Escrito por em 20 set 2017 nas áreas Crítica, Festival, Lateral, Ópera, Pará

Ainda que irregular, montagem de Don Giovanni confirma longevidade e importância do Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém.

 

Nestes tempos oblíquos, em que orquestras são dizimadas e teatros têm suas programações ceifadas, a existência de um festival de ópera por mais de uma década e meia é motivo de celebração. O Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém, é um desses casos de resistência. A atração, que já apresentou títulos célebres como A Flauta Mágica, A Viúva AlegreMefistófele, Salomé, Otello, Os Pescadores de Pérolas e Turandot, entre tantas outras, surgiu com o objetivo de devolver ao teatro, projetado para receber grandes óperas, sua função original, que proporcionara aos paraenses momentos históricos como em 1895, quando recebeu a ópera O Guarani, regida pelo próprio Carlos Gomes. A primeira edição do Festival foi em 2002, para celebrar a reabertura do Theatro da Paz, após dois anos fechado para reforma. Promovido pela Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Pará, e com direção artística de Gilberto Chaves e Mauro Wrona, o Festival de Ópera do Theatro da Paz chegou, em 2017, à sua 16ª edição – mesmo mais enxuto, chegou! – com apresentação de dois concertos líricos e duas óperas: A Voz Humana, de Francis Poulenc, e Don Giovanni, de Wolfgang Amadeus Mozart.

O brilhante dramma giocoso em dois atos do genial compositor austríaco (1756-1791) – considerado por muitos uma das cinco melhores óperas de todos os tempos (para Wagner, era “a ópera das óperas”; para Tchaikovsky, um “objeto musical sagrado”) – foi a atração do Festival nos dias 13, 15, 17 e 19 de setembro, com ingressos esgotados em todas as récitas (a estreia, que seria no dia 15, foi adiantada para o dia 13 devido à grande procura do público). O libreto é do poeta italiano Lorenzo Da Ponte (1749-1838), a partir da lenda de Don Juan, o compulsivo sedutor. A história foi levada ao palco em 1630, na peça El Burlador de Sevilla y Conbidado de Pietra, de Tirso de Molina, pseudônimo do monge espanhol Gabriel Tellez (1579-1648), que inspirou a obra de Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière (1622-1673), intitulada Don Juan ou Le Festin de Pierre (1665). Consta ainda que Da Ponte tenha se inspirado na vida de seu amigo Giacomo Casanova (1725-1798), famoso conquistador que provavelmente compareceu à estreia em Praga, no dia 29 de outubro de 1787, da ópera Don Giovanni (Il Dissoluto Punito, ossia il Don Giovanni, K. 527), criada por encomenda do empresário Pasquale Bondini.

O instigante libreto, que mescla com maestria humor e tragédia, ganhou música cheia de vida e orquestração inteligente (ainda que, romanticamente, reze a lenda que Mozart escreveu a abertura na noite da véspera da estreia, mantido acordado à base de ponche e contos de fadas narrados por sua esposa, Constanze). Tudo contribui para a construção de personagens tridimensionais, inebriando a audiência com recitativos harmonicamente ambiciosos, árias inesquecíveis e ensembles requintados. Aos 31 anos de idade, Mozart compôs uma ópera musicalmente equilibrada e profundamente humana ao narrar a história de um sedutor compulsivo que se esquiva de todo castigo, exceto da morte.

 

Incongruências conceituais

Don Juan teve várias faces ao longo do tempo. Foi de Molina e Molière à commedia dell’arte, além de objeto de criações artísticas de E. T. A Hoffman, George Bernard Shaw, Lord Byron e Richard Strauss. O Don Giovanni de Mozart e Da Ponte era um homem egocêntrico, regido por seus apetites voluptuosos e implacável na conquista de seus prazeres carnais. Essas características ficaram bastante visíveis na montagem do Festival do Theatro da Paz.

O maestro Silvio Viegas

A direção cênica de Mauro Wrona e a direção musical do maestro Silvio Viegas (também o regente) sublinharam os contrastes da obra mozartiana – humor e tragédia, terreno e sobrenatural, elegância e simplicidade, atração e repulsa, Barroco e Modernidade, entre outros aspectos – desta ópera que é considerada um importante marco da música lírica do século 18.

A riqueza da partitura foi executada à altura pela regência de Viegas, que conduziu a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz e o Coro Lírico do Theatro da Paz (este preparado por Vanildo Monteiro) com precisão e delicadeza. Já na Abertura, a Orquestra mostrou dinâmica de grande beleza e senso de estilo – características que permaneceram por toda a récita do dia 15.

No âmbito da concepção cênica, a direção de Wrona domina o palco, compondo a cena com fluência e certo arrojo – destaca-se o banquete do segundo ato, no qual mulheres de seios desnudos entregam-se à volúpia do protagonista sem caráter. No entanto, algumas incongruências comprometeram a fruição do espectador mais atento.

A cenografia do argentino Nicolás Boni propõe enormes painéis articulados com reproduções de pinturas do espanhol Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828). Ainda que ofereçam mobilidade e funcionalidade, e possibilitem rápidas mudanças de cena, os painéis criam ambientes estilizados (a fachada da casa do Comendador, uma rua em Sevilha) que destoam, conceitualmente, de outros ambientes decorados com objetos cênicos realistas (o cemitério, a sala de jantar de Don Giovanni). Assim, a cenografia soa partida, sem unidade conceitual que colabore para a expressão de um projeto artístico coeso.

O mesmo ocorre com os figurinos de Fábio Namatame. A maioria dos personagens veste trajes que remetem claramente a costumes de época: véus, casacas, saias armadas e chapéus emplumados; contudo, os vestidos de Donna Elvira, especialmente o primeiro, são estilizados e afastados do realismo, o que causa grande estranhamento (ainda que todos os costumes sejam bonitos e bem realizados – à exceção das desastrosas roupas e da peruca de Don Ottavio).

Em um cenário predominantemente escuro, a luz de Caetano Vilela ganha pouca relevância, excetuando-se poucos momentos, e resumindo-se à discreta correção, sem o brilho que esse artista costuma alcançar.

Homero Velho (à esquerda) na cena do banquete em “Don Giovanni”

 

Canto vs. interpretação

Em meio aos cantores do elenco, a discrepância de manifestou de maneira diversa: enquanto alguns exibiram excelente forma cênica e pouca presença vocal, outros cantaram lindamente, mas atuaram sem desenvoltura.

Como o protagonista sem escrúpulos, o barítono paulista Homero Velho deu um show de interpretação. Aliado a um perfeito physique du rôle (inclusive com ótima forma física, exibida com sensualidade), demonstrou profundo conhecimento e domínio do personagem, expressos todo o tempo por meio de olhares, gestos, reações e movimentos. Vocalmente, o barítono teve boa atuação nos recitativos, mas deixou a desejar em momentos mais importantes, como a canzonetta Deh vieni alla finestra (que teve excelente participação da violista Jade Guilhon ao bandolim) e o dueto Là ci darem la mano, entoado sem brilho.

Silverio de la O

Também dono de excelente presença cênica é o barítono espanhol Silverio de la O, intérprete do criado Leporello. Personagem bufo de importância crucial para a ópera, exige agilidade e expressividade vocais de seu intérprete. Silverio arrancou risos da plateia com sua atuação burlesca e seus olhos arregalados, mas, vocalmente, não correspondeu às exigências da parte, com pouca projeção e técnica deficiente. A famosa ária Madamina, il catalogo è questo teve divertida mise-en-scène e frustrante performance vocal.

Marina Considera

O papel de Donna Anna é um dos mais difíceis da ópera e demanda técnica e expressividade da cantora. Mesmo dotada de excelente material vocal, a soprano Marina Considera não conseguiu fazer bom uso de sua quente voz em prol da personagem: sua interpretação foi pesada, sem atributos mozartianos. Em outras palavras: ainda que talentosa, não era a cantora mais adequada para o papel.

Aníbal Mancini

As cenas de Donna Anna e Don Ottavio foram, em sua maioria, enfadonhas: no caso dela, pela inadequação vocal; no caso dele – o jovem tenor Aníbal Mancini –, pela inabilidade cênica. Dono de uma bela voz, perfeita para o papel – leve, suave, ágil –, o carioca teve grandes momentos vocais, como nas célebres árias Dalla sua pace (no primeiro ato) e Il mio tesoro intanto (no segundo ato). Contudo, em que pese a reduzida gama de emoções de seu personagem e o desacerto comprometedor de seu figurino, o tenor pouco apresentou de dotes dramáticos e mesmo sua movimentação era tímida.

Kézia Andrade

Destacando-se como uma das atuações mais equilibradas do elenco, a paraense Kézia Andrade deu vida à Donna Elvira com segurança e talento. Coube à soprano interpretar, com grande qualidade vocal (linha de canto impecável) e excelente presença de palco, algumas das árias mais famosas da ópera, como Ah fuggi il traditor e Mi tradì quell’alma ingrata (esta, talvez, um pouco acelerada demais). Sua participação ainda brilhou nos ensembles da obra. Um nome para ser lembrado.

Anderson Barbosa

Fez bonito também o baixo paulista Anderson Barbosa, que interpretou o Commendatore e seu fantasma. Com sua potente voz e belo timbre, dominou a cena final, de forma aterrorizante, com a ária Don Giovanni, a cenar teco – e só com a voz, já que mesmo seu rosto estava em sombra e seus gestos eram reduzidos (comme il faut a uma estátua).

Idaías Souto e Dhuly Contente

Fechando o elenco principal, dois cantores belenenses atuaram com desenvoltura como os noivos Masetto e Zerlina: o barítono Idaías Souto e a soprano Dhuly Contente. Ele deu conta, com desenvoltura, do marido em vias de ser traído: projetou muito bem sua bela voz e movimentou-se em cena com destreza e tranquilidade. Ela tem graça, humor e excelente material vocal; falta-lhe, no entanto, um pouco de maturidade vocal para manter a técnica, sem oscilar a linha de canto, pesando e caindo na região média ou recuando nos agudos – o que desequilibra a afinação, como ocorreu em Batti, batti, oh bel Masetto. Tanto Idaías como Dhuly são jovens de grande talento diante de uma carreira promissora.

 

Espaço para profissionais locais

Ainda que tenha alguns altos e baixos, esta montagem de Don Giovanni – ópera que, para o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855), “está no topo” entre todas as obras clássicas – reafirma o lugar de heroísmo dos organizadores do Festival de Ópera do Theatro da Paz. Mesmo em meio a dias cinzentos, esses artistas continuam derramando luz e cor, formando plateias e artistas, gerando empregos, incrementando o turismo, movimentando o comércio e, principalmente, espalhando arte da mais alta qualidade em meio a esse mundo de cimento e lágrimas.

É bom salientar, no entanto, que já está passando da hora de o Festival levar à cena produções que tenham profissionais paraenses em posições de decisão criativa, como direção, iluminação, figurino etc. Nesses dezesseis anos, já foram oferecidas incontáveis oficinas e workshops sobre diversas áreas de atuação artística; cenários e figurinos de encenações anteriores já contemplaram trabalhos de artesãos locais; músicos do estado – cantores e instrumentistas – já integraram várias montagens. Mas abrir espaço para o desenvolvimento e a atuação laboral de profissionais das artes é, ou deveria ser, uma das contrapartidas esperadas de um evento da natureza e relevância do Festival – um inquebrantável bastião de resistência cultural e artística deste país.

 

Leia também a crítica de Leonardo Marques.

 

Fotos: Salim Wariss e Elza Lima/Secult

Fabiano Gonçalves viajou a convite da organização do 16º Festival de Ópera do Theatro da Paz.

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