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Escrito por Leonardo Marques em 11 jul 2012 nas áreas Crítica

Em nenhum momento ópera alça voo, esfriando o público.

Rigoletto, ópera em três atos e quatro cenas de Giuseppe Verdi, sobre libreto de Francesco Maria Piave, com base na peça teatral Le Roi s’amuse (O Rei se diverte), de Victor Hugo, abre a diminuta temporada de óperas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro neste ano de 2012.

Rigoletto é um marco não só na carreira de Verdi, como também em toda a história da ópera. A obra é revolucionária sob vários aspectos, a começar pela música visceral com que um Verdi já totalmente no domínio de sua capacidade expressiva como artista emoldura o libreto de Piave. Esta música, ora bruta, ora doce, ora nervosa, sempre bem marcada por um ritmo preciso e que nunca abre mão de melodias sublimes e adequadas às situações dramáticas, chama também a atenção pela forma como os recitativos são tratados pelo Grande Mestre. Tais recitativos mesclam-se naturalmente aos números tradicionais da ópera (árias, coros, duetos, etc…), sem os grandes recortes do passado. E entre o recitativo e a ária, ainda temos o Pari siamo, definido geralmente como monólogo ou arioso, com o qual o protagonista se compara a Sparafucile, numa das cenas mais emblemáticas desta obra-prima.

Em Rigoletto, Verdi utiliza-se também da “cor musical”, a que ele tanto se referia, para situar cada uma das situações do drama: temos a festa no palácio do Duque com sua música alegre, a atmosfera sombria no dueto entre o protagonista e Sparafucile, e ainda o arrebatamento apaixonado do dueto entre Gilda e o Duque, a súplica do bobo aos cortesãos, a sua fúria violenta clamando vingança, o ambiente sinistro e envolto em clima de tempestade no ato final. Cada cena tem a sua cor, mas sem deixar de formar um todo muito bem encadeado dramaticamente.

É bom também observar que Rigoletto não tem um herói clássico. O tenor, que geralmente é o herói, aqui é uma espécie de vilão leviano e libertino, que se preocupa única e exclusivamente consigo mesmo. Já o barítono, que geralmente é o vilão, aqui é uma espécie de anti-herói. Rigoletto, o bufão, é um personagem extremamente rico em sua construção, dividido entre o que faz para sobreviver (ser o bobo da corte de Mântua, irônico, sarcástico e mordaz) e a sua vida particular, na qual é um pai zeloso e amoroso. Ele não é só bom ou mau, mas sim as duas coisas, como qualquer ser humano, dependendo do seu estado de humor, da ocasião, das circunstâncias de uma maneira geral. Como bem descreve o diretor no programa de sala, “A maldade de Rigoletto é a sua defesa e, ao mesmo tempo, sua vingança. Seu aspecto condiciona o seu caráter, assim como Tonio, no dizer de Nedda em I Pagliacci de Leoncavallo: ‘Tens a alma como teu corpo: deformada’.

Na atual produção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o diretor Pier Francesco Maestrini busca um ambiente soturno, com a intenção de demonstrar o clima pesado no qual está inserida a trama da obra. Para atingir esse objetivo, une os bons cenários de Alfredo Troisi a projeções preparadas pelo mesmo profissional, que, ao longo da ópera, ambientam muito bem cada uma de suas cenas. Com a boa iluminação de Jorginho de Carvalho servindo bem aos propósitos da direção, o objetivo final é alcançado com êxito, resultando numa encenação muito bonita, ainda que bastante escura (e auxiliada em sua “escuridão” pela utilização de uma espécie de tela durante toda a apresentação). Francesca Ghinelli criou os figurinos dos solistas e supervisionou a restauração dos demais trajes, todos bem inseridos no contexto da montagem.

Dentre as várias opções de Maestrini, cabe destacar algumas ousadias a meu ver bastante acertadas, como a caracterização de uma corte extremamente libertina e luxuriosa na primeira cena do primeiro ato (bem a cara do Duque!), e a ideia de oferecer a sua interpretação sobre o que teria acontecido com o personagem-título depois do final da trama, através de um vídeo projetado durante a abertura da ópera e também na cena derradeira. Interpretação plausível, considerando que Gilda era o “universo” do bobo da corte, como ele mesmo diz no primeiro ato.

Por outro lado, há dois fatos a lamentar no trabalho de Maestrini: preferir trocar o cenário entre as duas cenas do primeiro ato com a cortina principal aberta (o público não precisava ver através da tela acima mencionada os técnicos do Municipal providenciando a troca de cena); e optar por colocar algumas vezes os solistas para cantarem do meio do palco para trás – o que, considerando a atual acústica problemática do palco do Municipal e dependendo das condições vocais de cada solista, prejudica a projeção de suas vozes (coisa que deveria ter sido verificada e corrigida durante os ensaios, non è vero?). Apesar desses poucos deslizes, a concepção geral do diretor se sustenta muito bem, resultando numa encenação de qualidade – coisa rara por essas terras.

Nas duas primeiras récitas, o Coro do Theatro Municipal (preparado por seu titular, Maurílio dos Santos Costa) teve um desempenho não mais que correto. Já a Orquestra Sinfônica da casa, sob a condução do maestro português Osvaldo Ferreira, teve rendimento irregular, ora exibindo um som límpido e bonito, com dinâmica precisa, ora desencontrando-se clamorosamente com todos. Cabe ainda salientar que, em alguns momentos, Ferreira fez o conjunto tocar muito baixinho, para fazer audíveis algumas vozes, em especial a Gilda do primeiro elenco.

Da comparsaria, estavam bem a soprano Kamille Távora (pajem), a mezzosoprano Carla Odorizzi (Condessa Ceprano), o tenor Ivan Jorgensen (Borsa), o barítono Ciro D’Araújo (Marullo) e o baixo Pedro Olivero (Conde Ceprano). Bem menos satisfatórios estavam a mezzo Rejane Ruas (Giovanna) e o barítono Fabio Belizalo (arauto da corte).

O barítono Manuel Alvarez deu boa conta do Conde Monterone, enquanto o baixo Sávio Sperandio foi um Sparafucile convincente, melhor no terceiro ato (bem sonoro) em comparação à sua primeira entrada, e melhor também na segunda récita que na primeira. A mezzo Adriana Clis fez uma ótima Maddalena, com voz segura e bem projetada, literalmente roubando a cena das duas “Gildas” no ato final.

Na récita de estreia, o desempenho mais satisfatório dentre os principais solistas foi aquele do tenor Fernando Portari, ainda que o Duque de Mântua, definitivamente, esteja longe de ser seu melhor personagem (suas performances como Nemorino, Roméo, Alfredo e até um bom Don José, para citar algumas que já presenciei, sem dúvida são superiores à sua versão do libertino mantovano). É verdade, no entanto, que este Duque de agora está bem melhor que outros dois que o tenor interpretou no mesmo Municipal no começo dos anos 2000. Seus melhores momentos foram a popular ária La donna è mobile e sua participação no magnífico quarteto Bella figlia dell’amore, no terceiro ato. No segundo ato, o solista foi bem na ária Parmi veder le lagrime, e começou muito bem a cabaletta Possente amor mi chiama, da qual muitos tenores de menor valia costumam fugir, mas terminou a passagem encoberto por coro e orquestra.

O barítono italiano Roberto Frontali (Rigoletto) é sem dúvida um bom cantor, mas não é tudo isso que seu currículo apregoa. Pode já ter sido, não é mais. Ele já cantou, por exemplo, no Metropolitan, mas há mais de três anos não aparece por lá… Bem, no Rio, o solista alternou altos e baixos, parecendo concentrar seus esforços nos momentos culminantes de sua parte (Pari siamo; Cortigiani, vil razza dannata), enquanto deixou a desejar em outras passagens. A sonoridade de sua voz também oscilou entre uma ótima projeção em alguns momentos, e outros de menor expressividade. Uma performance não mais que mediana.

Ainda na estreia, a soprano albanesa Artemisa Repa foi, pelo menos para o meu gosto, um verdadeiro desastre, num desempenho facilmente comparável ao da russa Alexandra Lubchansky, que no ano passado interpretou a mesma Gilda no Theatro Municipal de São Paulo. A solista fugiu dos superagudos como o diabo foge da cruz, e quando arriscou um deles, no finalzinho de seu dueto com o Duque no primeiro ato (a passagem Addio, addio, speranza ed anima), a nota saiu extremamente gritada, um horror. Seu “Caro nome” foi sofrível; apagou-se durante o quarteto “Bella figlia dell’amore”, deixando a mezzosoprano se destacar facilmente; e exibiu uma projeção limitada durante toda a ópera. Lamentável.

Na segunda récita, a Gilda de Lys Nardoto tampouco decolou. A soprano também enfrentou problemas de projeção e com os superagudos, e desafinou claramente em algumas passagens, especialmente em “Caro nome”. Também foi superada pela mezzosoprano no ato final, quando esta mais uma vez exerceu o seu direito de roubar a cena.

O tenor colombiano César Gutiérrez, que no ano passado fora um Edgardo bastante satisfatório em Lucia di Lammermoor, desta vez não deu conta da partitura do Duque de Mântua, e deixou transparecer seu esforço para atingir certas notas e efeitos, além de pronunciar mal algumas palavras. Um bom resumo de sua apresentação está nos frios aplausos que recebeu por “La donna è mobile”.

O barítono Rodolfo Giugliani também oscilou entre momentos melhores e outros nem tanto, assim como ocorrera com seu colega italiano da primeira récita. A favor do brasileiro, deve-se dizer que segue em sua carreira uma linha ascendente, e pode no futuro vir a ser um Rigoletto realmente convincente (o personagem, na verdade, exige artistas maduros e bastante experientes), enquanto Frontali aparenta já ter atingido o auge e estar, neste momento, em curva descendente. Na performance de Giugliani destacaram-se o insinuante Pari siamo, uma projeção satisfatória, ainda que não ideal, e um fraseado rico em muitos momentos. Em outras passagens, sua voz falhou em algumas notas fáceis, dando a impressão de que o solista pudesse estar com algum problema – um resfriado, talvez.

Um bom termômetro deste Rigoletto foi o público. O público do Municipal do Rio é famoso por aplaudir efusivamente (e de pé!) qualquer coisa: performances notáveis ou lamentáveis costumam ser aplaudidas com igual entusiasmo. Desta vez, no entanto, o público apresentou-se bastante exigente, e os aplausos para os números musicais ao longo das duas récitas foram frios, por vezes mínimos. Esta é a maior prova de que, musicalmente, a ópera não alçou voo.

Há um consenso na crítica de que, quando este tipo de coisa acontece, pode-se encontrar o responsável logo ali, no pódio, com a batuta na mão. Aqui, no entanto, a coisa parece mais complexa, e um conjunto de fatores parece ter contribuído para a frieza do público e para a falta de entusiasmo da interpretação musical. Além dos problemas das vozes, acima mencionados, pode-se pensar no problema da acústica do palco do Municipal, que realmente existe, principalmente quando os cantores se colocam da cortina para trás, não utilizando o proscênio, mas, no ano passado, Sondra Radvanovsky e Juan Pons fizeram o Municipal tremer. Mistério…

Apesar de todos os problemas acima observados, vale a pena conferir este Rigoletto em cartaz no Rio, ao menos para ver uma encenação realmente convincente e, no futuro, poder compará-la àquelas concebidas por diretores desqualificados.

O próximo (e penúltimo!) título da temporada lírica 2012 do Theatro Municipal do Rio de Janeiro será a opereta A Viúva Alegre, de Lehár, com estreia prevista para 22 de setembro. A montagem terá regência de Silvio Viegas, direção de Jorge Takla e um único elenco, reunindo nas partes principais os solistas Gabriella Pace, Lício Bruno e Homero Velho.

1 Comentário

  1. Leonardo Marques
    12-7-2012

    RIGOLETTO – 3ª RÉCITA

    Vi Rigoletto pela terceira e última vez na atual montagem do Municipal nesta quarta-feira, 11/07, com o mesmo elenco da estreia. E resolvi adicionar este comentário porque ocorreu uma sensível melhora no desempenho de dois dos solistas principais, e ainda o nível musical geral esteve, agora sim, numa “voltagem” mais elevada, como comprovou a reação mais entusiasmada do público.

    Fernando Portari, que já estava bem, teve uma ótima récita; e Roberto Frontali, ainda que sua voz não tenha realmente conquistado meus ouvidos e o solista abuse um pouquinho de certos truques vocais, esteve muito mais satisfatório que na primeira récita, oferecendo agora um Rigoletto ao menos digno.

    Já Artemisa Repa, embora tenha também apresentado uma ligeira melhora, particularmente na primeira parte do dueto com Rigoletto no segundo ato (Tutte le feste al tempio), repetiu as mesmas falhas que apontei na estreia.

    Repito o que disse antes: Mistério…

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