Escrito por em 28 jan 2013 nas áreas Lateral

Diogo Vilela dá vida ao grande Ary Barroso em espetáculo envolvente.

Ele já incorporou Nélson Gonçalves na peça Metralha (1996) e já personificou Cauby Peixoto em Cauby! Cauby! (2006). Agora, após dois anos de pesquisas, Diogo Vilela volta como protagonista, diretor e autor do musical “Ary Barroso – Do Princípio ao Fim“, que está em cartaz no Teatro Carlos Gomes, no Centro do Rio.

Nascido na pequena cidade mineira de Ubá, em 1903, Ary de Resende Barroso, para quem não o conhece, é simplesmente o compositor de Aquarela do Brasil, quase um hino não oficial do nosso país. Como se não bastasse, ainda foi locutor esportivo, apresentador de programas de calouros e vereador. Dono de humor ferino e poucas (ou nenhumas) papas na língua, teve alguns de seus sucessos – Camisa Amarela, Na Baixa do Sapateiro, É Luxo Só, No Rancho Fundo e No Tabuleiro da Baiana, entre mais de 400 composições – gravadas por intérpretes do quilate de Carmen Miranda, Sílvio Caldas, Elizeth Cardoso e João Gilberto. Morreu em um domingo de carnaval – 9/2/1964 –, às vésperas de a escola de samba Império Serrano entrar na avenida com o enredo Aquarela Brasileira, em sua homenagem.

É desse ponto de partida que se desenrola a trama da peça. Em uma cama de hospital, internado por cirrose, o compositor oscila entre realidade e quimera diante da TV ligada no carnaval carioca. “Ele está morrendo, começa a alucinar e, nesse delírio, inicia uma autoavaliação”, explicou Diogo ao jornal O Globo (17/1/2013). Sim, é clichê, mas o pontapé inicial funciona: uma escola de samba entra em cena, levantando Ary de seu leito e já aumentando o batimento cardíaco da plateia.

O primeiro ato acompanha o personagem principal e seus diálogos (às vezes redundantes e excessivos, mas, ainda assim, bem escritos) com quatro supostos integrantes da Império Serrano – Alan Rocha, Esdras De Lucia (cujo límpido timbre de tenor merece destaque), Reynaldo Machado ordina cialis online e Marcos Sacramento (com projeção vocal um pouco a desejar na noite de 27/1), com intervenções de Ana Baird e Mariana Baltar, vivendo, no plano das memórias, Aracy Cortes (a primeira cantora a interpretar Aquarela do Brasil) e Carmen Miranda (a mais representativa intérprete de Barroso), respectivamente. Há ainda a participação especial de Tânia Alves, como Ivone, esposa do compositor.

Divas

Tânia, aliás, é alçada, no espetáculo, à condição de diva. Suas curtas (e ovacionadas) intervenções ganham brilho com as interpretações musicais. Boleros e sambas-canções, como Tu (Ary Barroso, 1934), colorem-se com o timbre grave e inconfundível da atriz. Esta melodia integra o segundo ato, no qual são apresentados outros ambientes em que Ary Barroso viveu – tais como a cidade de Ubá e o Teatro Recreio, lugar-ícone do teatro de revista no Rio de Janeiro, onde trabalhou como pianista.

Outras canções apresentadas na peça, bem incorporadas à narrativa, também brindam o público como momentos memoráveis: o ótimo pot-pourri (incluindo Eu Dei, composta por Barroso em 1937) de Carmen Miranda (Baltar) e o Bando da Lua, e a belíssima interpretação de Risque (Barroso, 1952) por Linda Batista (Baird).

Além das boas vozes dos atores/cantores, colaboram sobremaneira à qualidade das cenas a afiada banda, composta por Henrique Band (saxofones e flauta), Josimar Carneiro (violão e guitarra, bem como direção musical e arranjos), Antônio Guerra (piano e acordeom), Marcelo Müller (contrabaixo) e André Boxexa (bateria e percussão). Outro fator fundamental para o êxito das cenas é a ótima caracterização de Sérgio Azevedo (em boa companhia com os figurinos de Pedro Sayad, os adereços de Carlos Machado e os turbantes e arte plumária de Leonardo Braza), assombrosa em momentos como a aparição de Elizeth Cardoso (Mariana Baltar).

A caracterização é também de imprescindível ajuda para a impecável composição que Diogo Vilela faz de seu Ary Barroso. Impressiona principalmente a voz que o ator criou para o personagem (famoso também como locutor esportivo). Em entrevista para o site Globo Teatro, Vilela afirmou que teve “ajuda da família do Ary para ir aprendendo os trejeitos e também da fonoaudióloga Glorinha Beuttenmüller. Vi muitos vídeos dele na internet para ir conquistando a persona. Foi complicado montar um homem que não conheci, só tinha como referência o ponto de vista dos outros, então precisei ficcionar e mergulhar na pesquisa”.

Ator de trabalhos sólidos no teatro e na televisão, Vilela é o pilar que sustenta Ary Barroso – Do Princípio ao Fim. Além de seu belo trabalho de atuação (com colaborações expressivas da maioria do elenco), o espetáculo tem ainda sua direção (com supervisão artística de Amir Haddad) e texto (de primeira viagem, que teve como ponto de partida a biografia Recordações de Ary Barroso, Último Depoimento, de Mário de Moraes) – no qual se destacam a fluidez e as elegantes rimas.

A direção é dinâmica e dá ritmo a um espetáculo razoavelmente longo (150 minutos). A iluminação de Jorginho de Carvalho, os cenários de Beli Araújo e a preparação corporal de Carlos Leça trazem contribuições. Mas cabe a Diogo Vilela o grande mérito. Aparte seu talento e sua sensibilidade, merece loas a intenção de rememorar um dos grandes ícones da música brasileira. Como diz o próprio autor em texto do programa da peça, Ary Barroso – Do Princípio ao Fim é uma homenagem ao eterno compositor de Aquarela do Brasil, música que, nos anos 1940, projetou nosso país mundo afora e que até hoje nos lembra, quando a ouvimos, o que é isso aqui e quem somos nós, brasileiros”. Ou, como escreveu a pena do próprio Ary, “Isto aqui, ô-ô / É um pouquinho de Brasil iá-iá / Deste Brasil que canta e é feliz / Feliz, feliz / É também um pouco de uma raça / Que não tem medo de fumaça ai-ai / E não se entrega, não”.

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