Eu começo a sofrer ali. É o momento mais problemático.

ROSANA – Quando ele chega ao teatro, dá uma certa aliviada.

FERNANDO – Se eu estiver bem de voz. Mas, se eu estiver mal de voz…..

ROSANA – É insuportável dividir o camarim com ele, quando ele acha que está mal de voz. Nunca está na verdade. Ele sempre está bem. Mas 90% das vezes ele acha que não vai dar conta!

FERNANDO – Tem uma coisa assim.

JANETTE – O fato de você ser o tenor que é, um tenor importante, com uma carreira estabilizada…

FERNANDO – Piora! Na minha cabeça piora. Aumenta a responsabilidade!

JANETTE – É verdade, sob este ponto de vista, mas se você olhar sob o ponto de vista de que o que te levou a essa carreira é ser um cantor estável, ter um padrão que agrada a todos os maestros e teatros, isto não te daria uma tranquilidade?

FERNANDO – No meu caso não, porque na minha cabeça eu não faço mais do que minha obrigação. Sou muito crítico. Mas é que eu venho de uma casa em que a gente, não por crítica, mas pelo prazer de conhecer e estudar o canto, na minha casa estudava canto todo dia. Chegava do colégio, quando eu tinha 8 a 10 anos, tocava para meu pai cantar. Para meu pai vocalizar. Depois fomos eu e meu irmão, todo dia. Isso durante 15 anos. É uma cultura. No meu inconsciente isso é uma responsabilidade. Não é simplesmente o ato: ah, vou cantar.

JANETTE – O que você faria diferente hoje?

FERNANDO – Nada diferente!

JANETTE – E o que você diria para um jovem cantor sobre medo e ansiedade?

FERNANDO – Diria para ele, que a coisa mais importante, mais do que o canto, a música, o que me dá a estrutura é a afetividade, o afeto. Resolvido razoavelmente no afeto, você passa por qualquer túnel, por qualquer neura, por qualquer coisa. Pode ser duro, para mim duríssimo. Não é fácil, mas quando eu penso nela (Rosana), quando me lembro dos meus pais, quando me lembro do meu irmão, da minha família, tudo vale a pena. Porque eu tenho uma segurança afetiva muito forte.

ROSANA – Ele tem força para enfrentar.

JANETTE – O que é mais forte, o medo ou o prazer de estar no palco?

FERNANDO – É igual. Uma coisa alimenta a outra. Eu não sou aquele que entra e fala: ai, que prazer de estar no palco.

JANETTE – Eu tenho muito prazer. É maior que meu medo, minha ansiedade.

ROSANA – Eu tenho muito prazer. Quando estou no palco sinto muita alegria.

JANETTE – Fiquei muito impressionada com a naturalidade da Rosana no palco e o domínio sobre ela mesma. Rosana, você sabe exatamente até onde pode ir. Você tem o domínio da sua voz, da sua técnica. Você sabe seus limites. Agora, você me passava isso também. Foi uma surpresa!

FERNANDO – É um esforço mental brutal. Eu não emito uma nota sem estar racionalizando. Não deixo de me emocionar por causa disso. Não deixo de vivenciar, mas existe uma consciência paralela dizendo assim (faz uma expressão de observação). Um Fernando do meu lado…..É psicótico!

JANETTE – É o Gêmeos!!! Olha, muito obrigada pela entrevista. Vocês são lindos, queridos. Estou super feliz!

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