Escrito por em 4 set 2017 nas áreas Balé/Dança, Crítica, Lateral, Ópera, Rio de Janeiro

Soprano Tati Helene dá show de interpretação na Sala; uma semana antes, na Cidade das Artes, um encontro com Pixinguinha.

 

Dando sequência à sua ótima programação deste ano, a Sala Cecília Meireles apresentou neste sábado, 2 de setembro, a ópera em um ato La Voix Humaine (A Voz Humana), de Francis Poulenc, sobre libreto de Jean Cocteau, com base na peça teatral homônima do próprio libretista.

Estreada em Paris, em 6 de fevereiro de 1859, esta ópera-monólogo apresenta uma mulher abandonada pelo amante e que, pelo telefone, procura manter um diálogo com ele. Durante a conversa, ela demonstra diferentes estados emocionais, e se utiliza de artifícios como a mentira na tentativa de não deixar que seu interlocutor perceba seu desespero com a separação. Ora esperançosa e negando-se a enxergar a realidade, ora realista e desesperada a ponto de confessar ter tentado o suicídio, esta mulher angustiada conduz, sozinha, o drama.

A montagem levada em récita única na Sala estreou em 2015, com a Orquestra Jovem Municipal de Guarulhos, sendo depois apresentada em redução para piano (preparada pelo próprio Poulenc) no Club Noir, em São Paulo (leia crítica desta encenação). E foi assim, nesta versão com piano, que a produção chegou ao Rio de Janeiro. A encenação minimalista de Roberto Alvim funcionou no espaço da Sala, que obviamente é bem acanhado para a realização de óperas encenadas. Os adereços de cena e a iluminação também são criação de Alvim, enquanto os figurinos são de Juliana Galdino. A iluminação tem papel fundamental na concepção do diretor e funcionou bem, na medida do possível, com os equipamentos não exatamente adequados do espaço.

Emiliano Patarra é o diretor musical do espetáculo, que confiou o piano a Diego Lopes Salles. O pianista deu muito boa conta das “tintas” de Poulenc, tocando com expressividade dramática. Para interpretar a mulher abandonada, não se pode contar com uma cantora mediana, pois ela não seria capaz de carregar a ópera nas costas. Não à toa, quando o Theatro Municipal do Rio de Janeiro encenou a obra em 1997, a intérprete foi ninguém menos que a então grande soprano italiana Renata Scotto. Eram outros tempos no Municipal.

Na Sala, como já ocorrera em Guarulhos e em São Paulo, a intérprete foi a soprano Tati Helene. Esta foi, se não me engano, a quinta vez que a ouvi, e a cada oportunidade Helene parece cantar melhor. Desta vez, no entanto, seu desafio foi maior, porque a solista deste Poulenc precisa dominar o palco e concentrar as atenções do público. Sua atuação foi irrepreensível, dotada de grande senso dramático, e sua voz de soprano lírico-spinto passeou pela acústica privilegiada da Sala Cecília Meireles, exibindo um belíssimo timbre, afinação precisa e excelente projeção em todas as regiões.

Um dos principais desafios de um cantor lírico é representar com a voz. Tati Helene demonstrou possuir também esse predicado: os sentimentos experimentados pela personagem foram todos transmitidos não apenas por gestos ou posturas, mas especialmente por sua voz ricamente expressiva. Não à toa, quando surgiu no foyer da Sala Cecília Meireles para os cumprimentos depois do espetáculo, a artista foi recebida com uma grande e merecida ovação.

A atuação da soprano em La Voix Humaine, a propósito, deixou claro que seu talento vem sendo subvalorizado por parte de nossas principais casas de ópera. Sua evolução artística já está pedindo voos maiores.

 

Pixinguinha na Cidade das Artes

Cena do balé “Choros e Valsas”

No sábado anterior, 27 de agosto, conferi na Cidade das Artes o balé Choros e Valsas: Um Tributo a Pixinguinha, que já havia sido apresentado Theatro Municipal no dia 6 de agosto. Foi a primeira vez em que vi ser utilizado o fosso para orquestra da Grande Sala da Cidade das Artes – o que só confirma a impressão não só minha, mas de muita gente, de como aquele equipamento é subutilizado. Poder-se-ia fazer muita coisa boa ali com orquestra ao vivo (óperas, musicais, mais balés), mas seus dirigentes parecem não se esforçar nesse sentido desde a gestão anterior do espaço. Segundo o Movimento.com apurou, esta foi apenas a segunda vez que se utilizou o fosso da Grande Sala…

Não sou especialista no assunto, mas foi uma bela apresentação da Companhia de Balé da Cidade de Niterói, com coreografia de Rodrigo Negri. Trata-se de um espetáculo elaborado há cerca de dez anos e que, na época, foi apresentado mais de duzentas vezes em 70 cidades. O cenário funcional de Alexandre Louzada e os figurinos adequados de Cássio Brasil contribuem para a realização da produção, mas o grande destaque fica para a iluminação de Paulo Cesar Medeiros.

Esta remontagem marca a primeira vez que a companhia atuou com orquestra ao vivo (tanto no Municipal, quanto na Cidade das Artes). No fosso estava a Orquestra Sinfônica Aprendiz, que, sob a segura regência de Evandro Rodriguese, interpretou muito bem, e com poucos deslizes, 14 peças de Alfredo da Rocha Vianna Filho, ou simplesmente Pixinguinha, um dos maiores gênios da nossa música popular, em arranjos de Flávio Mendes. Dentre essas peças, destacam-se Já te digo, Rosa, Saudade do cavaquinho, CarinhosoGlóriaLamentos e Trombone atrevido.

 

Na foto do post: Tati Helene e Miguel Proença, diretor da Sala Cecília Meireles, após a récita

 

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