Escrito por em 7 abr 2017 nas áreas Artigo, Biblioteca, Lateral, Movimento

Em sua carreira, Vera Janacópulos (1892-1955) estabeleceu-se como representante da canção de câmara.

“(…) só a arte do canto e a interpretação a preocupam; e então, Vera canta com a sua musicalidade, a sua inteligência, o seu espírito sutil, o seu coração, a sua alma; se dá toda ao autor que interpreta”

 

A origem do nome Vera está ligada à palavra “verus”, proveniente do latim, significando verdadeira, franca ou sincera. Essa verdade acompanhou a cantora Vera Janacópulos em todos os momentos de sua sólida carreira como concertista e como mestra de uma linhagem de canto que se mantém até os dias atuais no Brasil. Este pequeno texto pretende reavivar a memória de quem conhece os feitos musicais dessa inesquecível artista brasileira, e, ainda, iluminar seu nome para quem merece conhecê-la.


Dados biográficos –
Primeiros anos e estudos na Europa

De ascendência grega por parte de seu bisavô João Batista Calógeras (1810-1878), posteriormente naturalizado brasileiro, Vera Janacópulos nasceu em Petrópolis, a 20 de dezembro de 1892. Cedo, foi levada a Paris, juntamente com sua irmã Adriana, após o falecimento de sua mãe. Seu talento musical logo se impôs, como parte da educação que recebeu. Na Europa, estudou violino com o compositor e virtuose romeno George Enescu (1881-1955).
Embora tenha se desenvolvido satisfatoriamente como violinista, requisitou de seu orientador a indicação de uma professora de canto. Pouco tempo depois, ouviu de Enescu: “Convém abandonar o violino, pois o cansaço de cinco horas de trabalho diário e a própria posição do instrumento, de encontro à garganta, podem afetar-lhe a voz. E você deve cantar”. No entanto, o estudo de violino serviria imensamente à formação de Vera como cantora (FRANÇA, 1959, p.13).

Cartaz do concerto realizado por Vera Janacópulos e o pianista Arthur Rubinstein, divulgando a obra de Villa-Lobos. Paris, 1924.

Segundo MEYER (2016, p. 1155), em 1914, aos vinte e dois anos, realizou seu primeiro recital, dividindo o palco com Magdalena Tagliaferro (1893-1986). Os anos seguintes dariam a Vera Janacópulos inúmeras oportunidades de contato com compositores contemporâneos como Igor Stravinski (1882-1971), Sergei Prokofiev (1891-1953), Maurice Ravel (1875-1937), Manuel de Falla (1876-1946), Sergei Rachmaninoff (1873-1943) e Heitor Villa-Lobos (1887-1959), entre outros.

Em sua sólida carreira, Vera cantou na Alemanha, Argentina, Brasil (onde a crítica sempre registrou seu orgulho pela carreira dela), Bélgica, Espanha, Estados Unidos, França, Grécia, Holanda, Itália, Portugal, Suíça. Excursionou pela Ásia, onde se apresentou nas ilhas de Célebes, Java e Sumatra. Segundo FRANÇA (1959, p.33), Vera Janacópulos enfrentava, na Europa, “uns cento e vinte concertos por ano”. Grande apoiadora da arte de Villa-Lobos quando de sua primeira viagem à Europa, Vera Janacópulos, juntamente com o pianista Arthur Rubinstein (1887-1982), realizou concertos na capital francesa e divulgou a obra do compositor brasileiro em outros países.

Segundo ALMEIDA (2014, p.99), a partir da década de 1920, Vera Janacópulos e Rubinstein passam a ser “divulgadores de renome da obra de Villa-Lobos no exterior”.

 

A voz e a canção de câmara

Em sua carreira, Vera Janacópulos estabeleceu-se como representante da canção de câmara. Para esse gênero, emprestou sua voz em inúmeras estreias mundiais das quais ressaltamos a obra Three Poems by Fiona Macleod, opus 11, de Charles Griffes (1884-1920), sendo acompanhada pelo próprio compositor. Posteriormente, conduzida por Villa-Lobos (1887-1959), cantou na estreia mundial de sua obra 3 Poemas indígenas, em sua versão orquestral, em Paris, no ano de 1927.

Sempre envolta com as atividades artísticas de seu mètier, sua fluência no idioma francês possibilitou-lhe realizar a tradução para aquela língua do libreto da ópera “L’ amour des trois oranges”, de Sergei Prokofiev (1891-1953), que teve estreia em 1921, nos Estados Unidos.

Como musa inspiradora, foi objeto de desejo da pena de diversos compositores. Destes, citamos Darius Milhaud (1892-1974), com a obra 2 Petits airs, opus 51, composta em 1918; Heitor Villa-Lobos com o conjunto de canções Historiettes, compostas em 1920, e a Suíte para canto e violino, de 1923; Albert Roussel (1869-1937), com a canção Vois, de belles filles, opus 47, NA? 1, e Cacilda Borges (1914-2010), com dois volumes da obra Estudos Brasileiros para Canto, publicados em 1950 e dedicados a Janacópulos, sua professora.

Um raro registro da voz de Vera Janacópulos interpretando repertório brasileiro pode ser ouvido no endereço: https://www.youtube.com/watch?v=Aqie1pExrrc. Trata-se da canção Azulão, de Hekel Tavares (1896-1969), registrada em disco no ano de 1936.

Com centenas de recitais realizados em sua trajetória, a cantora era, curiosamente, contrária ao bis. Essa particularidade e o entendimento que Vera demonstrava de tal ato foi claramente documentado por Eurico Nogueira França: “Era contra o bis por princípio – embora o concedesse excepcionalmente, com tato diplomático, para evitar situações desagradáveis – pois que interesse pode ter um artista, perguntava ela, em repetir uma página cuja qualidade interpretativa ficou provada pela ação exercida sobre o público? E ela acrescenta que teria muito prazer em repetir, em bisar, as composições que acaso não houvessem saído bem, para cantá-las, da segunda vez, melhor do que a primeira, mas não aquelas onde já alcançava o máximo emprego das suas possibilidades“. (FRANÇA, 1959, p.63)

Para termos uma ideia do repertório apresentado por Vera Janacópulos nos anos de 1930 e, ainda, para percebermos como era a dinâmica dos recitais à época, resgatamos a matéria a seguir, datada de 27 de novembro de 1930, publicada pelo jornal carioca A NOITE:

Programa de recital de Vera JanacA?pulos no Theatro Casino, Rio de Janeiro, 1930.

Na organização do recital supracitado, 3 compositores brasileiros foram homenageados na performance de quatro canções em vernáculo: Barroso Netto, Villa-Lobos e Alberto Nepomuceno. O programa, organizado em quatro partes distintas, contemplava obras em inglês, espanhol, francês e português, com predominância de canções de câmara.


A década de 1940 e o retorno ao Brasil: ascendência e descendência musical

Seu retorno definitivo ao Brasil ocorreu na década de 1940, atuando como formadora de cantores nacionais, entre outras atividades artsticas. Segundo FRANÇA (1959, p.11), Vera Janacópulos teve quatro principais professores de canto: Mme. Reja Bauer (s.d), Jan de Reszke (1850-1925), que a comparava à cantora Jenny Lind (1820-1887, famosa no sAéculo XIX e reconhecida como “o rouxinol sueco”), Jean Perrier (1869-1954) e Lilli Lehmann (1848-1929), importante solista e pedagoga, autora do livro Meine Gesangskunst, no Brasil intitulado Aprenda a cantar, com quem Vera estudou interpretação de Lieder. MEYER (2016, p. 1156), em seu artigo Vera Janacópulos – A arte da interpretação, registra palavras de agradecimento da cantora ao referir-se à sua mestra alemã, sobre a qual comenta ter tido a honra de ter sido orientada por ela.

Se pensarmos em uma linhagem musical que percorre os séculos por meio de ensinamentos da arte do canto lírico, podemos afirmar que Vera Janacópulos deixou descendência musical atuante até os dias de hoje. Como docente, dos incontáveis alunos orientados no Brasil por ela, citamos Celina Sampaio (1909-1974) e Magdalena Lébeis (1912-1984) como duas marcantes personalidades musicais. Magdalena Lébeis viria a ser professora de Lenice Prioli (1929-2016), reconhecida solista e educadora, que por sua vez orientou inúmeros cantores brasileiros, com destaque para o mezzo-soprano Denise de Freitas.

Lilli Lehmann, Vera JanacA?pulos, Magdalena LA�beis, Lenice Prioli e Denise de Freitas: cinco geraA�A�es de consagradas solistas unidas pela arte do canto.

 

Vera Janocópulos encerrou sua carreira artística antes do declínio vocal, lecionando regularmente e contribuindo para a formação de novos cantores brasileiros. Como parte do Programa de Pós-Graduação da USP, a pesquisa acadêmica realizada por Emerson Adriano Gomes Vasconcelos, no ano de 2012, aborda o registro de 1006 (mil e seis) aulas dadas por Vera Janacópulos à cantora Magdalena Lébeis, entre os anos de 1937 a 1955. Esta pesquisa aborda importantes documentos sobre a atuação da cantora como professora de canto, além de apresentar dados tocantes sobre a relação entre mestra e pupila.


Morte

Vera Janacópulos faleceu no Rio de Janeiro, no dia 05 de dezembro de 1955. A imprensa carioca registrou sua perda em inúmeras notas, como o texto publicado no dia 07 de dezembro pelo jornal Correio da Manhã, a seguir: ” Dona Vera, pela grande qualidade da sua voz, pelo sentimento musical profundo, pela técnica do canto longamente aprendida e dominada, pela excepcional categoria das músicas que cantava e ensinava, passou a ocupar, entre os nomes da nossa música contemporãnea, um lugar de grande honra“.

Ao comentar sobre sua morte em matéria publicada no Jornal do Brasil, em edição do dia 11 de dezembro daquele mesmo ano, o poeta Manuel Bandeira (1886-1968) ressalta o orgulho que a gente do Brasil sentia ao saber das conquistas de Vera no exterior: “Seu nome ficou ligado à eclosão da música moderna quando Strawinski revolucionava Paris e o mundo com as suas audácias inéditas. Vera foi, então, a sua intérprete favorita: ainda me lembro com que orgulho soubemos disso! Mais tarde, ainda em Paris, encontrou-se com essa glória formada de fora para dentro outra que cresceu ao contrário, isto é, de dentro para fora, do Brasil para o estrangeiro – a de Villa-Lobos. Vera foi também a intérprete preferida de Villa. Quantas vezes o ouvi cantar os louvores da colaboradora na execução de suas músicas de canto!”

Seu percurso como artista possibilitou-lhe inúmeras experiências históricas, representando sua pátria em diversos continentes. Seja como cantora, musa inspiradora, professora ou ainda líder do programa “Música dos Mestres”, transmitido por oito anos pela Rádio Gazeta, seu carisma como genuína artista sempre prevalecia. Diversas passagens de sua trajetória não foram citadas por este autor, que apenas pincelou traços biográficos de uma de nossas maiores artistas no ofício do canto lírico. Que o tempo, amigo da verdade, deixe permanecer o nome de Vera Janacópulos na história do canto erudito no Brasil e no mundo.


Homenagens

Busto da cantora

Em reconhecimento às realizações artísticas que culminaram por imprimir seus feitos musicais à história do canto lírico brasileiro, o nome de Vera Janacópulos foi objeto de pesquisa de Eurico Nogueira França (1913-1992), por meio do livro “Memórias de Vera Janacópulos”, lançado em 1959, poucos anos após a morte da cantora. Para o escritor Vasco Mariz (1921), em Memórias de Vera Janacópulos Eurico Nogueira França “redigiu com elegância e clareza as recordações da notável recitalista que ombreou com os maiores artistas de sua época na Europa, oferecendo-nos também um panorama esplêndido do mundo musical daqueles tempos”.

Digna de nota é também a homenagem prestada por Adriana Janacópulos (1897-1978), artista plástica e sua irmã. Trata-se de um busto confeccionado entre os anos de 1957 e 1958, que se encontra na Praça Paris, localizada no bairro da Glória, no Rio de Janeiro. Na cidade de São Paulo, posteriormente, foi dado o nome de Vera Janacópulos a um logradouro no bairro Jardim Ivana.

A criação do “Círculo de Arte Vera Janacópulos”, após a morte da cantora, constitui-se da fundação de uma sociedade que tinha por objetivo manter viva sua memória e promover o canto de câmara no Brasil, por meio de concertos e palestras. A figura a seguir nos mostra o registro de uma das inúmeras atuações do Círculo, impressa no jornal Diário Carioca, de 23 de dezembro de 1959, no qual podemos ler os esforços que esta sociedade realizou para perpetuar o nome de uma das maiores cantoras brasileiras.

 

Fig. 7. MatA�ria do jornal DiA?rio Carioca sobre o a�?CA�rculo de Arte Vera JanacA?pulosa�?. 1959

Outra homenagem para a artista foi prestada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO, ao nomear um auditório com o nome da cantora. Trata-se do Auditório Vera Janacópulos, localizado na Avenida Pasteur, 296.


Referências

– ALMEIDA, Washington Luiz Sieleman. VILLA-LOBOS: MÚSICA E NACIONALISMO NA REPÚBLICA VELHA. Centro de Ciências Humanas e Naturais da Universidade Federal do Espírito Santo. Dissertação de Mestrado. Vitória: 2014.
– FRANÇA, Eurico Nogueira. Memórias de Vera Janacópulos. Ministério da Educação e Cultura – Serviço de documentação. Rio de Janeiro, 1959.
LEHMANN, Lilli. Aprenda a cantar. Ediouro. Rio de Janeiro: 1984.
– MARIZ, Vasco. Recordar Eurico Nogueira França (1913 -1992). Revista Brasileira de Música – Programa de Pós-Graduação em Música – Escola de Música da UFRJ. Rio de Janeiro, v. 25, n. 2, p.375-380, Jul./Dez. 2012.
– MEYER, Anne. Vera Janacópulos – A arte da interpretação. Anais do IV SIMPOM 2016 – Simpósio Brasileiro de Pós-Graduandos em Música. UNIRIO. Rio de Janeiro: 2016.
– VASCONCELOS, Emerson Adriano Gomes. Magdalena Lébeis e o registro sistemático de um processo pedagógico: resgate histórico e análises iniciais. Escola de Comunicações e Artes – Universidade de São Paulo. Dissertação de Mestrado. São Paulo: 2012.

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