Escrito por em 16 nov 2012 nas áreas Artigo

O maestro Osvaldo Colarusso analisa com franquesa e perspicácia a situação do TMRJ, no tocante à ópera e aos seus corpos estáveis.


O Theatro Municipal do Rio de Janeiro (sim, se escreve com TH!!) já foi um dos teatros de ópera mais importantes do mundo. E não precisa ir cronologicamente muito longe. Eu, em 1980, fui 5 vezes seguidas ao Rio (ida e volta de ônibus, na época morava em São Paulo) assistir às 5 récitas de Tristão e Isolda de Wagner, magnificamente cantada pelo maior Tristão daquela época – John Vickers -, em meio a um elenco que contava com os melhores cantores wagnerianos de então, como Thomas Stewart, Ruth Hesse e Nikolaus Hillebrand. Vale a pena lembrar que o espetáculo foi todo pago pelo estado e, naquela época, a educação e a saúde andavam bem melhores do que hoje.

Como público assisti a espetáculos dignos dos maiores teatros do mundo. Alguns exemplos: uma “Traviata” encenada por Zefirelli, uma belíssima Ariadne auf Naxos, de Richard Strauss, em estreia brasileira, no ano de 1988, com Edda Moser. Com o Ballet, assisti a espetáculos inesquecíveis como Les Noces, de Stravinsky, na coreografia de Bronhuslava Nijinska, e o Romeu e Julieta, de Prokofiev, regido por Mstslav Rostropovich.

Desta história de grandes feitos participaram os corpos estáveis do Theatro Municipal: a Orquestra, o coro e o Ballet. E um dos componentes básicos para tanta qualidade era a programação. Além das obras conhecidas do público, o Theatro Municipal sempre ousou colocando em cena obras complexas como Elektra, de Richard Strauss, (com Leonye Rysanek cantando Klitminestra !!!). Não podemos esquecer que nos anos 60 o Theatro Municipal montou pela primeira vez no Brasil a ópera Lulu, de Alban Berg, e quando o grupo vocal Swingle Singers veio ao Brasil nos anos 70, a orquestra do Theatro Municipal foi a única no país a conseguir tocar a Sinfonia, de Luciano Berio. Eu próprio pude experimentar, como maestro, esta ousadia, ao ser programada “Erwartung” (A espera), de Arnold Schoenberg, em 2005. Aliás, fiquei surpreso com o grande interesse dos músicos nesta complexa partitura, que foi executada em primeira audição no Brasil. Os elogios à orquestra estão bem documentados nas críticas daquela época .

Infelizmente, esta programação de altíssimo nível simplesmente não existe mais. Neste ano de 2012, por exemplo, foi encenada apenas uma ópera, a arqui-conhecida Rigoletto, de Verdi. Sim, estamos em novembro, e o Theatro Municipal do Rio de Janeiro monta neste ano, de forma completa, apenas uma ópera. Fizeram outra em forma de concerto, e o coro e a orquestra atuaram em itens também já conhecidos do público e dos músicos: O Réquiem, de Verdi, e o Réquiem, de Mozart.

Existe uma recusa em fazer a excelente orquestra realizar concertos sinfônicos (por que será????), o que faz com que bons músicos trabalhem bem aquém de suas capacidades. O Ballet, a única companhia de Ballet clássico do país, sofre do mesmo mal. Uma programação extremamente repetitiva faz voltarem periodicamente as mesmas antigas produções: Copellia, Lago dos Cisnes, Onegin, Quebra Nozes. Há anos, nenhuma nova montagem nenhuma nova coreografia.

O Coro, um dos melhores do país, se vê igualmente desperdiçado. Enxergo que a própria sobrevivência destes corpos estáveis se vê ameaçada. Nenhum concurso público para preenchimento de vagas é realizado há muitos anos, e um processo para a realização dos mesmos encontra-se buy prednisone onlineno prescription misteriosamente parado em alguma gaveta. A orquestra, que já está desfalcada, ficará ainda mais reduzida no próximo mês de março, quando 16 contratos temporários serão extintos, sendo que tais contratos não são renováveis.

Há alguns anos, houve uma tentativa de privatizar os corpos estáveis, num projeto extremamente combatido pelas pessoas da área. Um abaixo assinado com 10.000 assinaturas e o repúdio de todos os parlamentares fizeram com que o governador, prevendo uma derrota, retirasse a proposta. A resposta a esta retirada é uma indiferença completa aos corpos estáveis. Quem sai perdendo com isso é o público, que vê no Theatro Municipal uma sala de aluguel para grandes eventos, e não um centro de produções de alto nível.

Num momento em que o Municipal de São Paulo vive uma fase áurea, com inúmeras produções excelentes, com um repertório altamente ousado (O Crepúsculo dos Deuses, de Wagner, Pelleas et Mélisande, de Debussy), o Theatro Municipal do Rio de Janeiro caminha a largos passos para se tornar um espaço de aluguel e de grandes e saudosas memórias. A palavra que mais se lê no site do teatro, sintomaticamente, é: Programação sujeita a alteração. Lembro que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e seus corpos estáveis são um patrimônio cultural não só dos cariocas, mas de todos nós brasileiros. Cumpre a todos nós defender a sua permanência.

Publicado na GAZETA DO POVO – SP

 

}} else {

Faça seu comentário