Escrito por em 11 dez 2012 nas áreas Crítica

Maestro Ricardo Rocha e Cia. Bachiana Brasileira levam ao Municipal do Rio íntegra do Oratório de Natal, de J. S. Bach.

Para que se faz música? Com qual razão e para qual objetivo? Para que compositores, ao longo de séculos e por variados estilos, dedicam-se a agrupar sons e silêncios? A fim de que músicos, de não importa que nacionalidades ou raças, deitam arcos, dedos e lábios sobre tão diversos instrumentos? Que motivação faz com que cantores sintam gotas de suor over the counter metformin amazon correndo-lhes pelas costas enquanto acionam diafragmas e cordas vocais para produzir som e sentimento com a emissão do ar de seus pulmões? E o maestro, o que o faz dançar diante de uma orquestra e dela arrancar música e, do público, lágrimas?

O cineasta Joaquim Pedro de Andrade afirmou, à publicação francesa Libération, em 1987, que fazia cinema, entre outras razões, “para chatear os imbecis”. Mas, além desse, que mistérios levam um artista à criação? Desejo de eternidade? Vontade de transformar o mundo? Intento de suscitar “terror e piedade” aristotélicos? Ou simplesmente por um impulso irrefreável, qual mariposa atraída pela luz fatal? Este crítico não tem ganas filosóficas de Nietzsche ou Santo Agostinho, mas acredita que o poder criador que emana de tantos seres especiais chamados artistas tem por lema elevar os imbecis – e todos os outros – a uma condição mais elevada de existência. Ou ainda, segundo outra razão apontada por Andrade em sua resposta à pergunta “por quoi filmez-vous?”,“porque, de outro jeito, a vida não vale a pena”.

Valeram a pena os hercúleos esforços da Cia. Bachiana Brasileira, orquestra e coro, e seu maestro Ricardo Rocha para tirar das quase 200 páginas do Oratório de Natal – Weihnachtsoratorium, de Johann Sebastian Bach, cerca de três horas da música mais celestial jamais composta por um homem para que a vida alcançasse aquele átimo de segundo em que tudo faz sentido. Compostas para serem apresentadas nas festas natalinas de 1734/35, as seis cantatas que formam esse oratório têm envergadura monumental e exigem se seus intérpretes preparo de maratonista.

Bachiana nas alturas!

O concerto apresentado pela Cia. Bachiana no dia 9 de dezembro teve, naturalmente, pontos altos e baixos, mas as ovações e os aplausos em pé do público do Theatro Municipal do Rio de Janeiro foram merecidíssimos. Em primeiro lugar, pela entrega de maestro, instrumentistas e cantores ao penoso e sublime trabalho de montar a superlativa peça. Vem à mente a imagem de um comercial de uísque, no qual o Pão de Açúcar ganha vida e, pesada e compassadamente, levanta-se e caminha pela Cidade Maravilhosa, para espanto dos incautos.

Com trabalho sério e metódico, o maestro Ricardo e a regente assistente Danielly Souza prepararam o coro de 40 belas vozes para as impecáveis intervenções do grupo. A orquestra responde à altura, com participações, no geral, irretocáveis – especialmente da organista Elisa Wiermann; do oboísta Jorge Postel-Pavisic; da fagotista Ariane Petri; dos trompetistas Fábio Brum, Gabriel Dias e Wellington Moura; e do percussionista Lino Hoffmann, entre tantos talentos. Se o coro mostrou a que veio particularmente na Cantata II (Und es waren Hirten in derselben Gegend), os instrumentistas superaram-se com graça na sinfonia que abre a mesma peça.

Nos solos, o ponto alto foi o Evangelista do tenor André Vidal, cantor talhado à perfeição para interpretações barrocas, com seu timbre límpido e sua emissão impecável. O barítono Marcelo Coutinho também demonstrou talento e bela voz em suas partes. O contralto Noeli Mello levou sua primeira intervenção com pouco brilho, mas cresceu nas participações posteriores. Também integrante do coro, o soprano Michele Ramos apresentou-se com segurança e deixou fluir com fluorescência sua voz angelical. Merecem menção ainda os demais integrantes do coro que fizeram intervenções solistas, como o mezzo Hélida Lisboa, o tenor Diogo Oliveira (de bonito timbre, ainda que um tanto aberto, mas cuja participação perdeu-se ritmicamente) e o soprano Laila Oazem, simplesmente perfeita como eco na Cantata IV (Fallt mit Danken, fallt mit Loben).

À frente desse grupo de talentos, o maestro Ricardo Rocha, homem de erudição e perfeccionismo musicais, cujas três décadas de árduo trabalho foram celebradas com este belíssimo concerto. Que nesta data comemorativa, caro maestro, seja firmado seu compromisso indispensável de manter-se ativo e produtivo, presenteando o público brasileiro com suas execuções brilhantes, por, pelo menos, mais três décadas. Vida longa à Cia. Bachiana Brasileira!

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