Escrito por em 24 out 2016 nas áreas Biblioteca, Lateral

Mais que um perfil, trata-se de um resgate de memória da inesquecível soprano.

Constantina Araújo nasceu na cidade de São Paulo em 28 de maio de 1922. O pai era português, do Aveiro, e a mãe napolitana. Tendo demonstrado, desde criança, vocação para o canto, foi matriculada no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde estudou com Francesco Murino. Sua primeira experiência como profissional, deu-se na antiga Rádio Cultura, onde passou a integrar o elenco de cantores. Dali para a Rádio Gazeta, “emissora de elite”, que possuía orquestra própria, promovia e transmitia concertos ao vivo, foi um pulo.

à custa de muito esforço, falando com um e com outro, conseguiu um espaço na temporada do Theatro Municipal de São Paulo de 1947, fazendo o papel de Leonora na ópera Il Trovatore, de Verdi. A bela voz de soprano lírico spinto, logo despertou a atenção dos organizadores das temporadas do Theatro Municipal de São Paulo. Em todas as ocasiões em que cantou algum papel, seu desempenho foi elogiado pela crítica e teve boa recepção pelo público. Nessa casa de espetáculos cantou ainda em Aída, Lo Schiavo, Cavalleria Rusticana e La Bohème, sempre fazendo o principal papel feminino, tendo a seu lado cantores de renome internacional como Mario del Monaco, Gigli, Barbieri e outros.

Apresentou-se ainda, em Porto Alegre, no ano de 1948, nas óperas Otello, Il Trovatore e Aída. Em 1950, devido a rivalidades muito comuns nos meios artísticos, foi despedida da Rádio Gazeta e rejeitada para as temporadas líricas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Com as portas fechadas no Brasil, muniu-se de “cara e coragem” e foi para a Europa, mais precisamente para Modena. Quarenta dias após a sua chegada (15/11/1950), candidatou-se a uma substituição de última hora da protagonista de Aída , no Teatro Municipale.

Aida, impersonata da Constantina Araujo, ha aumentato la sorpresa del pubblico, lasciando veramente un vivo entusiasmo in tutti gli spettatori, che la hanno applaudita con passione, soprattutto per la efficace dosatura imposta ai suoi davvero notevoli mezzi canori, denotando cosi una seria preparazione dello spartito verdiano”. Logo em seguida, a indisposição de uma cantora levou Constantina para o La Fenice, de Veneza, onde também fez Aída. O sucesso da soprano brasileira fez o Teatro da cidade de Reggio-Emilia incluir essa ópera em sua temporada de 1951. “(…) il trionfo di questa cantante, la cui voce di smalto nitidissimo e la efficacia scenica, che ben si avvale di una gura stupendamente adatta al personaggio hanno incantato e soggiogato i critici pia pretenziosi”.

Após esse novo triunfo, surgiu a grande oportunidade: o La Scala procurava uma soprano para uma nova montagem de Aída, em comemoração aos cinquenta anos de Giuseppe Verdi. Armando-se da tenacidade, que era uma de suas características, Constantina, credenciada por seus sucessos anteriores, apresentou-se ao grande maestro Victor de Sabata para uma audição: de um grupo de seis sopranos, foi a escolhida.

Em 20 de fevereiro de 1951, a soprano brasileira se apresentava com sucesso no palco do tradicional La Scala, de Milão, tendo a seu lado Mario del Monaco, Fedora Barbieri e Ugo Savarese. “(…) abbiamo avuto la surpresa di scropire una giovane sudamericana, Constantina Araujo, che nella parte di Aida si é rivelata superba interprete, dotada de belissima voce, dosata com intelligenze, sicura nella intonazione, e che si é fatta ammirare anche per la sua grazia”.

O La Scala abriu-lhe outras portas: Bari, Verona, Londres, Trieste, Montecarlo, Paris, Augsburg, Lisboa, Genova, Nápoles, Bolzano, Bolonha, Carpi, Salsomaggiore e outras cidades. Seu repertório incluía Aída, Un Ballo in Maschera, I Vespri Siciliani, Ernani, La Vita Breve, Mefistofole, Madama Butterfly, L’Amore dei Tre Re , Oberon e Cavalleria Rusticana. Em 1954, foi convidada a apresentar-se no Rio de Janeiro, onde, mais uma vez, fez Aída, seu principal papel e o que cantou o maior número de vezes. Neste mesmo ano, apesar do sucesso internacional, Constantina ainda tinha as portas do Municipal de São Paulo fechadas. Numa montagem de Lo Schiavo, de Carlos Gomes, em comemoração ao 4o. Centenário da cidade de São Paulo, o Theatro trouxe Antonieta Stella para fazer o principal papel feminino nessa ópera.

Foi lançada no ano 2000, uma gravação (selo Myto Records) que Constantina fez ao lado de Mario del Monaco, Cesare Siepi e Mario Sereni, sob a regência de Fernando Previtali, para uma transmissão radiofônica da RAI, em 1958, da ópera Ernani, de Giuseppe Verdi. Trata-se de um documento raro que atesta a beleza e a qualidade de seu registro – soprano lírico spinto. Em 1966, Constantina veio para São Paulo, a fim fazer uma pequena intervenção cirúrgica. Quatorze dias, 14 de março de 1966, após a cirurgia, faleceu repentinamente, vítima de embolia pulmonar.

Detentora de tão bela carreira, Constantina Araújo é, sem dúvida, motivo de orgulho nacional.

 

Algumas críticas

  • Aida – Montecarlo, 26/3/1952 “(…). La voix, somptueuse de sonorité et de puissance, est completée par la plastique; sa passion est exprimée avec autant de vigueur toujours harmonieuse que de délicatesse son patriotisme. Du grave, plein et rond,  l”aigu facile et atendu, aucun dèséquilibre, aucun de calage de son n’accuse le changemente de registre. La célèbre chanteuse italienne Renata Tebaldi, que nous avions entendue dans sa même personage, lui est certainement inférieure . Oui, rarement s”est offert  nos oreilles ravies un soprano d’ une telle densité” – Léon Roggero OBERON, Paris (1953/1954 – 40 récitas)

 

La Scala, 16/2/52, sob a regência de Carlo Maria Giulini “Dei molti esecutori c”elle stavano sul palcoscenico, per la piá parte legati a particine di secondo plano, ci piace parlare di Constantina Araujo, l”Aida dell”anno scorso che ha riconfermato le sue notevevoli qualita: una voce duttile ed ampla e rimarchevole plasticité d”emissione, un calore spontaneo e sapientemente dosato.” – La vita breve


http://constantinaaraujo.blogspot.com.br/2006_01_01_archive.html

 

Artigo de José Carlos Neves Lopes, publicado em 5/12/2000

 

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Constantina Araújo e Mario Sereni
Ernani – Giuseppe Verdi – Ária Da quel di che t’ho veduta
Orchestra Sinfonica di Roma dela RAI

 

Constantina Araújo
Ernani – Giuseppe Verdi – scene & aria Ernani, Ernani, involami
Orchestra Sinfonica di Roma dela RAI

 

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