Escrito por em 21 dez 2017 nas áreas Crítica, Lateral, Minas Gerais, Música sinfônica

Concerto encerrou a temporada 2017.

 

prdering levitra viagra online A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais encerrou sua interessante temporada 2017 com um concerto temático, até certo ponto, singular em relação ao que se costuma ouvir por aí em tempos pré-natalinos. Fábio Mechetti, seu regente titular, programou obras do estadunidense Charles Ives, do jovem cearense Caio Facó e do inglês Gustav Holst para uma noite mística – nada mais apropriado para estes tempos convulsos um olhar para o sagrado sob ótica universal, na qual a religiosidade se perfaz pelos mistérios humanos, não necessariamente incitada por uma determinada religião.

Nesse sentido, a Pergunta não respondida, de Charles Ives (1874-1954), vem a calhar. Uma “pergunta” (“quem somos?”, arrisco eu), anunciada repetidas vezes pelo trompete, tenta encontrar a resposta de um quarteto de madeiras tensas, dissonantes e ritmicamente desencontradas (a humanidade?). Enquanto isso, um coral de cordas (o universo?), em uma vibração temporal quase etérea, nos dá conta do quanto somos pequenos, fugazes e inúteis diante das grandes questões.

O que se ouviu destas cordas foi um pianíssimo realmente mágico, daqueles de prender a respiração com receio do barulho atrapalhar. Mérito não apenas dos músicos e de Mechetti, mas também da acústica sensível da Sala Minas Gerais, em Belo Horizonte. Acho, porém, que se criaria um contraste interessante se o trompete estivesse posicionado em algum lugar longe do palco, mas dentro da sala (ao fundo do balcão, por exemplo), e não off stage. Ainda assim o resultado, de todo, foi impressionante. Aliás, como tudo na música corajosa e transgressora de Ives.

Aproximações Áureas, de Caio Facó (1992-), menção honrosa no Festival Tinta Fresca 2016, anuncia-se como uma tentativa de responder à pergunta de Ives. Não por acaso, conta igualmente com um trompete solista, desta vez bem ruidoso. Não sei o que as senhorinhas da plateia acharam, mas ouvir boa música contemporânea é quase um deleite – musical e sociológico. O compositor nos trouxe texturas muito bem trabalhadas. Os planos sonoros vão se juntando matematicamente como em uma escala, sem qualquer fetiche “efeitista”. Tudo lógico, porém absorto em falta de gravidade tonal. Se a pretensão foi “responder” aos questionamentos suscitados por Ives, Aproximações Áureas não dá conta. E está justamente aí o seu mérito: evocar novas perguntas a partir de seu material sonoro instigante.

Uma das influências de Facó foi Gustav Holst (1874-1934), a quem o nome no panteão dos grandes se deve essencialmente à suíte Os planetas, Op. 32. Com ele, a OFMG encerrou o concerto e o ano em grande estilo. Das inclinações astrológicas, místicas e míticas de Holst, nasceu uma obra profundamente rica e que, em sua ortodoxa posição tonal, nos fornece um vislumbre de possibilidades imagéticas de deuses romanos e seus astros se movendo pelo Universo.

A orquestra correspondeu à proposta. Em Marte, a capacidade de manter a tensão dramática com a coesão dos naipes, fundamental para o poderio rítmico da partitura; em Vênus, as gradações de dinâmica em piano e a sonoridade diáfana das flautas; em Mercúrio, uma sonoridade mais plasmada que o desejável disfarçou as articulações das madeiras, tão úteis ao caráter desse scherzo; em Júpiter, as cordas faustosas se destacam, mas toda a orquestra consegue um tônus que não promove apenas o clímax, mas constrói um discurso horizontal, cuja linha não se perde ante ao colorido sonoro; em Saturno, a melancolia do espaço é preenchida por metais graníticos e belas inflexões das madeiras, destacando o aspecto pesante; em Urano, um novo clima de scherzo, bem executado; e, finalmente, Netuno, cuja intervenção das vozes femininas do Concentus Musicum de Belo Horizonte (leia-se maestrina Iara Fricke Matte), fizeram terminar este estranho 2017 com uma música quase imaterial, rarefeita, que vai se desvanecendo nos confins do espaço. Silêncio e esperança.

De Fábio Mechetti viu-se a regência absolutamente segura de sempre. Nenhum gesto seu é desnecessário ou inutilmente acrobático. Tudo é a favor da comunicação pragmática, mas sensivelmente expressiva, com seus músicos. Isto é reger uma orquestra.

Em 2018, a OFMG completará 10 anos. Tem sido uma trajetória que mudou o patamar da vida cultural de Minas Gerais, com concertos de alto nível, projetos de formação de público, turnês por cidades pequenas do estado, concursos para jovens compositores e regentes etc. Manter essa máquina girando em um período de severos desafios econômicos não deve ser fácil. Há desafios. Muitos. Que nossos aplausos sejam, portanto, a resposta para qualquer pergunta não respondida. E que venha 2018!

 

Foto: Daniela Paoliello

 

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