Escrito por em 12 dez 2017 nas áreas Minas Gerais, Música contemporânea, Música sinfônica, Programação

Orquestra mineira encerra temporada 2017 com obras de Holst, Ives e do jovem Caio Facó (na foto).

 

Encerrando sua décima temporada, nos dias 14 e 15 de dezembro, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais percorre as galáxias em busca de novos sons e novas experiências. O ponto de partida do programa é uma das obras mais enigmáticas do século 20, A Pergunta Não Respondida, de Charles Ives, seguido da exploração sonora da Via Láctea com Os Planetas, Op. 32, proposta por Gustav Holst, até a obra Aproximações Áureas, de Caio Facó, jovem compositor que recebeu menção honrosa no Festival Tinta Fresca 2016, promovido anualmente pela Orquestra. A regência é do maestro Fabio Mechetti.

O grupo coral e orquestral Concentus Musicum de Belo Horizonte, criado em 2016 pela regente Iara Fricke Matte, participa na suíte de Holst.

Na série de palestras sobre obras, compositores e solistas que a Filarmônica promove antes das apresentações, das 19h30 às 20h, o palestrante das duas noites será o percussionista da Filarmônica de Minas Gerais e curador dos Concertos Comentados, Werner Silveira. As palestras são gravadas em áudio e ficam disponíveis no site da Orquestra.

 

PROGRAMA

Charles Ives (1874-1954) e a obra order estrogen A Pergunta Não Respondida
Música para madeiras, trompete e cordas. Suponhamos que, em vez do título pelo qual conhecemos a pequena joia orquestral de Charles Ives, o compositor a tivesse nomeado dessa forma bem menos sugestiva, considerando um dos efetivos instrumentais previstos na partitura. Desprovida da misteriosa evocação de seu título, ainda assim essa miniatura camerística nos surpreenderia. Se acrescentarmos à experiência auditiva dados do Prefácio de Ives, publicado com a partitura, nossa admiração pela obra será ainda maior. Para Ives, trata-se de uma “Paisagem Cósmica”, na qual as cordas evocam “O Silêncio dos Druidas” e o quarteto das madeiras representa a busca por “Respostas” à “Eterna Pergunta da Existência”, formulada pelo trompete solo. Ainda no Prefácio, o compositor aponta possibilidades de espacialização na disposição instrumental. Observa também que as madeiras não precisam obedecer, rigorosamente, os momentos das entradas previstas na partitura. Estamos, portanto, diante de uma obra-prima de horizontes vastos: politonalidade, polimetria, um certo grau de aleatoriedade, liberdade e rigor, simbolismo, transcendência. Depois de seis insistentes perguntas, que as tentativas confusas das madeiras se mostram incapazes de responder, uma última vez o trompete formula a questão perene que, agora, mergulha no insondável, no “Imperturbável Silêncio”. A singularidade de Ives, com A Pergunta Não Respondida (1906), parece fazer uma alegoria musical às palavras de Varèse: “Em arte, um excesso de razão é mortal. É a imaginação que dá forma aos sonhos”.

Caio Facó (1992-) e a obra Aproximações Áureas
As obras do jovem compositor cearense Caio Facó mesclam seu criativo pensamento matemático com um expansivo interesse em modos de expressão da cultura e da realidade brasileiras para além de estéticas nacionalistas. Aproximações Áureas (2016) é dedicada a seu pai, por lhe ter revelado “o fantástico universo da matemática”, e alia à manipulação calculada de elementos musicais um trabalho de experimentação sonora. Às abstrações matemáticas, juntam-se influências de natureza diversa, como a cena passada na boate Clube Silêncio do filme Mulholland Drive [Cidade dos Sonhos], de David Lynch, que lhe serve de inspiração para um trompete que se ouve, mas não se vê. O título da peça evoca a noção de proporção áurea, constante matemática relativa à natureza do crescimento que, pelo menos desde Fídias, é utilizada em obras de arte e arquitetura. Se o princípio que governa a criação é matemático, sua força expressiva reside, porém, em seu conteúdo sonoro, na natureza dos materiais musicais e no caráter dramático, produzido principalmente pelo colorido orquestral livremente inspirado em Paul Dukas e Gustav Holst. Aproximações Áureas recebeu menção honrosa no Festival Tinta Fresca 2016, promovido pela Filarmônica.

Gustav Holst (1874-1934) e a obra Os Planetas, Op. 32
Os Planetas (1914/1916) é o astro-rei do legado de Gustav Holst. Imaginada para uma grande orquestra, a obra é dividida em sete movimentos, cada um retratando um planeta do Sistema Solar. Holst não está preocupado com o discurso científico, mas sim em uma narrativa mítica do Cosmos. É mais astrológica que astronômica, por assim dizer. A astrologia em que o compositor britânico se inspira é a das antigas ciências grega e latina, cuja observação de corpos celestes e o estudo de sua posição e movimentação exprimem propriedades comportamentais dos homens e da natureza. Representados através dos sons, os planetas são deuses da mitologia romana; cada movimento exprime em discurso musical a função cósmica de um astro e o todo da obra, a ordenação dos deuses no universo. O primeiro planeta é Marte – O Anunciador da Guerra, seguido de Vênus – O Anunciador da Paz; Mercúrio – O Mensageiro Alado, Júpiter – O Anunciador da Alegria, Saturno – O anunciador da velhice, Urano – O Mágico, Netuno – O Místico.

 

Foto: Rafael Motta

 

SERVIÇO:

 

Orquestra Filarmônica de Minas Gerais

Grupo Concentus Musicum

Fabio Mechetti, regência

 

14 e 15 de dezembro, quinta e sexta-feiras, às 20h30

Sala Minas Gerais (R. Tenente Brito Melo, 1.090, Barro Preto – Belo Horizonte. Tel.: 31 3219-9000)

 

Ingressos: R$ 105 (balcão principal), R$ 85 (plateia central), R$ 62 (balcão lateral), R$ 50 (mezanino) e R$ 40 (balcão palco e coro), com meia-entrada para estudantes, pessoas com mais de 60 anos, jovens de baixa renda e pessoas com deficiência, de acordo com a legislação

 

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