Escrito por em 18 ago 2017 nas áreas Cinema, Crítica, Lateral

Rodrigo Pandolfo e Alexandre Nero têm atuações excelentes em filme sobre o maestro João Carlos Martins.

 

Não raro, personagens “maiores que a vida” geram filmes hiperbólicos, grandiloquentes, nos quais as conquistas dos protagonistas ganham cores exageradamente dramáticas e se assemelham mais a um filme bíblico cheio de milagres – ainda que, muitas vezes, as superações dessas histórias pareçam realmente sobre-humanas.

“Superação” é um termo que se encaixa bem na trajetória de João Carlos Martins. Na década de 1960, o paulistano era um dos maiores pianistas do mundo – concerto no Carnegie Hall aos 20 anos de idade, turnês pela Europa, álbuns gravados com todas as obras de Bach para teclado –, mas, aos 26 anos, começou a série de vicissitudes que transformaria em realidade seu pior pesadelo. Um acidente jogando futebol, DORT e um golpe na cabeça durante um assalto afastaram o músico de sua maior paixão: o piano.

O longa-metragem João, o Maestro, dirigido por Mauro Lima e produzido pelo lendário Luiz Carlos Barreto, flana, com elegância, sobre a história do músico que, para não abandonar sua arte, adotou a regência após ser impossibilitado de continuar à frente das teclas do piano.

A história é contada com fluidez, tendo como mote principal a verdadeira obsessão do personagem por sua arte – sublime obsessão essa, aliás, que é o verdadeiro tema de interesse do diretor e roteirista Mauro Lima (diretor também de Meu Nome Não é Johnny e Tim Maia) e pode ser apreciada na trilha sonora, toda composta por gravações originais de Martins.

Rodrigo Pandolfo (ao piano) e Caco Ciocler

 

Trinca de ouro

O arco da trama compreende cerca de seis décadas, da infância à maturidade do artista. Três ótimos atores dão vida ao personagem em diferentes fases. Davi Campolongo é o menino João, com graça e espanto silencioso diante da vida. Rodrigo Pandolfo vive a fase áurea, dos 18 aos 35 anos. O ator tem atuação minuciosa e intensa, com atenção a detalhes como o sotaque e a imitação do dedilhado do pianista (o ator praticava horas por dia). Alexandre Nero alcança a profunda intensidade do artista mais velho diante de suas encruzilhadas.

Seu exigente professor José Kliass é vivido por Caco Ciocler, alternando rigor e poesia. Fernanda Nobre e Alinne Moraes são Sandra e Carmen, personificando as mulheres de João. Destacam-se ainda Giulio Lopes e Ondina Clais como seus pais José e Alay.

O filme teve orçamento robusto e investiu em aspectos técnicos como direção de arte e de fotografia. Assinada por Claudio Amaral Peixoto, a direção de arte contempla cenários, figurinos (de Tica Bertani) e adereços bonitos e fiéis a seus momentos históricos. A luz majoritariamente dourada que emana do filme e a movimentação suave da câmera são fruto do excelente trabalho de Paulo Vainer e da equipe de cinematografia.

Alinne Moraes e Alexandre Nero

 

Trajetória do herói

Para o grande público, o amor (ou a obsessão) pela música dita clássica torna ainda mais nobres os ideais do personagem – principalmente daquele que enfrenta rasteiras da vida que o afastam de sua arte –, e essas circunstâncias podem colocar o pianista no papel do clássico herói dramático, que se vê obrigado a enfrentar desafios invencíveis aos pobres mortais.

Mauro Lima filma essa história de superação sem resvalar no pieguismo. São pouquíssimas as cenas em que o biografado se permite um esgar de desespero diante de sua impotência diante do destino.

Entretanto, em meio à elegância, reside certa frieza. Claro que qualquer vida é muito maior que um filme e que há de se fazer escolhas (neste caso, dramatúrgicas e comerciais). Mas a opção parece ter sido a de não explorar as razões e consequências da aparente obsessão de João Carlos Martins pela música. A história conta que ela foi motivo de bullying na infância e mesmo do rompimento do primeiro casamento, mas, ainda assim, a película pouco revela sobre o que se passa no coração e na mente do retratado.

Ainda que muito bem realizado, repleto de qualidades técnicas e com interpretações acima da média (a de Pandolfo, particularmente, é excelente), o filme João, o Maestro padece, paradoxalmente, de uma característica que João Carlos Martins tem de sobra: paixão.

Davi Campolongo

 

Fotos: Fernando Mucci

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