Escrito por em 29 set 2017 nas áreas Ópera, Programação, São Paulo

Liquid Voices – A história de Mathilda Segalescu é nona ópera multimídia da compositora.

Vem aí mais uma ópera da compositora brasileira Jocy de Oliveira: Liquid Voices – A história de Mathilda Segalescu. A estreia mundial da obra será no teatro do novo Sesc 24 de Maio, nos dias 20, 21 e 22 de outubro. No palco estarão a soprano Gabriela Geluda, o tenor Luciano Botelho e os nove músicos do Ensemble Jocy de Oliveira. Na mesma ocasião haverá o lançamento do DVD Jocy de Oliveira – Meu encontro com Luciano Berio.

 

Realidade fantástica

Gabriela Geluda no papel de Medea

Ópera em progresso, Liquid Voices é uma narrativa ficcional situada num evento real: o naufrágio do navio romeno Struma, última embarcação que saiu da Europa durante a Segunda Guerra Mundial, levando 800 passageiros refugiados judeus para a Palestina. A compositora envolve o ouvinte em uma realidade fantástica. Cria uma paisagem sonora e visual como um labirinto misterioso. Mescla datas exatas com acontecimentos imaginários e traz à tona verdades e inverdades, em repetições históricas de refugiados através dos tempos submersos em águas profundas, transformados em vozes líquidas…

Ouve-se a releitura de uma das cantigas medievais de Santa Maria. Este oximoro “modernidade medieval” que inspira a abertura da ópera lembra a repetição histórica do êxodo de fugitivos de hoje e de sempre. O roteiro e o texto da ópera são também de Jocy de Oliveira. A autora escreveu originalmente um roteiro para cinema, e posteriormente o adaptou para o teatro. Liquid Voices conta a história singular e trágica da derradeira viagem do Struma, navio que zarpou do Mar Negro em 1941, com destino à Palestina. Superlotado, o Struma levava 769 refugiados judeus e 22 tripulantes. Depois de inúmeros problemas, o Struma acabou por ser bombardeado pelos soviéticos, naquele que foi maior naufrágio de passageiros civis durante a Segunda Guerra Mundial. Jocy de Oliveira observa que “o quadro se repete nos nossos dias com refugiados deixados à deriva e centenas morrendo em mar aberto”.

 

História diluída em vozes líquidas

A personagem ficcional Mathilda Segalescu (interpretada pelo soprano Gabriela Geluda) tem seu nome criado com a composição de nomes constantes da lista de passageiros mortos no naufrágio. Ela é uma diva e pianista judia com carreira internacional, e embarca naquela que seria uma viagem sem retorno com seu único companheiro de vida, o piano.  Único sobrevivente do naufrágio, o piano de Mathilda foi encontrado na costa de Siles, na Turquia, por um pescador árabe (interpretado pelo tenor Luciano Botelho). O pescador desenvolve uma relação amorosa com o espectro da cantora, que aparece todas as noites para contar sua fascinante história e trágica diáspora.

Segundo a autora, “o imaginário e a tecnologia se unem transformando o piano em caixa preta, que traz à tona o relato desta história processada, diluída em vozes líquidas e imagens fantasmáticas. O espectador submerge neste universo e cada um identifica sua trama. Datas precisas e a atemporalidade dos fatos fazem com que o tempo perca sua cronologia. Liquid Voices se inicia nos dias atuais com sons e visões da Idade Média se transpondo aos anos de 1941 e terminando em 1967″.

 

Soprano, tenor e ensemble

A ópera Liquid Voices terá no palco dois ótimos cantores-atores, junto a nove instrumentistas e ainda a sons e efeitos de meios eletroacústicos. No papel de Mathilda Segalescu está Gabriela Geluda. Soprano, atriz e professora, a carioca vem colaborando com Jocy de Oliveira há mais de 20 anos. Participou de várias de suas óperas – entre elas Illud Tempus, Solo e Berio sem Censura –, tanto no Brasil como na Europa, especialmente na Alemanha.  O tenor Luciano Botelho vive há anos na Europa, onde desenvolve uma carreira em ascensão com o repertório tradicional das grandes óperas europeias. O Ensemble Jocy de Oliveira é um conjunto de nove exímios músicos que trabalham com a compositora também há vinte anos. Meios eletroacústicos complementam o elenco.

 

Linguagem cinemática

Logo na semana seguinte aos espetáculos de estreia de Liquid Voices, em São Paulo, uma nova récita da ópera – sem público – será filmada nas ruínas do Teatro do Casino da Urca, no Rio de Janeiro. “Um filme é realizado em muitas etapas, esta será a primeira delas“, afirma Jocy de Oliveira.  A autora conta ter concebido o roteiro de Liquid voices em uma linguagem cinemática, prevendo diferentes formas narrativas e da construção e desconstrução de significados. Sempre fascinada pela intertextualidade de mídias, Jocy diz que há muitos anos habita seu imaginário a concepção de um filme integrando questões cinemáticas e teatrais, “o transporte de cenas que se situam livres na imaginação e são captadas pela câmera ou situadas dentro de um palco cênico”.  Segundo Jocy, o desafio é duplo e instigante. Lidar com mídias diversas além de espaços que se ampliam desde um palco, em um emblemático teatro em ruínas, como o Teatro do Cassino da Urca – e, futuramente, também nos espaços reais da Romênia e da Turquia, onde nasce a história.

 

Pontos de convergência

A estreia de Liquid Voices é complementada pelo lançamento, pelo Selo Sesc, do DVD Meu encontro com Luciano Berio. A obra reúne extratos musicais da ópera multimídia Berio sem censura, de Jocy, gravada ao vivo quando de sua estreia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em agosto de 2012.  A histórica ópera recria o perfil de Luciano Berio durante os períodos que Jocy conviveu e colaborou com ele, nas décadas de 1960 e 70. É um recorte na vida de um dos pioneiros da música eletrônica, assim como um dos maiores compositores do século XX. Segundo Jocy, “pontos de convergência entre a obra de Berio e a minha que resultam numa nova paisagem sonora construída de segmentos intrincados ao texto e à história“.

Destaque-se, no DVD, um depoimento de Fernanda Montenegro sobre sua participação em Apague meu Spotlight (espetáculo teatral de 1961, de Jocy de Oliveira em parceria com Berio). E ainda um memorável registro de Jocy ao piano interpretando a primeira versão de Sequenza IV, composição de Berio de 1966 dedicada a ela – que se deu durante a estreia de Berio sem censura. Posteriormente, Berio escreveu a versão final da obra, hoje a única conhecida.

 

Jocy de Oliveira

Eu nunca determinei um rumo que deveria seguir como autora. Minha mãe dizia que escrevia porque baixava o santo. Eu sempre escrevi aquilo que sentia, valorizando o trabalho artesanal da criação.

Liquid Voices, em certo sentido, ainda que sem resquícios autobiográficos, trata da própria afirmação de Jocy como compositora. Ela iniciou sua trajetória ao piano – e como intérprete trabalhou ao lado de nomes como Olivier Messiaen, Igor Stravinski, John Cage e Luciano Berio. A partir dos anos 1960, no entanto, optou gradativamente por um novo caminho, o da criação. Encerrou o que chama de seu “destino ao piano”, com Noturno de um Piano, videoinstalação em que o instrumento é jogado no mar.“Mas esse destino ficou latente de alguma forma, não foi enterrado. O piano não afundou totalmente, mas precisava afundar”, ela brinca, explicando a ponte com a história de Liquid Voices. “A ópera se passa em 1942, no momento específico do naufrágio, mas a história também se dá vinte anos mais tarde, quando um pescador se depara com o piano do navio, que volta à superfície e traz com ele o espectro de uma cantora lírica, Mathilda Segalescu, passageira ficcional do Struma, cujo nome eu construí a partir da lista de passageiros reais do navio“.

Segalescu é a nova integrante de uma galeria de personagens femininas que povoam a criação de Jocy. Em Solo, ela colocou no palco Ofélia, Desdêmona e Medeia, esta última também protagonista de Kseni – A Estrangeira, que falava da discriminação com relação às mulheres. Inori – A Prostituta Sagrada e As Malibrans, cada uma a seu modo, também tratavam da percepção de nossa sociedade a respeito da figura feminina. “Jocy, de alguma forma, foi uma feminista antes mesmo do movimento. Se a gente olha para a atividade dela nos anos 1960, por exemplo, já se manifesta a busca de uma liberdade interna na criação que, com o tempo, vai se voltar a grandes personagens mitológicas que permitam um olhar sobre a condição feminina”, afirma Rodrigo Cicchelli, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Cicchelli está organizando, ao lado do musicólogo Manuel Correa do Lago, um livro sobre a obra de Jocy, com previsão de lançamento pela editora do Sesi no segundo semestre.

As temáticas, as partituras, as questões filosóficas, o trabalho como intérprete: cada faceta da trajetória da artista é tratada, ao lado de depoimentos de colegas como Fernanda Montenegro, que atuou, em 1961, em Apague Meu Spotlight. “O que eu ganhei como artista nesse acontecimento musical histórico foi a coragem do experimento, de ousar o contemporâneo, ouvir obstinadamente, sempre, o instinto desafiador e lutar por sua utopia”, diz a atriz.

Jocy de Oliveira compõe ópera sobre maior naufrágio civil da 2ª Guerra Mundial. Jocy diz esperar que o livro se torne ponto de partida para outras pesquisas desse tipo, sobre outros autores. Sua relação com a academia, ela lembra, nunca foi das melhores. “A academia no Brasil é masculina. E essa é, em geral, a realidade do nosso meio musical também. Li outro dia uma pesquisa que mostra que apenas 1% das obras executadas pelas principais orquestras europeias é de compositoras. No Brasil, a porcentagem deve ser ainda menor. Eu me questiono muito a respeito do motivo pelo qual certas profissões são tão estigmatizadas. Na literatura, nas artes plásticas, as mulheres são aceitas como criadoras. Na música, não. Acho que isso tem a ver com o fato de que, por mais que as mulheres criem, elas precisam dos intérpretes. E o mundo das orquestras e dos teatros é essencialmente masculino”, afirma.

Talvez por isso, a questão feminina tenha alcançado tamanha importância em sua criação. “Isso vem de muito cedo. Mas a minha ligação com o feminismo sempre foi antagônica. Eu nunca concordei com a ideia de que mulheres são iguais aos homens. Não somos, somos diferentes e precisamos ser valorizadas como tal”, afirma. “Mas a verdade é que cheguei a um ponto, com mais de 80 anos, em que me dou conta de que nenhuma das minhas nove óperas jamais foi produzida por um teatro, sempre eu precisei lutar de forma independente para que isso acontecesse. Perceber que essa questão, em 2017, ainda é fundamental e precisa ser discutida me leva a crer que pouco ou nada de fato mudou. E isso me parece incrível.”

 

Artistas envolvidos

Elenco
– Gabriela Geluda – soprano / como Mathilda Segalescu e Luciano Botelho – tenor / como o pescador árabe

– Ensemble Jocy de Oliveira: João Senna – violão / Peter Schuback – cello / Aloysio Neves – guitarra elétrica / Rodrigo Cicchelli – flauta / Paulo Passos – clarinete, clarone, saxofone / Sara Cohen – piano / Ricardo Siri – percussão / Joaquim Abreu – percussão

– Marcelo Carneiro – difusão
– Toni Rodrigues – dançarino
– Concepção, música, roteiro, texto e direção – Jocy de Oliveira
– Cenografia – Fernando Mello da Costa
– Figurino – Tissiana Passos
– Criação de luz – Renato Machado
– Assistente de direção – Isabella Lomez
– Programação visual – Lu Martins
– Direcão de movimento – Toni Rodrigues
– Produção executiva – Mariana Chew
– Filmagem – Bernardo Palmeiro, Visom Digital

 

SERVIÇO:

 

‘Liquid Voices – A história de Mathilda Segalescu”, ópera multimídia de Jocy de Oliveira

 

20 e 21 de outubro, às 21h, e 22 de outubro, às 18h

Sesc 24 de maio – teatro (R. 24 de Maio, 109, República – São Paulo. Tel.: 11 3350-6300)

Ingressos:  R$ 40, com meia entrada para estudantes e pessoas com mais de 60 anos

 

Duração: 85 minutos

Sugestão etária: 16 anos

 

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