Escrito por em 25 out 2017 nas áreas Crítica, Lateral, Minas Gerais, Ópera

Ótima montagem de Porgy & Bess em Belo Horizonte tem (excelente) elenco de cantores negros brasileiros.


Em Catfish Row, na Carolina do Sul, nos Estados Unidos, são “pretos” – “ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres” – os habitantes da mansão invadida na qual se situa a história de Porgy & Bess, ópera de George Gershwin (com libreto de Edwin DuBose Heyward e Ira Gershwin) estreada em Nova York em 1935. Sem países exóticos ou heroínas românticas, ou talvez pela temática árida e pouco usual (muitas vezes acusada de racista), a ópera não emplacou e foi esquecida.

Após apresentações na Europa (como a première europeia no Royal Danish Theatre, em Copenhague, em 1943, ou a temporada no Stoll Theatre, de Londres, com Leontyne Price e William Warfield) ou a récita no Rio de Janeiro, em 1955, com elenco negro do American National Theater and Academy, a ópera teve uma importante montagem na Houston Grand Opera, em 1976, e chegou ao nobre palco da Metropolitan Opera House em 1985 (com Simon Estes e Grace Bumbry regidos por James Levine).

O compositor e pianista George Jacob Gershwin (1898-1937) já havia escrito obras que traziam o jazz e o blues ao mundo da música de concerto, como nas instrumentais Rhapsody in Blue (1924) e An American in Paris (1928), ou feito bastante sucesso em musicais da Broadway, como Lady, Be Good (1924), Strike Up the Band (1927) e Girl Crazy (1930), para citar alguns, quando chegou à sua (segunda) ópera, Porgy & Bess (a primeira foi a opereta Blue Monday, de 1922). Ele declarou ao New York Times:

Porgy & Bess é um conto popular. Seus personagens, naturalmente, iriam cantar música folclórica. Quando comecei a trabalhar na música, optei pelo não uso de material folclórico original porque queria que a música fosse de uma só peça. Por isso escrevi meus próprios spirituals e canções folk. Mas eles ainda são música folclórica – e, portanto, em forma de ópera, Porgy & Bess se torna uma ópera folclórica.”

O resultado alia o melhor do teatro musical – letras inspiradas, melodias memoráveis – ao swing do jazz e à intensidade emocional do blues, tudo com grande riqueza orquestral e uma harmonia que vai do áspero ao lírico com enorme desenvoltura. Não à toa, Porgy & Bess foi a primeira ópera norte-americana a alcançar sucesso mundial e, até hoje, é considerada uma das maiores óperas daquele país.

 

“Saco brilhante de lixo do Leblon”

“Pretos, pobres e mulatos, e quase brancos quase pretos de tão pobres” são também os moradores da comunidade fictícia brasileira concebida pelo diretor Fernando Bicudo para a montagem de Porgy & Bess que ocupa o palco do Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, até 31 de outubro. Ao que consta, a presença por cantores negros é exigência do compositor. Com um pouco de licença poética, colheita de algodão e vendedoras de morango podem transitar muito bem entre olheiros do tráfico e garotas que se bronzeiam na laje.

Atendendo à ideia do diretor, Desirée Bastos, em sua primeira ópera, criou um cenário caleidoscópico, com três níveis em andaimes, em que a ação se desenrola principalmente no pátio térreo central. Cortinas delimitam as habitações e, no segundo e terceiro andares, muita ação criou a atmosfera e deu movimento à cena: uma mulher costurava, outras fofocavam, homens teciam redes de pescar, crianças circulavam com seus brinquedos. No segundo cenário do espetáculo, um belo grafite de Cheap Antônio Lima homenageava personalidades negras, como Nina Simone e Luiz Melodia, em meio a pôsteres de mães de santo que trazem seu amor de volta em três dias.

Os figurinos de Order Sayonara Lopes e a caracterização de Lázaro Lambertucci contribuíram bastante para a criação do universo de uma comunidade que poderia estar no Rio de Janeiro ou em Belo Horizonte. Dreadlocks coloridos, bonés e grandes correntes no pescoço adornavam jovens e marginais, enquanto sóbrios vestidos, abotoados até o pescoço, revelavam as senhoras mais religiosas.

A ambientação ganhou contribuição fundamental das coreografias de Cristiano Reis, que incorporaram elementos do hip hop e guerras de passinho, e foram muito bem executadas pela Cia. de Dança do Palácio das Artes. A luz de Pedro Pederneiras, se não se destacou, também não comprometeu.

Jogo de dados que abre “Porgy & Bess”

 

O experiente maestro Silvio Viegas responde por uma direção musical elegante à frente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais amoxil online que, sob sua batuta, navegou, soberana, pela riqueza musical da partitura – ainda que esta tenha sofrido inúmeros cortes (além dos já habituais nas récitas mundo afora). O Coral Lírico de Minas Gerais, preparado por Lara Tanaka, participou com desenvoltura cênica e, principalmente, vozes coesas e poderosas. O Coral Infantojuvenil Cefart, regido por Tiago da Silva Ferreira e preparado para esta ópera por Elisete Dias Xavier, também fez bonito em suas intervenções.

 

“E são quase todos pretos”

Um dos maiores méritos desta montagem mineira é a escalação do elenco, formado, pela primeira vez em sua totalidade, por cantores negros brasileiros. Mesmo que alguns mais, outros menos, os artistas tiveram, na noite de estreia (21 de outubro), ótima performance cênica e vocal.

Quem roubou a cena logo de início foi a soprano Nabila Dandara como Clara, a quem cabe a belíssima e famosa canção de ninar Summertime (melodia já cantada em pop, jazz, blues e até punk-rock). Sua interpretação foi cálida e delicada, com timbre amoroso e afinado. A jovem mezzosoprano Juliana Taino também se destacou como Maria, dona do boteco local. Sua participação vocal teve mais recitativos que canções: aqueles foram interpretados com segura desenvoltura dramática, e estes revelaram lindo timbre. A soprano Eliseth Gomes, que começou sua carreira em montagem desta ópera no Municipal do Rio de Janeiro, deu vida à Serena com intensidade. Sua participação soou como uma homenagem por sua importante trajetória no canto. Apesar de algumas dificuldades de projeção na região média, entoou com emoção o spiritual My man’s gone now e bastante fervor a oração Oh, doctor Jesus.

Eliseth Gomes canta “My man’s gone now”

 

O barítono Cristiano Rocha interpretou o marinheiro Jake com um pouco de insegurança, mas bastante verdade. O timbre é bonito, mas o cantor poderia ter alçado voos mais altos em A woman is a sometime thing. À frente do coro, no entanto, conduziu bem a canção de marinheiro Oh, I’m agoin’ out to the Blackfish banks. Apesar da juventude, o também barítono Michel de Souza (que faz parte do programa Jette Parker, do Royal Opera House, de Londres, e desenvolve sua carreira na Europa) revelou segurança de veterano na pele do vilão Crow. Todas as suas intervenções foram realizadas de modo excelente, com ótima atuação cênica e vocal, destacando-se a tensa cena com Bess na ilha Kittiwah e a blasfema participação na quarta cena do segundo ato, à qual se segue a ária A red-headed woman makes a choo-choo jump.

O cantor de jazz e band-leader norte-americano Cab Calloway (1907-1994), para quem o papel do traficante Sporting Life foi criado, parece ter sido a inspiração do tenor Geilson Santos para compor o personagem. Sua atuação, ainda que um pouco over aos olhos deste espectador, arrebatou a plateia. Era perceptível a construção da personagem com gestos, olhares, sorrisos cínicos, grande relógio dourado no pulso, jeito de caminhar e de jogar o paletó para trás (exatamente como Calloway). Sua ária It ain’t necessarily so, na qual canta com o coro, dança com os bailarinos e debocha da Bíblia, foi aplaudida em cena aberta. O único pecado do cantor, entretanto, foi na emissão dos agudos, bastante recuados (talvez em decorrência da opção por uma impostação menos operística e mais próxima do teatro musical).

Em meio ao elenco de apoio, bons cantores: Lucas Damasceno (Mingo/Nelson), Lucas Viana (Peter), Indaiara Patrocínio (Annie/Lilly/Vendedora de Morangos), Antônio Marcos Batista (Jim/Agente Funerário) e Andreia de Paula (amiga de Serena). A única ressalva é a Carlos Átila (Robbins/Vendedor de Caranguejos), cuja voz ainda necessita de bastante desenvolvimento.

Nos papéis falados, online buying phenagren without a prescription antibiotic order Order Luciano Luppi (Coronel/Policial) e, especialmente, Henrique Luppi (Detetive Al) atuaram bem. Merece menção também o pianista cheap forzest ranbaxy Emerson Oliveira (Jasbo Brow).

 

“A pureza de meninos uniformizados”

Dois grandes intérpretes, de diferentes gerações e trajetórias, viveram o improvável casal protagonista. A soprano Marly Montoni entregou-se com dedicação e talento à volúvel Bess. Ainda que sua personagem tenha sido mal construída pela direção – há equívocos tanto no inicial figurino vermelho de lantejoulas como no vestido de “carola”, e a postura vulgar do primeiro ato é exagerada –, a intérprete a incorporou de forma inteira. Além de domínio corporal em cena, Marly mostrou belo timbre – colorido, equilibrado, afinado e com ótima técnica –, que brilhou nas famosas canções da ópera, como a ária I wants to stay here e o emocionante dueto (com Porgy) Cheap Bess, you is my woman now.

Seu parceiro de romance e de cena foi o experiente baixo Luiz-Ottavio Faria, de reconhecimento e carreira internacionais. O cantor esbanjou técnica e senso de palco, dominando todas as suas intervenções. A voz, generosa e potente, expressou com maestria o espectro de emoções do personagem: da otimista I got plenty o’ nuttin’, passando pela angustiada Oh Bess, where’s my Bess? e desembocando na determinada Oh Lawd, I’m on my way, acompanhado pelo coro. Um artista no auge de sua maturidade artística.

Pobreza, dignidade, astúcia, amor sincero, malícia, nobreza de caráter, religiosidade, drogadição, lascívia – situações como essa poderiam ocorrer em qualquer lugar, seja em Catfish Row, no Haiti ou aqui. Mas apenas o Palácio das Artes conseguiu reunir um elenco de tamanha excelência que, conduzido pelo maestro Viegas, levou à cena uma montagem da brilhante e pouco encenada ópera de Gershwin que “nos atrai, nos deslumbra e estimula”. Um momento histórico.

Luiz-Ottavio Faria e Marly Montoni em dueto de amor

 

Fotos: Paulo Lacerda / Fundação Clóvis Salgado

 

Leia também a crítica de Leonardo Marques

 

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