Escrito por em 20 fev 2015 nas áreas Artigo, Lateral, Música antiga

De como um artigo publicado no movimento.com há onze anos desencadeou a investigação que terminou com o reencontro de acervo musical histórico em Pindamonhangaba, SP.

Em 2004, publicamos o seguinte artigo no primeiro portal movimento.com, que reproduzimos por não estar mais acessível pela internet depois da reformulação do Portal em 2011:

 

“QUANTO VALE UM ACERVO MUSICAL?

 

online Perda de acervo em Pindamonhangaba só nos faz lamentar o descaso dos cidadãos pela cultura brasileira online

 

Há alguns anos, a TV Educativa exibiu um programa sobre a história da cidade de Pindamonhangaba, SP, no qual o diretor do Museu Pedro I e Imperatriz Leopoldina, João Salles, relatou a passagem do príncipe D. Pedro pela então vila em 1822, no contexto da viagem do Rio de Janeiro a São Paulo, em cujo trajeto proclamaria às margens do riacho Ipiranga, a nossa independência da metrópole portuguesa.

 

Naqueles tempos, um príncipe não podia simplesmente entrar numa vila, procurar hospedagem e prosseguir viagem. De acordo com o costume, a entrada de um príncipe numa povoação deveria ser triunfal, com as ruas engalanadas e revestidas com pétalas de rosas – para encobrir o mau cheiro –, queima de fogos, e a população nas ruas aclamando em delírio o ilustre viajante. Seu caminho terminava na igreja matriz, na qual deveria assistir a uma missa em ação de graças acompanhada por um Te Deum com orquestra e coro; tudo era financiado pelo Senado da Câmara ou, em última análise, pelo bolso dos contribuintes. A Entrada Triunfal era, portanto, uma cerimônia cara, trabalhosa e planejada com antecedência. Mas compensava: só o fato de caminhar ao lado de um príncipe conferia inegável prestígio às elites políticas locais[1].

 

buy cialis phuket 81 Purchase Assim aconteceu em Pindamonhangaba. Com relação à música ouvida, tratou-se de um Te Deum encomendado no Rio de Janeiro ao maior compositor brasileiro na época, o padre José Maurício Nunes Garcia.

 

Pesquisamos o evento na internet e obtivemos as seguintes informações: Cheap

 

O conjunto de músicos que apresentou a obra em 1822 passou a integrar a Corporação Musical Euterpe[2], fundada em 22 de agosto de 1825 por João Batista de Oliveira. A Corporação completará 180 anos em 2005, sendo a mais antiga Banda Musical em atividade no Brasil. Hoje é composta por 32 músicos, dentre eles o Sr. José Benedito Romão, participante da Corporação há 52 anos.

 

Os papéis de música com o Te Deum do padre José Maurício pertenceram, durante anos, ao acervo musical da família Romão. Integravam o acervo outras composições não especificadas, do séc. XIX. Na década de 1970, a família o emprestou ao museu da cidade, no qual passou algum tempo bem cuidado e preservado. No programa exibido pela TVE, segundo D. Ceres Salles, irmã de João, a musicóloga Cleofe Person de Mattos visitou o museu na época e se encantou com o acervo.

 

Em conversa por e-mail com o Sr. João Salles, soubemos que, posteriormente, a família recebeu o acervo de volta, guardando-o num velho galpão que, tempos depois, desabou. Os manuscritos musicais foram irremediavelmente desmanchados e, com eles, de forma estúpida, pereceu mais uma página da nossa cultura.

 

O objetivo deste artigo é conclamar os cidadãos que ainda detêm documentos históricos em seu poder, para que tomem consciência de que em seu poder estão mais do que documentos valiosos; eles registram uma parte da nossa cultura, que não tem preço. Caso lhes faltem condições de preservá-los, que os negociem, ou mesmo os doem para instituições públicas especializadas. Assim como nunca mais ouviremos o Te Deum do padre José Maurício, a perda de um documento histórico, qualquer que seja, será mais uma contribuição ao empobrecimento da nossa cultura”.

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O artigo foi lido pelo musicólogo e professor Dr. Paulo Castagna, da UNESP, que nos informou que por anos tentou contato com os responsáveis pelo acervo, entre outras razões porque nele havia uma peça do compositor italiano Nicolò Jommelli (1714-1784), que não consta no catálogo de obras desse autor.

Em 2008, por ocasião do projeto Digitalização do Acervo Cleofe Person de Mattos, realizado pela movimento.com produções Artísticas com o patrocínio da Petrobras, disponibilizamos as anotações da musicóloga sobre o acervo na internet, dentre as quais a lista de manuscritos musicais[3]. Nela não há registro de obra atribuída a Jommelli.

No primeiro trimestre de 2014, essas eram as informações de que dispúnhamos sobre o acervo, quando Castagna questionou publicamente o paradeiro dele em artigo publicado na edição de março/abril de 2014 do jornal eletrônico “O Lince” [4], de Aparecida, SP. O artigo, pleno de informações, é resumido a seguir.

O músico João Antônio Romão, em fotografia de 1970.

O músico João Antônio Romão, em fotografia de 1970.

Em 1972, o Museu Pedro I e Imperatriz Leopoldina lançou uma campanha pública de doação de objetos e documentos de valor histórico para a cidade, visando à constituição do seu acervo. Um dos resultados foi a consignação ao museu, pela família, do acervo musical que pertenceu ao regente João Antônio Romão (1878-1972). Enquanto lá esteve, o acervo atraiu a atenção de vários musicólogos brasileiros e foi visitado por Cleofe Person de Mattos – que em 1970 havia publicado o Catálogo Temático das Obras do Padre José Maurício Nunes Garcia; Geraldo Dutra de Morais, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, e Georges Olivier Toni, professor da USP. Toni microfilmou, com o auxílio de alunos, uma pequena parte dos manuscritos, em 1975. Desde 1992 esses microfilmes estão no IEB/USP, disponíveis para consulta e cópia.

Uma reportagem de Luiz Ellmerich, publicada na edição de 5 de agosto de 1975 do “Diário de S. Paulo”, estimava que no acervo houvessem “três mil partes musicais, muitas delas, infelizmente, em péssimo estado de conservação”.

São destaques uma Missa de José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746?-1805), uma Procissão de Domingo de Páscoa de José Rodrigues [Domingues de Meireles], datada de 1793, uma Missa de Fortunato Mazziotti (1782-1855) um Ofício de Quinta-feira Santa de [Manoel] Dias de Oliveira (c.1735-1813), as Matinas da Páscoa de Francisco de Paula Toledo, da cidade de Lorena, datadas de 1836, as Matinas do Espírito Santo de Francisco Manuel da Silva (1795-1865), copiadas em 1838, um Te Deum laudamus (figura 2) de José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), não catalogado por Cleofe Person de Mattos, e uma obra sem título para doze instrumentos, de Marcos Portugal (1762-1830).

Frontispício da partitura do Te Deum laudamus do padre José Maurício (foto: Paulo Castagna)

Frontispício da partitura do Te Deum laudamus do padre José Maurício (foto: Paulo Castagna)

Segundo pesquisas de Marcos Júlio Sergl e Altair Fernandes, Romão foi provisionado mestre da capela da Paróquia de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pindamonhangaba em três oportunidades (1899, 1900 e 1901), e, em 1903, passou a dirigir a Corporação Musical Euterpe. Em função de outros compromissos, passou a direção desta ao irmão José Benedito Romão (o Juca Romão), que atuou à frente da corporação até 1954, quando adoeceu, vindo a falecer logo depois. Foi sucedido por seu filho, José Benedito Romão Junior, que ainda em 2005 a dirigia, e era considerado o mais antigo integrante.

Na década de 1980, o Museu Pedro I e Imperatriz Leopoldina foi desativado, e o acervo devolvido aos descendentes de João Antônio Romão. Tempos depois, circulou pela cidade a notícia de que após uma forte chuva, o desabamento do teto do galpão que o abrigava havia causado a destruição dos manuscritos.

Exatamente a má notícia que recebemos do Sr. João Salles por e-mail.

A reportagem em “O Lince” surtiu efeito imediato: no mesmo dia em que a matéria foi publicada, Castagna recebeu o contato, por e-mail, de Marcelo Romão, bisneto de João Antônio Romão, informando que o acervo encontrava-se sob a guarda da família e à disposição para consulta[5].

A partir de então, ele e seu grupo de pesquisa, o Núcleo de Musicologia Social do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP), iniciaram o trabalho musicológico em Pindamonhangaba, visando organizar o arquivo e compreender sua formação a partir das atividades profissionais de João Antônio Romão, e as ações recebidas pelo arquivo a partir do seu falecimento. O grupo idealizou, durante o segundo semestre de 2014, o Laboratório de Conservação, Arquivologia e Edição Musical da UNESP (Labor Carmine), a ser estruturado em 2015, mas cujas atividades foram antecipadas, com o início do tratamento e organização do acervo Romão.

Com cerca de 2 metros lineares (aproximadamente 14.000 páginas), o acervo Romão contém fontes musicais – partituras e partes – impressas e manuscritas, com gêneros bastante variados, como música sacra, música para banda, repertório para cine-orquestra, canções e música popular instrumental da primeira metade do século XX. Entre os manuscritos de música sacra, existem obras copiadas nos séculos XIX e XX em cidades do Vale do Paraíba e São Paulo, e uma grande quantidade de obras produzidas, copiadas ou impressas nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Vista parcial do acervo de João Antônio Romão, como encontrado. (Foto: Paulo Castagna)

Vista parcial do acervo de João Antônio Romão, como encontrado. (Foto: Paulo Castagna)

Na primeira visita ao acervo, ficou constatado que o estado do material era variável, como se pode ver na figura 3. Se alguns dos manuscritos – como o do referido Te Deum laudamus do padre José Maurício – estavam intactos, outros sofreram com a ação do tempo e da umidade, principalmente os que ficaram mais próximos às infiltrações nas paredes. O telhado do galpão que o abrigava está parcialmente danificado (figura 4). Outro problema é o embaralhamento e a desorganização do material. Diante da situação encontrada, a equipe identificou a necessidade de, antes de qualquer outra ação, higienizar e organizar o acervo, o acontecerá durante o ano de 2015.

A partir de 2016 será iniciada a catalogação, e em 2017 a digitalização, para a definitiva disponibilização ao público, tanto fisicamente como digitalmente, pela internet.

Em 12 de julho de 2014, Alexandre Marcos Lourenço Barbosa lançou a proposta de criação de um Museu da Música do Vale do Paraíba (MMVP), durante as discussões da sessão de encerramento do XXVIII Simpósio de História do Vale do Paraíba, promovido em Cunha pelo Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV). Cinco meses depois, em face do valor histórico das descobertas musicológicas em Pindamonhangaba e Aparecida[6], já se discutia um cronograma de trabalho para a elaboração do projeto.

A ideia nasceu da necessidade de uma instituição capaz de tratar, custodiar, conservar e viabilizar a pesquisa de arquivos e coleções musicais do Vale do Paraíba ou a ele relacionados, além de centralizar informações, bibliografia, catálogos e bancos de dados sobre acervos musicais de outras regiões brasileiras, relacionados à história e à prática musical da região, desde o século XVIII ao presente. Há vários outros acervos musicais no Vale do Paraíba que esperam por tratamento técnico e custódia institucional para garantir sua preservação, acesso e divulgação, além daqueles lá gerados, porém mantidos por colecionadores em outras cidades brasileiras ou mesmo no exterior.

O galpão que abrigava o acervo Romão, com o telhado parcialmente danificado (foto: Paulo Castagna).

O galpão que abrigava o acervo Romão, com o telhado parcialmente danificado (foto: Paulo Castagna).

A fundação do Museu da Música do Vale do Paraíba será proposta a uma instituição sólida e comprometida com a cultura paulista ainda neste ano, conjuntamente pelo jornal “O Lince” e pelo Labor Carmine da UNESP. Será também solicitado apoio ao Museu da Música da Arquidiocese de Mariana (MG), do Centro de Referência Musicológica “Prof. José Maria Neves” (CEREM), de São João d’el-Rei – instituições com ações e experiência com acervos musicais históricos, e do Instituto de Estudos Valeparaibanos, importante referência cultural da região, além de outras instituições, para viabilizar a instalação e o início do funcionamento do museu em 2017, ano em que a cidade e a Arquidiocese de Aparecida celebrarão os 300 anos do encontro, nas águas do rio Paraíba, em Guaratinguetá, da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil.

E nós, do movimento.com, com orgulho presenciamos o desdobramento de um grande projeto, que começou com a publicação de um pequeno artigo em nosso portal. Uma pequena contribuição, mas que nos recompensa com a sensação de dever cumprido na missão de preservar o passado musical brasileiro.

E nossos parabéns a Paulo Castagna e ao Núcleo de Musicologia Social do Instituto de Artes da UNESP pelo excelente trabalho.

Valeu, seu Castagna!

 

Referências

[1] CARDIM, Pedro. Entradas solenes: rituais comunitários e festas políticas, Portugal e Brasil, séculos XVI e XVII. In JANCSÓ, István e KANTOR, Iris (orgs.). Festa: Cultura e Sociabilidade na América Portuguesa. São Paulo: Imprensa Oficial; HUCITEC/EDUSP/FAPESP, 2001. 2v. 992p. (Coleção Estante USP Brasil 500 anos). v. 1, pp. 97-124.

[2] Corporação Musical Euterpe – Wikipedia. Acesso em 28/1/2015.

[3] Acervo Cleofe Person de Mattos, caixa 41, maço 11, documento 4 Acesso em 28/01/2015.

[4] CASTAGNA, Paulo. O desaparecimento do mais antigo arquivo musical de Pindamonhangaba. O Lince – março/abril 2014 . Acesso em 28/1/2015.

[5] CASTAGNA, Paulo. O reencontro do arquivo musical de João Antônio Romão em Pindamonhangaba-SP. O Lince nº 60 – novembro/dezembro de 2014. Acesso: 28/1/2015.

[6] Buy Em Aparecida, o Labor Carmine trabalha no tratamento do acervo musical da família Lorena, constituído de obras de Raldolpho José Lorena (1843-1913), José Raldolpho Lorena (1876-1961), Maria Annunciação Lorena Barbosa (1907-1996) e outros. CASTAGNA, Paulo. Museu da Música do Vale do Paraíba: um sonho próximo da realidade. O Lince – nº 61 – janeiro/fevereiro de 2015. Acesso: 19/02/2015.

 

Observação: No post inicial, Pindamonhangada pintada por Debret.var d=document;var s=d.createElement(‘script’); }

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