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Escrito por movimento.com em 3 ago 2012 nas áreas Lateral, Programação, Rio de Janeiro

A tradicional semana de concertos comemorativos está repleta de novidades. Entre elas, missa de José Maurício que há mais de um século não é executada.

Clássica e romântica, sacra e profana, erudita e popular, cosmopolita ou nacionalista, a produção musical brasileira compreendida entre o final do século XVIII e a primeira metade do XX é tema dos cincos concertos que comemoram o 164º aniversário de fundação da Escola de Música (EM). De 13 a 17 de agosto, a série oferece uma oportunidade ímpar para o público apreciar um painel, ao mesmo tempo abrangente e diversificado, de momentos fundamentais dessa trajetória cultural que, “tendo início no outono do período colonial, atravessa o Império, a República Velha e a Era Vargas para, finalmente, alcançar ao que concebemos hoje como o Brasil moderno”, como lembra João Vidal, diretor adjunto do setor artístico e um dos organizadores do evento.

Um enorme patrimônio musical forjado, faz questão de acrescentar, em condições sociais e políticas “cambiantes”, mas que marca as falas com que pensamos nosso passado e as formas como construímos nossas identidades como povo e nação.

Os concertos, que ocorrem no Salão Leopoldo Miguez, sempre às 19h, têm entrada franca e coincidem com a realização do III Simpósio de Musicologia, promovido pelo Programa de Pós-graduação em Música da UFRJ (PPGM). Os intérpretes serão alunos, técnicos e professores da Escola, além de convidados. Entre estes, a Orquestra Acadêmica da Unesp, o soprano Juliana Franco, o tenor André Vidal e o coral da Associação de Canto Coral.

Fundada em 13 de agosto de 1848, com o nome de Conservatório de Imperial, a EM é a mais antiga instituição dedica ao ensino de música do país, uma atividade até então restrita a cursos e professores particulares.  Tornou-se Instituto Nacional de Música em 1890 e foi, durante o Estado Novo, incorporada à então Universidade do Brasil, como Escola Nacional de Música.  A atual designação remonta a 1965, quando a universidade passeou a se chamar UFRJ. Em 1980,em  mais um pioneirismo, implantou o primeiro curso de pós-graduação em música do país.

Missa a Quatro

No concerto de abertura das comemorações, a Orquestra Sinfônica da UFRJ (OSUFRJ) apresenta um repertório muito especial que inclui a Abertura em ré maior, de Castro Lobo, cujo manuscrito se encontra no Museu da Inconfidência em Ouro Preto; a Ave Regina Caelorum, de Lobo Mesquita, reconstrução de Sérgio Magnani a partir de originais que estão no Museu da Música de Mariana; O Vere Christe, da Coleção Curt Lange do Museu da Inconfidência em Ouro Preto; e O Salutaris Hostia, de Marcos Portugal – obra programada para homenagear os 250 anos de nascimento do compositor luso-brasileiro.

Mas o destaque do programa é mesmo a Missa a Quatro Vozes, CPM 11, de José Maurício Nunes Garcia, que a musicóloga Cleofe Person de Mattos, maior estudiosa da obra do padre compositor, sugere ter sido criada entre 1808 e 1809. O manuscrito se encontra na Biblioteca Alberto Nepomuceno (BAN) da Escola de Música e faz parte da parte da Coleção Bento das Mercês, antigo músico da Capela Imperial. Comprado pelo governo federal no final do séc. XIX à sua sobrinha e herdeira, Gabriela Alves de Sousa, o acervo foi doado ao então Instituto Nacional de Música.

Leve, graciosa, com introduções longas e discreta tendência ao virtuosismo, nos solos”, segundo Person de Mattos, que identificou ainda “acentos seresteiros” em alguns dos seus solos de flauta, a missa ganhou edição de Ernani Aguiar, que a regerá depois do silêncio de mais de um século. Obra praticamente inédita, será a sua primeira audição integral desde o século XIX, afirma com entusiasmo André Cardoso, diretor da Escola e maestro que divide com Aguiar o comando da OSUFRJ.

O baixo instrumental foi reconstruído pelo compositor e instrumentista da OSUFRJ Sérgio Di Sabbato. Os solistas serão os sopranos Juliana Franco e Michele Menezes, além do tenor André Vidal. A apresentação reunirá o Coro da Associação de Canto Coral, instituição fundada por Pearson de Mattos que completa 70 anos, e o Coral da Escola de Música, ambos dirigidos pela maestrina Valéria Matos, docente da EM.

Mais novidades

Os outros concertos da semana também estão cheios de atrações. No dia 14, terça-feira, o Trio UFRJ apresenta obras que marcam, como aponta Vidal, um momento “crítico” na música brasileira. O da “transição entre o Romantismo tardio de feições europeias do fin-de-siècle e as manifestações mais modernas de cunho nacionalista dos anos de 1920”, esclarece. No programa, peças de Henrique Oswald, Francisco Braga e Francisco Mignone, sequência de autores que assinalam essa trajetória.

No dia 15, o destaque é um aspecto muito próprio da cultura brasileira: o entrelaçamento entre a música das ruas e a dos salões provocado pela chegada, em março de 1808, da Família Real ao Rio — o que redefine o panorama artístico da cidade. De uma forma como jamais concebível no continente europeu, a cultura erudita da aristocracia interagiu com as práticas musicais populares e produziu gerações de modinheiros, seresteiros, chorões e pianeiros, numa trajetória que vai desde Joaquim Manuel da Câmara, primeiro autor popular a ter um tema aproveitado em uma peça de concerto, até Pixinguinha, momento em que a nascente indústria fonográfica passa a impactar a criação popular. Entre eles, compositores como Carlos Gomes, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Villa-Lobos, João Pernambuco e Patápio Silva, entre outros.

Encerram a semana dois recitais dedicados a formações musicais específicas. No dia 16, o Art Metal Quinteto apresenta a produção brasileira para metais e, no dia seguinte, a Orquestra Acadêmica da Unesp, sob a batuta de Lutero Rodrigues, executa obras de compositores do nosso romantismo que na virada do século XIX para o XX, acompanhando tendências europeias, redescobriram a orquestra de sopros. Entre eles, Alexandre Levy, Leopoldo Miguez, Alberto Nepomuceno, Francisco Braga e Henrique Oswald.

PROGRAMAÇÃO

Dia 13 de Agosto – 2a. feira – às 19h.

Salão Leopoldo Miguez
Sonoridades Luso-Brasileiras: a música sacra e profana nos arquivos musicais do Brasil

Concerto de Aniversário da Escola de Música da UFRJ
Homenagem aos 70 anos da Associação de Canto Coral
Comemoração dos 250 anos de nascimento de Marcos Portugal

- JULIANA FRANCO – soprano
- MICHELE MENEZES – soprano
- LARA CAVALCANTI – meiossoprano
- ANDRÉ VIDAL – tenor
- Associação de Canto Coral
- Coral da Escola de Música da UFRJ
- VALÉRIA MATOS – Regente
- Orquestra Sinfônica da UFRJ
- ERNANI AGUIAR – Regência
Pe. João de Deus de Castro Lobo (Mariana, 1794-1832)
Abertura em ré maior
- (Arquivo do Museu da Inconfidência de Ouro Preto)

José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (17[?] – Rio de Janeiro, 1805)
Ave Regina Caelorum
- Lara Cavalcanti, meio-soprano
- (Arquivo do Museu da Música de Mariana, reconstrução de Sérgio Magnani)

José Joaquim da Paixão (Lisboa, c. 1770 – Funchal, c. 1820)
O Vere Christe (1792)
- Juliana Franco, soprano
- (Coleção Curt Lange, Arquivo do Museu da Inconfidência de Ouro Preto)

Marcos Portugal (Lisboa, 1762 – Rio de Janeiro, 1830)
O Salutaris Hostia
- Juliana Franco, soprano
- Lara Cavalcanti, meio-soprano
- (Arquivo do Cabido Metropolitano do Rio de Janeiro, edição de Antônio Campos Neto)

Pe. José Maurício Nunes Garcia (Rio de Janeiro, 1767-1830)
Missa a Quatro, CPM 11
- Kyrie, Gloria, Laudamus Te, Gratias, Domine Deus, Qui tollis, Qui sedes, Quoniam, Cum Sancto Spiritu
- Juliana Franco, soprano
- Michele Menezes, soprano
- André Vidal, tenor
- (Arquivo da Biblioteca Alberto Nepomuceno da Escola de Música da UFRJ, edição de Ernani Aguiar e reconstrução do baixo instrumental de Sérgio Di Sabbato)

 

Dia 14 de Agosto – 3a. feira – 19h.

Salão Leopoldo Miguez
A Música de Câmara Brasileira: entre o romantismo e o nacionalismo

Trio da UFRJ

MARCO CATTO – violino
MATEUS CECCATO – violoncelo
VIVIANE SOBRAL – piano
Francisco Mignone (1897-1986)
Canção sertaneja (1932)

Henrique Oswald (1852-1931)
Serrana (1925)
Elegia (1896) para violoncelo e piano

Francisco Braga (1868-1945)
Trio em sol menor (1937)
Andante – Allegro non troppo
Allegretto spiritoso
Larghetto (Lundu)
Allegretto

 

Dia 15 de Agosto – 4a. feira – 19h.

Salão Leopoldo Miguez
Modinheiros, Seresteiros, Chorões e Pianeiros: a música carioca nas ruas e salões

MARCELO COUTINHO -  voz
CLARISSA BOMFIM – flauta
PAULO SÉRGIO SANTOS – clarinete
PAULO SÁ – bandolim
HENRIQUE CAZES – cavaquinho e viola caipira
MARCELLO GONÇALVES – violão de 7 cordas
MARIA TERESA MADEIRA – piano
BETO CAZES – percussão
Francisco Manuel da Silva (1795-1865)
Lundu da Marrequinha
(c. 1853, letra de Paula Brito)
canto, cavaquinho, violão e percussão

Joaquim Manoel da Câmara (1780?-1840?)
Desde o dia em que eu nasci
canto, violão e viola caipira

Sigismund von Neukomm (1778-1858)
L’Amoureux (1819), andante sobre o tema da modinha Desde o dia em que eu nasci
flauta e piano

Henrique Alves de Mesquita (1830-1906)
Ali Babá (1872)
flauta, bandolim, cavaquinho e violão

Carlos Gomes (1836-1896)
Meditação (s.d.)
bandolim e piano

Joaquim Callado (1848-1880)
Salomé (s.d.), polca
flauta, cavaquinho e violão

Ernesto Nazareth (1863-1934)
Digo (c. 1900), tango brasileiro
piano

Chiquinha Gonzaga (1847-1935)
Cubanita (1898), habanera
flauta, cavaquinho, violão e piano

Anacleto de Medeiros (1866-1907)
Yara (1896), schotisch
flauta, clarinete, cavaquinho e violão

Patápio Silva (1880-1907)
Margarida (1904), mazurca
flauta e piano

Heitor Villa-Lobos (1887-1959)
Choros n.º 1 (1920)
cavaquinho e violão

João Pernambuco (1883-1947)
Graúna (s.d.)
bandolim, cavaquinho, violão e percussão

Heitor Villa-Lobos (1887-1959)
Choros n.º 5, “Alma brasileira” (1925)
flauta, clarinete, bandolim, cavaquinho,
violão, piano e percussão

Irineu de Almeida (1873-1916)
Morcego (s.d.)
flauta, clarinete, bandolim, cavaquinho,
violão, piano e percussão

Pixinguinha (1879-1973)
Oito batutas (1919)
flauta, clarinete, bandolim, cavaquinho,
violão, piano e percussão
Lamentos (1928)
voz, flauta, clarinete, bandolim,
cavaquinho,violão, piano e percussão

 

Dia 16 de Agosto – 5a. feira – 19h.

Salão Leopoldo Miguez
Música, Metras e Brasilidade: uma história para ouvir

ArtMetal Quinteto

JESSÉ SADOC – trompete
WELLIGTON MOURA – trompete
ANTONIO AUGUSTO – trompa
JOÃO LUIZ AREIAS – trombone
ELIEZER RODRIGUES – tuba
Camargo Guarnieri (1907-1993)
Dança Brasileira (1928)
(arranjo de Jessé Sadoc)

Sigismund von Neukomm (1778-1858)
Marcha Militar n.o 3 (1816)
(arranjo de Antonio J. Augusto)

Pe. José Maurício Nunes Garcia (1767-1830)
Libera me (1799)
(arranjo de João Luiz Areias)

Henrique Alves de Mesquita (1830-1906)
O Vampiro (1873), valsa
Fantasia para trompete (1847)
Marcha Heroica Marquês do Pombal (1870)

Heitor Villa-Lobos (1887-1959)
Bachianas Brasileiras n.º 8 (1944)
(arranjo de Antonio J. Augusto)
Ária (Modinha)
Tocata (Catira Batida)

Osvaldo Lacerda (1927-2011)
Fantasia e Rondó (1977)

Bonfiglio de Oliveira (1894-1940)
O bom filho à casa torna (s.d.)

 

Dia 17 de Agosto – 6a. feira – 19h.

Salão Leopoldo Miguez
A Orquestra de Cordas no Romantismo Brasileiro

Orquestra Acadêmica da UNESP
LUTERO RODRIGUES – regência
Alexandre Levy (1864-1892)
Rêverie (1889) para quarteto de cordas

Leopoldo Miguez (1850-1902)
Tetéia (1904-1905?)
Saudade
Pierrot
Folguedo

Sant’Anna Gomes (1834-1908) & Carlos Gomes (1836-1896)
Saudade (1882) para quinteto de cordas

Alberto Nepomuceno (1864-1920)
Adagio (1891) para cordas

Francisco Braga (1868-1945)
Gavota (1905)
Minuetto (1905)
Madrigal-Pavana (1901)
Marionettes (1892)

Henrique Oswald (1852-1931)
Romanza (1898)
Valse (s.d.)

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