Escrito por em 29 set 2014 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera, Rio de Janeiro

Em estreia mundial, O Diletante, ópera de João Guilherme Ripper, é encenada por talentosos estudantes.

 


Quem sabe faz a hora
, já diz a clássica canção de Geraldo Vandré. Para os estudantes das Escolas de Música, de Comunicação e de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a hora é agora. Com o objetivo de proporcionar criação artística, prática e aperfeiçoamento no gênero operístico a cerca de 150 de seus discentes, a instituição encomendou ao compositor João Guilherme Ripper uma nova ópera e o resultado é O Diletante, cuja estreia se deu no dia 25 de setembro, no Salão Leopoldo Miguez da Escola de Música da UFRJ, no centro do Rio, espaço que sediou récitas até o dia 28, quando tivemos oportunidade de assistir.

Baseada na comédia homônima do dramaturgo Martins Pena (1815-1848), a obra teve a trama transposta do Rio de Janeiro de meados do século 19 para a agitada Copacabana bossa-nova dos anos 1950. Ali vive Quintino, um rico italiano apaixonado por Verdis, Puccinis e afins, sua esposa, Merenciana, e Josefina, a mimada filha do casal. Eles hospedam Gaudêncio, um rico fazendeiro do Mato Grosso que quer casar-se com Josefina – mas ela quer desposar-se com Marcelo, um malandro carioca, que deixou grávida Constança, a irmã de Gaudêncio. No meio desse imbróglio, Quintino quer cantar La Traviata e precisa encontrar um tenor. A trama é tratada com leveza e muitas brincadeiras metalinguísticas.

Antes mesmo de a música começar, o público é recebido com o belo programa, recheado de informações, com a letra completa e de elegantíssima programação visual (projeto gráfico de Márcia Carnaval e ilustrações do professor e artista plástico Adir Botelho). No palco, o cenário representando a sala de estar de uma casa de classe média-alta banhada pelo alaranjado sol da manhã. As paredes cobertas com papeis, um piano ao canto, estofados em tons pasteis. A coordenação de cenografia de Andréa Renck orientou os cenógrafos Jessica Trindade, Rafael Gonçalves e Rebeca Banus na criação do funcional espaço.

 

Copacabana me engana

Após a chegada do maestro Jean Molinari, a Orquestra Sinfônica da UFRJ ataca uma breve abertura, que já traz alguns dos elementos da obra: o universo da ópera italiana em contraponto com as delicadas tramas harmônicas da composição bossa-novística. Entra em cena o coro, composto pelos típicos transeuntes de Copacabana da época: banhistas, vendedores de mate, garçons, turistas, casais, colegiais, integrantes de rodas de violão. Preparado por Maria José Chevitarese, o grupo canta vivas à ópera, à música, à palavra, dando a deixa para a entrada em cena do protagonista.

Quintino, ao piano, devaneia sobre o dueto Libiamo, da ópera La Traviata, de Verdi. Na récita de domingo, o papel foi defendido com bom humor e desenvoltura pelo barítono Cyrano Sales (tendo Jessé Bueno nas demais apresentações). O jovem é dono de voz clara e brilhante, de articulação e pronúncia transparentes, o que fazia de suas falas as mais compreensíveis de todo o espetáculo.

A Josefina da soprano Michele Ramos é divertida e tem um quê de sapeca. A cantora (que se alternou no personagem com Luíza Lima) chama atenção pela boa presença cênica, além da ótima voz, com agudos brilhantes. Merece destaque a bonita execução da delicada ária para Gaudêncio no meio da Cena 7.

O matuto Gaudêncio foi defendido, no domingo, pelo barítono Fernando Lourenço (nas demais récitas, por Marcelo Coelho). Apesar da boa desenvoltura em cena, o cantor apresentou a voz recuada, com pouca projeção, o que comprometeu o entendimento de seus dizeres e chegou mesmo a abafar a beleza da ária da Cena 2.

Já Merenciana participa de alguns dos momentos mais divertidos do espetáculo. Tanto o engraçado dueto de mãe e filha na Cena 3, no qual parodiam o mundo lírico de solfejos e vocalizes, como o desastroso Brindisi na Cena 4, foram bem executados, cênica e vocalmente, pela mezzo Beatriz Simões na apresentação citada (nas demais, são a cargo de Déborah Cecília).

Nessa apresentação, coube ao tenor Daniel Marinho viver Marcelo, o típico malandro que só quer se dar bem (nas outras apresentações, o papel é de  Bruno dos Anjos), com graça, fazendo algum humor corporal e dando conta com competência de sua parte vocal. Destaque para o final da Cena 6, em que pede água.

O elenco se completa com a participação da soprano Camila Marlière como Constança. É pungente sua ária na Cena 8 e, mesmo pequena, sua participação se destaca.

 

Tu és a vida a cantar

No âmbito técnico, além dos já mencionados cenários, os figurinos, apesar de deixarem a desejar na confecção de algumas peças, são muito representativos e ilustram bem período histórico e personagens, assim como têm beleza e harmonia entre si e com os demais elementos da direção de arte. A única dúvida é: se o libreto pede um lenço para Josefina, por que não acrescentar um ao figurino e impor à ação, como solução, o feltro do piano? A coordenação e a orientação são de Desirée Bastos; as figurinistas são Mariana Meirelles e Raquel Novaes; e a caracterização e os adereços são de Débora Soares.

Não há muita alteração de luz visível no correr do espetáculo (a não ser entre as duas partes do programa); mesmo assim, o projeto de luz de Renato Machado é suave e agradável aos olhos. Toda a movimentação dos cantores ocorre sob a direção cênica de José Henrique Barbosa Moreira, que explora bem o cenário, mantendo o foco no centro, com alguma movimentação nas laterais. A direção geral do projeto é de André Cardoso.

A Orquestra e o maestro Molinari executam bem a elegante composição de Ripper, que é leve e tem um delicado toque naïf  e juvenil. Centrada nos diálogos, com poucas árias, tem ricas orquestrações e harmonias (declarada inspiração jobiniana). A beleza de árias como a de Gaudêncio (na Cena 2, após ver o mar) ou de Josefina (Cena 7) nos faz desejar, talvez, por um pouco menos de economia de sentimentos na escrita musical, permitindo um desenho de espectro um pouco mais heterogêneo no conjunto.

Se para os jovens estudantes é um privilégio poder “praticar” com a bela partitura de um dos mais profícuos compositores de nossos tempos, para todos nós é uma oportunidade única ainda maior poder assistir a um espetáculo de qualidade, que une talentos já no panteão, como Ripper e Cardoso, a artistas promissores, como os jovens músicos e técnicos da UFRJ. É como ver o sol dourado nascendo na Praia de Copacabana em um dia de verão e ter a certeza de que coisas boas estão a caminho e valerá a pena esperar.

 

Foto do post: Ana Liaos

 

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