Escrito por em 21 maio 2013 nas áreas Crítica

Ótimos solistas destacam-se na ópera de Wagner apresentada no XVII FAO, mas encenação não convence.

Parsifal, obra-prima em três atos de Wilhelm Richard Wagner, sobre libreto do próprio compositor, é a principal atração do XVII Festival Amazonas de Ópera.  Última ópera do gênio alemão, que a tratou, segundo sua própria definição, como uma “peça festiva de consagração”, a obra é baseada no poema épico medieval homônimo de Wolfram von Eschenbach, e também em Perceval, ou le Conte du Graal (Parsifal, ou o conto do Graal), de Chrétien de Troyes.  Wagner levou cerca de 25 anos entre a ideia do argumento e a sua realização no palco, que se deu pela primeira vez em Bayreuth em julho de 1882

A ação ocorre em Montsalvat, uma região montanhosa no noroeste da Espanha.  O velho Titurel era o guardião de duas relíquias sagradas: o Graal, ou seja, o cálice utilizado por Cristo na última ceia, e a lança que O feriu na Cruz.  Tais objetos sacros eram conservados no Castelo do Graal, protegidos por uma ordem de cavaleiros cristãos.  Devido à idade, Titurel transferiu a seu filho Amfortas a responsabilidade pela guarda das relíquias, assim como a função de presidir o Ofício (uma espécie de missa) cujo ponto culminante é o momento que conhecemos por eucaristia.  Amfortas cai numa armadilha preparada pelo mago Klingsor e perde para este a lança sagrada.  O mago fere o novo guardião com a poderosa arma e, desde então, Amfortas sofre de duas grandes dores: a física, proporcionada pela ferida, e aquela de sua consciência, por ter fraquejado diante da tentação diabolicamente preparada por Klingsor.  É neste ponto que a cortina sobe para o primeiro ato.

Quando a ópera começa, ficamos sabendo de tudo o que ocorrera previamente e também que a única maneira de curar a ferida do guardião é através da mesma arma que o feriu.  No entanto, apenas um “tolo inocente”, ignorante da religiosidade, poderá trazer-lhe a redenção.  Este inocente é Parsifal, inicialmente não reconhecido como tal pelos cavaleiros do Graal.

No segundo ato, Klingsor arma contra Parsifal a mesma armadilha em que pegara Amfortas, ou seja, força Kundry a seduzi-lo.  Kundry é uma mulher selvagem que purga pecados de outras vidas servindo aos cavaleiros do Graal.  O mago lançou um feitiço sobre ela que a fez sua escrava.  Mas Parsifal, o inocente, não se deixa seduzir e, ao receber o beijo de Kundry, toma consciência de tudo aquilo que até então ignorava.  Percebendo que não o conquistaria com seus encantos, ela pede ajuda a Klingsor e diz a Parsifal que ele não encontrará o caminho para voltar ao Castelo do Graal, pois ela amaldiçoa todos os caminhos que não o levem até ela.  Klingsor atira a lança sagrada contra o herói, mas ela não o atinge, restando suspensa sobre sua cabeça.  Parsifal então se apodera da relíquia e com ela destrói o castelo de Klingsor.

No último ato, depois de muito peregrinar e enfrentar muitos combates, nunca se utilizando da lança sagrada para vencer, Parsifal finalmente reencontra o caminho para o Castelo do Graal.  Titurel já está morto, mas o herói chega a tempo de curar a chaga de Amfortas.  Os cavaleiros o reconhecem como seu novo rei e Kundry finalmente encontra descanso na morte.

Apesar de tratar com grande sensibilidade o rito cristão, Wagner também se baseia em filosofias de outras religiões, especialmente o budismo, e cita em sua trama crenças como, por exemplo, a reencarnação (Kundry seria uma reencarnação de Herodíades – a mãe de Salomé), não admitida pelas religiões cristãs.  Um aspecto pouco lembrado é a crítica do compositor aos fracos sacerdotes, representados por Amfortas, que ao longo da história cristã muitas vezes se mostraram (e ainda se mostram!) menos preocupados com o cumprimento de suas funções de líderes espirituais, e mais empenhados na sua satisfação material e/ou sexual – não raro beirando a imundície da pedofilia.  Alguns padres, pastores e bispos auto-intitulados que o digam.

As duas grandes cerimônias apresentadas na ópera (finais dos primeiro e terceiro atos) são cenas magníficas e inigualáveis.  O batismo de Parsifal (por Gurnemanz) e o de Kundry (por Parsifal) são também momentos de grande emoção.  A sublime música de Wagner conduz lentamente a ação através de seus motivos condutores (leitmotive), dentre os quais se destacam os motivos do sino, do Graal, da fé e do sacramento.

A produção em cartaz até 22 de maio no XVII Festival Amazonas de Ópera é apenas razoável e deve seus principais aspectos negativos à encenação precária do mexicano Sergio Vela.  O diretor aposta numa concepção praticamente sem cenário, utilizando-se apenas de alguns poucos adereços de cena e da iluminação para compor a ambientação.  Esta caracterização até poderia ser aceita como razoável se Vela não desprezasse boa parte das rubricas do libreto de Wagner.

O Graal, por exemplo, não é mostrado em Manaus, mas a lança sagrada é.  Se uma relíquia pode ser mostrada, por que a outra não pode?  A chaga de Amfortas tampouco foi mostrada no último ato.  Segundo Wagner, é Kundry quem beija Parsifal, mas no Teatro Amazonas vemos o herói tomar a iniciativa do beijo quando ela praticamente “monta” sobre ele.  No começo do terceiro ato, Gurnemanz deveria encontrar Kundry depois de ouvir um gemido do lado de fora de sua cabana.  Além de não pôr a cabana em cena, Vela faz com que o cavaleiro encontre Kundry sem tentar localizar a origem do gemido, sem ver a mulher em momento algum e estando ela atrás dele!

Não para por aí.  O diretor opta também por impor movimentos extremamente lentos aos atores/cantores em muitos momentos da ópera, restando as cenas, muitas vezes, monótonas e sem interesse visual (Vela não é um Bob Wilson, que sabe usar o recurso como ninguém).  O longo diálogo entre Parsifal e Kundry no

segundo ato é encenado como uma sessão de psicoterapia, onde primeiro Kundry encarna a psicoterapeuta, limpando os óculos em movimentos estereotipados, e depois as posições se invertem, com Parsifal bancando o analista de Kundry.

O começo do terceiro ato é extremamente arrastado e seria melhor fechar os olhos e apenas ouvir a música, pois não há nada em cena que mereça ser visto.  E, para fechar com chave de lata, o posicionamento do coro em um dos balcões do teatro (recurso nada original, já usado no Rio de Janeiro algumas vezes), se por um lado causa um ótimo efeito sonoro, por outro esvazia o efeito dramático das cerimônias que encerram o primeiro e o terceiro atos.  Como se vê, faltou, para dizer o mínimo, zelo à direção da produção.

Segundo a divulgação oficial, os cenários estão a cargo do diretor, mas, como já mencionado, a ópera foi apresentada sem cenários, apenas com alguns elementos cênicos, como, por exemplo, troncos de árvores, cadeiras e um divã.  A iluminação, também a cargo de Vela, é irregular, com momentos em que atinge melhor efeito, e outros menos inspirados.

Já os figurinos de Violeta Rojas são, em geral, satisfatórios e de acordo com a concepção do diretor, mas a caracterização de Kundry não respeita uma determinação do libreto de Wagner, segundo a qual ela teria um aspecto mais selvagem no primeiro e terceiro atos.  Seu figurino do segundo ato, que deveria caracterizá-la como uma mulher sedutora e irresistível, tampouco convence, assim como aqueles das donzelas do castelo de Klingsor (shortinho curto, espartilho e cinta-liga) – um tanto forçados e apelativos.  Os trajes dos demais personagens cumprem bem sua função.  A coreografia de Ruby Tagle funciona bem na cena das donzelas de Klingsor, bem executada pelo Corpo de Dança do Amazonas.

Na récita de 19 de maio, o Coral do Amazonas esteve muito bem, especialmente suas vozes masculinas, bastante seguras e expressivamente dramáticas.  Infelizmente, não sei dizer quem foi seu preparador, pois não havia programa de sala.  A Amazonas Filarmônica, conduzida por Luiz Fernando Malheiro, deu início aos trabalhos um tanto insegura e com uma sonoridade claudicante, mas melhorou muito ainda no primeiro ato, e manteve o bom nível no restante da récita.  O motivo do sino, especialmente, recebeu interpretação encantadora.

Dentre os solistas, não comprometeram os tenores Enrique Bravo (1° Cavaleiro), Flávio Leite (3° Escudeiro) e Cleyton Pulzi (4° Escudeiro), as sopranos Michele Menezes (1° Escudeiro / Donzela), Maíra Lautert, Isabelle Sabrié, Elane Monteiro (Donzelas) e a mezzosoprano Andreia Souza (Donzela).  A mezzo Denise de Freitas, em uma participação especial para uma solista do seu nível, esteve bem como uma das Donzelas e o 2° Escudeiro.  Já o barítono Rafael Lima esteve muito bem como o 2° Cavaleiro, demonstrando ótima projeção.

Dando vida aos principais personagens, houve apenas uma grande decepção, que foi a soprano russa Olga Sergeyeva.  Na pele de Kundry, esperava-se da artista performance mais convincente.  Sergeyeva teve atuação cênica muito contida (o que provavelmente devemos colocar na conta do diretor), enquanto seu desempenho vocal se mostrou muitas vezes comum e desprovido de expressividade, apresentando ainda um vibrato excessivo nos agudos, que gerou, por vezes, um som desagradavelmente metálico.  Já o baixo brasileiro Pepes do Valle esteve bem como o ancião Titurel.

Os quatro solistas restantes tiveram excelente desempenho vocal, todos demonstrando importantes predicados, como ótima projeção, afinação perfeita, expressividade, belos timbres e presenças marcantes.  O tenor norte-americano Michael Hendrick foi um seguro Parsifal, de porte apropriadamente inocente e heróico.  O baixo mexicano Oscar Velazquez foi um maquiavélico Klingsor, que chegou mesmo a assustar pela maldade, apesar de a direção não lhe proporcionar uma ambientação adequada na torre de seu castelo.

O baixo brasileiro Diógenes Randes desenvolve excelente carreira internacional, já tendo se apresentado em importantes teatros europeus, dentre os quais o templo de Bayreuth, onde já cantou óperas como O Ouro do Reno, Siegfried, Os Mestres Cantores de Nuremberg e Parsifal (Titurel).  Em Manaus, além das qualidades supracitadas divididas com os colegas, foi um Gurnemanz ao mesmo tempo nobre e sereno, bastante seguro e convincente.

E, em meio a tão boas vozes, quem mais se destacou, para o meu gosto, foi o baixo-barítono mexicano Noé Colin, que deu vida a um sofrido Amfortas, com expressividade ímpar e uma emissão ao mesmo tempo firme e sentida, realmente comovente em todas as suas intervenções.  Uma performance notável, daquelas que se deve guardar na memória por muitos anos.

Apesar da encenação repleta de falhas, como se pode perceber acima, este Parsifal valeu a pena pelo excelente desempenho musical geral e, especialmente, por algumas vozes de alto nível.  Encerro com um singelo questionamento: quando poderemos ver novamente um Parsifal no Brasil?

Programa de sala

Pelo segundo ano consecutivo, não encontrei um programa de sala no Teatro Amazonas.  No ano passado, o programa, que é único para todo o Festival, não tinha ficado pronto a tempo de Lulu; agora, já tinha acabado no Parsifal.  Das duas, uma: ou a produç ão do Festival Amazonas de Ópera não respeita o seu público ou parece desconhecer o alcance e o potencial deste público.  Qualquer que seja o caso, é lamentável.

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