Escrito por em 3 nov 2012 nas áreas CD/DVD, Lateral, Notícia

Gravação do conjunto Calíope chega ao mercado, trazendo arranjos de temas folclóricos e peças originais do compositor Heitor Villa-Lobos.

Villa-Lobos era muito mentiroso. Os leitores podem pensar que o crítico perdeu o juízo; afinal, que negócio é esse? Falar mal de nosso maior compositor! Na realidade, foi a pesquisadora Flávia Camargo Toni que assim se referiu ao Villa, ao proferir uma conferência em 1987. O motivo desta polêmica citação no presente artigo será explicado mais adiante.

Importa-nos agora que o conjunto vocal Calíope, formado por cerca de 30 cantores profissionais, lançou o CD Villa-Lobos – Vozes do Brasil – obra coral profana. São 17 faixas com composições para vozes desacompanhadas, em diversas formações. Há obras destinadas ao Orfeão dos Professores, coro criado na década de 1930 por Villa-Lobos e formado por cerca de 250 professores da então capital federal, o Rio de Janeiro, e também composições originais, com destinatários diversos.

Ao contrário do que se imagina, Villa-Lobos não era um ardoroso defensor da música popular. Muito pelo contrário: um de seus objetivos era, justamente, combater a mediocridade de certos gêneros musicais apreciados pela população, por meio da divulgação e do ensino do canto coral, implantado nas escolas com a chancela do governo. Palavras do compositor: “sei bem que o gosto e a opinião pública não se impõem, mas educam-se.”

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Nesse sentido, diversas faixas do disco têm clara inspiração popular, mas distanciam-se da simplicidade por intermédio da sofisticação dos arranjos. E aqui, fica claro o motivo de citarmos a polêmica frase da pesquisadora: Villa-Lobos menciona nas partituras algumas fontes que são, no mínimo, suspeitas. A divertida Jaquibau seria baseada em um certo “tema dos negros Mina, à época da escravidão no Estado de Minas”. Outra obra, Xangô, é descrita como “gênero de macumba de época passada, recolhido no Rio de Janeiro e ambientado por Heitor Villa-Lobos”. Além de Xangô, há outras três composições de caráter semelhante: Estrela é Lua Nova, Bazzum e Na Bahia Tem. Em que pesem as dúvidas acerca da veracidade das fontes informadas pelo compositor, são obras de clara inspiração na música afro-brasileira.

 

O Calíope interpreta com louvável competência tais obras, que possuem diversas onomatopeias e variações rítmicas que poderiam complicar a vida de um coro menos preparado. Outras faixas têm origens distintas: Remeiro de São Francisco seria derivada de um “canto dos mestiços do Rio São Francisco” e conta com um belíssimo solo para soprano, interpretado por Lina Mendes, que já ostenta em seu currículo algumas grandes atuações (como o papel de Gilda, no Rigoletto do Municipal de São Paulo em 2011). Vira é baseada em um tema popular português (ainda que Villa se afaste consideravelmente da melodia original). As Costureiras é definida como uma “embolada”, tema de inspiração nordestina, que em nada se assemelha com a embolada moderna, caracterizada pelo improviso dos cantadores, acompanhados por instrumentos de percussão. Papai Curumiassu inspira-se em uma “canção de rede dos caboclos do Pará” e traz um pungente solo para barítono. Canide Ioune-Sabath baseia-se em um tema indígena colhido no longínquo século XVI. O Calíope dá conta do recado, abordando com leveza as obras, não as fazendo soar acadêmicas demais.

Todas as composições mencionadas são das décadas de 1920 e 1930. Agradáveis de se ouvir e bem interpretadas, constituem um programa interessante para coro. Contudo, o melhor do disco está nas obras compostas nas décadas seguintes. A célebre Invocação em Defesa da Pátria, com texto de Manuel Bandeira, estreou em 1943, em meio à comoção popular causada pelo embarque dos pracinhas da FEB rumo aos campos de batalha europeus. O arranjo puramente vocal escolhido é muitíssimo bem interpretado pelo Calíope, e valoriza sobremaneira a composição, uma vez que o arranjo com orquestra (gravado pelo próprio Villa-Lobos) soa pesado demais.

Com texto de outro grande poeta, José (1944), para coro masculino a 4 vozes, é baseada no poema “E agora José ?” de Carlos Drummond de Andrade. Uma das faixas mais atraentes do disco, nota-se na gravação a homogeneidade dos timbres dos coristas, bem como a atenção constante à afinação. As Duas Lendas Ameríndias em Nheegatu, cantadas em uma língua franca criada pelos jesuítas a partir do vocabulário tupinambá, são obras da década de 1950, que revelam o compositor em sua fase mais madura.

Por fim, duas obras-primas: o arranjo vocal para a Fuga da Bachianas Brasileiras nº 8 traz as mais belas melodias do disco. Segundo Carlos Paula Barros, é seu caráter “acentuadamente nacional que traduz a modinha brasileira, apaixonada e sentimental que torna a composição tão bela. A seguir, a Bachianas Brasileiras nº 9, composição rica no uso de técnicas contrapontísticas, em que a inspiração nas obras de Bach e o uso de temas brasileiros se confundem.

O grupo Calíope comprova que possui mestria mais que suficiente para encarar obras desafiadoras sem vacilar. São registros de grande valor, visto que são raras as gravações deste repertório. Um lançamento mais que recomendável: indispensável para os rhine inc india 401404 admiradores de Heitor Villa-Lobos.

 

FICHA TÉCNICA:

Villa-Lobos – Vozes do Brasil – Obra Coral Profana

Calíope

Regência: Julio Moretzsohn

Selo: A Casa Discos

Crítica publicada no Caderno Pensar, do jornal A Gazeta (ES), em 03.11.2012, com adaptações.

 

 

 

 

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