Escrito por em 14 maio 2017 nas áreas Artigo, Biblioteca, Movimento

Entre os homens destacaram-se Paulo Fortes, Paulo Fortes e Paulo Fortes.

Artista completo, orgulho e honra para a história da música brasileira! Qualquer menção ao nome do barítono Paulo Fortes merece sempre apontar suas qualidades vocais e cênicas, ambas em altíssimo nível, equilibradas e fundidas em suas performances. à vontade no palco, no rádio, no cinema e também na televisão brasileira, Paulo Fortes é lembrado hoje como sólida referência de artistas genuinamente brasileiros.


Paulo de Paiva Fortes
(1923-1997)

Posteriormente conhecido como Paulo Fortes, era carioca. Nasceu em 1923, de família tradicional, tendo sua cidade natal como a capital do Brasil e em constante fluxo de produções artísticas e culturais. à época de seu nascimento, o Brasil possuía o absurdo índice de 65% de analfabetos na população. Privilegiado, o jovem artista estudou no Colégio São Bento e, posteriormente, formou-se como bacharel em Direito pela Faculdade do Rio de Janeiro no ano de 1948.

Desde cedo, sua vocação artística pode ser notada por meio de apresentações informais. Foi levado pelas mãos do maestro Jose Torre, italiano radicado no Brasil, para estudar com Gabriella Besanzoni (1890-1962). Além da orientação recebida por Besanzoni, Paulo Fortes estudou também com Murillo de Carvalho, Pina Mônaco e Flaminio Contini.

A estreia de Paulo Fortes como solista em ópera ocorreu a 05 de outubro de 1945, no Teatro Municipal, no Rio de Janeiro, com o título La traviata, de Giuseppe Verdi (1813-1901). Podemos, porém, ouvir o próprio artista se referir à montagem da ópera Pagliacci, de Leoncavallo, realizada em 1948, como sua verdadeira estreia profissional. Tal registro pode ser acessado pelo endereço: http://www.musicaclassicabrasileira.com.br/paulofortes.html

 

AnA?ncio da produA�A?o da A?pera La traviata marcando a estreia de Paulo Fortes no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, GAZETA DE NOTA?CIAS, 1945.

 

Sobre seu début como solista de ópera, resgatamos uma crítica lançada pelo jornal Diário de Notícias, dois dias após a estreia do artista:
La Traviata: … grande êxito da noite, porém, coube a Paulo Fortes, jovem barítono brasileiro, de apenas 22 anos. Desde que pisou em cena, encarnando o velho Germont, causou a melhor impressão pelo seu porte, pelas suas maneiras bem longe de revelar o estreante que ele era. E foi essa impressão que avolumou durante o seu trabalho, até atingir o “clímax” no famoso romance De Provença. Sua voz linda, maleável, pura, voz capaz de torná-lo célebre, não tem, ainda nos graves, o suficiente corpo, o que se explica pela sua pouca idade. No mais, porém, revelou as maiores possibilidades cantoras e os mais acentuados pendores cênicos. O público entusiasmou-se ante aquele artista jovem e espontâneo. Aclamou-o em delírio, na crença de que será ele, um dia, uma grande figura da arte lírica mundial. É o caso de dizer: amém. Deus permita que não lhe falhe esta esperança. Paulo Fortes tem futuro a desbravar, tem um destino a cumprir. Que não lhe faltem os meios para atingi-lo”. – Diário de Notícias – 7 de outubro de 1945.

Paulo Fortes estreia como Figaro

A partir de sua estreia no então mais importante teatro de ópera do país, Paulo Fortes desenvolveu sólida e prestigiada carreira, sendo considerado por MARIZ (2002, p. 261) o melhor barítono de sua geração, cantando quase todos os papéis para sua voz, “sempre com sucesso, tornando-se também um excelente ator”.

Ao todo, o artista cantou 87 sete óperas. Em vida, foi premiado diversas vezes com a Medalha de Ouro da Associação Brasileira de Críticos Teatrais como melhor cantor lírico. Como registro histórico de sua trajetória, podemos apreciar seu belo timbre, técnica perfeita e desenvoltura cênica no pequeno trecho da ópera Gianni Schicchi, de Giacomo Pucinni, em montagem realizada no Teatro João Caetano em 1976, disponível no endereço a seguir: https://www.youtube.com/watch

A seguir, alguns títulos incluindo óperas de repertório, opereta e também obras brasileiras interpretadas pelo artista:

– Il Barbiere di Siviglia, L’ italiana in Algeri, de Rossini;
– La traviata, Falstaff, Aida, Trovatore, Rigoletto, de Verdi;
– La Bohème, Gianni Schicchi, Madama Butterlfy, Turandot, de Puccini;
– Elisir d’ amore, Don Pasquale, de Donizetti;
– Andrea Chénier, de Giordano;
– Die lustige Witwe, de Franz LehA?r;
– Les pécheurs de perles, de Bizet;
– Cosí fan tutte, de Mozart;
– Moema, de Delgado de Carvalho, em comemoração aos 40 anos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro;
– Adriana Lecouvreur, de Francesco Cilea;
– Manon, Werther, de Jules Massenet;
– O Chalaça, O contratador de diamantes, O sargento de milícias, de Francisco Mignone;
– Izath, Menina das nuvens, de Heitor Villa-Lobos;
– Pedro Malazarte (primeira audição mundial), Um homem só, de Camargo Guarniei;
– Il Guarany, Salvator Rosa, de Carlos Gomes;
– Pagliacci, de Leoncavallo;
– Le coq d’or, de Rimski-Korsakov.

A contribuição de Paulo Fortes para a ópera brasileira deve também ser relembrada, pois o artista participou da estreia mundial de obras consagradas como Pedro Malazarte e Um homem s, de Camargo Guarnieri (1907-1993), Izath e A menina das nuvens, de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e O Chalaça, de Francisco Mignone (1897-1986). Sobre a ópera O Chalaça, resgatamos uma crtica lançada pelo Jornal do Brasil datada de 26 de outubro de 1976, assinada pelo compositor Edino Krieger, que ressalta a arte de Paulo Fortes nos termos a seguir:

“O Chalaça de Paulo Fortes é uma tranquilidade, como técnica vocal, presença e integração total do personagem e no espetáculo. Seguríssimo e extremamente desembaraçado, foi sem dúvida a melhor presença em cena. Musicalmente, a partitura lhe oferece excelentes oportunidades de mostrar a variedade de recursos vocais de que dispõe, alternando momentos de força interpretativa como o áspero diálogo inicial com Zaccaria Marques (Tenente Felício, marido de Domitila), com episódios de caráter galhofeiro e cenas de intensa conotação lírica, como a deliciosa e autêntica Seresta que, de repente, desce do palco em sua belíssima voz trovadoresca, e se prolonga pela plateia com os acompanhamentos de violões“.

Embora tenha se apresentado em países da América do Sul como Argentina, Colômbia e Uruguai, e também em países da Europa como Itália e Portugal, em sua carreira notamos um predomínio de atuações no Brasil. No exterior obteve inquestionável sucesso, refletido em críticas como a lançada pelo jornal uruguaio La Manãna, no dia 18 de outubro de 1964, a seguir:

“Paulo Fortes (Sir John Falstaff) realizó un protagonista de excepcion, el barítono brasileño es un cantante completo y además un gran actor, como ya se habia podido constatar en El Gallo de oro. En la oportunidad cantó en la mejor línea verdiana con un concepto depurado escénica y vocalmente, y un registro amplio que abarcó desde acertados graves hasta el sutil menejo del falsetto. Una auténtica creacion”. – J.N.

Paulo Fortes em sua estreia como Falstaff, na A?pera homA?nima de Verdi – 1951.

No Brasil, o artista sempre contou com a valorização de seu ofício pela crítica, em incontáveis demonstrações de apreço por sua realização cênica e vocal em produções operísticas, como podemos verificar nas linhas lançadas pelo jornal O Globo, no dia 18 de outubro de 1969: “A personalidade, a experiência de palco, a arte de cantar, de dizer, de gesticular com espontaneidade e em perfeita sincronização com o tempo musical, todas as qualidades, enfim, de grande ator e barítono que reúne Paulo Fortes tiveram excelente aplicação no papel de Sir John Falstaff”.

O artista reinou, absoluto, como o mais reconhecido barítono de sua geração em papéis cômicos e dramáticos. Correto é afirmar que o instrumento de Paulo Fortes desconhecia dificuldades para qualquer papel escrito para a voz de barítono. Atuou ao lado dos maiores artistas de seu tempo, como os cantores Magda Olivero, Renata Tebaldi, Niza de Castro Tank, Victoria de Los Angeles, Ruth Staerke, Beniamino Gigli, Mario Del Monaco, Beniamino Gigli, Amin Feres, Boris Christoff e Neyde Thomas. Seu canto expressivo foi conduzido pelas mãos de maestros como Tullio Serafin, Edoardo de Guarnieri, Henrique Morelenbaum, Isaac Karabtchevsky e Antonino Votto.


REGISTROS SONOROS

Ternas e eternas serestas

Felizmente, a história pode contar com registros da voz de Paulo Fortes em gravações de discos que o artista realizou ao longo de sua carreira. Ao analisarmos esse material, percebemos a flexibilidade de sua técnica vocal em gravações de óperas e peças sacras, bem como em obras de câmera e populares.

Digna de nota é sua participação na primeira e histórica gravação da ópera Il Guarany, de Carlos Gomes, realizada em 1959, ao lado de Niza de Castro Tank (Cecy) e Manrico Patassini (Pery), regidos por Armando Belardi (1898-1989). Esse registro foi relançado em 1994 e se constitui item obrigatório na discografia do compositor Carlos Gomes.

 

PAULO FORTES, O ATOR NO CINEMA, NO TEATRO E NA TELEVISA?O

Com Bibi Ferreira em “AlA? Dolly”

Por sua desenvoltura cênica, além de belo timbre e excelente projeção da voz falada, Paulo Fortes flertou com o cinema nacional e internacional, e também com a televisão brasileira. Dentre os filmes de que participou, destacamos  A difícil vida fácil (1972), O estranho vício do Dr. Cornélio (1975), A Terra é plana (Jorden Er Flad), Maneco, o super tio (1980) e Os saltimbancos trapalhões (1981), este último considerado pela crítica o melhor filme do quarteto trapalhão

Como ator de teatro, Paulo Fortes também obteve sucesso. Sua parceria com Bibi Ferreira, no musical Alô, Dolly, de 1965, no Teatro João Caetano, chegou a ser registrado em LP lançado pela CBS.

Para a televisão brasileira, destacamos sua participação na novela Pai herói, de 1979, e nas minisséries Memórias de um gigolô, de 1986, e La Mamma, de 1990, todas exibidas pela Rede Globo.


Paulo Fortes e a estátua de Carlos Gomes

Estátua de Carlos Gomes – Municipal RJ

A imponente estátua em bronze do compositor Carlos Gomes que se encontrava até o ano de 2010 na praça Marechal Floriano, em frente ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro, foi lá instalada no dia 16 de janeiro de 1960, após uma movimentação de Paulo Fortes que culminou com a retirada de uma estátua do compositor Frédèric Chopin (1810-1849) lá instalada desde a primeira metade do século 20.

A estátua do compositor campineiro é uma cópia do monumento que se encontra em Campinas, confeccionada por Rodolfo Bernardelli (1852-1931) e inaugurada no dia 02 de julho de 1905. Bernardelli retratou Gomes solicitando silêncio à orquestra para os aplausos da plateia.

Diz a lenda que Paulo Fortes ao justificar a remoção do monumento a Chopin pela instalação da estátua do compositor brasileiro teria dito: “A arte não tem pátria, mas o artista tem”. Atualmente, a estátua de Carlos Gomes encontra-se na avenida Treze de Maio, um pouco distante de sua instalação inicial.


FALECIMENTO
 – Deus me respeita quando trabalho, mas me ama quando eu canto (R. Tagore)

Após décadas tendo seu nome celebrado em jornais e revistas por suas atuações como cantor e também como a ator, no dia 09 de janeiro de 1997 Paulo Fortes voltou a ser citado pela imprensa. Desta vez, não pelos motivos de sempre, mas por seu falecimento, ocorrido no Rio de Janeiro. Partia, assim, um dos maiores artistas líricos brasileiros. Para felicidade dos que não o conheceram ou dos que o aplaudiram em vida, sua incomparável voz e sua expressiva atuação cênica podem ser apreciadas em inúmeros registros de áudio e vídeo disponíveis na internet. Paulo Fortes foi sepultado no cemitério São João Batista. Após a comunicação de seu falecimento, concertos em sua homenagem foram realizados. Sólido na história da ópera no Brasil, o nome de Paulo Fortes permanece insuperável como exemplo de técnica e musicalidade.

Por fim, o endereço http://www.musicaclassicabrasileira.com.br/paulofortes.html disponibiliza dois vídeos com áudio de uma entrevista produzida por Lauro Gomes para a Rádio MEC contendo inúmeras histórias sobre a trajetória de Paulo Fortes contadas por ele próprio.

 

Referências

– ALMEIDA, PATRÍCIA TEIXEIRA. Representações sociais do analfabetismo na perspectiva de adultos não-alfabetizados. Dissertação ( Mestrado em Educação)- Universidade Católica de Brasília, Brasília (DF), 2004. Disponível em: <http://www.bdae.org.br/dspace/handle/123456789/936>. Acesso em: 12 abr. 2017.
– MARIZ, Vasco. A canção brasileira de câmara. 4.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2002.
– FURLANETTO, Bruno. Paulo Fortes: o barítono do Brasil. FUNARTE e Fundação do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: 2001.
– OSBORNE, Charles. Dicionário de ópera. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/1/10/ilustrada/6.html. Acesso em: 01 mai. 2017.
http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_09&pesq=%C3%B3pera%20O%20Chala%C3%A7a&pasta=ano%20197. Acesso em: 30 abr. 2017.

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