Escrito por em 4 ago 2013 nas áreas Artigo, Movimento

A foto revela a luz que ilumina os catedráticos da administração.


Recentemente, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que havia anunciado no final de fevereiro/começo de março somente uma programação parcial para este ano (até julho), divulgou o complemento de sua “temporada” própria 2013.  Só agora, portanto, é possível ter uma noção completa desta programação.  Ao verificar a quantidade ridícula de títulos líricos que a casa se propõe encenar, lembro-me da figura folclórica de Apparício Torelly, o autointitulado Barão de Itararé.  Para ele, famoso por suas máximas e mínimas, “de onde menos se espera, daí é que não sai nada”.

Começo recapitulando os fatos que comprovam o título deste artigo e demonstram como a ópera é tratada no Theatro Municipal.  Em seguida, faço uma ampla análise sobre o problema da ópera na administração Carla Camurati, inclusive demonstrando como o governo de Sérgio Cabral Filho não tem dinheiro para a programação da casa, mas joga milhões pelo ralo da publicidade.

A culpa maior pela programação medíocre do Municipal, esclareço desde já, é do governo do Estado, que dá um apoio não mais que vagabundo ao seu principal equipamento cultural, mas cabe perguntar: não seriam a secretária de cultura e a presidente da Fundação Theatro Municipal coniventes com o governo, uma vez que aceitam quietinhas seus orçamentos sem largarem os cargos?

Antes da publicação deste artigo, enviei ao Municipal três perguntas referentes à sua temporada deste ano.  Reproduzi as respostas do Theatro, na íntegra, nas passagens pertinentes deste artigo, com minhas respectivas réplicas.

 

Fatos e estatísticas

2008 – foram anunciadas apenas três óperas encenadas (Fidelio, La Cenerentola e La Bohème), mas a de Rossini foi cancelada;

2009 – com a casa fechada para reformas, foram apresentadas somente duas óperas em forma de concerto, que não são levadas em conta neste artigo;

2010 (ano da reabertura do Municipal) – quatro óperas encenadas foram divulgadas (O Trovador, Romeu e Julieta, O Castelo do Barba-Azul e Tosca), mas as duas últimas foram canceladas;

2011 – foram anunciadas quatro óperas encenadas (Lucia di Lammermoor, Nabucco, Tosca e O Castelo do Barba-Azul), e todas subiram ao palco;

2012 – depois de divulgar que encenaria apenas duas óperas e uma opereta (Rigoletto, A Viúva Alegre e La Traviata), a opereta foi adiada para o fim do ano e a Traviata cancelada e prometida para o ano seguinte;

2013 (ano do bicentenário de Verdi e Wagner) – somente três óperas encenadas foram anunciadas oficialmente (Aida, A Valquíria e Billy Budd – sem a Traviata prometida), sendo que as duas primeiras já subiram ao palco, e a terceira deve subir em novembro.  É notório, ainda, que a casa havia agendado um programa duplo (Erwartung/Suor Angelica) para setembro, mas não chegou a anunciá-lo oficialmente porque o mesmo foi cancelado antes mesmo de ser divulgado ao público.

Média de produções líricas encenadas por ano (exceto 2009): 2,6;

Média de produções líricas encenadas por ano nos anos em que houve cancelamentos (exceto 2009 e 2011): 2,25.


Observações sobre fatos e estatísticas

1- No histórico acima foram consideradas apenas as óperas encenadas, pois a encenação de óperas é a função precípua do Municipal, ao lado da encenação de balés;

2- O ano de 2009 não foi considerado para fins estatísticos devido ao fechamento do Municipal para reformas;

3- Para o ano de 2013 foram consideradas quatro encenações previstas, com um cancelamento, pois, embora o Municipal não tenha divulgado oficialmente, planejava até pouco mais de um mês atrás o programa duplo supracitado, e o mesmo foi cancelado por decisão de Carla Camurati.  Também com relação a 2013, foi considerada a efetiva encenação de Billy Budd, de forma que um eventual cancelamento desta ópera tornaria os números ainda mais vexatórios.

A propósito, questionado a respeito do cancelamento de Erwartung/Suor Angelica, o Municipal respondeu:

“A realização conjunta das óperas Erwartung & Suor Angelica foi, de fato, um desejo expresso pelo maestro Isaac Karabtchevsky em entrevista a jornalistas no último mês de abril. A sua concretização acabou mostrando-se inviável e as produções, infelizmente, não puderam ser oficialmente anunciadas.  Não houve, portanto, qualquer cancelamento já que as produções não foram, de fato, anunciadas”.

Réplica: em sua resposta, o Municipal, infelizmente, não esclareceu o motivo de a produção ter se tornado inviável, mas é provável que o mesmo seja de ordem financeira.  Discordo, no entanto, quanto à questão do cancelamento.  O fato de a casa não ter divulgado esta produção oficialmente não configura um “não cancelamento”, visto que já era de conhecimento geral no meio musical que o Theatro a estava preparando, inclusive com solistas principais já contratadas ou apalavradas.  A direção de cena seria de Bia Lessa, por mais absurdo que seja convidar uma diretora que não sabe dirigir óperas.  Portanto, a produção foi cancelada sim, goste a administração do Municipal disso ou não.


Análise

Como se pode perceber de forma clara e inequívoca, até aqui apenas relembrei o histórico da atual administração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e apliquei, para fins estatísticos, o princípio da média aritmética simples.  São fatos que não admitem questionamentos.  E o que nos dizem esses fatos?

Bem, nos dizem, para começo de conversa, que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro é uma casa cuja administração não possui qualquer ambição artística, nem mesmo um projeto artístico, por mais simples que seja, definido e perceptível em suas “temporadas”.  Ao contrário, essas “temporadas” primam pela pequenez, em todos os sentidos.

E no caso da ópera em particular, a falta de compromisso da casa com esta forma de expressão artística é escancarada.  2013 é o sexto ano seguido em que seus administradores escolhem parcas óperas de forma aleatória e as espalham durante o período que vai de março a dezembro, como se cumprissem uma obrigação fastidiosa.  Como agravante, algumas dessas óperas espalhadas ao longo dos anos foram/são sistematicamente canceladas, e o ano de 2011 nada mais representou do que mera exceção que confirma a regra.

É preciso reconhecer que em 2013 as escolhas dos títulos foram menos aleatórias, única e exclusivamente em virtude das efemérides: 200 anos de nascimento de Verdi e Wagner e 100 anos de nascimento de Britten.  Esta, porém, também é uma exceção.  Vejam só os títulos que o Theatro planeja montar em 2014:

1 – Carmen (pela terceira vez desde 2000 – duas encenadas e uma em forma de concerto);

2 – Salomé (no lugar de Capriccio – esta divulgada no começo deste ano para o ano seguinte, e já substituída: eles se superam!);

3 – Wozzeck; e

4 – A Flauta Mágica (pela terceira vez desde 2004).

 

Aleatoriedade

Respondam-me, por favor: como um teatro que monta menos de três óperas por ano (conforme média informada acima) programa pela terceira vez dois títulos num período curto de tempo?

Explico melhor: se o Municipal montasse pelo menos seis óperas por ano, tudo bem, seria muito mais natural essa repetição (inclusive através de reposições), mas, como nem sequer chega a produzir uma média de três títulos anuais, esse período de tempo acaba sendo proporcionalmente curto para a repetição, ou eu estou dizendo alguma grande asneira?  Nesse mesmo período, ou seja, de 2000 para cá, há uma série de títulos, alguns dos quais bastante populares ou de grande apelo junto ao público apreciador, que sequer foram cogitados pelos administradores da casa – lembrando que o Rigoletto de 2012 também foi o terceiro desde o ano 2000.

E isso tudo sem falar em um mais do que provável cancelamento de pelo menos um dos títulos previstos para 2014, ou alguém aí seria louco o suficiente para colocar a mão no fogo por esta suposta sequência de títulos líricos para o próximo ano?  Eu não colocaria a minha, pois é muito mais fácil crer na tesoura afiada da Camurati: ela nunca falha em seus cortes certeiros, sempre direcionados à ópera, nunca ao balé ou à Série Música e Imagem.  De qualquer forma, ainda que todos esses quatro títulos subam efetivamente ao palco, a “temporada” continuará sendo chinfrim.  Para confirmar isso, vamos comparar com as temporadas de outros teatros.


Temporada 2013 de outros teatros

O Theatro Municipal de São Paulo está apresentando este ano seis produções (conto o programa duplo como uma produção só); e já anunciou um total de oito montagens para o ano que vem.  O Teatro Colón, de Buenos Aires, tem uma temporada com sete produções líricas, dentre as quais uma obra contemporânea, além de oito balés.  Já o Municipal de Santiago do Chile apresenta seis óperas e seis balés – e a diretora da companhia de balé do teatro chileno é ninguém menos que Márcia Haydée.  E a Greek National Opera conta, em sua temporada 2012/2013, com seis títulos de balé, duas operetas e oito óperas.

Reparem os leitores que eu não cito Metropolitan, Scala, Royal Opera ou Opéra.  Cito teatros da América do Sul, dentre os quais um da Argentina (país que há não muito tempo estava completamente quebrado financeiramente), e um único teatro europeu, propositalmente da Grécia, que continua à beira da bancarrota.

E o Municipal do Rio só pode montar três óperas?  Ora, me poupem.  O Municipal está localizado em uma cidade e em um Estado que recebem royalties do petróleo e detêm as sedes de Copa do Mundo, Olimpíadas, Jornada Mundial da Juventude, tudo organizado igualzinho às caras do prefeito e do governador e torrando dinheiro público, muitas vezes com superfaturamento como comprova o Maracanã (não sou eu que digo, são os jornais: inclusive, o caderno de esportes do Globo de 23/07 informa que o valor da reforma do estádio foi reajustado em R$ 60 milhões pela Secretaria de Obras do Estado, mesmo depois de o estádio já ter sido oficialmente declarado pronto e entregue à FIFA e a uma concessionária privada).

Nada disso é razoável e, portanto, pergunto: é isso que o governo do Estado pode oferecer no Theatro Municipal, seu principal equipamento cultural, enquanto o governador Sérgio Cabral Filho (que, é bom lembrar, andou passeando pela Europa ao lado do Cavendish) torra mais dinheiro público fazendo uso de um helicóptero para ir a Laranjeiras trabalhar e também para levar a família, babás, cachorro e periquito a Mangaratiba nos fins de semana?


A questão orçamentária

Governo do Estado torra milhões em publicidade enquanto casa de ópera carioca tem programação medíocre. Pois é, esse politiqueiro que torra dinheiro andando de helicóptero prá cima e prá baixo é o chefe do governo que apresenta as seguintes importâncias efetivamente pagas referentes à rubrica “Divulgação de Ações do Governo/Serviço de Comunicação e Divulgação”:

2011 – R$ 194.951.728,82 (sendo R$ 161,5 milhões referentes apenas a despesas com “Publicidade e Propaganda”);

2012 – R$ 229.146.900,96 (sendo R$ 162,9 milhões referentes apenas a “Publicidade e Propaganda”);

Janeiro a junho de 2013 – R$ 54.571.764,08 (sendo mais de R$ 36,2 milhões referentes apenas a “Publicidade e Propaganda”).

Observações: a) até junho de 2011, o total de gastos com “Divulgação de Ações do Governo/Serviço de Comunicação e Divulgação” era de R$ 34,3 milhões (sendo R$ 32,8 milhões apenas com “Publicidade e Propaganda”); b) até junho de 2012 o total de gastos com a mesma rubrica era de R$ 58,3 milhões (sendo R$ 39,7 milhões apenas com “Publicidade e Propaganda”); c) conclusão: números relativamente próximos dos gastos de 2013 no mesmo período, o que demonstra que o “forte”, para não dizer nome mais feio, desta rubrica se concentra no segundo semestre, exatamente o semestre em que, historicamente, o Municipal mais cancela óperas.  Não é curioso?

No fim do ano, podemos atualizar esses dados para confirmar a “força” do segundo semestre.  E se isso é assim em anos “comuns”, imaginem como será no ano eleitoral de 2014.

Fonte: Portal de Transparência Fiscal da Secretaria de Estado de Fazenda (http://www.fazenda.rj.gov.br/portal/instituicao/transparencia.portal).

Questionado a respeito de seu orçamento especificamente para a programação artística, o Municipal respondeu:

“O orçamento do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para 2013, que foi publicado no Diário Oficial do Estado do Rio, é de R$ 6.811.838,00.  Mesmo com três títulos de ópera, ainda abaixo do que todos gostaríamos, a programação de 2013, que contou com o patrocínio da Petrobras e com títulos bastante mais robustos artisticamente, continua dentro da nossa realidade e de uma média histórica das produções de ópera do Theatro nos últimos 15 anos”.

Réplica: realmente, os títulos são mais robustos este ano, e o orçamento informado pelo Theatro está de acordo com o divulgado no Portal de Transparência.  Discordo, porém, quando o Municipal utiliza como justificativa a média histórica de produções líricas.  Não é correto justificar a mediocridade presente com a mediocridade passada.  O Municipal não pode ficar parado no tempo; precisa, sim, evoluir artisticamente, aumentando inclusive o número sem vergonha de óperas que apresenta.  E aqui, esclareço, a crítica maior não é endereçada ao Theatro, mas ao governo do Estado.  Vamos analisar:

O governo não concede cerca de R$ 15,6 milhões para o Municipal fazer uma temporada decente com seis óperas (ao custo de R$ 1,5 milhão cada), seis balés (três produções novas ao custo de R$ 1 milhão cada e três reposições a R$ 600 mil cada) e seis concertos com solistas vocais e coro e/ou da Série Música e Imagem (a uma média de R$ 300 mil cada), mas torra dinheiro para divulgar o que não faz, ou faz mal feito.  Não há defesa para isso.

Tais valores aproximados em relação à programação, vejam bem, poderiam onerar menos o governo se o Municipal tivesse patrocinadores fixos.  Por exemplo, se uma ou duas empresas públicas ou de economia mista (como a Petrobras ou a Caixa Econômica – esta última anda torrando dinheiro com times de futebol) e uma ou duas grandes empresas privadas dividissem R$ 6 milhões em patrocínio anual ao Theatro, a despesa do governo cairia, segundo o cálculo acima, para pouco menos de R$ 10 milhões com a programação da casa.  Como já contribui com quase R$ 7 milhões para a programação, bastariam cerca de R$ 3 milhões a mais.

E mesmo que não houvesse patrocínio algum, o governo precisaria investir mais R$ 9 milhões em comparação com o que investe hoje.  Com um pouco de esforço, dá para fazer.  O governo não faz porque não quer.  Se quisesse, se houvesse “vontade política”, faria.  E de onde sairiam esses recursos?  Dos gastos com publicidade, é claro.

Ainda sobre estes gastos, reproduzo um pequeno trecho da opinião do escritor Daniel Galera, publicada em sua coluna no jornal O Globo de 24 de junho:

“Quando foi mesmo que ficou decidido que o governo tem direito de usar toneladas de dinheiro público para produzir publicidade edulcorada? Já tive essa discussão com gente mais entendida que eu em assuntos políticos, e parece haver um consenso de que a publicidade é necessária para que o governo informe o povo a respeito de suas ações e decisões. O que soa razoável. Mas não é o que acontece. Não é nisso que a maior parte da famigerada ‘verba publicitária’ é investida”.

Seguindo com seu raciocínio, Daniel Galera afirma que a publicidade governamental que se faz nos dias de hoje nada mais é do que “propaganda proselitista” – o que quer dizer, no caso dos governos e da politicagem brasileira em geral, propaganda partidária: da pior espécie, complemento eu.

Artur Xexéo, no Globo de 31 de julho, diz que “Sérgio Cabral já acionou a agência de propaganda que elabora as campanhas de seu governo para criar uma dose cavalar de publicidade mostrando os feitos (?) de sua administração. (…) O povo não precisa de anúncios para saber que sua qualidade de vida melhorou.  Quando isso acontece, ele atesta no seu dia-a-dia.  (…) Não há botox que esconda as rugas provocadas pelo desleixo político”.

Mais claro que isso, impossível.


Série Música e Imagem

Quem acompanha minhas críticas e artigos sabe que sempre defendi a Série Música e Imagem.  É muito estimulante ver uma plateia repleta de jovens no Municipal.  Quando a música é de qualidade, como foi no último concerto da Série, O Encouraçado Potemkin, a experiência torna-se ainda mais compensadora.  Apesar desse entusiasmo, não posso concordar com que, em meio a uma “temporada” lírica diminuta como a deste ano, a Série Música e Imagem tenha a mesma importância na programação anual da casa que as óperas (empate em 3 a 3).  O Municipal é um teatro de ópera, não é uma sala de cinema.  Os filmes clássicos com música ao vivo podem, claro, complementar a sua programação, mas não devem, em hipótese alguma, ter a primazia desta programação, e nem a mesma importância em termos quantitativos, como estamos vendo este ano.  Não é razoável, não é sequer inteligente.  Diante de programação lírica tão diminuta, teria sido mais honesto da parte dos administradores do Municipal somar os valores dos três concertos da Série e montar uma ópera, ainda que de pequeno porte.


Isaac Karabtchevsky

Desde o começo de dezembro de 2012, o maestro Isaac Karabtchevsky já estava apalavrado com a administração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para assumir a direção artística da casa a partir do início deste ano, e já começava a pensar na temporada de óperas do Municipal para 2013.  O Theatro terminava aquele ano com uma das programações mais pobres de sua história, com apenas dois títulos líricos apresentados (uma ópera e uma opereta), e levava seguidas cacetadas da imprensa, em especial do jornal O Globo e de veículos especializados em música, como o www.movimento.com.  Inicialmente, foi uma atitude natural recorrer a um regente do porte, do carisma, da experiência e do talento de Karabtchevsky.

O Municipal carioca, no entanto, e como lhe é peculiar, enrolaria mais um pouco para divulgar oficialmente o nome do maestro, mas, tão logo saiu a notícia de que John Neschling estava assumindo o Municipal de São Paulo, no começo de janeiro, para não ficar ainda mais para trás divulgou logo o nome de Isaac como seu diretor artístico, cargo que até hoje ele, na verdade, não ocupa.  Oficialmente, o maestro é apenas o responsável pela programação artística do Municipal, nada mais, como se fosse um gabaritado prestador de serviços.

Aparentemente, foi com entusiasmo que ele chegou.  Faltou-lhe, no entanto, sensibilidade para perceber onde estava se metendo.  Não sei se enganado ou não com falsas promessas, o maestro disse a mais de um veículo de comunicação que daria prioridade à ópera.  Revejam duas de suas declarações dadas em janeiro ao jornal O Globo:

“O foco na ópera é uma prioridade com certeza. Esse é um ponto essencial da temporada deste ano”.

“Pretendo inserir a temporada artística do Municipal dentro do mesmo contexto que está cercando o Rio como uma cidade luz, que vai receber a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Esse é o meu compromisso não só com o governo, mas com a população do Rio. Grandeza de programação e aporte qualitativo são essenciais. Sem qualidade, não há como colocar o Rio dentro de um cenário artístico importante”.

Discurso perfeito, mas diante dele, pergunto: onde está a prioridade à ópera na atual programação que não consigo enxergar?  Apresentar três títulos líricos é priorizar?  Onde está a “grandeza de programação”?

O Municipal responde: “A razão para a não realização de mais óperas é de caráter exclusivamente financeiro.  O orçamento do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para programação tem se mostrado modesto nos 15 últimos anos e sua liberação obedece a um cronograma que nos obriga a uma cautela no anúncio paulatino das atrações.  Já a produção de um projeto “Música & Imagem” tem um custo bem inferior ao de uma produção de ópera ou ballet”.

Réplica: a administração da casa finalmente reconhece que seu orçamento para a programação artística é limitado.  Pelo menos isso.  E quanto às declarações de Karabtchevsky, sendo o grande artista que é, e do alto de sua vasta experiência, o maestro deveria ter mais cuidado ao dar declarações públicas, especialmente ao se envolver com um governo sem qualquer compromisso com o Municipal e com a programação artística de seu equipamento cultural mais valioso.


Adriana Rattes

Por falar nisso, o que faz a secretária de cultura, Adriana Rattes?  Aceita quietinha seu orçamento?  Entende ser razoável que um dos dois mais importantes teatros do país tenha uma programação própria de teatrinho do interior  (sem ofensa ao interior, que não tem nada com isso)?  A secretária por acaso azucrina constantemente o ouvido do governador por melhores condições de trabalho para sua pasta e por uma programação mais decente no Municipal, que o próprio governador chamou um dia, da boca pra fora, de “cereja do bolo” da cultura do Estado?  Ou o deixa em paz, para ver se ele se esquece dela e a deixa em seu “carguinho” até o fim do ano que vem, bem ao estilo peemedebista?

Com relação à fraca programação do Municipal, a secretária não faz nada, mas poderia fazer.  Poderia começar pleiteando R$ 9 milhões, só R$ 9 milhões, daquela polpuda verba de publicidade que eu citei ali em cima.  Esse valor, somado à verba específica de programação que o Municipal já detém, permitiria à casa desenvolver uma programação realmente de qualidade, e não a enganação de trouxa que ocorre hoje bem embaixo do nariz da secretária.  Ela poderia, também, buscar um patrocínio decente e institucional para o Municipal.  O Theatro já teve esse patrocínio institucional para sua reforma.  Por que não o tem para sua programação?


Carla Camurati

Valem para a atuação de Carla Camurati enquanto presidente da Fundação Teatro Municipal as mesmas perguntas que faço em relação à atuação de Adriana Rattes.  Aceita quietinha seu orçamento?  Não incomoda o governador?  Contenta-se com a pequenez da programação?  Considera razoável a verba da publicidade?  Não briga para ter melhores condições de conduzir a programação da casa que administra?  Acha correto que o Coro do Municipal passe o ano praticamente só ensaiando, e cantando só uma vez na vida e outra na morte?  Será que não sente vergonha de produzir tão pouco e ver a casa que administra ser motivo de chacota, ironia e sarcasmo?

Carla é atriz, diretora de cinema, produtora e já atuou também como diretora de ópera.  É uma artista.  Não posso conceber que uma artista se contente, sob o risco de se tornar conivente, em ser a responsável por uma programação que, em termos quantitativos, é nivelada por baixo.  Basta comparar a programação do Municipal do Rio com aquelas dos outros teatros citados acima.  Ali, não há nenhum teatro de primeiro escalão mundial.  São teatros do mesmo nível do Municipal, mas que lhe dão um baile de administração artística, obviamente porque possuem um verdadeiro apoio governamental por trás, que pode não ser o ideal, mas é bastante razoável e aceitável.

No Rio de Janeiro, isso não ocorre, não há apoio, e quem está na linha de frente, ou seja, Camurati, não toma a atitude que deveria tomar: deveria exigir condições para desenvolver a programação do Municipal.  Por que a presidente não vem a público e abre a boca contra seu orçamento?  É tão fiel assim ao governador despreparado do Estado?  Ou seria outra peemedebista apegada ao cargo e quer garanti-lo pelo menos até o fim de 2014?  Ao não tomar uma atitude convincente, Camurati se mostra conivente com a programação medíocre que a casa que ela administra promove.

Antes que alguém diga que minha argumentação tem fundo político, esclareço desde já: abomino a politicagem sem vergonha que todos os partidos fazem no Brasil.  E, se o que teremos no lugar de Cabral Filho a partir de 2015 é Pezão, César Maia, Lindbergh ou Garotinho, péssimas perspectivas pairam no ar…


Considerações finais

A programação do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sempre em termos quantitativos, é um achincalhe.  O governo do Estado está em seu sétimo ano, e a dupla Rattes/Camurati participa deste governo há seis anos.  Não são seis meses.  Por que, em seis anos à frente do Municipal, a dupla “dinâmica” não conseguiu dar-lhe um padrão de programação que não fosse nivelado por baixo?  É todo ano a mesma ladainha, as mesmas desculpas, os mesmos cancelamentos, adiamentos, ajustes, reajustes, etc… etc…

Em março deste ano, Camurati decidiu vender ingressos para todos os espetáculos do Municipal até julho.  Foi a primeira vez nesses seis anos que a casa vendeu ingressos com antecedência razoável para seus próprios espetáculos.  E o que ocorreu?  Aida, O Lago dos Cisnes e A Valquíria tiveram ingressos esgotados.  Isso demonstra o interesse do público.  Esse pouquinho de organização por parte do Theatro, aliado a títulos bem escolhidos, chamou a atenção do público, que compareceu em peso.  Para o restante do ano, não sei se isso voltará a ocorrer, pois até o momento do envio deste artigo para publicação, apenas o balé de agosto e o filme de setembro estão à venda.

Camurati adora encher a boca para falar da reforma do Theatro e de convênios com a The Royal Opera House e o Teatro alla Scala.  A reforma foi importante, mas para que serve um teatro de ópera reformado que não monta ópera?  Para que servem esses convênios se não influenciam a programação em nada?

O último chamego de Camurati é a nova Central de Produções, chamada Fábrica de Espetáculos.  Ela vai mesmo “fabricar” espetáculos ou será mais um elefante branco, um enfeite, um nome cheio de pompa, mas vazio de significado?

 

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