Escrito por em 8 jan 2013 nas áreas Crítica, Musical, Rio de Janeiro

Espetáculo Rock in Rio – O Musical se perde entre canções dos anos 1980 e espírito teen.

Em 2013, mais uma vez, a Cidade Maravilhosa será palco de um mundo de música com a realização, em setembro, de mais uma edição do Rock in Rio (RiR) – as anteriores foram em 1985, 1991, 2001 e 2011 (fora as ocorridas em Lisboa e Madri). Para começar desde já a esquentar as massas (e propagar a marca), entra em cena um espetáculo baseado nas histórias e canções desses festivais: Rock in Rio – O Musical. Mas o que tinha tudo para dar certo – um evento memorável, músicas e artistas inesquecíveis que fazem parte da história da cidade – não se sustenta e desanda.

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É de se estranhar que o autor Rodrigo Nogueira (responsável por peças inteligentes como Play e Ponto de Fuga) e o diretor João Fonseca (Tim Maia – Vale Tudo e Oui Oui, a França é Aqui!, para citar os musicais mais famosos) não tenham conseguido usar seus vastos talentos e experiências para dar alguma coerência à miscelânea que se vê em cena na Grande Sala da Cidade das Artes (ex-Cidade da Música), na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. A premissa já é paradoxal: unir as canções dos anos 1980 (não somente, apresentando também hits das outras edições do RiR, mas essencialmente) com uma historinha com cara de seriado musical para adolescentes: Sofia, filha de Orlando Tepedino, organizador do maior festival de rock do mundo, não suporta ouvir música, mas se sente atraída por Alef, um rapaz que se calou depois de sofrer um trauma e só se expressa pelas canções. Ó vida cruel.

Doze milhões de reais foram gastos para ocupar o colossal palco da Grande Sala: são 20 cenários deslizantes (incluindo um carrinho, concebidos por Nello Marrese, em parceria com Natália Lana), mais de 120 figurinos e 25 atores em cena. O impacto visual desaba no primeiro número, no qual o elenco, em caracterizações que mais parecem cosplays tristonhos, desfilam constrangedoramente vestidos de Nina Hagen, Freddie Mercury, Ney Matogrosso e Baby Consuelo (figurinos de Thanara Schönardie). Apesar da boa iluminação do tarimbado Paulo Cesar Medeiros, um suspiro acompanha a constatação de que ainda há pela frente quase três horas de espetáculo.

Yasmin Gomlevsky (O Diário de Anne Frank) e Hugo Bonemer (Hair) protagonizam o casal de rebeldes Sofia e Alef. Ambos os intérpretes têm talento, ainda que lhes falte maturidade cênica – atributo que têm de sobra atores mais experientes como Guilherme Leme e Lucinha Lins, que representam, respectivamente, os pais de Sofia e Alef, e conseguem imprimir um pouco de dignidade a seus personagens (ainda que Lucinha se perca um pouco na busca de alguma densidade dramática à sua Glória, rasa como um pires).

Destacam-se no elenco algumas outras boas atuações. Ícaro Silva (da novela Malhação) esbanja carisma como Marvin, melhor amigo de Alef. Já Caike Luna (de Zorra Total) como o afetado Geraldo, assessor de Tepedino, faz o público rir – ainda que lance mão de um humor caricato e homofóbico.

 

Ô-ô-ô-ô

Mais de 50 canções célebres, como Pro Dia Nascer Feliz (Barão Vermelho), Freedom (George Michael), You’ve Got a Friend (James Taylor), Bohemian Rapsody (Queen) e Tempo Perdido (Legião Urbana) – além, naturalmente, do tema do festival (“Que a vida começasse agora / Que o mundo fosse nosso de vez…”), de autoria do maestro Eduardo Souto Neto –, servem à trama. Certas cenas musicais rendem bons momentos – como Kakau Gomes cantando Pessoa Nefasta (Gilberto Gil), o casal Bruno Sigrist e Lyv Ziese cantando Kiss (Prince) e até Lucinha Lins pulando ao som de Poeira (Ivete Sangalo). Tudo sob direção musical de Delia Fischer e com a competente participação dos músicos Marcos Amorim (guitarra e violão), Naife Simões (bateria), Matias Correa (baixo), Marcelo Amaro (percussão), Cláudia Elizeu (pianista regente), Heberth Souza (teclado), Ângelo (violino), Levi Chaves (sax e clarinete) e Thaís Ferreira (violoncelo).

A trama pode ser caracterizada como simplória, prolixa, inconsistente e mesmo tolamente ufanista, mesmo pincelando, entre uma rebeldia sem causa e um aborrecimento adolescente, o tema da Aids e questões políticas (como a ameaça de um retrocesso na democracia por meio do fechamento de universidades e repressão às manifestações estudantis).


Ilha de concreto

Rock in Rio – O Musical inaugurou, em esquema de soft opening, na noite de 3 de dezembro, a Cidade das Artes, obra mastodôntica e inacreditavelmente dispendiosa que teve início há mais de uma década, no governo megalomaníaco de César Maia. O soft opening permite que ajustes sejam feitos – neste caso, tanto no espetáculo como na sala.

Muitos acertos ainda precisam ser feitos. Na noite de abertura, a Cidade das Artes apresentava improvisos aqui e ali – equipamentos de obras nos jardins, péssima sinalização, banheiros com água pelo chão, pisos escorregadios.

Para total utilização do espaço projetado pelo premiado arquiteto francês Christian de Portzamparc em 2002 ainda falta muito. Em matéria publicada no jornal O Globo (4/1/13), o presidente da Fundação Cidade das Artes, Emílio Kalil, declarou que “o projeto envelheceu nesses dez anos. Precisou de ajustes. Mas já está maravilhoso. Por isso, decidimos fazer essa abertura suave. Para que possamos descobrir o que precisa ser corrigido”.

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo (3/1/12), o espaço deve acolher, além da Grande Sala, restaurante, cinema, biblioteca, salas de aula e de ensaio, sala de música de câmara e sala eletroacústica. A inauguração está prevista para março (provavelmente dia 4), com um concerto da Orquestra Sinfônica Brasileira (que não mais terá sede no local) e apresentações de balé, teatro e música popular. Ainda segundo Emílio Kalil (O Globo, 4/1/13), a programação deste ano deve ter espetáculos de dança de Deborah Colker e do Grupo Corpo, a apresentação das orquestras Sinfônicas Brasileira e da Petrobras, uma trupe de comédia francesa e um grupo de teatro norte-americano. De acordo com a assessoria de imprensa, Rock in Rio – O Musical fica em cartaz até 28 de abril.

 

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