Escrito por em 22 dez 2017 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera, São Paulo

Enquanto Instituto Odeon patina na gestão do TMSP, ópera de Mozart ganha interessante produção.

 

Prólogo

O ano de 2017 foi bastante conturbado ali pelos lados do Anhangabaú: começou com mudança na prefeitura e na secretaria municipal de Cultura de São Paulo, o que acarretou também em mudanças na gestão da principal casa de ópera da cidade, o Theatro Municipal. Isso, apesar da ladainha que ouvimos por aí, segundo a qual um órgão que é administrado por uma Organização Social (OS) não sofre (ou não deveria sofrer) influência direta do poder público, pois há um contrato que daria (ou deveria dar) autonomia à OS para tocar seu trabalho.

Hoje sabemos que tal ladainha não passa de balela, e está aí o secretário municipal de Cultura de São Paulo, André Sturm, que não me deixa mentir. Pois bem, sob a “batuta” (que blasfêmia!) de Sturm, e sua direta influência, a OS Instituto Brasileiro de Gestão Cultural nomeou Cleber Papa diretor artístico da Fundação Theatro Municipal. E, sob a direção deste último, a casa não apresentou sequer uma ópera encenada. Talvez, quem sabe, porque já estava prevista a troca da OS gestora do TMSP e não fosse interessante, politicamente falando, dar crédito por produções líricas completas à supracitada Organização Social, que, como é sabido, teve seu nome vinculado a falcatruas no orçamento da casa durante o mandato do prefeito anterior.

Profissionais ligados ao Theatro Municipal de São Paulo, que falaram ao Movimento.com sob a condição de anonimato, garantem que o processo de chamamento público para a escolha da nova gestora do TMSP, agora uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), não ocorreu conforme era esperado pelo secretário de Cultura, que tinha claramente uma instituição favorita na disputa. Aqui, é preciso ressaltar que, apesar de ter uma instituição favorita no referido processo, não houve, até onde se sabe, qualquer conduta indevida por parte do secretário – tanto que a sua favorita acabou eliminada do certame. O processo de escolha foi, ao que tudo indica, correto.

O vencedor da disputa foi o Instituto Odeon, uma instituição sem qualquer experiência na administração de uma casa de ópera e que, ao que tudo indica, não fez o seu dever de casa antecipadamente, não buscou primeiro este conhecimento (como administrar um teatro lírico) para, então, se candidatar à gestão do TMSP. O Instituto Odeon deixou para aprender a conduzir o bonde com o veículo andando, como admitiu o seu próprio diretor presidente, Carlos Gradim, em entrevista ao Estadão (leia aqui). Em outras palavras: o Theatro Municipal de São Paulo é administrado hoje por “gestores” que parecem não saber bem o que estão fazendo, nem conhecem, pelo menos ainda, o caminho que pretendem seguir. É o que se depreende da entrevista de Gradim ao Estadão: ele fala… fala… mas, no fundo, não diz nada. Um exemplo do que afirmo aqui, em uma de suas declarações ao jornalista João Luiz Sampaio:

Buy “Ainda estamos em um momento de percepção. Somos conservadores, para atuarmos precisamos nos aprofundar. Não dá para mudar sem compreender o presente. (…) A gente sentiu, de qualquer forma, que não havia processos claros e, na nossa visão de gestão, isso é fundamental, pois estamos lidando com dinheiro público. E queremos criar um planejamento estratégico, uma visão, uma missão, que englobe o passado e o valor simbólico do Municipal. (…) Purchase Estamos trabalhando para diagnosticar problemas e criar planos de ação. (…) No Municipal, queremos discuti-lo com a sociedade, para entender como ressignificá-lo” viagra online .

Essa indiscutível falta de objetividade de Gradim, pelo menos nesse primeiro momento, pode ser reflexo, segundo as fontes citadas três parágrafos acima, da falta de um real apoio da secretaria de Cultura à gestão do Odeon. Praticamente três meses depois de assumir o TMSP, a Oscip já deveria ter escolhido um diretor artístico para a casa – diretor este que deveria responder pela sua programação, escolha de elencos etc. As referidas fontes informam que um diretor artístico ainda não foi indicado porque não há concordância entre o Instituto Odeon e o secretário de Cultura sobre quem poderia assumir o cargo. Enquanto isso, o TMSP e seu público que esperem.

De qualquer forma, não há no mercado muitos profissionais brasileiros que sejam realmente gabaritados para a função, e sempre há o risco de aparecer um “arthur” da vida. Então, urge apontar um diretor artístico ligado ao meio operístico, que entenda realmente de ópera e de vozes, que não tenha o péssimo hábito escolher sempre os mesmos elencos (seja para cantar Monteverdi, Mozart, Puccini ou Wagner), que saiba trazer vozes realmente qualificadas do exterior quando necessário (e não vozes medíocres) e assim por diante. Até porque, ao que tudo indica, a programação do próximo ano já está em gestação, e eu começo a ficar temeroso sobre quem será o dono do cérebro privilegiado que está escolhendo, por exemplo, o(s) elenco(s) de uma possível produção de Turandot, título que, segundo o Estadão, deve abrir a próxima temporada lírica paulistana.

Pretende-se fazer uma Turandot bem feita, com um elenco à altura das dificuldades da partitura, ou a ópera de Puccini será feita de qualquer jeito, como ocorreu com Nabucco? Enquanto aguardamos a resposta, vejamos o que temos para o momento.

 

Ópera em dois atos

Apenas a terceira (e última!) ópera a subir ao palco do TMSP em 2017, depois de um Nabucco fraquíssimo e de uma produção de Os Pescadores de Pérolas que não me animou a sair de casa, Die Zauberflöte (A Flauta Mágica), ópera em dois atos de Wolfgang Amadeus Mozart sobre libreto de Emanuel Schikaneder ficou em cartaz na casa entre os dias 15 e 21 de dezembro.

Mozart e seu libretista eram maçons, e quando este último convenceu o compositor a musicar a obra para ajudá-lo a salvar seu teatro da falência, ambos procuraram fazer através da arte uma defesa da Livre Maçonaria, que sofria perseguições na Viena da época. A riqueza indiscutível da música da Brand Cialis cheapest Flauta é a principal responsável por ela ter chegado aos nossos dias, mas a trama bem elaborada da obra também colabora para o seu sucesso. Algumas passagens do libreto, porém, podem ser vistas, aos olhos do expectador contemporâneo, como preconceituosas, através de demonstrações de misoginia e racismo.

E foi observando atentamente esse aspecto que o encenador André Heller-Lopes concebeu sua encenação para o Municipal paulistano. Nela, o diretor relativiza os conceitos de bem e mal, respectivamente representados na ópera por Sarastro e pela Rainha da Noite. Para Heller-Lopes, nem um é tão bom assim, e nem a outra é tão má como geralmente supomos. O artista propõe uma releitura inteligente e eficiente, na qual a Rainha é uma mulher real – do nosso mundo –, com suas falhas e imperfeições, mas ainda assim uma mãe amorosa; enquanto Sarastro é caracterizado como o sacerdote de uma seita que crê não em valores genuínos, mas nos valores que ele, Sarastro, cultiva. Nesse sentido, a cena sem música (apenas falada) em que Sarastro prega para seus seguidores é uma das mais emblemáticas dessa releitura.

Outros aspectos da encenação podem gerar divergências de entendimento/aceitação segundo o gosto do freguês. A importante figura de Papageno, por exemplo, não é caracterizada, como de hábito, como um pássaro quase humano, mas sim como um homem bom e de hábitos simples, que não busca as grandezas da alma almejadas pelo nobre Tamino. Papageno deseja apenas viver bem e feliz, com comida e bom vinho, e sonha encontrar uma bela companheira que seja como ele. Papagena, antes de mostrar sua verdadeira forma, aparece em cena disfarçada de uma mulher bastante idosa, como previsto originalmente, mas nessa releitura claramente inspirada na personagem Velha Surda, de um popular programa de televisão. A cena derradeira é um pouco mais controversa, pois o que o diretor inclui ali vai contra a ideia geral da obra, mas não deixa de ser condizente com a proposta geral da encenação.

O trabalho da equipe de criação corrobora muito bem as intenções do diretor. O cenário principal de Renato Theobaldo vai sendo montado aos poucos, e só temos a exata noção dessa opção conforme a ópera vai se aproximando do seu final, quando ficamos diante de um grande e belo salão. Antes de chegarmos a esse ponto, o cenógrafo utiliza elementos cênicos que contribuem para a ambientação e opta pelo palco mais aberto e mais cru (e, por que não dizer?, mais clean e moderno) nos domínios da Rainha da Noite.

Processo semelhante ocorre com os belos figurinos da argentina Sofia di Nunzio: mais tradicionais e conservadores para Sarastro e seguidores; mais contemporâneos para a Rainha da Noite e suas damas, criando assim um efeito anacrônico instigante. A belíssima luz de purchase amoxil Aline Santini reforça e valoriza com grande criatividade a ambientação cênica. Salvo engano, a iluminadora estreou em ópera nesta produção, e oferece desde já um cartão de visitas digno do mais alto respeito.

Na récita do dia 19 de dezembro, o Coro Lírico, preparado por Mário Zaccaro, esteve bem em suas intervenções. A Orquestra Sinfônica Municipal, preparada por Roberto Minczuk, mas conduzida nessa récita pelo regente assistente Gabriel Rhein-Schirato, apresentou-se melhor que em Nabucco, certamente, mas ainda vacilando mais que o aceitável em termos de articulação. Faltou também apuro estilístico na abordagem da sonoridade mozartiana. E isso é pouco para o conjunto que se destacou nos últimos anos indiscutivelmente como a melhor orquestra de ópera do país.

Como os três gênios, Karen Stephanie, Priscila Aquino e cheapest place to buy evista online Laiana Oliveira não comprometeram. Eduardo Góes e Daniel Lee (sacerdotes e guardas) estiveram bem em suas pequenas partes. Dentre as Três Damas, todas muito bem cenicamente, a contralto Elaine Martorano viagra purchase foi quem obteve a melhor performance musical, exibindo um belo timbre; a soprano Laura Duarte ofereceu um rendimento razoável; enquanto a mezzosoprano Keila de Moraes apresentou-se menos satisfatória.

Depois do ótimo Sporting Life, de Porgy and Bess, que interpretou há dois meses em Belo Horizonte, o tenor Geilson Santos Buy esteve muito bem como o mouro Monostatos, tanto vocal, quanto cenicamente. Sua única ária, Alles fühlt der Liebe Freuden liponexol cheap , foi bem defendida. Já a soprano argentina Oriana Favaro, se conseguiu dar conta da personalidade um tanto extravagante sugerida pela direção para a sua Rainha da Noite, foi bastante burocrática vocalmente. Em sua primeira grande intervenção, no recitativo e na ária O zittre nicht, mein lieber Sohn! – Zum Leiden bin ich auserkoren, refugou na nota mais aguda da passagem. Já na aguardada ária do segundo ato, amoxil online Der Hölle Rache kocht in meinem Herzen, teve um desempenho correto, ainda que sem maior brilho.

O baixo Savio Sperandio teve um bom desempenho geral como Sarastro, apesar de ter sofrido um pouco nas notas mais graves de sua parte. Como ator, sua performance na cena da pregação foi excelente. O barítono Johnny França, dono de um belo timbre e exibindo uma pasta baritonal de belíssima sonoridade, mostrou na pequena parte do Orador por que foi escolhido pelo Movimento.com uma das revelações de 2016 no balanço anual da temporada nacional (relembre).

Outro barítono, http://www.nextvbrasil.com.br/generics-for-hyzaar/ Michel de Souza (o Crow do Porgy de BH) interpretou Papageno com grande desenvoltura e boa voz. Suas árias, Der Vogelfänger bin ich ja e Ein Mädchen oder Weibchen wünscht Papageno sich!, foram muito bem interpretadas. O artista teve ainda ótimo desempenho nos números de conjunto, e brilhou nas cenas com a Papagena da mezzosoprano Luisa Francesconi. O jogo de cena entre os dois foi, simplesmente, impecável. A Francesconi, por sua vez, também esteve muito bem, tanto quando disfarçada de “Velha Surda”, como depois que retirou o disfarce.

O delicioso dueto dos dois quase no final foi reprisado depois de encerrada a ópera, na bastante discutível iniciativa Bis no Municipal. Investiguei com os olhos a audiência do teatro durante a repetição, e notei que não mais que 15% do público utilizada o celular para fazer vídeos. Com todo o respeito, esse Bis no Municipal não passa de popularismo barato. Pelo menos desta vez a direção da casa não cometeu a asneira de exigir a papagaiada (o termo é proposital) no meio da ópera, como ocorreu na estreia de Nabucco.

Chegando enfim ao casal protagonista, o tenor Luciano Botelho demonstrou senso de estilo e boa presença como Tamino, mas enfrentou problemas técnicos que o levaram, em passagens como, por exemplo, sua ária do primeiro ato, Dies Bildnis ist bezaubernd schön, a deixar transparecer grande esforço para atingir algumas notas agudas. Já a soprano Gabriella Pace teve o desempenho vocal mais consistente da noite. Depois de uma excelente performance no começo do ano, no Rio de Janeiro, como a personagem-título de Jenůfa, a artista uma vez mais ofereceu um canto belo, generoso e repleto de sentimentos ao dar vida à Pamina. Se eu tivesse ido a São Paulo unicamente para ouvir Gabriella Pace cantar a ária Ach, ich fühl’s, es ist verschwunden, que ela interpretou divinamente, já teria valido a viagem: foi o momento mais musical da noite, que demonstra o quanto a soprano cresceu como artista nos últimos tempos. Ela está no caminho certo para atingir, creio que em breve, sua maturidade vocal – se é que já não chegou lá.

Parte do elenco de “A Flauta Mágica”

 

Cialis Professional online Epílogo

Esta produção de A Flauta Mágica, se não chegou a ser perfeita, demonstra de maneira clara o quanto o Theatro Municipal de São Paulo tem capacidade fazer ópera com qualidade, e não precisa, nunca mais, repetir a mediocridade que ofereceu ao público em Nabucco. Para seguir no bom caminho, no entanto, é preciso observar premissas importantíssimas para a gestão de uma casa de ópera. Cito algumas delas:

1- A casa, que está acéfala sob o ponto de vista artístico, precisa de um diretor artístico para ontem.

2- Os elencos devem ser divulgados com a devida antecedência, e no caso de produções com mais de um elenco, é obrigação da casa divulgar a escala dos cantores antes do início da venda dos ingressos, para que o público possa escolher qual(is) artista(s) deseja prestigiar.

3- A presença de artistas estrangeiros de qualidade é benéfica para todos, inclusive para os artistas brasileiros, que poderão conviver e trabalhar com profissionais com experiência em grandes palcos – sem falar que, para algumas óperas e personagens específicos, simplesmente não há cantores brasileiros adequados (é o caso, por exemplo e a meu ver, das duas partes principais de Turandot).

4- Da mesma forma, a presença de artistas estrangeiros medíocres deve ser evitada, pois se trataria de jogar dinheiro fora (e, para escolher bem que estrangeiros convidar, um diretor artístico é mais do que necessário).

5- André Sturm e Carlos Gradim devem evitar escrever nos programas de sala do TMSP textos introdutórios vazios e que nada significam, como seus textos que abrem o programa de sala de A Flauta Mágica. Nem John Neschling, que, segundo dizem as más línguas, é muito vaidoso, perdia tempo escrevendo baboseiras nos programas de sala apenas para aparecer. O público deve conferir e avaliar o trabalho de Sturm e Gradim pela programação da casa, e não em textos dispensáveis e desprovidos de qualquer interesse.

6- Já estamos praticamente no fim de dezembro, já é Natal, e… cadê a temporada 2018, hein, Gradim? Dá tanto trabalho assim prepará-la, configurá-la, e divulgá-la? Entendeu, Gradim, porque o TMSP precisa tanto de um diretor artístico? Já adianto que não sei desenhar…

 

Fotos: Camila Cara

 

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