Escrito por em 18 set 2017 nas áreas Crítica, Festival, Lateral, Ópera, Pará

Bela encenação e ótima orquestra compensam irregularidade das vozes.

 

Está em cartaz desde o dia 13 de setembro a principal atração do 16º Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém do Pará: Don Giovanni (Don Juan, na versão do nome em espanhol, como é mais conhecido nos países de língua portuguesa o célebre conquistador de Sevilha), ópera em dois atos e nove quadros de Wolfgang Amadeus Mozart sobre libreto de Lorenzo da Ponte. Para confeccionar seu libreto, da Ponte baseou-se em outro já existente, escrito por Giovanni Bertati para uma ópera de Giuseppe Gazzaniga, este por sua vez baseado em El Burlador de Sevilla Y Convidado de Piedra, de Tirso de Molina. É importante destacar que outra fonte na qual bebeu o libretista foi a tragicomédia de Molière Dom Juan ou le Festin de Pierre.

Don Giovanni é uma obra-prima não somente pela música brilhante e soberbamente eficaz de Mozart, mas também pela grande possibilidade de leituras que suscita, e ainda por seu sentido até certo ponto ambíguo: a obra que, em seu desenvolvimento, louva a liberdade e é bastante provocadora tem um final restaurador da ordem – mesmo na versão sem a derradeira cena moralista, como é o caso na atual produção belenense. E nessa oscilação entre revolução e ordem, emoção e razão, desejo sexual e amor, comédia e drama, residem a sedução e o fascínio que não somente o personagem Don Giovanni, mas a própria ópera como um todo exerce há 230 anos na audiência.

Há quem diga que Don Giovanni seria uma das cinco melhores óperas de todos os tempos. Ainda que essas classificações sejam sempre questionáveis e possam variar de gosto para gosto, jamais existindo uma verdade absoluta, devo dizer que, particularmente, concordo com esta afirmação. E ainda faço questão de registrar a opinião do importante compositor francês Charles Gounod, para quem Don Giovanni representa “uma espécie de encarnação da impecabilidade dramática e musical: considero-a uma obra sem mácula, de uma perfeição sem intermitência, e este comentário não é mais que o humilde testemunho de minha veneração e de meu reconhecimento pelo gênio a quem devo as alegrias mais puras e mais perenes de minha vida de músico” (GOUNOD, C. O Don Giovanni de Mozart. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. p. 9 – tradução de Marcos Bagno).

 

A produção

A montagem em cartaz no Theatro da Paz até o dia 19 de setembro logra encontrar soluções cênicas inteligentes a partir da concepção e da direção de cena de Mauro Wrona. O encenador opta por uma abordagem visual de caráter mais tradicional, ao mesmo tempo em que aposta em uma movimentação cênica dinâmica, concentrando a atenção do espectador. Wrona trabalha muito bem a psicologia de cada personagem, obtendo assim um resultado cênico geral bastante satisfatório e qualificado. A ousadia da cena final, em que mulheres seminuas integram o banquete “degustado” pelo protagonista, encaixa-se perfeitamente ao espírito libertino deste último.

Tanto o diretor, quanto o cenógrafo argentino Nicolás Boni inspiraram-se no pintor espanhol Francisco de Goya (especialmente na série deste intitulada Pinturas negras) para criar muitas das cenas desta montagem da ópera de Mozart. Boni, por sua vez, criou cenários ao mesmo tempo belos e funcionais, que contribuem para a ação contínua ao proporcionar rápidas trocas de ambientes, em mais uma das suas importantes contribuições à ópera feita no Brasil.

Os figurinos de Fábio Namatame são excelentes, tanto em concepção quanto em realização. Talvez o de Donna Elvira possa parecer um tom acima dos demais, assim como o de Don Ottavio parece ganhar certo ar caricatural de uma figura longilínea, mas esses apontamentos não chegam a prejudicar o conjunto. A corretíssima luz de Caetano Vilela completa com competência uma montagem muito bonita e bastante consistente, na qual a opção pelo corte da cena moralista derradeira, que ocorre ocasionalmente em alguns teatros, não chega a comprometer o sentido do drama.

 

Desequilíbrio vocal

Na segunda récita, em 15 de setembro, o Coral Lírico do Festival de Ópera do Theatro da Paz, preparado por Vanildo Monteiro, apresentou-se bem em suas poucas intervenções. Um dos pontos altos da noite foi a performance da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz: o conjunto apresentou-se coeso, como poucas vezes se vê em óperas de Mozart apresentadas no Brasil, muito bem conduzido com senso de estilo pelo regente convidado Silvio Viegas. Servindo muito bem à ação que se desenrolava no palco, Viegas empregou uma regência teatral, como lhe é característico, e extraiu da orquestra um som redondo e bem articulado, com pouquíssimos escorregões ao longo da récita. Merece destaque o belíssimo solo de bandolim da violista Jade Guilhon durante a canzonetta do protagonista no começo do segundo ato.

Se há um ponto claramente negativo neste Don Giovanni, ele reside em um forte desequilíbrio entre os solistas, que vai desde uma performance vocal notável, passando por outras atuações de qualidade, outras tantas medianas ou ainda em formação, até chegar a uma verdadeira vergonha. E é exatamente por esta última que começo.

Homero Velho e Silverio de la O (à direita)

 

Leporello é um personagem central e de grande importância nesta obra-prima mozartiana. Por isso mesmo, a escolha de seu intérprete é um dos pontos-chave para a escalação do elenco de qualquer produção de Don Giovanni. A parte exige um baixo-bufo, ou, alternativamente, um baixo-barítono com boa agilidade. Escolhido da vez, o barítono espanhol Silverio de la O até que ofereceu uma atuação cênica convincente na pele de Leporello, mas, sobre não possuir o registro vocal mais adequado à parte, sua voz é extremamente primária, e o artista sequer consegue impostá-la de uma forma minimamente adequada.

O timbre de Silverio é totalmente desprovido de beleza; sua projeção é bastante deficiente (com o agravante de ele ter a seu favor a acústica privilegiada do Theatro da Paz); sua afinação, vacilante. Alguns dos grandes momentos da partitura, como a célebre ária do catálogo (Madamina, il catalogo è questo) e o dueto com Don Giovanni no terceiro quadro do segundo ato (O statua gentilíssima) foram simplesmente estragados por sua voz de caráter semi-amador.

Quem acompanha as minhas resenhas conhece as restrições que tenho à voz de outro barítono, o brasileiro Homero Velho, a quem em Belém coube interpretar o personagem-título. O artista tem problemas vocais mal resolvidos que, devido ao ponto da carreira em que se encontra, é muito difícil supor que conseguirá corrigi-los. É por isso que passagens como a canzonetta do primeiro quadro do segundo ato, Deh vieni alla finestra, recebem dele interpretação não mais que burocrática, com sonoridade insossa. É por isso também que no dueto com Zerlina do primeiro ato, Là ci darem la mano, chama mais a atenção a voz de uma cantora iniciante, como se lerá abaixo, que a do experimentado barítono. Por outro lado, é preciso reconhecer que a interpretação cênica de Velho é, para dizer o mínimo, excelente, e ele convence bem como Don Giovanni, apesar de ser mais eficiente vocalmente nos recitativos que nos solos e nos números de conjunto.

A soprano Marina Considera também deixou a desejar vocalmente como Donna Anna, talvez a personagem mais difícil da ópera em termos expressivos. Com uma voz um tanto pesada para a parte, o som produzido pela artista era acompanhado por certo excesso de vibrato, que sempre causa desconforto em ouvidos mais treinados. Donn’Anna, portanto, não lhe foi adequada. Tanto nos números de conjunto, quando foi sombreada por alguns de seus parceiros, quanto nas árias Or sai chi l’onore e Non mi dir, bell’idol mio era bastante perceptível que faltou refinamento a seu canto.

Observando alguns dos últimos trabalhos de Marina é possível verificar que ela cantou, nesta ordem, as personagens Nedda (Pagliacci), Condessa (Bodas de Fígaro), Musetta (Bohème), Ceci (Guarany) e agora Donn’Anna, com rendimento melhor avaliado nas duas primeiras. Essa sequência não faz muito sentido. A soprano deixa a impressão de ainda não ter encontrado o seu melhor caminho, mas, se aceita um conselho, é bom encontrá-lo logo, pois corre o risco de ficar marcada por aceitar todo e qualquer trabalho que lhe é oferecido, sem muito critério, e acaba não dando boa conta, sob o aspecto vocal, de nenhum deles.

Dois cantores locais chamaram a atenção pelos avanços que podem, quem sabe, vir a demonstrar no futuro. O barítono Idaías Souto foi um Masetto correto e desenvolto, com uma voz de belo timbre que, com treino e boa orientação, pode se desenvolver bastante. O mesmo vale para a jovem soprano Dhuly Contente, que fez uma Zerlina também desenvolta, cenicamente perfeita. A voz da artista tem um timbre leve belíssimo, e já alcança boa projeção, tanto que, como adiantado acima, chamou mais a atenção que o barítono mais experiente durante o famoso dueto Là ci darem la mano. Por outro lado, sua afinação oscilou em passagens como Batti, batti, oh bel Masetto e Vedrai carino. Apesar disso, nota-se claramente que a artista possui uma matéria-prima de qualidade que, se for bem treinada e lapidada, poderá levá-la a grandes voos artísticos.

Idaías Souto e Dhuly Contente

 

O baixo Anderson Barbosa, que foi o Commendatore do início da ópera e voltou no final como o fantasma deste encarnado em sua estátua, aproveitou muito bem sua oportunidade, especialmente na cena derradeira (Don Giovanni, a cenar teco). Dotado de uma voz poderosa, de timbre marcante e com excelente projeção, o artista exerceu o seu direito de roubar a cena, dominando-a exclusivamente através da expressividade de seu canto, considerando os gestos naturalmente bastante contidos da estátua. Uma voz, enfim, para se acompanhar.

Outro bom valor revelado por este Don Giovanni é a soprano Kézia Andrade, que interpretou Donna Elvira com talento e competência. Seu rendimento se deu em um crescendo, com um bom primeiro ato e uma excelente performance na segunda parte da noite. Sua voz fluiu com facilidade por passagens como as árias Ah chi mi dice mai, Ah fuggi il traditor e Mi tradì quell’alma ingrata. Nos números de conjunto, sempre se destacou entre os colegas, como, por exemplo, no quarteto do primeiro ato Non ti fidar, oh misera, ou no sexteto do ato derradeiro Sola, sola, in buio loco. Um canto firme, seguro, bem projetado, com sonoridade quente e cativante foram suas armas para conquistar a audiência.

Chegamos, enfim, à grande voz da noite: uma das maiores revelações do canto lírico brasileiro nos últimos anos, o tenor lírico-ligeiro Aníbal Mancini demonstrou como Don Ottavio o nível superlativo de sua arte. Voz mozartiana por excelência, Mancini mostrou tudo o que é capaz em interpretações irrepreensíveis das árias Dalla sua pace (no primeiro ato) e, especialmente, Il mio tesoro intanto (no segundo ato). Nesta última, foi-me possível fechar os olhos e me sentir transportado para as esferas celestes, tamanha a perfeição alcançada pelo artista. Nos números de conjunto, como os citados no parágrafo anterior, e ainda em Fuggi, crudele, fuggi e no Finale I order fucidin cream online , o tenor esteve sempre em destaque.

Falta a Mancini, é verdade, desenvolver sua expressividade corporal para aparecer mais desenvolto em cena, mas o nível de canto que ele já alcança em tão pouco tempo de carreira é extremamente gratificante. Seu timbre é belíssimo; a projeção, impecável; a afinação, precisa; e o fraseado, dotado de uma riqueza na qual talvez resida seu maior predicado. O que ouvi de Aníbal até hoje foi suficiente para que eu tenha a mais absoluta certeza de que ele é um cantor de excelência. Se atingir também a excelência, ou pelo menos algo próximo a isso, na sua porção ator, esse verdadeiro diamante do canto lírico brasileiro, que há poucas semanas fez sua estreia internacional em Cagliari, na Itália, ainda vai nos orgulhar bastante.

Levar Don Giovanni à cena lírica nunca é uma tarefa fácil, ao contrário, é sempre um grande desafio. Por isso, está de parabéns toda a equipe do Festival de Ópera do Theatro da Paz por ter se proposto esta tarefa hercúlea, ainda mais nessa época um tanto estranha pela qual passa a ópera no Brasil. Os aspectos positivos acima apontados superam, a meu ver, aqueles negativos, fazendo valer a aposta em Mozart. Somente o fato de estar diante da grande arte mozartiana, personificada por alguns dos solistas, pela orquestra, pelo regente e pela encenação competente, já valeu a minha nona viagem a Belém do Pará.

 

Don Giovanni no Theatro São Pedro

A partir de 28 de outubro, um Don Giovanni igualzinho ao de Belém (mas com outro elenco, que inclui, entre outros, Leonardo Neiva como Don Giovanni, Saulo Javan como Leporello e Rosana Lamosa como Donna Anna) entrará em cartaz no Theatro São Pedro, em São Paulo, mas, vejam bem, caros leitores: não será a produção de Belém levada para o São Pedro, mas, sim, a produção de Belém totalmente refeita em São Paulo. Isso faz algum sentido?

 

Leia também a crítica de Fabiano Gonçalves.

 

Na foto do post, da esquerda para a direita: Homero Velho, Marina Considera, Aníbal Mancini e Kézia Andrade

Fotos: Salim Wariss

 

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