Escrito por em 11 out 2015 nas áreas Crítica, Lateral, Musical, Rio de Janeiro

35a montagem da dupla Möeller & Botelho, Nine – Um Musical Felliniano tem atuações primorosas e encenação impecável.

 

Antes de subir o pano no Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro, os ouvidos cinéilos iam, aos poucos, reconhecendo uma música familiar: era Bevete più latte, tema principal da trama do curta-metragem As Tentações do Dr. Antonio, que o cineasta Federico Fellini (1920-1933) dirigiu para compor o filme Boccacio 70. A música de fundo ia criando a atmosfera ideal para a estreia de Nine – Um Musical Felliniano, que chegou à capital carioca depois de incensada temporada em São Paulo.

Esta 35a montagem de Charles Möeller e Claudio Botelho – versão de um musical da Broadway de 1982, escrito e musicado por Maury Yeston (e, em 2010, filmado por Rob Marshall), criado a partir de uma das mais clássicas películas do mestre italiano: 8 e 1/2, lançado em 1963 com toques metalinguísticos e autobiográficos, e trama onírica na qual um cineasta chamado Guido Anselmi (Marcello Mastroianni), em crise criativa e à beira de um esgotamento nervoso, interna-se em uma estação de águas em busca de inspiração. O filme italiano, do tempo que “cinema era cinema, e não pipoca sem sal”, também foi fonte de inspiração de outro filmaço: All That Jazz – O Show Deve Continuar, de 1979, do genial Bob Fosse (o mesmo que, em 1966, fez Noites de Cabíria, outra obra-prima de Fellini, virar o longa Sweet Charity).

As inquietações existenciais do cineasta italiano (tanto o ficcional como o real) são atenuadas nesta montagem brasileira sem qualquer perda para o meio no qual ocorre – ao contrário, valem na medida exata para ótimas interpretações e para levar à ribalta mais uma encenação que comprova, pelo talento e pela técnica esbanjados em cena, porque Möeller e Botelho são considerados os reis do musical no Brasil.

 

Sonhos de um sedutor

Opostamente à opulência italiana, tudo se mostra bastante simples quando as cortinas de abrem: há no palco apenas uma escada de madeira vazada, de cujos degraus pendem lâmpadas. A criação do cenógrafo Rogério Falcão é bastante funcional e permite várias possibilidades cênicas. O espaço ganha ainda mais vida com a luz de Paulo Cesar Medeiros, múltipla e de grande beleza, contribuindo com brilho e dramaticidade nos momentos apropriados.

Convidado especial para esta montagem, o estilista Lino Villaventura assina, pela primeira vez, os figurinos de uma peça. Suas criações têm o toque certo de glamour e remetem aos anos 1960 com grande elegância, sem, no entanto, serem roupas de época. Acompanha o ótimo visagismo de Beto Carramanhos, que ressalta a beleza das lindas atrizes do elenco.

 

Os homens preferem as morenas

E põe beleza nisso. Para incorporar as beldades que habitam a vida real e imaginária do protagonista Guido Contini, foram escaladas atrizes que esbanjam formosura e graça – dos 22 aos 66 anos -, além de muito talento. Algumas delas, em particular, têm momentos deslumbrantes em cena.

Carol Castro

Carol Castro

Carol Castro tem a mais intensa curva dramática como a esposa Luisa Contini, e a atriz consegue, com seus belos grandes olhos, expressar, sem peso e com poesia, a gama de emoções que oscilam do sentimento egoísta nascido da(s) traição(ões) do marido à generosidade exigida de quem vive ao lado de um grande artista. Fazendo uso também de sua boa expressão vocal, Carol faz bonito nas canções, nas quais o ponto alto é a virada da personagem: Take it All, sensualíssima.

Myra Ruiz

Myra Ruiz

Sensualidade também é a marca da personagem Sarraghina, interpretada nesta montagem pela novata Myra Ruiz. A bela morena agarra com unhas e dentes a canção mais famosa do musical, Be Italian, e, com ajuda de pandeiros e cadeiras, transforma esse momento seminal da educação sentimental de Guido em uma sequência de deixar a plateia de boca aberta.

Totia Meireles

Totia Meireles

Outra morena que faz de sua cena um grande momento é Totia Meireles. Aos 57 anos completos (neste 11 de outubro), ela mostra que é feita da matéria das divas. Sua presença é hipnótica e sua bela forma física podem ser conferidas como a ex-vedete Lili La Fleur (em cuja composição a atriz contou com os conselhos de Rogéria), especialmente no estonteante número Folies Bergère.

Malu Rodrigues

Malu Rodrigues

A exceção ao poderio das morenas é a jovem loira Malu Rodrigues. Dona de voz angelical, ela abandona os personagens cândidos (como Dorothy, de O Mágico de Oz) para encarnar a bombshell Carla, amante de Guido. O poderio vocal da atriz continua lá, mas, agora, acompanhados de cinta-liga e atuação sexy. Seu número A Call from the Vatican é um estouro.

O elenco principal se completa com a presença de Leticia Birkeuer (pouco expressiva como a jornalista Stephanie), Karen Junqueira (como a atriz-fetiche Claudia Nardil) e a classuda veterana Sonia Clara (dando vida à mãe de Guido). Integram ainda a montagem, com competentes atuaçõees, as atrizes Ágata Matos (recepcionista do spa), Camilla Marotti, Laís Lenci, Lola Fanucchi e Priscila Esteves.

 

O homem que amava as mulheres

Na récita de 9 de outubro, o menino Luiz Felipe Mello dava vida ao protagonista quando criança. Uma graça ver um pequeno tão desenvolto em meio ao experiente elenco. Figurinha adorável cujas bochechas dá vontade de apertar.

Sedutor, complicado, charmoso, ansioso, atrapalhado, genial, bon-vivant: isso e muito mais cabem na arrebatada (e arrebatadora) atuação de Nicola Lama como Guido Contini. Esse genovês de 38 anos (que mora no Brasil há dez) interpreta o protagonista com energia e grande vigor desde sua entrada em cena, alcançando seu ápice em I Can’t Make this Movie, na qual dança, canta e emociona-se com impressionante entrega.

Nicola Lama

Nicola Lama

Lição de amor

Dando suporte às excelentes interpretações está a banda regida por Paulo Nogueira, que também assina a impecável direção musical do espetáculo. As canções ganham fluência e humor nas versões para português de Claudio Botelho, sem par em sua arte. E a música se completa nas coreografias e movimentação cênica assinadas por Alonso Barros e Charles Möeller.

Botelho e seu parceiro Möeller fazem de uma obra de narrativa sutil um musical esplêndido e profissionalmente impecável. Nada está fora do lugar: as vozes estão afinadíssimas, os passos são sincronizados, os figurinos são pertinentes, as luzes se acendem na hora certa, a banda não perde o ritmo. Em 18 anos de atividades, mais de três dezenas de espetáculos de sucesso, como os recentes Os Saltimbancos Trapalhões e Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos, e atrações mais antigas, como 7 – O Musical (2007), Sweet Charity (2006) e Cristal Bacharach (2004), que muito contribuíram para a solidificação do gênero no Brasil. Costurando tudo, um verdadeiro e inegável amor à arte, em particular à arte dos musicais, sentimento que faz de Nine – Um Musical Felliniano mais um espetáculo nota dez.

Fotos: Marcos Mesquita

 

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