Escrito por em 22 dez 2014 nas áreas Crítica, Lateral, Musical, Rio de Janeiro

Renato Aragão é estrela absoluta do musical Os Saltimbancos Trapalhões, da dupla Möeller & Botelho.

 

Este crítico de retinas tão fatigadas já teve o privilégio de se emocionar com muitas produções artísticas ao longo da vida. Vi de pertinho a grande Bibi Ferreira vivendo e cantando em Piaf. Pude acompanhar a tragédia de Fedra, encarnada em Fernanda Montenegro. Estava no Theatro Municipal lotado para ouvir as divas Jessye Norman, Kathleen Battle e Teresa Berganza. Nunca vou me esquecer do quanto ri com Ney Latorraca e Marco Nanini em O Mistério de Irma Vap. Além desses, tantos artistas geniais se entregaram na ribalta para embalar ou engrandecer meu espírito. No último novembro, estava na plateia que fez reverência a mais um desses grandes ícones: Renato Aragão.

Renato – ou melhor, seu alterego Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgina Mufumbo – é a grande estrela do musical Os Saltimbancos Trapalhões, encenado pela dupla Charles Möeller e Claudio Botelho. Com texto e direção do primeiro e supervisão musical do segundo, o espetáculo tem como base o filme homônimo de 1981, dirigido por J. B. Tanko e protagonizado pelo quarteto Didi-Dedé-Mussum-Zacarias. A película tinha como fonte a peça Os Saltimbancos, de Sergio Bardotti e Luis Bacalov, adaptada para o português por Chico Buarque – cujo aniversário de 70 anos em 2014 foi certamente uma das molas propulsoras desta encenação.

 

Hollywood fica ali bem perto

A produção é de grandes proporções. São 120 profissionais envolvidos, sendo 75 necessários a cada sessão, dos quais 35 em cena (20 atores, 8 artistas circenses e 7 músicos) para ocupar o vasto palco da Grande Sala da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro (onde o espetáculo esteve em cartaz até 30/11. A temporada prossegue em 2015 no RJ e em SP). No meio dessa vasta trupe está um artista com 79 anos de idade, 50 de carreira coroada de risadas infantis e uma estreia nos palcos: Renato Aragão.

Seu eterno Didi é o centro de uma trama bastante simples: ao lado de seu companheiro de circo Dedé (o próprio Dedé Santana), Didi é explorado pelo patrão, o Barão (Roberto Guilherme, o bigodudo Sargento Pincel), e, graças à sua capacidade de fazer o público rir, desperta a inveja do mágico Assis Satã (Nicola Lama) e da domadora Tigrana (Adriana Garambone). Mas além da história já existente no filme, Charles Möeller inseriu a vilã Zoroastra (Ada Chaseliov, substituída por Cristiana Pompeo na récita assistida), o (dispensável) casal Pedro e Ana/João (Nicolas Prattes e Livian Aragão, filha de Renato, ou Gabi Porto), e a disputa pelo manuscrito original dos Irmãos Grimm com o conto Os Músicos de Bremem (que, afinal, deu origem a tudo isto).

Infelizmente, o texto tem muitas arestas e uma trama tatibitate. Mesmo com boas presenças no elenco – Garambone, com os erros de português, faz uma Tigrana histriônica e engraçada; Roberto Guilherme surpreende; Giselle Prattes (Karina) canta bem e João Gabriel Vasconcellos (Frank) tem bela estampa e se esforça –, o espetáculo só se sustenta mesmo pela presença de Didi, sem o qual desabaria feito lona sem mastro.

A produção, no entanto, tem muitos méritos técnicos. O cenário de Rogério Falcão é vistoso e colorido; os figurinos de Luciana Buarque são bem pesquisados e desenhados, e articulam-se bem com o visagismo de Beto Carramanhos. A iluminação de Paulo Cesar Medeiros é especialmente criativa e bonita, remetendo, em muitos momentos, à paleta de cores de H. Toulouse-Lautrec.

As nove canções da trilha sonora do filme estão presentes no espetáculo, entremeadas à trama. Os arranjos de Marcelo Castro dão vida nova a composições da elegante lavra buarqueana (e inesquecíveis para quem era jovem nos anos 1980), como a delicada versão de Minha canção. Com as coreografias de Alonso Barros, Meu caro barão foi encenada com o elenco em uma arquibancada (simulando uma máquina de escrever); a animada Piruetas ganhou o acompanhamento de malabarismos circenses; e Na cidade dos artistas transformou-se em um tema lascivo e arrojado, em um clima jazzy que faz referência a Bob Fosse. No fim, um musical meio Hollywood citando Broadway, com referências intertextuais aos temas da própria dupla Möeller e Botelho.

 

E o palhaço, o que é?

Vi, menino, Os Saltimbancos Trapalhões no cinema, e esse momento mágico é eterno em meu coração. Aguardava ansiosamente as noites de domingo para assistir ao quarteto no programa televisivo da Rede Globo. Minha infância foi marcada por Cacildis e imitações de Maria Bethânia. Eu fiquei com olhos marejados ao ver Didi entrar em cena neste musical Os Saltimbancos Trapalhões e ser ovacionado por uma plateia cujas idades iam dos 6 aos 76. O eterno trapalhão ainda faz rir com as mesmas piadas, de humor puro e politicamente incorreto. Estão lá as clássicas gags, como “Eu vou popotizar você!” e a implicância com Dedé.

Ainda que tenha o alto padrão de qualidade de Charles Möeller e Claudio Botelho, o espetáculo deixa a desejar em sua trama simplória e elenco irregular. Tudo se ilumina ao som das canções de letras geniais de Chico Buarque, que ganharam encenação criativa. Mas a estrela mais cintilante, que ainda hoje faz faiscar os olhos da plateia, é esse palhaço chamado Didi Mocó. Mesmo as retinas mais fatigadas hão de lacrimejar diante dele – seja rindo de suas piadas infantis, seja se emocionando diante do grande artista que é Renato Aragão. Por mais que haja mil palhaços no salão, a ele pertence o centro do picadeiro.

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