Escrito por em 10 ago 2017 nas áreas Canto, Crítica, Lateral, São Paulo

Em recital impecável, Pretty Yende e Javier Camarena ofereceram uma verdadeira aula de canto.

 

Depois de oferecer um grande concerto lírico no começo de maio, com a diva alemã Diana Damrau e o baixo-barítono francês Nicolas Testé, acompanhados por orquestra, a temporada 2017 do Mozarteum Brasileiro encontra outra vez o mais belo e mais fascinante de todos os instrumentos musicais: a voz humana.

Se, em maio, pudemos apreciar a maturidade de dois grandes artistas, agora, em agosto, tivemos a chance de conferir tanto a arte de uma das jovens cantoras mais instigantes e celebradas do cenário mundial, a soprano lírico-coloratura sul-africana Pretty Yende, como as qualidades de um mexicano que vive o esplendor de seu auge vocal, o tenor Javier Camarena, ambos acompanhados pelo pianista cubano Angel Rodriguez.

A noite de 8 de agosto (quando esta resenha estiver publicada, a segunda e última apresentação já terá se dado no dia 9) começou com o dueto Chiedi all’aura lusinghiera (precedido pelo recitativo Una parola, o Adina), da ópera L’Elisir d’Amore, de Gaetano Donizetti, que serviu para esquentar o público, como um aperitivo do que ainda estava por vir. Logo depois, Pretty Yende interpretou uma das muitas versões da ária Una voce poco fa, de Il Barbiere di Siviglia, de Gioacchino Rossini, exibindo o cristal de seu timbre, excelente projeção e, especialmente, a destreza irrepreensível de quem domina com maestria a técnica de agilidade.

Chegou a vez de Javier Camarena cantar sua primeira ária, e a escolhida foi nada menos que Sì, ritrovarla io giuro, da rossiniana La Cenerentola – a mesma que o público o obrigou a bisar no Metropolitan, em Nova York, em 2014. E não foi difícil perceber o porquê da exigência da plateia nova-iorquina. O artista encarou a passagem com voz generosa, exibindo também ele grande destreza, um belíssimo timbre, projeção invejável e agudos de outro mundo (de tão perfeitos). Não houve bis desta ária na Sala São Paulo, mas foi o suficiente para o tenor “ganhar” o público para o resto da noite.

Yende retornou ao palco para cantar, ainda de Rossini, Non si dà follia maggiore, de Il Turco in Italia, reforçando a exibição de sua técnica apurada. Em seguida, Camarena atacou a ária de Tebaldo em I Capuleti e i Montecchi, de Vincenzo Bellini: È serbata a questo acciaro, seguida da cabaletta L’amo tanto, uma vez mais arrebatando o público com seus predicados técnicos e interpretação heróica. Seguindo com Bellini, soprano e tenor encerraram a primeira parte da noite com o dueto Son geloso del zefiro errante (precedido de recitativo), de La Sonnambula: oportunidade preciosa, que ambos não desperdiçaram, para demonstrar capacidade expressiva.

No intervalo, um fato já restava claro: as árias escolhidas por Javier Camarena ofereciam grau de dificuldade maior em relação àquelas selecionadas por Yende. Nada mais natural, pois o tenor, aos 41 anos, demonstra claramente já ter chegado à sua maturidade vocal, e exatamente por isso pode explorar degraus mais elevados. A soprano, por sua vez, aos 32 anos, aposta em um repertório que lhe é adequado neste momento de sua carreira, sem ousar saltar inadvertidamente os degraus da lírica. Com isso, ela demonstra não somente a sua inteligência artística, como o fato de que certamente conta com professores/orientadores de excelência.

E foi Yende quem abriu a metade final da noite, com a ária O luce di quest’anima (com recitativo), de Linda di Chamounix, de Donizetti, interpretada com candura. Camarena voltou do intervalo também defendendo Donizetti e mantendo o alto nível com a ária Fra poco a me ricovero, precedida pelo recitativo Tombe degli avi miei, da grande obra-prima do compositor, Lucia di Lammermoor, ocasião para exibir um canto apaixonado, tocante e com rico fraseado. Ainda de Donizetti, os dois cantaram com doçura e requintes românticos o lindo dueto Tornami a dir che m’ami, do último ato de Don Pasquale.

Chegamos ao maior momento de Yende em toda a noite: sua interpretação irrepreensível para a grande cena final de Amina em La Sonnambula, de Bellini, que inclui o recitativo Oh!… se una volta sola, a ária Ah, non credea mirarti e o “finale” Ah, non giunge uman pensiero (que na ópera mesmo é acompanhado pelos demais solistas e pelo coro). Aqui, a soprano expressou uma gama de sentimentos contrastantes, entre a tristeza do recitativo e da ária (na ópera, em crise de sonambulismo) e a imensa alegria do “finale” (já acordada), sempre com requintes técnico e interpretativo. Pretty Yende pôde, enfim, demonstrar com clareza não apenas a grande cantora que já é, mas também a grande artista completa que certamente se tornará, com o constante desenvolvimento de sua arte.

O programa oficial da noite terminou com Giuseppe Verdi: Camarena atacou com a precisão de sempre o recitativo (Ella mi fu rapita) e a ária (Parmi veder le lagrime) do Duque de Mântua no segundo ato de Rigoletto. Em seguida, ao lado da soprano, cantou do primeiro ato da mesma ópera a cena e o dueto Signor né príncipe / È il sol dell’anima, concluindo com a “stretta” Addio… speranza ed anima. Um Rigoletto com um dois solistas desse quilate certamente seria inesquecível.

Pretty Yende e Javier Camarena

 

No bis, cada um cantou duas peças. A soprano foi de Je veux vivre, de Roméo et Juliette, de Gounod; e ainda I feel pretty (sugestivo, não?), do musical West Side Story, de Bernstein. O tenor subiu a aposta, e encarou a ária Ah! Mes amis, seguida da cabaletta Por mon ame, da ópera La Fille du Régiment, de Donizetti. Esta cabaletta é popularmente conhecida como “a ária dos nove dós”. Camarena emitiu-os todos, com precisão e bravura, sustentando magnificamente o último deles. Por fim, a intenção do tenor de homenagear um compositor brasileiro foi gentil, ainda que a escolha não tenha sido das melhores (Detalhes, de Roberto Carlos), mas depois de tudo o que ele fizera ao longo da noite, só me restou aceitar, sem reclamar: ele pode.

Encerro reiterando o que já havia dito no fim da resenha que escrevi quando da passagem de Diana Damrau e Nicolas Testé pela Sala São Paulo em maio último: considerando os ares nebulosos que pairam não somente sobre a cena lírica paulistana, mas sobre todo o panorama operístico brasileiro, foi um privilégio poder apreciar a arte superlativa desses dois grandes cantores líricos: Pretty Yende, o futuro garantido dessa nobre arte; Javier Camarena, um dos melhores tenores (se não o melhor) que já tive a satisfação de ouvir ao vivo em um teatro ou sala de concerto.

A iniciativa do Mozarteum Brasileiro de oferecer recitais líricos de tão alto nível merece aplausos e também continuidade. O que não faltam são grandes cantores, brasileiros e estrangeiros, que muito bem poderiam estrelar novos recitais nos próximos anos. A propósito, Cecilia Bartoli nunca cantou no Brasil… Alô Mozarteum: fica a dica.

 

Inglês ou espanhol

Quando o recital estava começando e os dois cantores adentraram o palco pela primeira vez, Javier Camarena se dirigiu ao público, como faria algumas vezes ao longo da noite, e logo perguntou se os presentes preferiam que ele falasse em inglês ou em espanhol. A resposta foi praticamente unânime: espanhol. A opção pelo espanhol como meio de comunicação, um idioma bem mais próximo do nosso português, ajudou na integração entre os artistas e o público.

 

Fotos: divulgação Mozarteum Brasileiro

 

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