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Escrito por em 22 nov 2012 nas áreas Entrevista, Lateral

Arthur Cimirro (30) é compositor e pianista virtuose, detentor de prêmios no Brasil e no exterior.

Também é pesquisador musical e crítico de arte, e sua técnica como instrumentista é comparada à dos grande mestres do passado como Cziffra, Horowitz, Godowsky e Liszt. A seguir, entrevista feita por Marcos H. Pfeifer com o pianista.

Ao contrário da maioria dos pianistas você não participou de concursos de piano, por quê?

Porque não sou louco! (risos). Acredito que concursos de piano são coisas desumanas. Arte não pode ser avaliada como boa ou má, levando em consideração o gosto da banca julgadora, pois em um concurso com trinta pianistas onde todos provavelmente não cometerão erros, escolher três e pô-los em ordem é no mínimo injusto. Além disso, desconfio da capacidade de muitas bancas em julgar algo sem misturar suas expectativas auditivas. Muitos querem ouvir um Chopin na interpretação de Arthur Rubinstein, outros na de Claudio Arrau. Isso não é bom para a arte em nenhum sentido. Agora, existem os que fazem disso uma profissão, em geral pianistas fadados à esterilidade interpretativa que nada acrescentam, apenas sobrevivem.

Seu prestígio como pianista se deve muito ao seu repertório. O que leva uma pessoa a se dedicar a um repertório virtuosístico de dificuldade extrema como o seu?

Gosto de desafios, mas não me dedico somente ao virtuosismo. Executo apenas repertório que me agrade, seja fácil como a segunda Dança Espanhola, de Granados, ou o dificílimo Capricho Rítmico, de Hermann Heiss. Por outro lado, passo longe de obras de que não gosto como, em geral, as de Gershwin e Piazzolla, por exemplo.

Sempre fica no ar uma discussão entre os que acreditam na importância da técnica e os que preferem a expressão de um instrumentista. Quais suas considerações em relação ao tema?

As pessoas confundem expressão musical com o ato de fazer “caras e bocas” ou de “revirar os olhos” enquanto se pressiona as teclas de um piano. Por outro lado, algumas pessoas pensam que ter técnica significa tocar arpejos e escalas rápidas. Isto tudo está errado. Ter expressão em arte é fazer com que uma melodia tenha seu momento de crescimento, de diminuição e de respiração, de modo que a música fique inteligível para o público leigo, e isso faz parte do conjunto de técnicas que o profissional precisa dominar para dizer “sou um pianista”. Um músico precisa fazer música com qualidade, não importa como ele se move ou como se veste. Eu me preocupo com o som. Quanto ao gosto de público, ai é uma questão de cada um, apenas vale lembrar que muitas vezes o gosto é um inimigo da arte.

De acordo com sua biografia, você criou um “Sistema Científico de Interpretação”. O que vem a ser tal sistema e qual a relação entre arte e ciência que ele envolve?

Acredito ser bom esclarecer o porquê de tal criação. Quando comecei a estudar música não tive aulas normais de teoria, minha aula de teoria se resumia a copiar um livro completo sobre o tema em um caderno, o que eu fazia com muito interesse e atenção ao longo de alguns meses. Uma vez percebido que o método funcionou comigo, procurei por conta própria livros de contraponto, harmonia e análise. Mais uma vez que eu saí da teoria e fui ter contato com a prática alheia, percebi que uma maioria não era fiel ao que os livros teóricos ditavam. Minha compreensão de interpretação foi rápida, no entanto percebi também que muitos disfarçam a incapacidade de interpretar algo utilizando-se de recursos espúrios/duvidosos.

O “Sistema Científico de Interpretação” fez sentido para mim no momento em que percebi que, por exemplo, não havia uma gravação da Grande Sonata Patética Op.13 de Beethoven onde fosse possível ouvir a melodia da mão esquerda na introdução, afinal, como era de praxe no classicismo e na transição com o romantismo, acordes não devem ser interpretados como melodia, e é exatamente o que acontece com esta obra; ouve-se uma melodia errada que em algum momento virou uma tradição e que até hoje não é alterada. Problemas, como o que ocorreu nesta obra, podemos encontrar em boa parte do repertório, especialmente em Beethoven e Liszt, onde a demanda técnica parece ser a força motriz do erro interpretativo da maioria dos pianistas.

Dito isto, explico: o Sistema Científico de Interpretação é um método de análise mais completo e detalhado para a criação de uma interpretação; não é um meio/tentativa de padronizar algo, mas uma maneira mais correta ou mais lapidada de perceber onde temos de ser fiéis e onde podemos tomar liberdades. Não há relação com a ciência de fato, mas sim com uma metodologia científica. Arte não é ciência, mas nem por isso deve ser dadaísmo ou mero conceitualismo pueril unido à uma falta de conhecimento técnico.

Qual sua relação com a música popular?

Em países como o Brasil é importante educar o público, de modo que a escolha do repertório é um dos momentos cruciais para a boa aceitação de um artista. Obviamente não me dedico à música popular, de qualquer forma adiciono algumas composições populares em meus repertórios no Brasil, e o público em geral até prefere tais obras por não conhecer o repertório pianístico. Em geral, faço arranjos ou livres improvisações sobre as melodias na última parte de um recital para que as mesmas passem de “simplórias” ou “pobres” para no mínimo “interessantes”. O preconceito por parte de alguns músicos mora no fato de que o processo composicional da música popular acontece por “adestramento” e não por conhecimento técnico. Mas se uma melodia é bonita e o público gosta, e levando em consideração que ser pianista é trabalhar com entretenimento, por que não?

Uma ampla Educação Musical é possível no Brasil?

Arte é sanidade mental, e políticos populistas não querem um povo são. Esta é a resposta completa. De qualquer forma, é importante mencionar que temos um conjunto de problemas que fazem da Educação Artística (não somente musical) uma utopia no Brasil.
Temos leis de incentivo que fazem os artistas parecerem mendigos dependentes da boa vontade de empresas patrocinadoras, uma mídia que a cada dia se mostra mais interessada na baixaria e na má qualidade, incentivando subculturas midiáticas que são chamadas de “nacionais” e que servem apenas para a degenerescência humana.

As universidades aumentaram em número e pioraram em qualidade. Hoje temos bacharelandos, licenciandos, mestres e doutores em arte completamente despreparados, teses e projetos inúteis, dinheiro empregado em pesquisas mal feitas etc… E existem os que tentam construir orquestras em periferias, tendo muitas vezes quase nenhum retorno, apenas para o governo dizer que faz algo pela cultura e nada mudando em relação à política de educação e cultura real. Não acredito que algo vá funcionar neste sentido no Brasil.

E quanto a projetos como o de Canto Orfeônico criado pelo Villa-lobos?

Pobre Villa-lobos. Ele foi um desbravador cultural, no entanto viveu numa época em que, mesmo com toda dificuldade, era possível fazer algo em relação à educação no Brasil.  Há um bom tempo, por culpa do populismo e da selvageria com que as pessoas lidam com o dinheiro, isso se tornou impossível, felizmente Villa-lobos está em um lugar melhor…

E quanto aos projetos para tirar jovens do tráfico/drogas através da arte?

É muito bom incentivar arte de qualquer forma desde a infância, mas mais importante é incentivar a honestidade e o valor de todo e qualquer trabalho. Utopia? Provavelmente. Mas me incomodo em ver crianças trabalhando com arte na televisão. Isso pode? Trabalhar apanhando laranja não pode? Falta coerência. Uma criança pode trabalhar em uma novela e ficar em contato com atores fazendo cenas quase pornográficas e cheirando cocaína?
Bem, não me considero um “conservador” no atual sentido pejorativo da palavra, apenas penso ser hipocrisia falar em projetos para jovens através da arte, sem falar em projetos para jovens através da lida no campo e/ou em outra áreas importantes para a sociedade.

Quais as dificuldades encontradas por um jovem artista na atualidade?

Sempre tive apoio zero e isso fez com que eu focasse meu trabalho nos diferenciais que apresento, mas o grande problema é que mesmo o meio musical não abre espaço sem que você seja amigo da pessoa certa. Não conheço uma orquestra que seja receptiva a um solista desconhecido que não pertença a algum clã (ou máfia) do qual o regente também seja oriundo.

Como compositor, qual sua linguagem escolhida e em qual movimento estilístico você encaixa a sua obra?

Costumo dizer que sou um compositor camaleônico. Gosto de compor em linguagens variadas e, na medida do possível, busco não imitar obras alheias nem me repetir. Tenho uma série de estudos para piano que mostram bem este lado. Da mesma forma, compus as “4 Peças Românticas Op.12” nas quais utilizo linguagens/técnicas que Mendelssohn poderia ter usado, ou a minha “Sonata Op.3” que possui seis movimentos e dura cerca de duas horas em uma linguagem mais próxima do modernismo de compositores como Busoni, Stravinsky, Sorabji e Messiaen.

No entanto, não procuro a diferença a qualquer custo, considero isso um péssimo hábito de muitos compositores mal treinados que não dominam técnica alguma e se dedicam a buscar explicações plausíveis para um acúmulo de ruídos de mau gosto que dois intérpretes nunca conseguirão repetir sem soarem completamente diferentes um do outro. Também não me atrai uma obra completamente criada através da matemática (Stockhausen e cia). Os que dizem gostar de ouvir isso me parecem mais interessados em não demonstrar ignorância frente aos outros do que verdadeiros entendidos no assunto. De qualquer modo, sob um ponto de vista estético estes “matemáticos” muitas vezes são geniais, e não posso deixar de dizer que considero uma aula maravilhosa estudar a partitura de alguns dos Klaviesrtückes de Stockhausen, e mesmo apreciar outras obras dele que são bem mais musicais que matemáticas como por exemplo “Licht”, que vem influenciando bastante a linguagem de uma ópera que estou compondo.

Fale mais desta sua ópera, será a sua primeira obra vocal de acordo com seu catálogo, certo?

Na verdade não será a primeira composta, mas sim a primeira que considero bem composta. Fiz vários testes, trechos de poemas musicados, mas sempre faltou uma ideia que eu considerasse apaixonante. Por ora, esta ópera se chama “O Rei dos Judeus” e minha intenção é que seu texto seja em aramaico, hebraico e latim. Obviamente, o texto versa sobre a vida de Jesus Cristo sob um ponto de vista humanista e não religioso, mas acredito que manterei na íntegra os “milagres” e os “momentos inexplicáveis”. Tenho aproximadamente ¼ da obra composta.

Paráfrases e arranjos são suas especialidades/preferências?

Fiz muitos arranjos/transcrições, mais de setenta, e gosto tanto quanto de compor. Por outro lado, não fiz tantas paráfrases, apenas tive a ideia de homenagear postumamente o pianista húngaro Georges Cziffra com um ciclo de 6 Paráfrases que foi o meu Op.7. Destas paráfrases, apenas três já foram gravadas. Além disso, em 2004/5 compus também uma paráfrase que chamei de “Reminiscências de Carmina Burana Op.2” baseada em temas da famosa cantata de Carl Orff. O que houve foi que, nas poucas oportunidades de gravar que tive até o momento, as situações ou contratos (no caso do CD gravado ano passado na Austrália) me levaram a gravar tais obras que em geral são muito bem recebidas pelo público nos concertos. Gosto muito de improvisar ao piano, e isso automaticamente faz com que de tempo em tempo eu crie facilmente alguma paráfrase sobre temas conhecidos.

Quando você fala em improvisação, qual a relação com Jazz?

Nenhuma. Posso improvisar um Jazz devido ao domínio de conhecimento necessário para tal coisa, mas não me agrada. Os leigos às vezes pensam que a improvisação nasceu com o Jazz, erro grave, pois a improvisação existe há séculos, mas acabou sendo transmitida mais oralmente do que de qualquer outra forma. De modo que hoje temos uma ideia de como Bach, Mozart, Beethoven, Chopin ou Liszt improvisavam, mas nenhum tratado foi escrito por estes compositores sobre suas experiências na área. Minhas improvisações são resultados de minha pesquisa histórico-sonora.

Além de persistência, o que mais um artista da sua área precisa para atingir seus objetivos?

Um artista completo nunca deve parar de se atualizar, nem ficar encapsulado em seu mundo próprio. É de suma importância a compreensão das artes como um todo, independente de qual será professada pelo artista. Não acredito em um artista que não entenda de ballet, que não tenha contato com literatura e filosofia, que não saiba diferenciar Delacroix de Degas, ou mesmo que não está a par dos avanços tecnológicos/científicos da atualidade. Quando um pianista vai interpretar uma obra como, por exemplo, “Após uma leitura de Dante” de Franz Liszt, deve ter em mente a influência que fora exercida nesta obra por Beethoven, Schumann, Draeseke, Dante Aliguieri, Delacroix e Victor Hugo. Ou seja, é necessário fechar um círculo de conhecimento antes de se expressar algo através da arte. Tudo está interligado e, por mais que não possamos saber tudo sobre tudo, devemos buscar o máximo que for possível. E se você é um estudioso que se encontra neste nível e gosta do que faz, então você possivelmente é um artista!

Assista aos vídeos de Artur Cimirro e ouça MP3 gratuitos no site: www.arturcimirro.com.br

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