Escrito por em 25 jan 2017 nas áreas Crítica, Jazz/Blues, Lateral, MPB, Rio de Janeiro, Show

Belo concerto de voz e violão une filha e pai na Sala Cecília Meireles.

 

Duas gerações de artistas subiram ao palco da Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, na noite de 20 de janeiro: o violonista, professor, escritor e diretor artístico da Osesp, Arthur Nestrovski, e sua filha, a cantora Lívia Nestrovski. A dupla fez concerto de lançamento carioca do CD Pós Você e Eu, gravado em 2016.

O mote, como explicado por Arthur durante o concerto, foi reunir canções que têm letras de forte viés poético – sejam elas sambas-canção da MPB, standards de jazz ou lieder alemães (em encantadoras versões para português feitas pelo próprio violonista).

Vestida como uma melindrosa de outrora, Lívia emprestou sua afinadíssima – e ligeiramente lânguida – voz a clássicos jazzísticos como The man I love, dos irmãos Gershwin, entoada como uma prece minimalista, e uma deliciosamente debochada Chora um rio, versão de Cry me a river (de A. Hamilton, versão de A. Nestrovski), cheia de improvisos bluesy.

O impecável violão de Arthur abrilhantou ainda mais doloridas pérolas da MPB – melancólicas e saudosas como quase todas as canções do recital. Entre as clássicas estavam Folha morta (Ary Barroso), Molambo (J. Florence/A. Mesquita) e Por causa de você (Tom Jobim/Dolores Duran), cantadas com pungência. Das mais recentes foram pinçadas a estranhamente bela valsa Londrina (Arrigo Barnabé) e Bambino, obra de José Miguel Wisnik e Ernesto Nazareth que une, como apontou o violonista, São Paulo e Rio de Janeiro.

Composições populares de Arthur em parceria com Cacá Machado (Casual), Eucanaã Ferraz (Canção de não dormir) e Luiz Tatit (Matusalém, Um milhão e Pós você e eu) completaram o repertório, bem como as irretocáveis versões do violonista para lieder de Robert Schumann (Pra que chorar/Ich grolle nicht, letra original de H. Heine) e Franz Schubert (Serenata/Serenade, sobre poema de L. Rellstab) – esta, em particular, evoca melódica e sentimentalmente a doçura na vida no campo, com citação quase explícita da icônica Canção do exílio, poesia de Gonçalves Dias. Entremeada coma brejeira A saudade mata a gente (João de Barro), a canção tornou-se ainda mais tocante e resplandecente.

O belíssimo concerto teve como marca a inteligência dos Nestrovski, expressa na sabedoria da escolha de repertório, nas inúmeras referências do exuberante violão impressionista de Arthur e na elegância vocal de Lívia, que transitou com leveza e um quê de melancolia pelas bonitas canções. Um arranjo familiar que produziu momentos memoráveis.

 

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