Escrito por em 5 jan 2017 nas áreas Cinema, Crítica, Lateral, Ópera, Programação

No Festival A�pera na Tela, tenor brasileiro se destaca em montagem alemA? de La Traviata.

 

Comprometi-me com o Movimento.com a assistir a um dos filmes do Festival A�pera na Tela, exibidos em sua primeira semana no Parque Lage, no Rio de Janeiro. Passados estes primeiros dias de lanA�amento do Festival, os filmes se espalham por diversos cinemas de vA?rias cidades brasileiras, oferecendo ao pA?blico 12 montagens europeias e uma norte-americana, todas recentes ou relativamente recentes. O leitor interessado em conhecer essas produA�A�es encontra a programaA�A?o completa aqui.

Restava um problema: qual escolher? TA�tulos raros ou atA� mesmo rarA�ssimos em nossos teatros tupiniquins logo chamaram a atenA�A?o. I Due Foscari e Iolanta seriam barbadas nesse quesito. Eu poderia tambA�m usar como critA�rio escolher uma voz consagrada internacionalmente, como a de Jonas Kaufmann, ou quem sabe uma montagem de uma grande casa de A?pera, como o Scala de MilA?o ou o OpA�ra de Paris. Nada disso. Acabei optando pela boa e velha Traviata, e por quA?? Porque havia ali uma voz brasileira em franca ascensA?o no cenA?rio lA�rico internacional: a do tenor paraense Atalla Ayan. E, exatamente por conta dessa ascensA?o, nA?o tem sido fA?cil ouvir o artista ao vivo aqui mesmo no Brasil.

La Traviata, A?pera em trA?s atos e quatro cenas de Giuseppe Verdi sobre libreto de Francesco Maria Piave, com base em A Dama das CamA�lias, de Alexandre Dumas Filho, foi filmada no Festival de Baden-Baden, na Alemanha, em maio de 2015, trazendo, alA�m do tenor brasileiro como Alfredo Germont, a soprano russa Olga Peretyatko como Violetta e o barA�tono italiano Simone Piazzola (que cantou La BohA?me no Theatro Municipal de SA?o Paulo em 2013 a�� junto com Atalla, a propA?sito) como Germont pai.

Estreada em 6 de marA�o de 1853 no Teatro La Fenice, de Veneza, La Traviata conta a histA?ria de Violetta ValA�ry, uma cortesA? parisiense. O jovem Alfredo Germont por ela se apaixona e lhe declara seu amor. Violetta se esquiva inicialmente, nA?o acreditando que um homem pudesse amar verdadeiramente uma mulher da sua condiA�A?o, mas acaba cedendo ao jovem que tambA�m a encanta. Surge entA?o uma terceira personagem, o velho Giorgio Germont, pai de Alfredo, que tem fortes argumentos para convencer Violetta a abandonar seu filho. ApA?s ceder aos apelos de seu ex-futuro sogro, Violetta volta para seu antigo protetor, o BarA?o Douphol. Esta decisA?o da protagonista e ainda o agravamento da sua doenA�a direcionam a aA�A?o para um final inescapA?vel.

O primeiro fator que chama a atenA�A?o nesta produA�A?o alemA? A� a fineza de sua direA�A?o musical, a cargo de Pablo Heras-Casado. Tal qual o tenor brasileiro, o regente tambA�m se encontra em franca ascensA?o na cena lA�rica internacional e conduz a A?pera com esmero, primando tanto pela musicalidade, como por uma regA?ncia bastante teatral. Sob sua batuta, que emprega dinA?micas preciosas, Orquestra e Coro Balthasar Neumann Ensemble brilham do inA�cio ao fim.

A encenaA�A?o assinada pelo tenor mexicano Rolando VillazA?n A� bastante criativa, instigante e repleta de simbolismo. Talvez exagere um pouco por apostar muito numa estA�tica circense, especialmente no primeiro ato e na segunda parte do segundo ato, mas essa ambientaA�A?o pode ser interpretada tambA�m como a reuniA?o de um grupo de hedonistas numa festa A� fantasia.

Ao sugerir que o drama que se desenvolve sA?o as lembranA�as de uma Violetta jA? moribunda, VillazA?n propA�e uma visA?o intimista e com certo tom de nostalgia que leva o espectador a se envolver com a histA?ria. Vemos entA?o aquelas lembranA�as que realmente importam quando o ponteiro dA? a A?ltima volta no relA?gio da vida (representado parcialmente no cenA?rio de Johannes Leiacker).

Uma movimentaA�A?o bastante moderna e os figurinos de Thibault Vancraenenbroeck, adequados A� proposta do diretor, complementam e dA?o vida a uma bela encenaA�A?o. Pelo vA�deo, A� difA�cil avaliar com mais detalhes a luz de Davy Cunningham, que certamente seria mais bem percebida in loco, mas ela aparenta estar tambA�m bastante conectada A� proposta da encenaA�A?o.

O nosso Atalla Ayan oferece um verdadeiro show como Alfredo, tanto vocal como cenicamente. O brilho jovial de sua voz impecA?vel divide bem a atenA�A?o com a nA?o menos brilhante Olga Peretyatko nos dois duetos do primeiro ato (a cA�lebre cena do brinde e ainda Un dA�, felice, eterea). Se o primeiro ato termina com um grande momento da soprano, que pA?de exibir toda o seu virtuosismo em sua A?ria seguida de cabaletta (Ah, forsa��A? lui / Sempre libera), o segundo ato comeA�a com uma grande exibiA�A?o do tenor, tambA�m em A?ria seguida de cabaletta (Dea�� miei bollenti spiriti / O mio rimorso).

Neste mesmo segundo ato, Simone Piazzola destaca-se com sua bela voz nas cenas e duetos com a soprano e o tenor, alcanA�ando o A?pice em sua maravilhosa A?ria, Di Provenza il mar, il suol. Uma das passagens mais musicais e tambA�m mais eficientes cenicamente da montagem A� o grande nA?mero de conjunto que encerra a segunda parte do segundo ato, apA?s Alfredo humilhar Violetta publicamente, movido pelo ciA?me. Do elenco secundA?rio, destaca-se particularmente a Flora Bervoix de Christina Daletska.

O terceiro e A?ltimo ato nos reserva, especialmente, a grande A?ria de Violetta, Addio del passato, e o dueto entre esta e Alfredo, Parigi, o cara. A A?ria, aqui apresentada na A�ntegra, como tem que ser, sem o corte da segunda parte (cortar qualquer coisa escrita por Verdi A� crime inafianA�A?vel), A� interpretada por Peretyatko com grande expressividade. JA? o dueto romA?ntico entre essas duas belA�ssimas vozes honra com bravura a grande arte verdiana.

No fim, restou a sensaA�A?o de que valeu a ida A� sessA?o do Festival A�pera na Tela para reencontrar essa maravilhosa obra-prima imortal, defendida na montagem filmada na Alemanha por grandes artistas a�� dentre os quais um dos maiores motivos de orgulho da lA�rica brasileira na atualidade.

Cena de "La Traviata"

Cena de “La Traviata”

 

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