Escrito por em 14 nov 2017 nas áreas Crítica, Festival, Lateral, Música contemporânea, Rio de Janeiro, Tecnologia

Francesa Laura Perrudin e sua harpa eletrificada fazem concerto surpreendente no Festival Mimo.

 

Uma mocinha de 27 anos, esguia, de braços longos e dedos finos, cabelos raspados, grandes olhos cinzentos e ar retraído posiciona-se diante de uma pequena harpa e de uma infinidade de pedais, botões e aparatos eletrônicos nos quais tanto o som das cordas como de sua voz transformam-se em uma música surpreendente e hipnótica. Assim pode ser resumido o concerto que a francesa Laura Perrudin realizou no dia 12 de novembro, na Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, no Rio de Janeiro, como parte da programação do Festival Mimo 2017. Esta foi sua primeira apresentação no Brasil.

O belíssimo templo barroco, construído provavelmente entre 1714 e 1739, abriu espaço para a modernidade da jovem harpista, cantora e compositora. Hardwares e softwares de música eletrônica, conectados à harpa e ao microfone, distorcem, duplicam, replicam e amplificam os sons que a artista emite pelas cordas e pelo corpo do instrumento, por seu corpo e sua garganta.

Laura apresentou canções de seu recém-lançado CD, Poison & Antidotes, obras que flertam com estilos tão variados como jazz, hip hop, pop, soul, world music, eletrônica e folk, criando algo que é, ao mesmo tempo, tecnológico e orgânico.

Em The Ceiling’s Maze, composição própria, a artista usa a harpa como um contrabaixo, em uma pegada bastante jazzística. Laura ainda criou ondas percussivas ao bater no corpo da harpa e nas cordas em surdina. Com sintetizadores softwares de seu laptop, a francesa teceu intricada teia de sons que se complementam, contrapõem, sobrepõem e entrelaçam, em uma atmosfera hipnótica. Em Le Poison, seu próprio corpo serviu como instrumento de percussão e de distorção, ao emitir estalos com a língua e dar pequenos golpes no peito que alteram a emissão vocal. Inks, por sua vez, é quase um rap, declamado.

Além de letras e músicas autorais, Laura apropria-se de textos de poetas célebres como William Blake (1757-1827) e W. B. Yeats (1865-1939) – deste é a letra de The Song of Wandering Aengus, canção do álbum Impressions (2016) na qual a artista parece um menestrel entoando poesia em ritmo de bossa nova. Em meio à mistura, saltam aqui e ali referências a Björk, Joanna Newsom, música tuareg e mesmo bossa nova. Laura Perrudin transita do sol do Saara ao luar em Nova York.

Diante dessa música moderna e fascinante, aflora uma pergunta: afinal, o que é sintético e o que é natural? O que é eletrônico e o que é orgânico? O talento para a manipulação eletrônica de vozes e instrumentos tem o mesmo valor que o da emissão mecânica de canto, cordas e sopros? Que música etérea é essa que a nereida francesa faz surgir, acústica e eletronicamente, manipulando sons feito uma alquimista e embaralhando notas com a ajuda da tecnologia? Que canto é esse que sai da garganta, passa pelo computador e se duplica, replica e amplifica? O fato é que é quase impossível tirar olhos (e ouvidos) desse hipnótico caleidoscópio sonoro.

 

 

Fotos: Rogerio von Kruger

 

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