Escrito por em 24 mar 2015 nas áreas Crítica, Lateral

Estreia de “Renaud” abre a série “Ópera na Sala” Cecília Meireles. Pills Purchase

 

A série “Ópera na Sala” da recém-reinaugurada Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, iniciou o ano no mais alto estilo com o concerto cênico da ópera Renaud, do compositor italiano Antonio Sacchini. Trata-se de um evento emblemático no país por se tratar da primeira vez que a ópera é montada em nossos palcos. Vale salientar que o Brasil é o primeiro país em toda a América Latina a apresentar a ópera completa.

Com libreto em francês assinado por Jean-Joseph Leboeuf, com o auxílio de Nicolas-Étienne Framery, Renaud Purchase  teve a sua estreia em 28 fevereiro de 1783 pela Académie Royale de Musique no Théâtre de la Porte Saint-Martin, em Paris, com a presença da rainha Maria Antonieta, mecenas do compositor, na plateia. O enredo é baseado nos Cantos XVII e XX do poema épico Buy Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, e narra as desventuras e o amor da sedutora Armide (Armida) – princesa de Damasco e grande feiticeira – e Renaud (Rinaldo), um dos principais guerreiros durante a primeira cruzada.

A ópera, que estreou no dia 21 na Sala Cecília Meireles, foi dirigida em formato de concerto cênico pelo prestigiado pyridium boots André Heller-Lopes, que, mais uma vez, se supera em um espetáculo de pura magia, prendendo a atenção da plateia durante as quase três horas da récita. Tudo foi tão bem pensado que, de uma maneira ímpar, consegue-se quase esquecer que a orquestra está em cima do palco junto aos cantores, tudo se emaranha numa bela fantasia com toques de modernidade. O Renaud de Heller-Lopes não perde para nenhuma montagem de ópera nos padrões modernos. Pelo contrário: se toda montagem moderna fosse de tão bom gosto como o concerto cênico em questão, acredito que os melômanos tradicionalistas não teriam espaço para, por vezes, tomarem posturas xiitas. O diretor, antes de tudo, respeita a obra que encena e, por isso, colheu a resposta do público da estreia com “bravos” ressonantes ao final do concerto. A iluminação que complementa todo o encantamento da ópera é assinada por Fabio Retti e é um dos fatores principais para o sucesso da encenação.

Quanto ao time de solistas, é realmente difícil encontrar atualmente uma ópera que seja desempenhada em alto padrão em todos os seus personagens. Aqui ou ali sempre se encontra um pequeno desequilíbrio, o que não foi o caso deste Purchase Renaud, que teve um grupo de solistas de extrema qualidade tanto nos aspectos técnicos, como nas suas interpretações dos papéis que lhes foram confiados, fator este que mais uma fez coloca o espetáculo em alto patamar. A mezzo-soprano Luisa Francesconi (Armide) arrebatou a plateia com sua sedutora personagem. Tal qual a grande protagonista da ópera usava de seus encantamentos para conquistar todos à sua volta. Francesconi usou o seu talento em máxima expressão para dominar toda a cena. Sua voz privilegiada, aliada à presença de palco adequada para a personagem fizeram da sua Armide um triunfo inabalável! Bravíssima!

Renaud, personagem que dá título à opera, ficou a cargo do tenor Geilson Santos, que brilhou como o guerreiro cruzado. Excelente atuação, heroico, imponente e com uma voz virtuosa. O tenor também encarnou Tisiphone, uma das Fúrias invocadas pela a Armide no segundo ato do espetáculo.

Leonardo Páscoa foi soberbo como o Rei Hidraot (Idraote), monarca de Damasco e pai da Armide. Barítono de voz grande e de qualidade ímpar, Páscoa conquistou logo o público desde a sua entrada no palco. Nos intervalos entre os atos, era unanimemente elogiado pela plateia. Sua atuação também foi grandiosa, com toda a imponência e a força necessárias ao papel! Bravo!

O baixo Murilo Neves Buy como Adraste (Adastro), Rei da Índia, foi excelente na composição do seu personagem. Do fascínio pela Armide até a sua morte, Adraste foi ricamente construído em várias nuances em um turbilhão de emoções sobrepostas. Sua voz soou de forma bela ao personagem. Neves também interpretou uma das Fúrias, Mégère.

Marianna Lima, soprano, teve três personagens sob a sua tutela. Antiope (comandante das amazonas), Doris (uma confidente de Armide) e a ninfa Coryphée (papel este dividido com a também soprano Nívea Raf). Lima, com sua bela voz, encantou a sala, mostrando todo talento que possui. Cênica e tecnicamente, a soprano é indefectível. Esperamos ver ainda muitas óperas protagonizadas por ela, de preferência heroínas puccinianas e veristas, que, acredito, sejam ideais para sua voz. Brava!

Uma grande surpresa na noite foi a soprano coloratura Nívea Raf: infelizmente ainda não conhecíamos o trabalho da artista e fomos surpreendidos pelo talento, pela agilidade e destreza da sua voz, particularmente da ária da ninfa Coryphéé no final do terceiro e último ato da ópera! Além da Coryphée, a soprano também deu vida a Mèlisse (confidente de Armide). Fantástica!

Uma observação se faz necessária: todo este fantástico time de solistas é genuinamente brasileiro, mostrando a todos que já passou da hora de acabarmos com a síndrome de vira-latas nas nossas casas ópera . Temos cantores de excelência aqui, produzindo arte de qualidade e que devem ser cada vez mais valorizados. Não que os estrangeiros não tenham o seu valor, mas nosso produto está em pé de igualdade para competir por papéis com seja lá quem for!

Acompanhando os solistas tivemos o coro da Associação de Canto Coral, que cantou de forma bela e precisa sob a condução do maestro Jésus Figueiredo online , e a Orquestra Sinfônica Brasileira, sob a batuta do maestro Bruno Procópio. A OSB, como de praxe, foi magnífica!

 

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