Escrito por em 13 nov 2015 nas áreas Crítica, Lateral, Musical, Rio de Janeiro

Kiss me, Kate – O Beijo da Megera, musical de Cole Porter encenado pela dupla Möeller & Botelho, é divertida e apaixonante declaração de amor ao teatro.

 

Os caminhos das vocações profissionais são curiosos. O que leva alguém a tornar-se advogado? O amor pela justiça ou o desejo de seguir carreira pública, por exemplo. E por que uma pessoa forma-se em Medicina? A aspiração de ajudar o próximo ou a busca por um bom salário no ramo da estética, talvez. Mas o que faz um indivíduo querer ser ator – entendido aqui como profissional sério das Artes Dramáticas? Será apenas o desejo de expressar os recônditos de sua alma? Ou a ânsia pelo aplauso? Quiçá a vontade de mudar o mundo pela arte?

Questões insondáveis essas. Desde os tempos em que eram praticamente sacerdotes em culto a Apolo ou Dionísio e chamados de hipócritas, ou seja, fingidores, na velha Atenas, atores são figuras míticas e mágicas, envoltas em aura única e cercados de admiração (e, muitas vezes, de paparazzi). Para além da cultura atual das celebridades, quando sobe à ribalta uma trupe de teatro que tem amor profundo por sua arte é como se o encanto se desse, em um estalo, e descesse sobre a plateia. O que parece simples é, na verdade, fruto de suor, ensaios, entrega, talento e muito amor.

Uma trupe de feiticeiros do teatro faz a magia ocorrer no Teatro Bradesco, no Rio de Janeiro, onde está em cartaz o musical Kiss me, Kate! – O Beijo da Megera. Com música e letra de Cole Porter, pilar do jazz norte-americano, e texto de Sam e Bella Spewack, o espetáculo apodera-se de A Megera Domada, de William Shakespeare, para contar uma história inspirada no casal de atores da Boadway Alfred Lunt e Lynn Fontanne, cujas brigas pelas coxias eram célebres na década de 1930. No Brasil, o clássico de Porter aporta em uma montagem com o padrão de qualidade da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho, no ano em que comemoram 25 anos de parceria.

Cabe a Charles Möeller a impecável direção. Na mise-en-scène, tudo funciona no tempo exato, com humor e agilidade, mantendo o clima de homenagem aos bastidores de teatro – afinal, a peça trata de uma companhia que tem dois ex-amantes como estrelas e que leva à cena o clássico do bardo, em que as escaramuças de Petrucchio e Catarina encontram eco nas desavenças do casal de protagonistas nova-iorquinos.

Toda a equipe técnica contribui à sua maneira para a deliciosa atmosfera proposta pela direção. Rogério Falcão cria solução cênica prática e funcional, com painéis pintados dispostos em vários planos, tudo muito bem iluminado pela luz de Paulo Cesar Medeiros. Os ótimos figurinos de Carol Lobato representam tanto o mundo medieval da peça shakespeariana como o brilhante mundo do showbizz norte-americano, tudo em muito boa companhia do visagismo de Beto Carramanhos. As coreografias de Alonso Barros também são excelentes, transitando com fluidez do sapateado jazzístico (os ensembles masculinos são particularmente bem encenados, em especial a sequência de Too Darn Hot) à evocação dos idos do século 16.

 

It’s De-Lovely

Fabi Bang e Guilherme Logullo

Fabi Bang e Guilherme Logullo

Em cena, um elenco adorável e de rendimento surpreendente. Em participações menores – mas não menos divertidas – estão Beto Vandesteen (Pops, o contrarregra), Marcel Octavio (Ralph, o produtor), Jitman Vibranovski (Batista, pai de Bianca e Catarina), Léo Wainer (General Harisson Howell) e Guilherme Logullo (Bill/Lucentio). Rubem Gabira (o figurinista Paul) tem momento de fulgor intenso cantando e sapateando a saborosa e sensual versão de Too Darn Hot (E Tá Calor).

O público carioca ainda tem a alegria de presenciar a atuação de Fabi Bang (Lois/Bianca) – em especial como a periguete platinada Lois, a atriz rouba a cena mais que as lantejoulas de seus costumes, esbanjando senso de humor, excelente impostação (tanto em sua voz colocada como no timbre tatibitate da personagem) e habilidade nas coreografias. Seu grande momento é na versão inspiradíssima de Always True to You in My Fashion – transformada em Eu Sou Sempre Fiel Só que do Meu Jeito.

Will Anderson e Chico Caruso

Will Anderson e Chico Caruso

O elenco ainda guarda surpresas, como a dobradinha de Chico Caruso e Will Anderson como a dupla de gângsteres. Caruso não se leva a sério e, ao lado do divertidíssimo parceiro Anderson, arranca boas gargalhadas com atuação meio tosca e histriônica. A cena quase rap de Brush Up Your Shakespeare (Chama o Shakespeare!), cheia de (auto)referências, é inesquecível.

Alessandra Verney, em cena, é uma diva. Sua atuação é perfeita como a mimada Lilli Vanessi e como a raivosa Catarina, e sua bela voz colore os clássicos da partitura, como So In Love (Tanto Amor) e I Hate Man! (genialmente vertida com Homens, Não!). A seu lado, o galã José Mayer parece se divertir como o pândego Fred Graham, dono da companhia teatral, e como o personagem do personagem, Petrucchio. O ator esparrama charme, comme il faut, e surpreende os que desconheciam seu encantador timbre de barítono. O casal, em cena, é como vistosos leão e leoa em uma arena, para deleite do público.

 

You’re the top!

Por trás de todo o trabalho visto à boca de cena está o labor de um ourives de talento de alto quilate: Claudio Botelho, responsável pelas versões das canções e, ao lado de Claudia Costa, pela tradução dos diálogos. Botelho preserva e transpõe o humor, o lirismo e a malícia das fascinantes letras de Cole Porter. As versões dos títulos das canções já mencionadas dão uma ideia do talento do artista, que mantém a fluidez, com fidelidade ao clássico original e, ao mesmo tempo, um toque brasileiro. Em So in Love (Tanto Amor), por exemplo, a versão diz: “Quando seus braços / Nos meus são abraços / Não há sob o céu / Amor maior que o meu”.

Essas e outras pérolas são executadas com precisão e vivacidade pela ótima orquestra regida por Marcelo Castro (também responsável pela direção musical e pela adaptação dos arranjos de Don Sebesky), com design de som de Marcelo Claret. No entreato, sob luz azulada, o grupo de músicos tem seu momento de glória às vistas da plateia.

Além do talento, do suor, do aplauso, essa trupe – capitaneada por Charles Möeller e Claudio Botelho – exala de cada poro profundo amor pelo teatro, expresso em um espetáculo de altíssimo padrão. Só nos resta, então, seguir os conselhos do sábio Porter: let’s do it – let’s fall in love.

JosA� Mayer e Alessandra Verney

José Mayer e Alessandra Verney

 

Fotos: Leonardo Aversa

 

 

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