Escrito por em 1 nov 2017 nas áreas Crítica, Jazz/Blues, Lateral, MPB, Rio de Janeiro, Show

À vontade e esbanjando simpatia, Leny Andrade fez show memorável no Blue Note Rio.

Se estivéssemos no Reino Unido, ela seria chamada de dame e vastamente reconhecida como artista de fundamental importância para o país. Aqui no Brasil, mesmo levando nossa música para o mundo todo há décadas, a carioca Leny Andrade é pouco conhecida do grande público – ainda que seja aclamada pela crítica.

Dos estudos de piano ainda menina e dos programas de calouros no rádio, passando pela vida de crooner em boates cariocas, Leny vem levando a bossa nova e o samba-jazz aos mais importantes festivais e casas de espetáculos em mais de 55 países (Birdland, Hollywood Bowl, Lincoln Center e Blue Note NY, por exemplo). Sua voz grave e sua ginga são as estrelas de uma discografia de mais de 20 álbuns (um deles premiado com um Grammy Latino). Não sem razão é considerada, pela crítica internacional, a Ella Fitzgerald brasileira.

Quem admira seu trabalho pode prestigiar a artista no show realizado no dia 26 de outubro, no Blue Note Rio, na capital carioca. Após uma apresentação instrumental de seu trio – formado por Fernando Merlino (piano), Jamil Joanes (contrabaixo) e Erivelton Silva (bateria) –, a Primeira Dama do Jazz e da Bossa Nova entrou em cena esbanjando simpatia, contando histórias e conversando com o público.

O concerto começou com uma intensa Lugar comum (música de João Donato e letra de Gilberto Gil), seguida por Rio (Roberto Menescal), cheia de scats e suíngue, chegando a Anjo de mim (de Ivan Lins e Vitor Martins – segundo Leny, o “único bêbado” que ela aguenta, porque “não pinta o sete com ninguém”). Da mesma dupla, a cantora interpretou uma música composta em sua homenagem, Cantor da noite, canção de difíceis intervalos melódicos. A deliciosa balada O que é amar, de Johnny Alf, foi interpretada com elegância e reverência ao autor.

Fernando Merlino, Leny Andrade, Jamil Joanes e Erivelton Silva

 

Canta, canta mais

Do samba-jazz da MPB à uma sequência de boleros, que conteve Nosotros (do cubano Pedro Junco) e Alma mía (da mexicana María Grever). Em meio a solos inspirados do piano, Leny carregou na emoção – pero sin perder la elegancia jamas.

De volta à bossa nova, uma sequência com grandes composições do mestre Tom Jobim: Só danço samba (letra de Vinicius de Moraes), Vivo sonhando, Outra vez e a célebre Garota de Ipanema. Com irresistível molejo e domínio completo de ritmo e melodia, Leny e seus músicos fizeram do medley o ponto alto do show. Para finalizar, uma canção do Roberto (Olha) e mais uma do Tom (Wave).

Senhora absoluta de sua arte, dona do ritmo e dos mistérios da improvisação vocal, e com a tranquilidade de quem tem certeza de seu talento, Leny Andrade é uma de nossas maiores cantoras. Cada show – este incluído – é um momento único e memorável, que faz nossa grande Dama ser aplaudida de pé – exatamente como aconteceu.

 

Fotos: Paulo Silvestre

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