Escrito por em 30 dez 2017 nas áreas Amazonas, Artigo, Canto, Lateral, Minas Gerais, Ópera, Pará, Rio de Janeiro, São Paulo

Recitais de canto em São Paulo e no Rio de Janeiro são o grande destaque da temporada. Melhor produção de ópera é mineira.

 

O ano de 2017 foi sombrio para a Cultura em geral no Brasil, que sofreu com cortes de verbas de todos os lados e, até mesmo, com tentativas de censura (algumas levadas a cabo nas artes plásticas). No campo da ópera em particular, motivo desta retrospectiva, se 2016 já fora difícil, a temporada nacional encerrada há poucas semanas desceu a ladeira ainda mais, especialmente nas duas principais cidades produtoras, São Paulo e Rio de Janeiro. Motivos diversos, comentados abaixo, prejudicaram as programações desses dois grandes centros musicais, diminuindo a oferta e a qualidade dos espetáculos líricos oferecidos ao público.

O Movimento.com faz, uma vez mais, o seu balanço da temporada de óperas no Brasil, resumindo o que aconteceu (ou o que deixou de acontecer) nas cinco cidades que são as principais produtoras líricas do país. E, como já se tornou tradição, o autor deste balanço aponta os melhores do ano, dentre tudo o que viu e ouviu nas oito produções líricas completas e outras em forma de concerto que pôde conferir ao longo do ano em solo nacional.

 

São Paulo

A principal casa de ópera do país em anos recentes, o Theatro Municipal de São Paulo, viveu um ano turbulento e marcado pela mediocridade. Com a mudança da gestão municipal, o novo secretário de Cultura, André Sturm, como costuma acontecer em 99% das vezes na rasteira política brasileira, resolveu mudar tudo o que vinha sendo feito anteriormente, inclusive o que dava certo. Já havia a previsão de que o Instituto Brasileiro de Gestão Cultural (a Organização Social que administrava a casa e que deixou dívidas em aberto junto a artistas que participaram das últimas produções de 2016, até hoje sem previsão de pagamento) seria substituído no segundo semestre e, talvez até por causa disso, não houve grande esforço no sentido de se elaborar uma temporada lírica. O então diretor artístico da instituição, Cleber Papa, indicado por Sturm, para não dizer que não fez nada em termos de ópera antes da troca da entidade gestora, programou dois títulos em forma de concerto.

Com a certeza de que um novo gestor assumiria a direção do Municipal (desta vez uma Oscip, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), Cleber Papa finalmente programou três óperas encenadas, que seriam montadas já pelo novo gestor. O fato “curioso” é que uma Oscip, da qual o próprio diretor artístico da casa já fora dirigente, era uma das postulantes à gestão do TMSP. Esta Oscip, que era a favorita do secretário de Cultura, acabou desclassificada no processo de seleção, vencido pelo Instituto Odeon. Ao assumir, no começo de setembro, a primeira atitude do Odeon foi demitir Cleber Papa. Até aqui, vá lá, é do jogo. O problema é que, de lá para cá, o Instituto Odeon não indicou ninguém para exercer o cargo diretor artístico da casa, que permanece acéfala artisticamente desde então, funcionando na base do improviso.

A primeira das três óperas encenadas, Nabucco, foi um desastre cênico e musical, e contou com um elenco, no geral, muito mal escalado. Inclusive, pelo que o Movimento.com apurou com fontes da casa, os cantores do Coro Lírico que atuaram na montagem como solistas o fizeram sem receber cachê – o que, além de um absurdo completo, foi também um desrespeito com esses artistas. Em seguida, a casa apresentou uma insossa remontagem de Os Pescadores de Pérolas, que sequer despertou neste autor o desejo de viajar a São Paulo para conferir tal reposição. E, já agora em dezembro, encerrou o ano com uma nova produção de A Flauta Mágica, que, se esteve longe de ser perfeita, pelo menos foi a mais consistente dessas três produções.

Interlocutores do Instituto Odeon informam que seus dirigentes estão abertos e interessados em fazer uma boa gestão, mas, ao mesmo tempo, profissionais do Theatro Municipal, que falaram ao Movimento.com sob a condição de anonimato, informam que o secretário de Cultura dificultou a indicação de um novo diretor artístico para a casa, vetando nomes sugeridos pelo Odeon. Para 2018, a casa trabalha com a previsão de montar quatro óperas. Dentre estas, Turandot é um título praticamente certo, mas não para abrir a temporada, como se aventou inicialmente, e sim para encerrar o ano. É possível que apareça também algum título de Rossini, devido aos 150 anos da morte do compositor italiano.

As perguntas que ficam no ar são: sem um diretor artístico, quem será o responsável pela escolha dos elencos? Quem responderá por má escalação em caso de eventuais críticas ou cobranças? Que garantias há de que erros crassos de escalação, como ocorreu em Nabucco, não voltarão a acontecer? A ver…

O Theatro São Pedro, a segunda casa lírica paulistana, vinculada ao governo estadual, também não ficou isento de mudança de gestão. Em maio, o Instituto Pensarte teve seu contrato encerrado com a secretaria de Cultura estadual, e a Organização Social Santa Marcelina Cultura assumiu provisoriamente a gestão do espaço. Antes da troca, a casa apresentara as óperas O Espelho e Gianni Schicchi; depois, ofereceu o programa duplo Arlecchino/Pulcinella, a ópera Don Giovanni e a opereta La Belle Hélène.

Se, em termos quantitativos, a casa não foi nada mal no fim das contas, ainda mais quando se compara a sua quantidade de produções com as de outras casas de maior porte, no geral a programação não despertou tanto a atenção como em anos anteriores. É possível que isso tenha se devido à falta de continuidade que fez com que sua programação fosse “quebrada” ao meio. O fato de o São Pedro ter apresentado uma montagem de Don Giovanni que precisou ser totalmente refeita em São Paulo, apesar de a mesmíssima produção ter sido apresentada anteriormente em Belém, gerou críticas duras, inclusive deste autor. Ora, se a produção já existe, é preciso haver uma maneira de utilizá-la sem que esta precise ser refeita. Outro ponto negativo foi a forçada redução da Orquestra do Theatro São Pedro, na mesma época da troca de gestão e por questões orçamentárias, com a consequente demissão de músicos.

Para 2018, tudo ainda está muito indefinido no teatro da Barra Funda, mas comenta-se que a Santa Marcelina deverá continuar na administração da casa, e fala-se na realização de quatro óperas.

Nesse cenário instável enfrentado pelos dois teatros de ópera de São Paulo, quem acabou se destacando foi o Mozarteum Brasileiro, que ofereceu na Sala São Paulo dois memoráveis recitais de canto com repertório operístico: em maio, um concerto reuniu a grande soprano alemã Diana Damrau e o excelente baixo francês Nicolas Testé, acompanhados pela Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, regida por Carlos Moreno (leia a crítica); em agosto, foi a vez de a promissora soprano sul-africana Pretty Yende e o excepcional tenor mexicano Javier Camarena exibirem o alto nível de sua arte, acompanhados pelo pianista Angel Rodriguez (leia a crítica). Para 2018, já está confirmada a presença de outra estrela internacional na programação do Mozarteum: a soprano russa Anna Netrebko. Simplesmente imperdível.

Pretty Yende e Javier Camarena

 

Rio de Janeiro

A podridão da política carioca e fluminense sempre rondou o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, mas, em 2017, atingiu a casa da maneira mais devastadora possível. Se o atraso dos salários dos seus artistas e funcionários já vinha desde 2016, neste ano que agora termina atingiu níveis impraticáveis, levando muitos profissionais a situações extremamente delicadas. Para além disso, logo no comecinho do ano, o desgoverno estadual promoveu a substituição da então secretária de Cultura, a técnica da área Eva Doris Rosental, por um politiqueiro medíocre, André Lazaroni. Este loteou todos os equipamentos da secretaria com uma turba de protegidos políticos que, em sua grande maioria, não passam de imprestáveis e incompetentes.

No Theatro Municipal, o politiqueiro demitiu o presidente da casa, João Guilherme Ripper, que vinha fazendo a administração mais elogiada do teatro de ópera carioca em décadas. Para o lugar de Ripper, depois de tentar nomear, sem sucesso, um ator sem experiência com óperas, balés e concertos, o próprio secretário assumiu interinamente a presidência do Municipal, indicando o encenador André Heller-Lopes para o cargo de diretor artístico, em substituição ao então ocupante do posto, maestro André Cardoso.

Sob o ponto de vista administrativo, o ano foi um desastre. O politiqueiro Lazaroni pouco ou nada fez pelo Municipal. É verdade que em um ou dois momentos, usando de certa “força política”, chegou a deixar os salários dos profissionais da casa quase em dia, para logo em seguida atrasar tudo outra vez. Na única vez em que troquei rápidas palavras com o secretário, pude constatar toda a sua mediocridade e sua falta de aptidão para o cargo que estava exercendo. A verdadeira face de Lazaroni foi exibida para todo o país quando ele foi exonerado do cargo de secretário, em princípio temporariamente, apenas para voltar à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro para votar pela soltura de três deputados estaduais ladrões que haviam sido presos por decisão judicial. Em discurso na Alerj, o secretário de Cultura inculto confundiu o dramaturgo alemão Bertolt Brecht com o personagem Bertoldo Brecha, do programa humorístico Escolinha do Professor Raimundo, e se tornou motivo de chacota por todos os cantos do Brasil. Depois disso, pelo menos não teve mais cara de pau para reassumir a secretaria de Cultura.

Já sob o ponto de vista artístico, o ano do TMRJ também esteve muito longe de ser grande coisa, e é mais do que evidente que o principal motivo para isso foi o sistemático atraso dos salários de seus servidores, que se viram sem qualquer condição de se sacrificar pela casa mais do que já o estavam fazendo. De outubro em diante, o Theatro Municipal simplesmente não teve mais condições de apresentar espetáculos próprios, chegando inclusive a cancelar o balé O Lago dos Cisnes, cujos ingressos já estavam à venda. Desta forma, já era esperado que André Heller-Lopes, não por culpa sua, mas sim pelas próprias circunstâncias da crise financeira estadual, tivesse grande dificuldade para conduzir a programação artística própria do Municipal.

O agravante é que Heller-Lopes fez também uma série de escolhas equivocadas. Cito alguns exemplos: a) repetiu demais alguns solistas (não por acaso, cantores com os quais ele pessoalmente gosta de trabalhar); b) apenas ele assinou encenações de ópera (lembrando que o espetáculo La Tragédie de Carmen, outro equívoco por si mesmo, não é uma ópera), não abrindo espaço para outros encenadores; c) enquanto os servidores do Municipal comiam o pão que o governador amassou, o diretor artístico posava leve e lindo para colunas sociais, como se tudo estivesse transcorrendo às mil maravilhas; e d) enquanto o teatro pelo qual ele deveria zelar estava parado, sem condições de funcionar, foi encenar uma ópera em São Paulo, em uma atitude, para dizer o mínimo, um tanto insensível, por mais que ele defendesse que traria essa ópera ao Rio em 2018 (o que hoje, no momento em que este texto está sendo elaborado, já parece algo impossível, devido a mais uma mudança de gestão ocorrida no Theatro Municipal).

Em muitos momentos da gestão de artística de Heller-Lopes, portanto, faltou bom senso, sensibilidade e, especialmente, faltou maturidade para entender a importância e a relevância do cargo de diretor artístico. Além disso, tudo o que o diretor programou ao longo do ano pareceu um grande improviso, depois que resolveu descartar praticamente toda a temporada deixada pronta pela gestão anterior. Mesmo que não fosse possível, por razões financeiras, levar ao palco a temporada pensada por seus antecessores (essa sim, pensada de verdade, e não improvisada), poderia ao menos aproveitar parte dela. Não por acaso, a única ópera da gestão Ripper/Cardoso, atrasada do ano anterior, que ficou na programação de Heller-Lopes foi Jenůfa, encenada por ele próprio e que foi o único grande momento do TMRJ nesta temporada (produzida originalmente para a Buenos Aires Lírica em 2013). Depois disso, só improviso, incluindo uma Norma em forma de concerto, e uma Tosca vocalmente irregular.

Em dezembro, no apagar das luzes de 2017, após especulações de que a bailarina Ana Botafogo poderia assumir a presidencia do Municipal, quem foi realmente nomeado para presidir a casa foi o produtor e diretor Fernando Bicudo. Como é notório que ele e Heller-Lopes não são nada próximos, este último foi concomitantemente exonerado do cargo que exercia. Em breve, o Movimento.com tratará dessas últimas mudanças em artigo específico.

Com o ano perdido do Municipal, quem acabou se destacando na programação lírica do Rio de Janeiro foi a Sala Cecília Meireles. Sob a direção do pianista Miguel Proença (que substituiu, em março, o também pianista Jean-Louis Steuerman), a sala de concertos da Lapa apresentou ao longo do ano recitais de canto de alto nível com repertório operístico, ou mesclando trechos de óperas com canções, que contaram com cantores brasileiros de nível internacional e ainda uma estrangeira: os tenores Atalla Ayan (leia aqui) e Fernando Portari (leia aqui), a soprano sul-africana Pumeza Matshikiza, trazida pelo Festival Ópera na Tela (leia aqui), e o barítono Paulo Szot (leia aqui) – os três primeiros acompanhados pela pianista Priscila Bomfim, e o último acompanhado pelo piano de Nahim Marum. A Sala apresentou ainda uma ópera-monólogo encenada, em redução para canto e piano: A Voz Humana, estrelada pela soprano Tati Helene, acompanhada pelo pianista Diego Lopes Salles e por atores figurantes.

No mais, a cidade ainda teve uma ópera no CCBB, Na Boca do Cão, que ficou mais de um mês em cartaz. Seu compositor, Sérgio Roberto de Oliveira, faleceu em 19 de julho, exatamente no período em que a ópera estava sendo encenada. E a Escola de Música da UFRJ apresentou Viva la Mamma, com a participação de seus alunos.

Priscila Bomfim e Fernando Portari (foto de Vitor Jorge)

 

Belo Horizonte

A Fundação Clóvis Salgado, apesar de apresentar apenas duas óperas encenadas e uma em forma de concerto, teve um ano consistente em termos qualitativos, tanto que, como se verá no fim deste texto, uma de suas produções foi escolhida pelo Movimento.com como a melhor do ano. A primeira produção que subiu ao palco do Palácio das Artes foi uma belíssima Norma, ambientada em um mundo devastado. E, depois de fazer I Pagliacci em forma de concerto, foi a vez de Porgy and Bess ser levada à cena lírica. Apesar de ter sofrido mais cortes que o aceitável, a ópera de Gershwin como um todo foi bem realizada.

Para 2018, há a expectativa de que o Palácio das Artes ofereça dois títulos que sempre atraem muito público: no primeiro semestre, provavelmente em abril, uma nova produção de La Traviata; e, no segundo semestre, uma montagem de O Navio Fantasma (esta ainda por se confirmar).

Geilson Santos e Marly Montoni no centro da cena em “Porgy and Bess” (foto de Paulo Lacerda)

 

Festivais de Belém e Manaus

O Festival de Ópera do Theatro da Paz, de Belém, pelo terceiro ano consecutivo, teve um formato mais enxuto, em comparação com os anos que antecederam a crise financeira nacional. A atração principal deste ano foi uma montagem de Don Giovanni, muito bem encenada, e que tem destaques dentre os melhores do ano (veja mais abaixo). Completaram a programação do Festival uma versão em concerto de A Voz Humana, um concerto lírico e o Stabat Mater de Pergolesi, além do tradicional concerto de encerramento.

Em Manaus, o Festival Amazonas de Ópera teve como atração principal uma montagem de Tannhäuser, cujo elenco não despertava a mínima vontade de viajar. Entre concertos e recitais, o evento também levou ao Teatro Amazonas uma montagem de Onde Vivem os Monstros, produção original do Theatro São Pedro-SP. De positivo, o fato de que o festival continua sendo anual. Depois de não ser realizado em 2015, o evento ressurgiu em 2016 com a informação de que passaria a ser bienal (a cada dois anos), mas já aconteceu de novo em 2017. Que venha, então, 2018.

E por falar em 2018, não se sabe ainda que títulos serão montados em Belém e em Manaus no ano que vem. Por ora, somente mistério.

Homero Velho (de costas) e Anderson Barbosa em cena de “Don Giovanni” (foto de Salim Wariss)

 

Qual a pauta da ópera no Brasil?

Em outubro deste ano, o Movimento.com propôs uma reflexão sobre a forma como a ópera é administrada no Brasil, do ponto de vista administrativo e também sob o aspecto artístico. Com o artigo-discussão em duas partes Qual a Pauta da Ópera no Brasil? (leia a parte 1 e a parte 2), propusemos uma análise inicial de vários problemas enfrentados por nossos teatros líricos, como:

a) a falta de estrutura adequada para desenvolver trabalhos de médio e longo prazos; b) a ausência de grande conhecimento vocal por parte de alguns de nossos diretores artísticos, que escalam mal os elencos de suas produções; c) a dificuldade de parte de nossos artistas para receber críticas (alguns levam críticas para o lado pessoal, sem parar para pensar se pode realmente haver algo de errado com sua técnica, com suas escolhas de repertório, etc.); d) o excesso de egoísmo/vaidade por parte de alguns gestores (administrativos ou artísticos), que pensam única e exclusivamente em seus trabalhos, sem se preocupar com o “todo” da lírica brasileira; dentre outras questões.

Faço questão de repetir aqui o trecho final que encerra o artigo-discussão:

“Qual é a pauta da ópera em nosso país? O que desejam os profissionais da ópera? O que os senhores gestores estão fazendo neste momento para que nossas produções não sejam tão somente “de ocasião”? Por que não firmam parcerias duradouras (duradouras!) com outros teatros, nacionais e/ou internacionais? E os artistas, por que não se unem para reivindicar mais profissionalismo e menos personalismo da parte dos gestores dos teatros e dos secretários de Cultura? Por que não se unem para exigir mais integração dos teatros e mais produções líricas, gerando mais oportunidades e proporcionando, assim, que todos possam trabalhar sem precisar se digladiar? Uma parte da crítica também merece a sua perguntinha específica: por que não começam a analisar vozes e produções com mais rigor? Se ninguém se mexer, se ninguém se queixar, se todos acharem que está bom do jeito que está, é melhor começarmos a pensar no dia em que nossos teatros de ópera se tornarão apenas palco para bispos neopentecostais e musicais sertanejos.”

 

Melhores do ano

Este balanço se encerra com a indicação dos principais destaques da temporada de óperas pelo Brasil, dentre tudo aquilo que o autor viu e ouviu em 2017. Como nos últimos anos, foram premissas para as escolhas:

a) para a indicação de melhor produção de ópera e para as indicações individuais da área cênica, foram considerados somente espetáculos inéditos produzidos no Brasil, de forma que remontagens, espetáculos produzidos originalmente no exterior, ou trazidos de outros teatros de anos anteriores não foram levados em conta;

b) para as indicações individuais foram considerados somente artistas e profissionais brasileiros ou radicados no Brasil, com exceção da indicação de melhor cenógrafo; e

c) para categorias com mais de um nome indicado, foi observada a ordem alfabética do prenome.

Premissas esclarecidas, seguem as indicações:

Grande destaque do ano: os recitais de canto promovidos pelo Mozarteum Brasileiro (em São Paulo) e pela Sala Cecília Meireles (no Rio de Janeiro). Em um ano em que a ópera esteve relegada a segundo plano nos teatros das duas cidades, foram os recitais de canto de nível internacional programados pelas duas instituições supracitadas, com cantores brasileiros e estrangeiros, que pairaram acima das produções líricas. Os detalhes e os nomes dos artistas envolvidos estão no corpo do texto desta retrospectiva.

Melhor produção de ópera: Norma, produção da Fundação Clóvis Salgado para o Palácio das Artes, em Belo Horizonte, por sua encenação criativa e eficiente e pela excelente performance musical geral (solistas bem escalados fazem a diferença).

Melhor concepção e direção cênica: Mauro Wrona, por sua belíssima montagem de Don Giovanni no Festival de Ópera do Theatro da Paz (depois apresentada em São Paulo, no Theatro São Pedro).

Melhor cenógrafo: Nicolás Boni (indicado pelo segundo ano consecutivo), pelos belos e funcionais cenários (alguns inspirados na obra de Francisco de Goya) do mesmo Don Giovanni supracitado, que contribuíram para uma ação contínua e eficiente ao proporcionar rápidas trocas de ambientes.

Melhor figurinista: Sayonara Lopez, por seus trabalhos nas duas produções do Palácio das Artes (Norma e Porgy and Bess), ambos marcados por grande criatividade e riqueza de caracterização (esta com o auxílio de Lázaro Lambertucci).

Melhor iluminador: Fabio Retti, por seu excelente trabalho na Norma de Belo Horizonte, no qual contribuiu para a construção de uma ambientação ao mesmo tempo crua e atraente, de acordo com a proposta da encenação.

Melhor regente: Silvio Viegas, por seus ótimos trabalhos de direção musical e regência nas produções mineiras de Norma e Porgy and Bess, e, especialmente, pela sua excelente condução de Don Giovanni no Theatro da Paz.

Revelação como regente de ópera: não indicado.

Melhor orquestra: Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, pelo seu notável desempenho em Don Giovanni. Detalhe: desde que este autor passou a produzir essa retrospectiva anual, com a indicação dos melhores do ano, esta é a primeira vez que uma orquestra consegue superar a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo (OSMSP).

Melhor cantor: Fernando Portari, tenor, por sua performance brilhante e irrepreensível como Pollione, em Norma, no Palácio das Artes.

Melhores cantoras: Eliane Coelho, soprano, por sua interpretação arrebatadora de Kostelnička, em Jenůfa, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro; e Gabriella Pace, também soprano, por sua tocante interpretação da personagem-título da mesma Jenůfa, e também por sua sensível abordagem de Pamina, em A Flauta Mágica, no Theatro Municipal de São Paulo. (Nota do autor: seria injusto ter de decidir entre essas duas, portanto deu empate este ano)

Eliane Coelho e Gabriella Pace em “Jenůfa” (foto de Júlia Rónai_

 

Revelações: Anderson Barbosa, baixo, por seu Comendatore (Don Giovanni, Theatro da Paz) e por seu Calcas (La Belle Hélène, Theatro São Pedro); Kézia Andrade, soprano, por sua interpretação consistente de Donna Elvira (no mesmo Don Giovanni); Marly Montoni, soprano, por sua Bess (Porgy and Bess, Palácio das Artes); Michel de Souza, barítono, por seus excelentes Crow (no mesmo Porgy and Bess) e Papageno (A Flauta Mágica, TMSP); e Nabila Dandara, soprano, por sua Clara (no mesmo Porgy and Bess).

Afirmação: Geilson Santos, tenor, por suas valiosas contribuições como o traficante Sporting Life em Porgy and Bess, no Palácio das Artes, e como Monostatos em A Flauta Mágica, no TMSP; e Tati Helene, pela maneira como dominou o palco e pela voz extremamente segura e expressiva que exibiu na versão reduzida com piano de A Voz Humana, na Sala Cecília Meireles.

 

Foto do post (de Paulo Lacerda/FCS): Norma, produção da Fundação Clóvis Salgado para o Palácio das Artes.

 

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