Escrito por em 11 ago 2014 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera, Pará

Três solistas excelentes e uma ótima encenação marcam o triunfo da ópera de Boito no XIII Festival de Ópera do Theatro da Paz.

 

Mefistofele, ópera em prólogo, quatro atos e epílogo de Arrigo Boito, sobre libreto do próprio compositor, com base no poema trágico Faust, de Johann Wolfgang von Goethe, abriu com três récitas o 13º Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém do Pará.

Uma aposta, proposta por Mefistófele no Prologo in Cielo (Prólogo no Céu), através da qual o demônio diz ser possível tentar o sábio Dr. Fausto e conquistar sua alma para o inferno, é aceita pelos Céus. Na Terra, Mefistófele promete servir Fausto, exigindo em troca que, após a morte deste, eles invertam seus papéis de amo e servo. Ávido por ampliar seus conhecimentos sobre si mesmo e sobre o mundo, Fausto aceita a proposta. Selado o pacto, o velho sábio rejuvenesce e, guiado pelo demônio, parte para uma longa caminhada.

Durante essa jornada, ele conhece Margherita, uma jovem por quem se apaixona. Durante um sabá (encontro de bruxos e bruxas em louvação a Satanás) ao qual é levado por Mefistófele, ele tem uma visão da prisão da amada. Em seguida, vemos Margherita presa, acusada de ter matado sua mãe e de ter afogado seu filho com Fausto. Este tenta ajudá-la a fugir, mas quando ela percebe a presença de Mefistófele, prefere enfrentar seu destino e entrega sua alma aos céus. Um coro de anjos anuncia sua salvação.

É com a salvação de Margherita que terminam as óperas de Berlioz (1846) e Gounod (1859) sobre o mesmo tema, limitando-se à primeira parte da obra de Goethe. Boito, porém, acrescenta à sua ópera (1868, com versão revista e definitiva de 1875) duas cenas da segunda parte do Faust goethiano. No quarto ato, Mefistófele leva sua presa para conhecer o sabá clássico, ocasião em que Fausto se enamora por Elena (aquela de Troia). No epílogo, vemos a morte de um Fausto novamente ancião e sua salvação pelos Céus, apesar das imprecações de um derrotado Mefistófele.


O drama e a música

Longe de ser uma obra-prima, a ópera de Boito apresenta alguns problemas de ordem dramática. Goethe escreveu seu Faust em forma de peça teatral, mas não com o objetivo de levá-lo ao palco. Não foi por acaso que Berlioz e Gounod limitaram suas adaptações à primeira parte da obra original, tornando-as mais consistentes dramaticamente. Já Boito, mais ambicioso, ao utilizar passagens da segunda parte de Faust, acaba prejudicando a harmonia dramática da trama, sendo obrigado a resumir demais a primeira parte (que vai até o terceiro ato). Sua opção torna um tanto abruptas as passagens de uma cena à outra, dificultando o entendimento de sua obra pelo espectador desavisado.

Por outro lado, é inegável o enorme interesse musical de Mefistofele. Alternando economia de recursos com outras passagens em que usa toda a capacidade dos efetivos à sua disposição, o compositor criou uma obra notável musicalmente. Há passagens magníficas na partitura desde o prelúdio orquestral, passando por todo o prólogo, pelas árias de Fausto e Mefistofele no primeiro ato, por toda a cena do sabá no segundo ato, pelas duas árias de Margherita na cena da prisão, até chegar ao epílogo com seu final apoteótico e catártico.

Para que a qualidade musical de Mefistofele se sobreponha aos seus problemas dramáticos, faz-se necessária uma conjunção de forças. É preciso, para começar, a presença de excelentes solistas principais, que sejam capazes de prender a atenção do público (Mefistofele e Fausto, registre-se, cantam quase o tempo todo). São precisos, ainda, uma direção musical competente e conjuntos (coros e orquestra) que “comprem” o desafio de enfrentar a rica e complexa partitura de Boito. Por fim, e não menos importante, é imprescindível uma encenação que, embora possa ser ousada em alguns momentos, não deturpe a obra.

É por conta dessas exigências que raramente Mefistofele é levado à cena lírica (atualmente, a ópera ocupa uma longínqua 186ª colocação nas estatísticas do site inglês Operabase), mas tal sinergia se fez presente em Belém. No Brasil, a ópera não era apresentada há 50 anos – o que é um absurdo! –, e, como ninguém se interessava por ela, o Festival de Ópera do Theatro da Paz chamou a responsabilidade para si e corrigiu essa falha gravíssima de todos os nossos teatros de ópera.


A grande produção do Theatro da Paz

A encenação de Caetano Vilela, que teve sua última récita em 9 de agosto, mostrou-se bastante eficiente. O diretor, que já havia dirigido O Navio Fantasma, de Wagner, no festival de 2013, buscou inspiração na cosmogonia e em uma série de mitos e símbolos para realizar sua leitura da obra de Boito.

Durante o prelúdio, vimos a criação de Adão e Eva (completamente nus no palco) e a tentação do fruto proibido; logo depois, passamos pelo teatro de marionetes (uma referência à infância de Goethe, quando ele tomou conhecimento do mito de Fausto numa apresentação desse tipo); mais adiante, na cena do sabá, a mesma Eva do prelúdio foi devorada e dilacerada pelos bruxos e bruxas. Tudo isso, aliado a um trabalho bastante competente de direção de todos os artistas no palco, contribuiu para uma versão consistente da ópera.

O ponto fraco da montagem foi o cenário único de Chris Aizner, por vezes quebrado em sua unicidade apenas por uma cortina que fazia com que os solistas atuassem no proscênio. Não que este cenário único fosse de má qualidade, não se trata disso. O problema foi a utilização da mesma estrutura em quase todas as cenas – cenas que se passavam (ou deveriam se passar) em locais bastante diferentes.

É preciso ressaltar que, em muitos momentos, esse problema do cenário foi salvo pela excelente iluminação do próprio Caetano Vilela. E, especificamente quanto à iluminação, merecem registro a cena do surgimento de Mefistofele, no prólogo, a cena do sabá no segundo ato, e a salvação de Fausto, no epílogo. Completaram a encenação os belos e corretos figurinos de Olintho Malaquias, com destaque especial para aqueles de Mefistofele.

Na récita de 9 de agosto, a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz apresentou uma ótima performance sob a muito segura condução de seu regente titular, Miguel Campos Neto. O maestro soube inspirar seus músicos e, junto com eles, ofereceu ao público uma leitura bem acabada da partitura de Boito, valorizando a dinâmica e a riqueza de contrastes.

O Coral Lírico do Festival de Ópera do Theatro da Paz também apresentou uma de suas melhores performances desde que o conheci na Tosca de 2011. Muito bem preparado por Vanildo Monteiro, o conjunto esteve sempre bem, tanto vocal, quanto cenicamente, e, como não poderia deixar de ser, teve seus grandes momentos no prólogo, no sabá do segundo ato e no epílogo. Já o Coral Infanto-Juvenil Vale Música, preparado por Elizety Rêgo, também deu boa conta de suas funções.

Dentre os solistas, o Nereo do tenor Alexsandro Brito não comprometeu, enquanto o também tenor Tiago Costa aproveitou melhor sua participação, e esteve bem como Wagner. A soprano Maíra Lautert deu boa conta da parte de Elena, destacando-se no dueto La luna immobile ao lado da mezzosoprano Céline Imbert. Céline, em participação especial, interpretou duas personagens e esteve mais à vontade como Pantalis do que como Marta.

É difícil classificar, dentre os solistas principais, quem foi o melhor, dado o alto nível de performance alcançado pelos três artistas. A soprano Adriane Queiroz foi uma magnífica Margherita, interpretando, com grande senso dramático, suas árias L’altra notte e Spunta l’aurora pallida, além do lindo dueto com o tenor, Lontano, lontano, lontano. Baseada em uma técnica primorosa, a voz da soprano apresenta um lindo timbre e fraseado rico, além de uma ampla projeção. Esse, aliás, é um momento importante de sua carreira, no qual ela está “pesando” a voz, evoluindo do registro de soprano lírico para o de soprano lírico-spinto.

Como em suas recentes apresentações em São Paulo nossas récitas não coincidiram, esta foi a primeira vez que ouvi Adriane cantar, curiosamente na sua Belém, e confesso que fiquei encantado com a sua voz. Tanto que não me parece exagero algum afirmar que a soprano tem todas as características necessárias para assumir em um futuro próximo o posto de diva número 1 da lírica brasileira, lugar hoje (e há um bom tempo) ocupado por Eliane Coelho – que por acaso esteve no Festival de Belém no ano passado.

Denis Sedov e Fernando Portari - foto de Elza Lima

Denis Sedov e Fernando Portari – foto de Elza Lima

O que dizer do tenor Fernando Portari que eu já não tenha dito antes em outras críticas? Elogiar a qualidade exuberante de sua voz ou seu ótimo desempenho cênico será totalmente redundante. Basta dizer que seu Fausto ora apresentado em Belém é daqueles personagens que parecem ter sido escritos especialmente para ele. O tenor já é íntimo da personalidade de Fausto, mas do Fausto criado por Gounod, que o artista interpretou no Teatro alla Scala, de Milão, e no Liceu, de Barcelona.

Salvo engano, Portari estreou na pele do Fausto de Boito somente agora em Belém, e o resultado final foi uma performance memorável, de um cantor que desfruta, com inteligência, o auge de sua maturidade artística. Desde sua ária do primeiro ato, Dai campi, dai prati, passando pela cena do pacto com Mefistófele, pelas cenas com Margherita e com Elena, até chegar ao epílogo (Giunto sul passo estremo), Portari deu um show de canto no Theatro da Paz, e representou à perfeição todos os sentimentos experimentados por Fausto.

Chegamos enfim ao Mefistófele do excelente baixo russo Denis Sedov. Sedov, que havia sido um ótimo Daland em O Navio Fantasma no Festival de 2013 e que fala bem português, voltou a Belém para encarnar o demônio que desafia o Criador e faz um pacto com Fausto. Muito bem caracterizado (figurino e maquiagem), o desempenho cênico do artista foi exemplar. Contido, como convém a um ser extremamente frio e calculista, e arrebatador ao mesmo tempo, seu Mefistófele cativou a atenção da plateia desde sua entrada em cena até o momento derradeiro.

Vocalmente, a performance do baixo foi notável: seu monólogo no prólogo, Ave Signor, sua ária do primeiro ato, Son lo spirito che nega sempre tutto, sua participação em toda a cena do sabá no segundo ato (desde o introdutório Su, cammina, cammina, cammina, até o monólogo Ecco il mondo, vuoto e tondo), e a conclusão no epílogo, tudo isso demonstrou um cantor maduro, bem preparado, dono de uma voz poderosa, maravilhosamente projetada e com um timbre escuro e aterrador, que corria com facilidade dos graves mais cavernosos ao registro mais agudo e brilhante de sua tessitura. Sedov apresentou em Belém mais uma daquelas performances que se deve guardar na memória.

A impressão final deixada pela produção da ópera de Boito em Belém é de que todos os artistas e demais profissionais envolvidos na montagem mergulharam de corpo e alma na realização desta obra complexa. E, assim, o resultado não poderia ser diferente: até o presente momento, Mefistofele é uma das mais bem sucedidas produções de ópera deste ano em todo o país. Só é pena que a circulação de produções líricas ainda seja tão insignificante no Brasil, impedindo que outros públicos de outras cidades sintam o mesmo prazer de quem esteve em Belém nos últimos dias e foi ao Theatro da Paz.

O 13º Festival de Ópera do Theatro da Paz dá sequência à sua programação com uma masterclass da mezzo Céline Imbert, oficinas, recitais (há dois do excelente tenor paraense Attala Ayan), e montará ainda duas grandes produções: a ópera Blue Monday, de Gershwin, que será apresentada em programa duplo com uma versão coreografada de Um Americano em Paris , do mesmo compositor; e Otello, a estupenda ópera de Verdi, que terá regência de Sílvio Viegas e direção de Mauro Wrona.

O Movimento.com conferirá o programa duplo de George Gershwin no dia 23 de agosto, com Fabiano Gonçalves, e a estreia de Otello, em 20 de setembro, quando estarei novamente em Belém.

 

Foto do post: Adriane Queiroz (foto de Elza Lima)

Leonardo Marques viajou a Belém a convite da produção do Festival de Ópera do Theatro da Paz.

 

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