Escrito por em 31 jan 2013 nas áreas Crítica

Montagem milionária traz aos palcos a divertida e assombrosa Família Addams


Ainda no século passado – 1996 –, o mineiro Cláudio Botelho lançou-se em uma seara estranha e semidesconhecida: a da montagem de musicais estrangeiros no Brasil. O ano marcou a estreia, no Rio de Janeiro, de Os Fantástikos, espetáculo off-Broadway dos anos 1960, composto por Harvey Schmidt e com letras de Tom Jones, que Botelho estrelou (ao lado de Kiara Sasso) e para o qual fez as versões. No ano seguinte, ao lado do parceiro Charles Möeller, levou à cena o musical As Malvadas, formalizando a famosa dupla Möeller & Botelho e colocando o Brasil, país do samba e do carnaval, na rota dos espetáculos musicais.

Na década e meia que se seguiu, além das incursões da dupla Möeller & Botelho (algumas autorais, como 7 – O Musical, de 2007, com trilha sonora de Ed Motta), produções decalcadas de espetáculos da Broadway ou do West End londrino desembarcaram no país, como Les Misérables (direção do britânico Ken Caswell e versões de Cláudio Botelho, 2001) ou West Side Story (direção de Jorge Takla em 2008 para musical de Leonard Bernstein e Stephen Sondheim).

Sim, além do teatro de revista, musicais nesses moldes foram montados em terras tropicais em tempos pregressos – como My Fair Lady, estrelado por Paulo Autran e Bibi Ferreira, em 1963, ou mesmo Hair, a montagem de 1969 de Ademar Guerra, com Armando Bógus e Sônia Braga. Mas é a dessa nova época que “o gênero tem espaço e fôlego de sobra para conquistar espectadores e patrocinadores. Basta lembrar que O Fantasma da Ópera (2005), um dos musicais mais bem-sucedidos comercialmente por aqui, ficou quase um ano em cartaz e atraiu cerca de 800 mil pessoas”, escreveu a jornalista Gabriela Mellão na edição 182 (outubro/2012) da revista Bravo!.

Chegando aos nossos dias, em que os musicais já têm público cativo, os desafios tornam-se outros: produções cada vez mais vultosas. Esses novos padrões ganham, em 2012, um ícone embalado por estalar ritmado de dedos: o musical A Família Addams, que estreou em março de 2012 em São Paulo e, em janeiro de 2013, chegou ao Rio de Janeiro.

Cifras bizarras

Segundo matéria do jornal O Globo (de 10/1/2013), R$ 25 milhões foram gastos na produção do espetáculo sobre a macabra e longeva família criada pelo cartunista norte-americano Charles Addams e publicada, em 1933, em uma tirinha no periódico The New Yorker. Virou série de televisão nos anos 1960 e, três décadas depois, brilhou nas telas de cinema. O musical baseado em seus personagens, com textos de Marshall Brickman e Rick Elice, e canções de Andrew Lippa, estreou na Broadway em abril de 2010. Mesmo tendo faturado mais de US$ 64 milhões, o espetáculo foi enterrado vivo pela crítica.

O Brasil foi o primeiro país fora dos Estados Unidos a fazer uma montagem de A Família Addams, e isso se apresentou como uma chance de recomeço. Para a versão brasileira, uma completa remodelação foi conduzida pelo diretor Jerry Zacks – conhecido como Doutor Broadway por sua capacidade de ressuscitar montagens que naufragaram. Ainda de acordo com a matéria citada d’O Globo, “Do total de 15 números musicais, ele substituiu quatro e recriou outros cinco, junto com os autores. “Todos viram na versão brasileira uma oportunidade para mudar o espetáculo que estreou na Broadway”, explica Zacks, que passou quase um mês em São Paulo para conferir de perto as mudanças e testá-las”. O resultado, aparentemente, deu certo: a montagem brasileira fez sucesso na capital paulista, atraindo mais de 350 mil espectadores durante a temporada no Teatro Abril.

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Grande parte do êxito é atribuída ao elenco, encabeçado por uma hilária Marisa Orth (Mortícia) e Daniel Boaventura (Gomez), auxiliados pelas ótimas versões para o português, a cargo do tarimbado Cláudio Botelho, responsável por diálogos fluidos e espirituosos. “Não sou fácil de agradar, mas amei trabalhar com os brasileiros. Me apaixonei pelo entusiasmo, a ética de trabalho e as habilidades do elenco e da equipe”, declarou Zacks a O Globo (10/1/13).

Na récita de 17/1, integravam o elenco, além da protagonista Orth, Cláudio Galvan (Gomez), Will Anderson (roubando as cenas como o tio Fester), a elogiada Laura Lobo (Wandinha), Matheus Lustoza (à vontade como Feioso), Iná de Carvalho (Vovó Addams) e Rogério Guedes (o mordomo Tropeço), bem como Paula Capovilla, Wellington Nogueira e Beto Sargentelli, como os integrantes da família Beineckes, Alice, Maurício e Lucas.

Na equipe técnica, muitos nomes oriundos da montagem original: Phelim McDermott e Julian Crouch (figurino e cenografia), Tom Watson (perucas), Angelina Avallone (maquiagem), Basil Twist (bonecos), Gregory Meeh (efeitos especiais), Natasha Katz (iluminação), Larry Hochman (orquestrações), Mary-Mitchell Campbell (supervisão musical) e Sergio Trujillo (coreografias). Dos brasileiros, Fernanda Chamma (diretora e coreógrafa residente), Vânia Pajares (diretora musical residente) e Márcio Telles (regente), além dos bailarinos Andressa Andreatto, Fabi Bang, Felipe Abrahão, Kauê Braga, Marcelo Vasquez, Marisol Marcondes, Milena Lopes, Ricardo Vieira e Thaís Garcia.

Tantos talentos reunidos criam momentos da melhor diversão. Recheado com o humor oriundo do ótimo texto de Botelho, o espetáculo ainda tem cenas de grande lirismo, como a viagem à Lua de Fester, e de muitas gargalhadas, como esse mesmo personagem em uma coreografia à la Gangnam style. Afora a presença impagável de Marisa Orth. “Somos mais politicamente incorretos. Me inspirei numa ‘traveca’”, declarou a atriz a O Globo de 11/1/2013.

Calafrios intensos

Mas nem tudo são flores na assombrosa mansão dessa bizarra família. Reportagem publicada em O Globo (13/1/2013) denunciava que a classe teatral tem opiniões favoráveis e contrárias à concentração de verbas públicas para espetáculos musicais cada vez mais caros – no topo dessa lista, está A Família Addams, que teve um orçamento adicional de R$ 5 milhões aprovado pelo Ministério da Cultura, via Lei Rouanet, para a temporada carioca.

Eduardo Barata, presidente da Associação de Produtores de Teatro do Rio, declarou, em entrevista ao jornal O Globo (13/1/2013): “Não é ilegal a captação de tais recursos via Rouanet. O problema são as distorções. Há uma concentração de recursos cada vez mais vultosos direcionados a um único tipo de espetáculo. (…) Isso afeta a diversidade da cena”. Aniela Jordan, da Aventura Entretenimento (produtora de Rock in Rio – O Musical), rebate, na mesma reportagem: “Cada centavo de dinheiro público incentivado gera empregos, capacitação técnica e desenvolvimento do setor”.

Enquanto a discussão parece longe de acabar, o público joga mais lenha na fogueira: o preço dos ingressos, que vai, no Rio de Janeiro, de R$ 50 e R$ 230. De acordo com matéria do jornal Folha de S. Paulo (16/1/2013), pelo menos cem dos 1.876 lugares na plateia do Vivo Rio, onde a peça está em cartaz, têm apenas visão parcial para o palco – mais do que declara o site do local. “Escolhemos o setor 1 e pagamos R$ 230 justamente porque queríamos ver o espetáculo de perto. Perdemos várias cenas”, desabafou o espectador Marlon Lima à Folha. Em que pese ainda o desconforto das instalações e a debilidade musical da casa de espetáculos, onde muito da música se perde, prejudicando sobremaneira uma atração baseada na audição. Na apresentação de 17/1, por exemplo, as vozes soavam abafadas, gerando dificuldade de entendimento do que era dito, e a orquestra repercutia alta demais.

Entre mortos e feridos…

Polêmicas e dissabores à parte, A Família Addams tem tido plateia cheia em todas as récitas. “Maravilhoso espetáculo!!!!” e “Eu recomendo! Um musical extraordinário!!!”, entusiasmam-se internautas como Giselle Bron e Luciana Ferreira (respectivamente), na fanpage do espetáculo no Facebook. A receita do sucesso parece vir do diretor Jerry Zacks: “Pedi à equipe para pensar que a cada apresentação um jovem estaria vendo pela primeira vez uma peça; portanto, eles deveriam fazê-lo se apaixonar pelo teatro naquela noite”.

De canção em canção, os musicais vêm crescendo a olhos vistos, trazendo a reboque uma profissionalização cada vez maior de atores e técnicos, além de uma legião de fãs ávidos. E o próximo passo parece ser a conquista do planeta: caberá à dupla Möeller e Botelho uma nova montagem do clássico Orfeu da Conceição, criado por Vinicius de Moraes e Tom Jobim em 1956, que deve estrear, com elenco brasileiro, em Londres, em 2013 e, no ano seguinte, chegar à Meca dos musicais – a Broadway. If I can make it there, I’ll make it anywhere.

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