Escrito por em 14 nov 2017 nas áreas Crítica, Entrevista, Espírito Santo, Lateral, Música de câmara

Recital do violonista Bruno Madeira acerta em cheio na escolha de repertório.

 

Montar o programa de um recital de música de câmara não é tarefa fácil, sobretudo quando o artista será a única pessoa no palco. Fatores distintos como o tipo de audiência esperada, a acústica da sala de concertos, o dia da semana e o horário do espetáculo, entre outros, devem ser levados em consideração, sob pena de ocorrer um concerto que leve o público a bocejar e sair mais cedo, ou a achar que o repertório deixou a desejar, ou ainda a acreditar que o músico era apenas um artista pirotécnico que se exibiu o tempo todo sem demonstrar qualquer profundidade ou sensibilidade artística.

Pois bem: o recital intitulado 300 anos de música para violão solo, a cargo do violonista Bruno Madeira e parte do 5º Festival de Música Erudita do Espírito Santo, foi um absoluto sucesso em termos de escolha de repertório. O premiado solista, vencedor de diversos concursos nacionais, mostrou que é um intérprete de grande capacidade técnica, além de ser possuidor de bom senso e de bons conhecimentos da História da Música. Afinal, montou um programa que inquestionavelmente prendeu a atenção, do início ao fim do recital, do público que esteve no Theatro Carlos Gomes, em Vitória, no último domingo, 12 de novembro.

Madeira iniciou a programação com três peças de J. S. Bach: Prelude, Gavotte e Gavotte en rondeau, da Suíte BWV 995. As obras foram interpretadas com grande domínio do estilo barroco, com corretas escolhas de andamento e limpidez na execução. Foram interpretações sóbrias, como era a personalidade do mestre alemão. Em seguida, o violonista tocou a Grand Overture, Op. 61, do italiano Mauro Giuliani. Esse compositor e virtuose do violão do início do século 19 foi fortemente influenciado pelas óperas de Rossini, influência essa nítida na peça apresentada. Em uma interpretação brilhante, Madeira extraiu uma sonoridade quase que orquestral de seu violão: a obra se assemelha às grandes aberturas das óperas rossinianas, com alguma influência de compositores do período clássico como Haydn e Mozart. Destaque para as variações nas dinâmicas, com alguns crescendi que impressionaram pela habilidade em sua consecução. Foi uma peça aplaudidíssima ao final pelo público presente. Em seguida, uma escolha bastante acertada: duas peças de caráter mais melodioso do espanhol Isaac Albéniz: o Capricho Catalán (da obra España) e Cataluña (da Suíte Española). São composições repletas de lirismo, sendo que as interpretações do solista, agradáveis e sem afetação, transportaram a plateia diretamente para a Península Ibérica.

Após um breve intervalo (estrategicamente inserido para preparar a plateia para as próximas composições) foi apresentada a complexa Sonata III, do mexicano Manuel Ponce, compositor do século 20. Trata-se de uma obra complicada, que demanda muito em termos de domínio do instrumento e exige maior poder de concentração do ouvinte. As últimas peças do programa foram partituras do compositor e regente cubano (ainda em plena atividade) Leo Brouwer: a Fuga n. 1 e a Danza Característica. Brouwer emprega em suas obras ritmos e melodias que fazem referência à música popular cubana, sem desprezar as influências dos compositores clássicos mais tradicionais. Com efeito: a Fuga traz elementos claramente bachianos em sua estrutura. Pois bem: Bruno Madeira se saiu muito bem nesse repertório contemporâneo, mantendo a regularidade do início ao fim da sonata de Ponce e interpretando com muita bravura e adequação de estilo as obras de Brower. Trata-se de um intérprete que efetivamente domina o seu instrumento e possui a necessária musicalidade para transmitir as diferenças de estilo entre as diversas composições apresentadas. Muito aplaudido pelos espectadores, o violonista presenteou o público capixaba com um simpático bis: o Estudo n. 10, de Villa-Lobos, compositor homenageado pelo Festival.

De se lamentar, apenas, que o povo espírito-santense ainda tenha certa resistência aos recitais de música de câmara. Nota-se que os espetáculos com orquestra, sobretudo com orquestra e coro, atraem invariavelmente grande público, ao passo que a presença de um solista ou de um pequeno conjunto – como um quarteto de cordas, por exemplo – no palco não costuma encher as salas da capital. Talvez a consolidação das programações camerísticas que têm sido propostas pela Camerata Sesi-ES resolva este problema a médio prazo. De toda sorte, aqueles que se dispuseram a comparecer ao Carlos Gomes neste final de domingo certamente não se arrependeram. Foi um belo concerto.

Bruno Madeira no recital

 

Bruno Madeira gentilmente respondeu a algumas perguntas. Segue o resultado dessa breve entrevista:

Vamos começar pela pergunta inevitável: como surgiu o interesse pelo violão?

O violão sempre esteve presente na minha família, meu pai tocava desde que eu me entendo por gente. Sempre que tinha uma reunião familiar, tinha música feita pelos pais, tios, primos, avós… Meu primeiro instrumento foi o teclado, comecei a fazer aula com uns 6 anos, depois fiz aula de flauta e trompete, toquei até em banda marcial. Quando eu tinha uns 11 anos, peguei o violão do meu pai em uma dessas reuniões e ele me ensinou os primeiros acordes. Ali já percebi que o violão era muito mais “eu” do que o trompete e desde então sigo com ele. Antes de entrar na universidade, eu tocava música popular (choro, bossa nova, samba…), mas resolvi fazer o curso de violão clássico porque achei que com a técnica clássica, eu poderia tocar o que eu quisesse depois. Só que aí eu entrei de cabeça no mundo da música clássica e percebi que assim como o violão era mais “eu” do que o trompete, o fazer música clássica também era onde eu mais me encontrava.

 

A sua apresentação em Vitória foi anunciada como 300 anos de música para violão solo. Há algum propósito didático na escolha desse repertório? O artista pode (ou deve) ter o papel de formador de público, não se limitando à execução das obras (isto é, também transmitindo aos espectadores informações sobre elas)?

300 anos de música para violão solo é uma proposta de repertório que desenvolvi agora no ano de 2017, apresentei esse recital também em Santo André, Curitiba e Paraty. Seja quando eu vou assistir um concerto ou quando eu mesmo toco, acho muito importante que o programa tenha uma unidade, um fio condutor que torne aquela experiência coesa. O programa por si só já se explica, ele faz um panorama que passa por vários períodos, mas falar um pouco sobre as peças faz a experiência ainda mais marcante para o público. A formação de público é uma função importante do artista sim.

 

Você tem um site próprio na internet, constantemente atualizado e rico em informações, além de manter perfis profissionais nas principais redes sociais. Qual a importância de fazer uso desse tipo de ferramenta?

A internet é um fantástico meio de divulgação do trabalho. Mantenho meu site desde 2007, sendo que o foco das postagens vai mudando de tempos em tempos. Já perdi as contas de quantas vezes encontrei com pessoas que me falaram que me conheciam por causa do site. No começo eu divulgava todos os concertos de violão que eu encontrava, depois passei a escrever sobre meus estudos, mais recentemente traduzi alguns textos excelentes sobre como estudar música, e agora tenho principalmente divulgado minhas atividades como professor e concertista. A página do Facebook, o canal do YouTube e o perfil do Instagram são mais recentes, acho fundamental a utilização dessas ferramentas para que eu possa ter contato com meu público e vice-versa.

 

Imagine que, a partir de amanhã, não existirão mais violões no mundo. Você adotaria um outro instrumento?

Puxa vida, que terrível essa notícia hipotética! Eu continuaria fazendo música, quem sabe no violoncelo ou no piano.

 

Se você não fosse músico, que profissão gostaria de exercer?

É muito difícil me imaginar fazendo outra coisa, mas talvez eu fosse procurar alguma engenharia, talvez fosse para a química, talvez fosse ser enxadrista!

 

Cite dois compositores ou duas obras que, na sua opinião, deveriam ser mais conhecidos pelo grande público.

Um deles é o Leo Brouwer, um compositor cubano nascido em 1939, ainda em atividade, que tem uma obra imensa para violão. É incrível o jeito que ele mistura elementos rítmicos latinos com o conhecimento das particularidades do violão, com um ótimo equilíbrio e controle estrutural. Além de peças solo, ele tem obras para violão com outras formações, incluindo concertos com orquestra, que são muito interessantes. O segundo compositor é o próprio Heitor Villa-Lobos (1887-1959). Apesar de ter um nome conhecido, o público em geral não conhece as suas obras. As obras orquestrais e para piano solo são excelentes, mas a produção para violão solo vai além – é um divisor de águas na história do violão em âmbito mundial. Tudo isso aliado com um sentimento de brasilidade muito especial, que nós, como brasileiros, conseguimos nos identificar e apreciar ainda mais.

 

Qual mensagem final você gostaria de deixar para o público capixaba?

Que sorte tem a cidade de ter um festival durando quase o mês inteiro de novembro! A mensagem que deixo é um convite para os meus concertos e para os outros eventos do festival. Apreciar música é uma das coisas boas da vida!

 

Fotos: Fabricio Zucoloto

 

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