Escrito por em 18 jun 2017 nas áreas Balé/Dança, Canto, Crítica, Lateral, Rio de Janeiro

Em espetáculo irregular, mas bem recebido pelo público, primeira bailarina Márcia Jaqueline se despede do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

 

Em meio a uma temporada incerta, sobretudo em virtude dos desmandos da política vagabunda que “conduz” o estado do Rio de Janeiro, o Theatro Municipal programou para este mês de junho o balé Carmina Burana, espetáculo que acabou se tornando o de despedida de uma das primeiras bailarinas da casa, Márcia Jaqueline, que está de saída para integrar uma companhia austríaca.

Preâmbulo

Na estreia do dia 15 de junho, junto ao anúncio de praxe que antecede o espetáculo, o locutor leu uma mensagem dos artistas e funcionários do Municipal para o público. Estes afirmam no comunicado que vêm procurando manter de pé a temporada da Casa, mesmo em meio à crise sem fim enfrentada pelas finanças estaduais, crise esta que vem mantendo os salários dos profissionais da casa em constante atraso. Além dos dois últimos vencimentos, também o 13° salário de 2016, segundo consta, não foi pago.

Ainda na mensagem, os profissionais do Municipal afirmam que, se a situação permanecer do jeito em que agora se encontra, não terão como garantir a sequência da temporada deste ano. Com isso, coloca-se em risco, de forma mais iminente, a realização da ópera Un Ballo in Maschera, de Verdi, prevista para estrear em 13 de julho. Seria uma pena a não realização da ópera, mas não seria possível questionar os artistas e funcionários do Municipal se a montagem não puder ser levada ao palco na ocasião prevista: profissionais que não são pagos também não são obrigados a trabalhar.

Enquanto esse comunicado era lido pelo locutor, uma espectadora depositou uma faixa em uma das laterais superiores do Municipal com os dizeres: “Fora Pezão”.

 

Público jogou junto

O balé Carmina Burana, se é que podemos chamá-lo de balé, resultou em um espetáculo bastante simples, para não dizer simplório. Não tenho grandes conhecimentos de dança, e exatamente por isso não me considero capaz de avaliar a coreografia de Rodrigo Negri, nem me adentrarei pela qualidade de execução por parte do Balé do TMRJ.

Posso, porém, transmitir a minha impressão geral, e o que se viu no palco do Municipal foi um espetáculo improvisado, sem cenário e com figurinos reaproveitados do acervo da Casa. Em tese, não há problema nesse reaproveitamento, desde que este seja informando previamente ao público – o que não ocorreu. Por fim, em um expediente sem qualquer justificativa e que vem se tornando repetitivo no TMRJ nos últimos anos (ou seja, de inédito não tem nada), o palco ficou totalmente nu, com suas entranhas expostas. Para quê? Em que isso contribuiu com o espetáculo? Claramente faltou direção de arte.

O Coro do TMRJ  foi posicionado sentado ao fundo do palco, dividido em duas partes, com um corredor no centro. Com as laterais do palco vazadas, por vezes (pelo menos de onde eu estava na plateia), as vozes masculinas não eram audíveis em volume adequado, com as femininas se destacando mais, talvez pelo tradicional posicionamento das mulheres à frente dos homens na formação coral.

Fora este detalhe, o Coro (preparação de Jésus Figueiredo) ofereceu uma performance razoável, tal qual a Orquestra Sinfônica da Casa, conduzida por Tobias Volkmann. É necessário registrar, porém, o escorregão dos metais em algumas passagens, como em Ecce Gratum, por exemplo. Já o Coral Infantil da UFRJ (preparação de Maria José Chevitarese), posicionado em um camarote na lateral do fosso da orquestra, apresentou-se bem.

Dos solistas, o barítono Homero Velho ofereceu uma performance burocrática, como de hábito em sua trajetória, sem maior brilho ou expressão. Vale registrar que, no único movimento em que se utilizou da partitura, Estuans Interius, o artista conseguiu a proeza de errar a letra na primeira parte da passagem, cantando as palavras de um trecho que viria um pouco mais adiante no mesmo movimento (lendo a partitura?). Já em Dies, nox et Omnia, a passagem em “falsete” soou feia e estranha, dando a grande impressão de que o barítono não domina esta técnica.

Bem melhor esteve a soprano Michele Menezes, que, vocalmente, deu boa conta de sua parte. Reitero apenas o que dela já escrevi em ocasiões anteriores: precisa aprimorar a presença de palco. O grande destaque vocal foi o tenor Jacques Rocha, que no único movimento sob sua responsabilidade, Olim lacus colueram, exibiu uma voz bela, sonora e muito bem projetada.

Percalços à parte, o melhor da tarde da última quinta-feira no Municipal foi o público, que jogou junto o tempo todo e, sem a menor dúvida, foi à Cinelândia com o objetivo principal de demonstrar o seu apoio aos artistas e funcionários da Casa. Praticamente lotando o Municipal, o público aplaudiu a todos com grande entusiasmo, demonstrando o seu carinho e o seu agradecimento pelo esforço dos profissionais em não deixar o Municipal parar. E aqui, valem dois registros importantes:

Primeiramente, o bom senso de se reduzir o valor dos ingressos. Não sei de quem foi a ideia, mas certamente foi uma medida acertada, que contribuiu para a lotação da casa e proporcionou aos artistas e funcionários do Municipal o prazer de ver abarrotadas as dependências do teatro, como um reconhecimento ao seu esforço de seguir em frente. E, em segundo lugar, também não sei de quem foi a ideia de levar a orquestra toda ao palco no fim do espetáculo, mas outra vez foi uma medida acertada (excepcionalmente, claro) dar visibilidade aos professores da OSTM, que assim puderam receber o carinho do público de uma forma mais “quente”.

Quando começava a se dispersar, foi inevitável para muita gente do público bradar a plenos pulmões: “Fora Pezão!”

 

Márcia Jaqueline

Como foi divulgado pela imprensa nos últimos dias, três bailarinos estão deixando a companhia do Theatro Municipal, e dentre eles a primeira bailarina Márcia Jaqueline. Márcia, especialmente, merecia, é verdade, um espetáculo de despedida mais pomposo e mais bem preparado: um grande balé clássico, talvez. Nada, porém, impede que ela volte ao Municipal como convidada futuramente.

A artista está de partida para a Áustria, onde integrará o Salzburg Ballet. Essa não é uma novidade no Balé do Municipal. Somente em anos recentes, outros bailarinos de primeira grandeza como Roberta Marquez e Thiago Soares deixaram a casa para integrarem companhias estrangeiras. Sim, a conclusão é de que o Municipal forma alguns bailarinos de excelência e os perde para centros nos quais a dança é mais valorizada, da mesma forma que nossos melhores jogadores de futebol são aqui formados para acabarem indo jogar em clubes europeus.

Sim, é ruim chegar a essa conclusão, mas coloque-se o leitor na posição de um bailarino de excelência que recebe um convite para atuar em uma companhia estrangeira. Entre ficar aqui na terrinha (ganhando pouco – ou até nem ganhando, como tem ocorrido atualmente com os constantes atrasos de salários – e mais ensaiando que se apresentando) e ir para o exterior, onde certamente o artista subirá muito mais vezes ao palco, podendo exibir e ter muito mais valorizados a sua arte e o seu talento, não há muito o que pensar.

O Brasil (e aqui me refiro mais especificamente aos burocratas da nossa Cultura e seus asseclas) trata mal os nossos artistas clássicos (músicos, cantores e bailarinos), não os valoriza, especialmente aqueles de excelência. A melhor opção para esses artistas é e continuará sendo por muito tempo o aeroporto. Infelizmente.

 

Politicagem

Para fechar, duas questões sobre a politicagem vadia do Rio de Janeiro. A primeira é de caráter mais geral: o desgoverno estadual tem atrasado os salários de muita gente, mas, ao mesmo tempo, tem dado vantagem aos profissionais das áreas de segurança e educação na hora de fazer os pagamentos. Os servidores dessas duas áreas são os que recebem primeiro. Isso é constitucional? Pode o governo decidir “a seu bel prazer” a que servidores vai pagar agora e a quem vai pagar quando puder? O mais correto não seria pagar a todos os servidores proporcionalmente, sem dar vantagem à qualquer área? Por que não se entra com um procedimento judicial para exigir do governo essa proporcionalidade geral?

A segunda questão fala mais diretamente ao Municipal: quando o atual secretário de Cultura, André Lazaroni, assumiu a pasta, conseguiu naquele momento usar de certa “força política” para colocar quase em dia os salários do Municipal. Isso foi por volta de fevereiro deste ano. Muita gente boa caiu no conto do vigário do secretário de que tinha mesmo a tal “força política”. O tempo passou e a realidade mostrou sua crueza. Será que, a esta altura, ainda existe alguém que acha mesmo que esse secretário serve para alguma coisa?

Bem, o secretário é do PMDB, e foi a ladroagem e a incompetência de politiqueiros ligados a esse partidinho fisiológico que levaram o Rio de Janeiro à atual situação falimentar. De forma que, se o secretário realmente tivesse vergonha na cara, a primeira coisa que faria era mudar de partido. É difícil, porém, esperar que algum politiqueiro brasileiro tenha esta qualidade: vergonha na cara.

 

Foto: Júlia Rónai

 

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