Escrito por em 19 out 2017 nas áreas Crítica, Jazz/Blues, Lateral, Rio de Janeiro

Mesmo com derrapagens em pop açucarado, trompetista Chris Botti faz jazz de qualidade em concerto no Blue Note Rio.

 

Como franceses e belgas ou brasileiros e argentinos, consta que, nos tempos áureos do jazz, nos anos 1950, havia enorme rivalidade entre os músicos da costa leste norte-americana, como Nova York, e os da costa oeste, como San Francisco e Los Angeles. O primeiro grupo, que continha Miles Davis, Charlie Parker e John Coltrane, por exemplo, acreditava que o jazz deveria ser raiz: denso, profundo e dolorido como um corte na pele. Já os músicos do outro time, entre os quais estava Chet Baker e Dave Brubeck, apostavam em uma performance um pouco mais leve e ensolarada.

Tanto os fãs do ríspido bebop como os admiradores do solar jazz californiano encontraram espaço no concerto que o trompetista Chris Botti apresentou no Rio de Janeiro no dia 5 de outubro. O artista integrou o elenco de atrações da temporada de abertura do Blue Note Rio, filial da célebre casa nova-iorquina de jazz.

Sediado onde era o Miranda, o Blue Note Rio repaginou o ambiente, dispondo o palco em outra posição e otimizando o espaço. O cardápio é enxuto e interessante, e há dois bares para drinques. O serviço é atencioso, ainda que um pouco atrapalhado. Alguns detalhes pecam: o cardápio é uma folha de papel plastificada (e torta); ao fundo do palco, a plaquinha com a identidade visual da casa parece simples demais.

Esbanjando simpatia, Botti entrou em cena acompanhado por uma ótima banda: Lee Pearson (bateria), Michael Olatuja (baixo), Leonardo Amuedo (guitarra), Rachel Eckroth (teclado), Taylor Eigsti (piano) e Sandy Cameron (violino). Coube à violinista acompanhar o trompetista na melodia principal de Gabriel’s oboe, tema de Ennio Morricone para a trilha sonora do filme A Missão, e no Concerto de Aranjuez, de J. Rodrigo – músicas que abriram o concerto com uma pegada mais pop e açucarada que verdadeiramente jazzística. Não apenas a performance ao violino foi bastante over, com movimentos exagerados – todos os instrumentos ganharam reverberação cafona de música de elevador.

A violinista Sandy Cameron

Jazz de verdade começou com os standards When I fall in love (Victor Young/Edward Heyman) e You don’t know what love is (Don Raye/Gene de Paul) – esta com ótimas intervenções de piano e bateria. Hallelujah, de Leonard Cohen, ganhou elegante roupagem de trompete e guitarra.

A simpatia de Chris Botti chegou ao máximo quando o artista desceu do palco e aproximou-se de um casal que fazia aniversário de casamento, para o qual dedicou a balada For all we know (J. Fred Coots/Sam M. Lewis). Um momento memorável.

A cantora Sy Smith juntou-se ao grupo para mais standards. Dona de uma bela voz e de um sorriso contagiante, a moça interpretou, com grande desenvoltura, The very thought of you (Ray Noble) e The look of love (Burt Bacharach/Hal David).

O que estava em um crescendo foi interrompido com um equivocado momento para o solo “virtuoso” de Sandy Cameron ao violino em Kashmir (Robert Plant/Jimmy Page), com citações de O voo do besouro (Nikolai Rimsky-Korsakov). A jovem exagerou mais uma vez na performance, abusando dos efeitos fáceis e da atuação teatral.

A cantora Sy Smith

De volta ao bom jazz, com Sy Smith novamente no palco, Let’s stay together (Al Green/Willie Mitchell/Al Jackson, Jr.) virou uma festa de alegria e boa música.

Chris Botti – o artista de jazz que mais vende discos no mundo atualmente – tem carisma e talento de sobra, com muita musicalidade e um fraseado que combina elegância e paixão. Mas falta, à frente de sua banda, doses de coerência e ousadia para a escolha de repertório, sem concessões ao pop edulcorado e com apostas mais radicais no jazz. Menos jazz Nutella e mais jazz raiz.

O trompetista Chris Botti na plateia

 

Fotos: Rafael Januzzi

 

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